
O Corvo (trad. de The Raven de Edgar Allan Poe)
Data 21/12/2010 20:20:54 | Tópico: Poemas
| À meia-noite de um frustrado dia meditava, cansado, Sobre estranhos, raros tomos de ciência olvidada – Quase passava p’las brasas, surgiu uma toada rasa Batendo à porta de casa, batendo à porta fechada. “É alguém”, eu resmunguei, “batendo à porta fechada – Apenas isto e nada mais”.
Ah foi, como bem me lembro, que, num sombrio Dezembro, Se contorcia morrendo cada cinza desalmada. E eu ansiei p’lo devir; nos livros quis descobrir Como a mágoa concluir – mágoa p’la perdida amada – P’la brilhante dama a quem chamam os anjos de amada – Aqui não responderá mais.
O incerto roçar sedoso do meu cortinado roxo Encheu-me de uma aversão antes nunca experimentada; Tanto que, p’ra me acalmar, a mim tive que provar: “É só alguém a rogar que eu abra a porta fechada – Um serôdio visitante rogando à porta fechada. É isso, não é nada mais”.
Co’a força a se renovar, disse eu sem mais hesitar: “Senhor, peço-vos, ou dama, que me seja perdoada A sesta que ora fazendo fez-me ignorar quem batendo Veio, tão subtil batendo, batendo à porta fechada" – E escancarei, do que ouvira incerto, a porta fechada, Só vi trevas e nada mais.
Temendo, sonhando os sonhos p’ra qualquer mortal medonhos Bem dentro daquelas trevas a minha alma mergulhada, Num silêncio sepulcral sem nada que desse sinal, “Leonor” foi, por final, a fala, que, murmurada Eu consegui sussurrar – e ela ecoou, murmurada. Isto apenas e nada mais.
Voltei p’ra dentro de casa, com a alma ardendo em brasa, Depressa ouvi a batida, então ‘inda mais pesada. “É algo”, a mim repetia, “batendo na gelosia”; Quis ver o que lá batia, p’ra ter minh’alma aquietada; Explorar este mistério, p’ra ter minh’alma aquietada – Seria o vento e nada mais.
De súbito abri a janela; e vi, excitado, por ela Uma ave entrando – um corvo de uma época passada. Sem sinal de reverência, e sem pedir anuência, Subiu, a nobre excelência, ao alto da porta fechada – No busto da deusa Atena, no alto da porta fechada Empoleirou-se e nada mais.
E o alado ébano meu siso transfigurou num sorriso, P’la austeridade briosa da feição apresentada. “’Inda que não tenhas crista não és, por certo, ave arisca, Horrenda ave, anosa e triste, a errar p’la madrugada – Diz-me o teu sagrado nome nesta infernal madrugada!” Respondeu o Corvo: “Jamais.”
Por pasmado que me visse ao ouvi-lo sem gaguice – Embora pouco valor tenha a resposta dada – Temos pois de concordar que humano algum viu seu lar Uma ave abençoar, do alto da porta fechada – Sobre um busto, ave ou demónio, no alto da porta fechada, Com tal nome como “Jamais”.
Sentado em cima de Atena, só, o Corvo disse apenas Aquela palavra, como não pudesse dizer nada Mais do que o que já fizera – nem uma pena mexera – Até que eu entredissera: “como outros em debandada Amanhã voará, como meu ânimo em debandada. Disse o pássaro então: “Jamais”.
“O que diz é, com certeza, sua única riqueza (Fiquei de facto perplexo p’la resposta tão bem dada) Que algum dono por lazer, sem qualquer piedade ter, Lhe ensinou até morrer – até que apenas cantada Fosse a canção da Esperança, melancolia cantada, O duro fardo de Jamais.”
Mas ‘inda o corvo meu siso transfigurava em sorriso, Pus um assento defronte a busto, ave e porta fechada; Aí, no encosto me afundando, intentei, fantasiando, Decifrar a ave, estudando a horrível ave malvada – E o que a medonha, sinistra, horrível ave malvada Queria dizer com “Jamais.”
Isto pus-me a adivinhar mas sem nada declarar Aos ígneos olhos que a alma me deixavam inflamada; Isto e mais tentei saber, relaxando todo o ser Onde a costumava ver, p’la luz velosa alumiada, Onde a não hei-de mais ver, p’la luz velosa alumiada – No coxim violeta, ah, jamais!
Julgo que o ar ficou denso, perfumado por incenso, Como se no chão um anjo deixasse som de passada. “Deus, pobre demente”, a mim gritei, “dá-te de presente Interlúdio e nepente para as lembranças da amada! Oh sorve o doce nepente e esquece a perdida amada!” Respondeu o Corvo: “Jamais.”
“Vate!”, disse eu, “ser macabro! – vate, pássaro ou diabo! Quer por Satanás mandado ou arrastado p’la chuvada, Triste mas intrépido ainda, nesta casa desavinda, Imploro-te que tu digas a esta alma desgraçada: Há bálsamo que alivie esta alma desgraçada? Respondeu o Corvo: “Jamais.”
“Vate!”, disse eu, “ser macabro! – vate, pássaro ou diabo! P’lo Deus que ambos adoramos – sob a abóbada estrelada – Diz a esta alma agreste se, lá no Jardim Celeste, Verá a dama que veste dos anjos o véu de amada – A brilhante dama a quem chamam os anjos de amada.” Respondeu o Corvo: “Jamais.”
"Façamos a despedida, demónio ou ave amiga, Restitui-te à tempestade e à infernal madrugada! Não me deixes pluma preta (sinal da mentira dita!) Nesta solidão desdita! Sai-me da porta fechada! Tira-me o bico do peito e a ti da porta fechada!" Respondeu o Corvo: “Jamais.”
E ‘inda o Corvo que me assombra se encontra quedo, se encontra Quieto no busto de Atena, ornando a porta fechada; E os seus olhos dão-lhe o ar de um demónio a sonhar, E no chão faz desenhar sua figura assombrada De onde a minha alma, presa dessa vil ave assombrada, Será levantada – Jamais! O presente poema foi por mim traduzido directamente do texto original de Edgar Allan Poe.
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