
MEUS SONETOS VOLUME 097
Data 20/12/2010 14:14:15 | Tópico: Poemas
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1
Não quero mais conter tal tempestade. Recebendo das flores seu perfume Vou perseguindo estrelas - vaga-lume, Quem sabe então, terei felicidade...
Andando sempre a esmo na cidade Bebendo muito além que de costume, Sussurro tão somente esse queixume. Busquei em meio a sonhos, qualidade...
Não encontrei talvez, nenhum resquício, De outra coisa qualquer, senão meu vício. A cabeça rodando, traz respostas...
Minha vida passando, as mãos impostas Vou sentindo a ferida em minhas costas Impelindo o meu sonho ao precipício. Marcos Loures
2
Não quero mais contar tantas estrelas Nem mesmo conversar sem ter respostas. Do jeito e da maneira que tu gostas Acendo nos meus olhos velhas velas.
As fontes vão secando e sem bebê-las Talvez ainda tenha; enfim, expostas As luas que por cima das encostas Não sabem mais aonde quero vê-las.
Se eu perco o paradeiro, azar o meu, Se tudo o que restar for simples breu A luz de teu olhar segue confusa.
Soluços não trarão a solução, O amor mesmo que dure um só verão, Permite que eu levante a tua blusa... Marcos Loures
3
Não quero mais conluios com as dores, Tampouco irei beber o amargo vinho Que tantas vezes regra os desamores. Prefiro caminhar sempre sozinho.
Do meu jardim arranco velhas flores, Já desbotadas, lambem cada espinho E fazem em delírio, os seus louvores. Invés de tempestade, burburinho.
Não quero mais vestir a carapuça. Sentido em exercício já se aguça E a faca perde o fio se não usas.
Amputas minhas pernas se eu deixar, Porém nasci à sombra do luar, Matei, eis a verdade, antigas Musas... Marcos Loures
4
Não quero mais comigo a vida insana, amarga. Tocado pelo vento do imenso e puro amor, A sorte enfim se mostra, e com maior vigor Nossos caminhos vis, por vezes ela alarga.
No momento seguinte uma voz já se embarga Imersa totalmente em pálido torpor, Quem fora mais risonho afoga-se na dor... Neste peito sofrido a marca de uma adaga
Que penetrantemente, esmaga o coração. E nos traz, quase sempre, a triste solidão! Quem fora feito amor, esvai-se no tormento...
Nos gumes desta faca, a cicatriz medonha. Em lágrimas termina a promessa risonha... A dor sempre acompanha um grande sentimento!
5
Não quero mais carpir cada momento Que outrora nos fizeram mais felizes. Carrego, desde então, as cicatrizes E o fogo que me queima, duro e lento.
O amor não deveria ser tormento. Eu sei que cometi tantos deslizes, Porém os céus que eu vejo, agora grises, Escondem este sol que eu quero e tento...
Mas nada, nem sequer alguma luz, Ainda que permita uma ilusão. Como um espelho que sempre reproduz
A antiga paisagem que perdi. Caminho sem destino; imprecisão Do passo que, teimoso, volta a ti... Marcos Loures
6
Não quero mais cantar a grande farsa Que forjas sem querer, e não mergulhas. De tanto nos amamos, se disfarça Amor quando termina, nem fagulhas...
Agruras com agulhas pontiagudas, Penetram em quem sempre quis te ter. Não quero mais que venhas e me acudas. As dores que encontrei, eu vou viver...
Mas sinto um novo brilho no caminho, Um resto de esperança que agoniza. Amor se necessita de carinho, Senão de vento forte, morre em brisa.
Mas quero teu cantar que é minha prece, Meu coração, insano, te obedece...
7
Não quero mais as noites invernosas Nem as frias montanhas sem amor. Jardim que se formara; tantas rosas, Aos pouco recupera a sua cor...
As águas que caiam; cachoeiras, Agora mansamente para a foz... Palavras que trocamos; verdadeiras, Matando essa saudade tão atroz.
Depois de ter vivido sem carinho, Depois de ter sofrido essa saudade. Amor, nunca me deixe mais sozinho, Preciso te saber, felicidade...
Por vezes me imagino sem ninguém Nas noites em que o frio vento vem...
8
Não quero mais as garras da pantera Cravadas no meu peito – solidão. Nas presas afiladas desta fera A resposta que encontro é sempre o não.
Matando em nascedouro a primavera, Inverna eternamente o coração. Crudelíssima aguarda numa espera Dando o bote destrói minha ilusão.
Algoz que se alimenta da carniça De um sonho que se foi pra nunca mais. O fogo da paixão e da cobiça
Às vezes, incandesce e logo trai Negando ancoradouro neste cais, E a noite tão vazia e fria, cai..
9
Não quero mais antigas picuinhas Que foram tuas marcas registradas, As formas do querer tu já definhas Em meio a gargalhadas e pancadas.
Vontades que são tuas não são minhas Mesmo que engula a sorte desgraçada Serol que tu passaste em nossas linhas Deixando as esperanças destroçadas.
Sentidos esquecidos no caderno Na agenda que rasgaste, meu diário. Amor não completou aniversário
Tocado pelo frio deste inverno. Infernos cultivamos. Mesmo assim Ainda vejo um resto de jardim... Marcos Loures
10
Não quero mais amores tão raquíticos. Nem quero mais sonhar com o impossível... Não quero mais passar momentos críticos Buscando definir o que é mais crível.
Tentei saber das horas, perdi tempo... Tentei falar das rosas, nem brotaram; Sobrou-me tão somente o contratempo. Nem flores nem espinhos se encontraram.
Bela voz que cantava nem se escuta. A força que pensei que fora bruta, Se perde numa curva do caminho.
Não quero mais saber se vou, caminho; Só quero essas saudades que não perdi... Eu não sei se te encontro mais aqui!
11
Não quero mais a vida feita em neve, Idílio dolorido pra quem ama, Às vezes no final da bela chama A dor da despedida já se atreve.
Um sonho em maravilha, mesmo breve, Supera uma tristeza que reclama, A morte no final, encerra a trama, Por isso tento ter minha alma leve.
O dia que virá, feio ou bonito, Trará doces lembranças, mais suaves, Se todo este universo, um infinito,
Já cabe nos meu peito, minha amiga, As dores/alegrias, simples aves Que um peito enamorado, sempre abriga...
12
Não quero mais a luz que torne a vida pálida Sudário do meu sonho, em lagrimas composto. Ao ver em frio espelho as rugas no meu rosto Entendo que morreu de véspera a crisálida.
O gosto do vazio, a vida quase inválida O medo do não ser em cada verso exposto Sobrando do que tive apenas o desgosto E a vida vaga e vã, imagem dura, esquálida...
Vogando pelos céus a lua recomeça A cada novo mês renasce em plenilúnio. E quanto a mim, sozinho, ao ver meu infortúnio
Aguardo novamente a dor em nova peça Minha alma sendo eterna em mágoas já flutua Quem dera se tivesse o destino da lua...
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Não pude mais calar, tanto me dói Saber que não estás junto de mim. Saudade pouco a pouco já destrói O que restou de flores no jardim.
Viver cada momento, sem perguntas, Sentir o que tu sentes, ser teu par As almas que pensara andarem juntas Vão se afastando aos poucos, devagar.
Calar o sentimento. Quem me dera! Não sofreria tanto. Mas prossigo Teimando em procurar a primavera, Enquanto inverno traz o desabrigo.
No quase ter nas mãos felicidade, Deixando este resquício: vã saudade...
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Não quero mais a dor em desamor... Não posso mais viver sem primavera Brindando cada dia à bela flor Que nasce em poesia... Ah! Quem me dera!
Porém os ventos frios deste inverno Insistem em chegar, não mais retornam... A vida se transforma neste inferno Que os olhos da saudade já me entornam...
As sombras me acompanham, não me largam, Amada que sonhara, não mais volta... As lágrimas, enchentes, tudo alagam, Deixando simplesmente dor, revolta...
Eu vejo teu sorriso, na pantera, Que nunca mais voltou... Sou quimera?
15
Não quero macular o teu sorriso Que é tudo o que eu preciso neste instante, Qual livro que caiu da velha estante Eu sigo a correnteza e perco o siso.
A morte vem chegando e sem aviso Transborda o seu delírio fascinante, A noite que passamos escaldante Deixou como legado o mau juízo.
Eu cremarei o que restar de nós E espalharei as cinzas neste mar, Por isso já não tento provocar Esta ira, pois não sou de ti, o algoz Apenas não consigo disfarçar Nem mesmo neste jogo irei blefar.
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Não quero machucar teu coração, Nem mesmo transtornar tua cabeça. No reino da alegria e da emoção Tudo o que eu sinto, amor já se confessa.
Tampouco neste encanto algum senão Que a vida com carinhos recomeça Ao aprender contigo esta lição O sentimento em glória não tropeça.
Mereço por acaso algum descrédito? O que sinto afinal, por ser inédito Desvirginou minha alma tão esquiva.
Verás que quem te adora, vence a luta, E sabe do prazer que ora desfruta Mantendo a chama acesa, sempre viva... Marcos Loures
17
Não quero mais nem mesmo este rompante Que faça desabar inteiro o prédio A vida vai passando sem remédio A dor já se tornando mais constante.
Olhar que um dia fora triunfante, Agora se perdendo em pleno tédio. A morte vem mostrando num assédio A solução terrível, mas constante.
Vivendo o tempo inteiro neste escuro, Pretendo num amor saltar o muro, Sentindo a claridade verdadeira.
Embora tão somente pirilampo Abrindo o coração, imenso campo, Quem sabe alguma luz inda me queira. Marcos Loures
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Não quero mais nem lágrimas nem riso. Meu mote sempre foi teu belo encanto. Mas saiba que sozinho, se preciso, Percorrerei meu mundo sem um pranto.
Meu peito adormecendo sob a lua Não sente uma amargura desfraldada E sei que a vida assim se continua Embora sem carinho, valha nada.
A fome que se mostra qual desculpa Insana na procura de um instante Sem mágoas, ou surpresas, quem me culpa
Também teve momento que, inconstante, Soltou a nossa sorte em pleno vento, Adormecendo, assim, o sentimento...
19
Não quero mais meus versos tão herméticos Apenas o cantar de um passarinho, E mesmo que pareçam tão patéticos, Não passam de um sussurro; um burburinho.
Também não usarei quaisquer cosméticos, Prefiro esta rudeza em que me aninho, Que sejam com certeza, assim ecléticos E falem devagar, bem de mansinho.
Chegando ao coração de quem padece, Tramando a serventia de uma prece Trazendo algum alento pra quem sofre.
Eu peço a Deus, somente este favor, Que eu possa então falar do grande amor, Descobrindo o segredo deste cofre...
20
Não quero mais meu verso vão, sozinho, Meu ninho sem disfarce eu mesmo pinto. Meu canto sem encanto, passarinho, Meu vinho que é suave, branco e tinto...
Diverso desse avesso do meu verso Sou parte sem ter arte do teu sono. Unidos pelo umbigo do universo Vivendo e conhecendo o abandono...
Eu quero teu veneno em meu veneno Assim vamos viver tranqüila idade No fim ramos caídos, fogo ameno, Poroso amor terá perenidade...
Mas venha minha amada te preciso, Na nossa madrugada, paraíso...
21
Não quero mais lutar contra o silêncio Daqueles que se omitem. Mãos lavadas, Permitem cada cruz que sempre vence-o, Palavras mal sentidas e deixadas...
Amigo como é dura esta missão De ser exemplo vivo até na morte Quem mata por vontade ou omissão, Entrega o teu destino à própria sorte.
Vieste qual cordeiro em sacrifício, Mas nada adiantou este teu gesto, Na base do terrível edifício Usaram este concreto que era o resto
Do sangue repartido, mundo algoz Calando ou deturpando a tua voz...
22
Não quero mais lirismos idiotas Tampouco irei cantar damas e luas. Palavras que tentei; não continuas Fechaste; dos esgotos, as compotas...
Enquanto vou vendendo velhas rotas, As roupas que eu usei ficaram nuas, Mulheres travestidas em peruas O quanto não desejas tanto arrotas.
Beligerante tolo ou indigesto, Na parte que me cabe, não empresto O vento que queimava praia, areia.
Mitigo o sofrimento com comida Barriga saliente não duvida Devora novamente a lua cheia...
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Não quero envelhecer junto contigo! Jamais irei viver tão pesadelo, Embora toda a neve no cabelo, Imaginarmos velhos, não consigo.
No amor a juventude que persigo, Permite que depressa eu possa vê-lo Tão jovem que jamais irei perdê-lo No relento, por falta de um abrigo.
Eu quero em nosso amor a eternidade Que é feita dia a dia, e se renova. Amor quando sincero, a toda prova
Resiste com audácia juvenil. E nele se renasce de verdade. Não quero o nosso amor, velho e senil Marcos Loures
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Não quero embriaguez de uma aguardente Com toda toxidade que transtorna, Nem quero mais andar como um demente Sem rumo que, vazio, não retorna.
Não quero este mistério tão difuso Que faz com que eu não saiba discernir, Deixando-me deveras tão confuso Que não tenha sequer como seguir.
Na sensação feroz da solidão, Andei por tantos bares sem destino. Agora quero ter esta emoção De ser bem mais que um louco em desatino.
Procuro em meu caminho e o que se vê? Eu quero inebriar-me de você!
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Não quero em nosso caso, picuinhas Que possam transformar o mel em fel No vento que se dá em carrossel O amor perdendo o rumo, esquece as linhas.
Do jeito que querias logo vinhas, Mudando nossa história, rasga o véu, Teu riso em ironia tão cruel Secava a plantação, matando as vinhas.
Depois vai reclamar de solidão! Que se dane! Foi como tu quiseste, Cevando a mansidão eu colhi peste
Agreste e dolorida sensação De quem ao ter um sonho e quase vê-lo, Aos poucos percebeu: foi pesadelo! Marcos Loures
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Não quero em nosso amor, tal empecilho Que possa transtornar o que persigo, Permita-nos seguir o intenso brilho Que sempre iluminou qual trilho amigo.
Não deixe esta saudade sempre-viva Permita que esta rosa me inebrie, Eu clamo o teu amor em rogativa Nas teias deste canto, já me fie.
Confie que esta vida sempre leve Nós dois, apaixonados, para o céu, Que toda esta tristeza seja breve, Em pouco tu terás amor e mel.
Amor não se derruba com machado Quando no coração vai bem cuidado...
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Não quero em nosso amor repetições Das mesmas coisas feitas num escuro. Eu quero nosso amor aos borbotões Debaixo de uma escada, sobre o muro.
Fazendo reboliço a noite inteira, Botando fogo numa embarcação. Debaixo dos lençóis tanta besteira, Fogueira incendiando este colchão.
Um canguru perneta, frango assado, Roleta russa ou mesmo carrossel. Catar tanto cavaco procurado, Maneiras de chegar depressa ao Céu.
Preciso e necessito, amor me ajude, Não quero cozinheira de um festi fud... ( fast food?)
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Não quero em desamor, viver sozinho, Recolho os meus pedaços deste chão, Gravetos de saudades no meu ninho Aguardam pela nossa floração. Ouvindo uma esperança canarinho Aguardo em nosso caso, a solução.
Soluços espalhados no jardim, Espelhos sem reflexo em mortos brilhos. Não posso conceber sequer o fim Marujo não conhece os empecilhos. Deságuo a solidão em rum e gim Percorro sem destino audazes trilhos.
Mensagens em garrafas noutras ilhas Não falam de beleza ou maravilhas... Marcos Loures
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Não quero e nem suporto, mesmo os traços Dos rastros da caçada da pantera. O quanto já perdi fora dos braços Daquela que eu desejo e que me espera.
No sexo performático, mentiras, Circenses e sutis demonstrações. Dos lençóis não sobrando senão tiras, O fogo se espalhando nos colchões.
Resíduos deste tempo, eu jogo fora. O amor não necessita disso não. O bom de nossa vida, eu colho agora, Na luz que se demonstra em mansidão.
Não temo mais as dores do ciúme, Colhendo desta flor todo o perfume... Marcos Loures
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Não quero e nem suporto a sensatez Na pênsil ponte eterna da saudade, No quanto amor maltrata; ele se fez Num vai e vem de guerra e liberdade.
Desnudando minha alma intempestiva Fazendo reboliço em minha vida. Amor tanto repele e me cativa Transtorna de repente toda a lida.
Na ávida sensação do nada ter, Esfaimado jamais está contente. Tocado pelas ondas do prazer Naufrágio interminável se pressente.
Enquanto eu tento a fuga eu fico aqui, Rendido totalmente, eu me perdi.
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Não quero e nem suplico algum perdão. Salpico meus resquícios nos teus passos, O vento transformado em furacão Deixando os meus caminhos, frágeis, lassos.
Regresso e volto à mesma direção Aonde procurara por espaços Que dessem pelo menos solução, Restando depois disso, os meus cansaços.
Farsas sem igual protagonizo, E bebo o temporal, farto granizo. Ourives da palavra? Quem me dera...
Servi minha cabeça na bandeja, Selvagem iguaria que deseja Ainda conhecer a primavera...
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Não quero e nem permito mais adeus, Depois de ter enfim, o raro sol, Sabendo que encontrei nos olhos teus, Após a negra noite o meu farol, Seguindo cada lume, enfrento os breus Bebendo de teu brilho- girassol...
Os dias, sei que foram mais cruéis, Perdi o meu caminho em meio ao vento, Alçando uma esperança nos corcéis Ligeiros e libertos, pensamento. A vida vai girando em carrossel, Nas mãos do sonhador, um cata-vento.
Nos mares deste amor, sou timoneiro, Nos braços deste amor, um prisioneiro... Marcos Loures
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Não quero e nem pergunto aonde e quando Somente vou mais fundo no mergulho, Não temo mais espinho ou pedregulho, As matas deste amor, sigo explorando.
Se a terra vai depressa desabando Apenas vou falar do meu orgulho De ter bem junto a mim concha e marulho Delicias que eu prossigo desvendando.
No mote repetido muitas vezes, Os olhos caçadores viram reses No pão bela fornada que se anseia.
Chegando à minha cama, soberana No vento que depressa a chama abana Amor vem devagar e me incendeia Marcos Loures
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Não quero e não preciso suportar O traste que derrama farto fel, Coberto com retalhos; sonha véu E busca noutras sendas; chafurdar.
A face demoníaca no olhar Na mula sem cabeça passa gel Bobeia a gente pimba e dá um créu. Aparecer? Pois custe o que custar.
Pendure a melancia no pescoço, Difícil digerir a casca e o osso, Depois a gente finge que não viu...
Perdoo até seus erros ortográficos Mas as drogas que empurras; toscos tráficos Eu mando para a bruta que pariu...
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Não quero disfarçar o sentimento Dizendo: tudo bem. Não há de quê. Procuro uma amizade, mas cadê? Não resta nem sequer qualquer lamento.
Foi só me distrair por um momento Que a moça com o moço sem por que, Sabendo que minha alma nunca vê Aquilo que não diz o pensamento
Fizeram toda aquela sacanagem Aproveitando bem desta viagem Que fiz conforme as ordens do trabalho.
Agora, perdoar? Nem à porrada Amigo? Nunca faz tal palhaçada Vou te mandar pra casa do Barbalho!
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Não quero desvendar noite sombria Nem ser sequer mais sândalo ou machado. Em ecos mais diversos cada brado Fornece em verso triste uma sangria.
Eu quero o riso do anjo mais safado Que traz decerto um gosto de ironia, Tampouco quero o místico recado De quem sempre mentiu com maestria.
Só peço, sem tropeço um passo a mais, Direcionado ao sonho, porém feito Com firmeza absoluta e ser capaz
De discernir palavras, gestos, frases, Que saibam respeitar o meu direito, Enfim, tendo amizades como bases...
Marcos Loures
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Não quero desatar o nó da vida Nem ter esta tristeza que corrói, Nem quero este teu verso em despedida; A vida por si mesma, tanto dói.
Entendo que esse amor seja infinito Pois sabe suportar qualquer pressão, Pois todo sentimento que é bendito Invade, nos tomando o coração.
Não quero que este sonho se deforme Nem forme o pesadelo que temia. Amor quando se acaba; bem disforme Impede qualquer canto de alegria.
Não quero desatar o nó do amor, Nem tenho pela morte um vão temor...
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Não quero dedicar meu sonho a esmo, Buscando sem ter bases, o meu canto, Vivendo o que pensava ser o mesmo Desejo que forjara meu encanto...
Não quero lhe falar dos velhos discos Guardados nesta estande do passado. Corremos, por viver, os mesmos riscos, Embora não vivamos mais calados...
Eu quero esse perfume que perdura Das mãos que acaricio, sem ressalvas... Recebo dessa noite uma ternura E todas alegrias foram salvas...
Vontade de sonhar e ter você, Somente não pergunte mais por que!
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Não quero dar pitaco em tua vida, Mas posso te afirmar que andas errado, De um jeito meio hipócrita e safado Fazendo da ilusão vício e bebida.
A sorte tantas vezes enxerida Esconde em suas asas carta e dado, Devido ao seu caráter ilibado Verdade solapada e destruída.
Vestido de borrão, como um caderno Enveredando os quintos deste inferno Deixado como herança ao velho otário,
Mergulho na piscina feita em bosta, E quem sabe de tudo nunca gosta Do sátiro escondido num armário...
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Não quero construir u’a fortaleza Co’ as lágrimas que roubo de teu sono... Nas portas que fechaste com destreza, Abri como um ladrão, pensei ser dono
De tua delicada, grã, beleza De resto, me deixaste no abandono! Em matéria de fétida vileza, Me julgavas assim ,como um patrono.
Na verdade, passeio pela vida, Procurando um ponto de chegada Nas bordas que me quedam, vã, sofrida;
A vida não permite quase nada! A não ser a dor da despedida, A não ser a flor da madrugada!
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Não quero conhecer teu torpe instante, Nem quero transtornar minhas correntes. Abandono-te nesta vil estante, Onde guardo os abortos e serpentes.
Respeito teu fantasma delirante Excluído, vencido sem patentes. Deposito rancores. És falante, Mas de que valeria se, dementes,
Meus olhos não protegem tua luz... Mares diversos, pesa-me essa cruz... Espero-te na curva, minha espreita...
Pudera, não querias meus anseios. Vou tentando meus versos e ponteios, Tuas dores serão minha colheita!
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Não quero confundir os teus sarcasmos, Sarcófagos dos gozos da esperança Amortalhando todos os orgasmos Bacantes sensações de comilança;
Com as mentiras tétricas de espasmos Forjados nas promessas de bonança Deixando os meus sentidos todos pasmos Legados da total intemperança...
Se pensas que sou clown e quero o clean Apenas regozijo não me basta. Não vejo outra saída. Estás em mim.
Estase sem ter êxtases... Estática. O cálice que cospe enquanto casta. Estenda tua face, então, monástica...
43
Não quero compreender-te, meu amor. Não me interessa, juro, quem tu és. Somente me permita este favor De sempre estar contigo, laços, pés...
Não quero nem verdades nem mentiras, Apenas desfrutarmos desta vida. Se queimam, na saudade, tantas tiras, Só quero esse teu brilho; amor, querida...
Não quero conhecer nem os teus sonhos, Apenas que vivamos, todos eles, Disfarces, se tentarmos, são medonhos, Devemos desnudarmos todas peles...
Não quero teus mistérios desvendar, Só quero, eternamente, a ti, amar!
44
Não quero compreender-te, meu amor. Não me interessa, juro, quem tu és. Somente me permita este favor De sempre estar contigo, laços, pés...
Não quero nem verdades nem mentiras, Apenas desfrutarmos desta vida. Se queimam, na saudade, tantas tiras, Só quero esse teu brilho; amor, querida...
Não quero conhecer nem os teus sonhos, Apenas que vivamos, todos eles, Disfarces, se tentarmos, são medonhos, Devemos desnudarmos todas peles...
Não quero teus mistérios desvendar, Só quero, eternamente, a ti, amar!
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Não quero amores lúcidos, serenos... Daqueles que jamais me dizem não! Sem Loucura qualquer, rumo direção.. Dias pálidos, tímidos... Venenos...
Daqueles que não somam, pois são menos. Amores que não marcam coração. Atônicos, atônitos, do chão... Das dores esquecidos; vão amenos...
As fantasias perdem, são vazios; Amores sem desejos, sem ter cios... Não os quero! Servis, amores coxos.
Sem temperos, delírios, marasmáticos... Tísicos, repetidos, são estáticos. Pretendo nós atados, nunca frouxos...
Marcos Loures
46
Não quero aborrecer-te com lamentos. Meus versos tantas vezes são piegas. Seguindo a direção de tantos ventos, Minha alma, eu já percebo que navegas.
Ao menos se tivesse solução; Quem sabia não seria mais feliz. Eu fujo da diaba solidão, No fundo a mulher que sempre quis.
A vida que tivemos se consente E sinto que se sente mais esquiva Não falo desse amor mais tristemente, Embora tantas vezes dele viva.
Não falo desse amor qual fora morte, No fundo ando contente com tal sorte...
47
Não quero a solidão de quem espera A vida após a curva; negra noite. O amor quando demais esconde a fera E faz de uma esperança um vil açoite.
Chegando de manhã, percebo o brilho Que tantas vezes quis, meu companheiro, Guerreiro da ilusão; sou andarilho Quem dera, das palavras, garimpeiro.
O acaso preparando assim das suas, Deixou mil pedregulhos no caminho, Beijei, mesmo no escuro tantas luas Que já nem sei se posso andar sozinho.
Mereço ser feliz? Isso eu não digo, Mas sei que é muito bom andar contigo...
48
Não quero a sensação sombria da saudade, Desejo simplesmente tanto amor... Que traga, ao fim da noite, a claridade; E toda a fantasia que dispor...
Eu quero a mansidão deste regato Fluindo calmamente dentre as rochas. O cheiro tão gostoso deste mato As horas mais dolentes, calmas, frouxas...
Selando nosso pacto minha amada, Marcado a sangue e fogo, guerra e paz... Depois de tantas lutas, madrugada, Arfando nos desejos, quero mais...
Quero este prazer que me alucina Nos olhos da mulher, minha menina!
49
Não quero a sensação de ser teu dono Nem posso definhar de tanto amor. Não vivo essa emoção, esse abandono, Transbordo em tentação, louco fervor...
Em cada novo dia, renascer, Em cada novo canto, me encantar. Vivendo em plenitude de prazer, Sorvendo cada gota deste amar...
Sentindo teu perfume, tantas flores, Desejos maviosos, sensuais, Sem ter sequer as travas dos pudores Em noites de prazer, sensacionais...
Nos teus beijos, loucuras de ilusão, Rebentam na explosão d’uma paixão...
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Não quero libertar-me do tabaco, Embora veja o câncer de soslaio, Eu sei que sou apenas um lacaio Tu podes me chamar, mesmo de fraco.
A vida de um fumante, amada, é um saco, Misturam com certeza num balaio Com todo ser infecto, mas não caio Nesta armadilha, nunca fui um caco.
Se eu bebo minha pinga, uma aguardente Ninguém vem perturbando o meu juízo. Não tendo um ser humano que me atente
Melhor ser um pinguço. Sem saída Na porta do boteco, leio aviso Presença de fumante: é proibida! Marcos Loures
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Não quero lhe falar destas senzalas Minha alma socialista está irada... Perfume de cadáveres que exalas, Não pode permitir a madrugada.
Vasculho por entulhos nessas valas, Encontrei a minha alma atrofiada. Os corpos torturados, facas, balas... A mão que me carinha não diz nada...
Me deixa seduzir os meus fantasmas. O rumo das estradas se perdeu... As fímbrias dos vestidos estão pasmas.
No lodo que me banho, esgoto e merda... Farrapo desumano sombra e breu. A Terra inda se vinga, mesmo lerda... Marcos Loures
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Não quero labareda nem incêndio Somenos importantes foram fatos No quadro que pinçaste; vilipêndio, Escatológicos serão meus atos.
Adentro os labirintos, coliseus, Reféns destes refugos mentirosos, Ignorando mortalhas, camafeus Os passos que darei, são caprichosos.
Carrego o velho túmulo que um dia Aonde uma esperança mal jazia Eu fiz desta emoção; puro lamento.
Mas nada do que digo servirá, Por isso cada verso sangrará Cumprindo porcamente o seu intento...
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Não quero inimizade de ninguém, Meus versos te procuram, cara amiga. A noite que por certo sempre vem, Sem ter uma amizade se periga.
Eternamente logro meu destino, Fugindo deste amor como o diabo. Exprimo no meu canto sem ter tino, Em noites mais dolentes eu me acabo.
São rudes os meus versos, disso eu sei, São pobre minhas rimas, sem sentido. Amor que me fizera pensar rei, Por mais que nada fora, decidido...
Estampo um sentimento verdadeiro Coloco teu retrato num letreiro...
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Não quero este teu Deus que só castiga, Vivendo entre seus filhos preferidos, A mão divina é sempre mão amiga, Não creio, enfim, que existam preteridos... O Pai que deu amor e nos abriga Não é o causador desses gemidos, Amor só se conquiste a não se obriga Tampouco os seus pendores divididos. Eu creio neste Pai amante amigo Que sempre repartiu o peixe e o pão, Desculpe, quero crer; mas não consigo. A vida me mostrou com claridade, A força tão enorme do perdão No santo manto feito na amizade...
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Não quero estar contido pela métrica Tampouco me liberto deste encanto, E quando a minha angústia, em vão eu canto Poreja em minhas veias, lua tétrica.
No féretro dos sonhos, o meu túmulo É feito de diversos desenganos, A vida sonegando os velhos planos, As pernas se dobrando pelo acúmulo
Destas desilusões que coleciono. E quando sinto o frio do abandono Tornando a poesia amargurada
Eu sinto uma presença tão suave Que arranca dos meus olhos qualquer trave E posso vislumbrar uma alvorada...
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Não quero esta nefasta maravilha Que enquanto nos desgasta já conquista Perdendo a direção saio da pista E a vida assim desanda em outra trilha.
O sonho falsamente então se encilha E o quase numa imagem futurista Logrando uma emoção, velho cambista Desaba sobre a gente esta armadilha.
Não vejo mais quem tanto desejara Apenas a figura tão amara Apodrecido cerne da maçã
Que um dia, ingenuamente devorei, E bêbado de luz me imaginei, Porém mera tolice, inútil. Vã.
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Não quero essa saudade, nem tristeza; Não quero que tu vás. Ó meu amor. Em minha alma um amor em correnteza Espelha, como um lago; bela flor...
Tu levas as sementes no teu peito De esperanças; poder, enfim, amar. Qual rio que extravasa do seu leito, Meu peito não se cansa de vazar
Em versos, em desejos e delírios; Na lua de beleza estonteante, Pureza destes alvos, belos lírios Ternura que se encontra num instante..
Não deixe que esta flor se morra, triste... Paixão que sempre rega, em mim, existe
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Não quero essa amargura, amada lua; Saudades dos seus raios prateados. Beleza feminina sempre nua, Os raios tão perfeitos, encantados...
Não quero essa tristeza, sem luar... Dançando com os galhos do arvoredo, Ensina-me querida, a tanto amar. Desvendo devagar, os seus segredos...
Não quero tanta dor, querida amante. A fantasia imensa que me trazes. Embora quase sempre é inconstante, Mulher que se demonstra em loucas fases...
Ó lua, meu amor por ti não cessa, Espero teu carinho, vem depressa!
59
Não posso sufocar esta paixão Que chega e já desmonta a minha base. Trazendo com sorriso, a sedução, Transmuda, como a lua, noutra fase... Às vezes parece alucinação, Parando a minha vida numa estase, Em outras vem causar transformação Muda todo o sentido de uma frase. Menina o que fizeste assim comigo? Espero a cada dia o teu prazer, Mas foges me deixando sem abrigo... Meu canto te buscando feito um rito, Meu mundo nos teus braços quero ter, Soltando esta emoção, busco o infinito...
60
Não quero a nababesca fantasia, Ser como este regato em placidez Tangenciando a frágil sensatez Funâmbulo que busca uma harmonia.
Luz dicotomizada propicia Momento singular de polidez, Mas tanto quanto eu fiz já se desfez Na chama de uma estúpida ardentia.
Esgoto assim as possibilidades E sigo simplesmente sem saber Se ainda encontrarei noutras cidades
Aquilo que jamais esteve em mim, A porta escancarada deixa ver A terra desnudada em meu jardim...
61
Não quero a maldição de estar contente Vencendo a tempestade que se cria Na fome que se espalha sobre a gente A mente se tornando mais vazia.
Olhar de quem se mostra penitente Sabendo da tolice da sangria De toda uma inocência, amor urgente Esquece do que fora poesia
Desmente num só tempo amor/Razão Enquanto as horas tolas nada enjeitam O monstro se prepara- solidão.
A porta da saudade que se abriu Em fontes duvidosas que deleitam Transforma o coração suave em vil... Marcos Loures
62
Não quero a falsidade que propagas Mostrando noutra face quem tu és. Às vezes encantaste em outras plagas Mil homens se jogaram a teus pés.
Porém não mais pretendo perseguir O sonho de te ter aqui, comigo, Amor jamais igual vou repartir Pois tenho uma noção deste perigo.
Fingiste uma pureza que não tens, Ludibriando assim quem tanto amou. Eu dediquei a ti meus caros bens E nada, simplesmente me restou.
Fingiste ser mulher deveras séria. Mas como me explicar esta Neisseria...
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Não quero a caridade de quem ri Tampouco o beijo falso da pantera Que enquanto me vomita e degenera Estúpida procria o que há em ti.
Lacaio do que um dia pressenti Sarcasmos coletados desta fera Abrindo com seus pés esta cratera Que cavas onde estás; lá ou aqui.
Tua Alma condenada à perdição Jamais resgatará, pois vendilhão Debaixo das vergastas e chicotes
Expulsos do que outrora foi um lar, Ninguém os poderá mais perdoar, Debandam-se; matilhas de coiotes!
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Não quero a calmaria dos enganos, Somente uma verdade me liberta, Enquanto a poesia já deserta Não tenho compromisso, nego os planos
Jamais quero tampar com frágeis panos A realidade amarga, a vida incerta, Palavra mais certeira me desperta E mostra o quão são torpes os humanos.
Bebendo cada gota deste sangue Apodrecido imerso em lodo e mangue, No esgoto, ratoeiras são inúteis.
A porca carcomida tão pesada, Na morte a cada página estampada, Retratam quanto somos todos fúteis...
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Não querendo admitir tanta mentira Que tramas escondida a cada dia, Na dor que prometias e sentira; A vida vai passando em agonia...
Amar-te foi, da vida uma obra-prima Do amor e da esperança num momento. Amor e dor quem pode nunca rima, E joga toda sorte fora, ao vento...
Senhora dos meus sonhos me deixaste, Aos poucos me derramo em teu ausência Sem base me mantendo na fina haste Que ganho em piedade, por clemência...
Não há mais nesse mundo quem convença A preservar o amor, minha doença...
66
Não quer e nem pretende andar sozinho Erguendo a cada passo a sua fronte Aquele a quem amor se deu em ninho, Trazendo farta luz neste horizonte.
Quem tanto andara só, em desalinho, Bebendo desta glória em mansa fonte, Decora com delícias seu caminho Reconhecendo amor, divina ponte
Que leva num momento ao rumo certo, Vencendo as tempestades que encontrara, A luz que nos guiando se faz rara
Oásis mais perfeito de um deserto Expressa em nosso peito a fantasia, Propondo com firmeza, uma alegria... Marcos Loures
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Não que isto seja sempre muito crível, Mas quem me dera tento com teu laço; Vivendo desse amor onde embaraço; O sabor da vitória ser possível
Eu quero te dizer do amor incrível Quando nada farei sem ter cansaço... O mundo que pensei sem teu abraço, De tão triste, seria incompatível...
Quero a lembrança límpida e gentil, Sabendo o teu carinho tão sutil Mergulho nos teus seios, boca aberta;
Esperando, talvez, por esse alerta; Que nunca mais virá, festa repleta, Dos desejos mais loucos, meu ardil...
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Não que eu defenda o aborto, longe disso, Mas não suporto tal hipocrisia, Médico tem com vida compromisso Pois isso jamais foi alegoria.
Não serei puritano, ou tão castiço, Apenas a verdade é quem me guia. Não creio em bruxarias nem feitiço, Tampouco a alguém minha alma julgaria.
O fato é que milhares de mulheres Morrendo no país da sacanagem Em meio à corrupção de seus poderes, À descabida luz da pilantragem,
As filhas de papai vão para as clínicas, E as pobres sem guarida... Corjas cínicas!
69
Não pude vislumbrar um horizonte, A noite veio vindo devagar Tomando em negritude este lugar, A lua se escondeu atrás do monte
E a vida foi secando a velha fonte, Deixando mais ao longe algum luar Que ainda me pudesse fascinar, Por mais que uma esperança tola desponte.
Morrendo a poesia que eu buscara, Manhã se tornaria tão amara Decerto não veria mais o sol.
Porém o teu sorriso de menina, Emana a maravilha feita em mina Dourando num segundo este arrebol...
70
Não pude ser feliz, fazer o quê? Se tudo o que tentei foi simplesmente Enganos que tomando a minha mente Traziam por resposta um vão cadê.
Quem sabe; reconhece e não mais crê No encanto que se fez inutilmente Enquanto a tempestade se pressente, A minha casa é feita de sapê.
Não pude resistir à fúria imensa, Apenas o vazio, a recompensa De quem tentou buscar felicidade
Nos braços deste mar tão furioso, Destino tantas vezes caprichoso Negando ao passarinho, a liberdade...
71
Não pude mais sentir aquele vento Que tanto imaginei; suave brisa. Nublada madrugada já me avisa Daquilo que herdarei: soterramento...
A solidão mordaz serve de alento, E o medo desenhado se matiza E em flores desbotadas a alma pisa. Fugir destes fantasmas inda tento,
Inútil. Não terei mais salvação. Do carcomido sonho, a podridão Que o que restou de mim, ao longe exala;
Quem dera se voltasse a primavera... A carne que se expôs se degenera E arrasto meus chinelos pela sala...
72
Não pude mais calar o velho peito Jogado sobre as teias da ilusão, Naufrágio desta tosca embarcação, O rio se perdeu do antigo leito...
Quem dera se inda ouvisses o meu pleito, Talvez eu encontrasse a solução. Resposta se repete: o mesmo não, E como de costume, escuto e aceito...
Ouvindo os mesmos passos que de antanho Diziam deste jogo jamais ganho, Há tanto o que dizer e nada falo.
Ao ruído intermitente na janela, O amor que nunca tive se revela E o som da brisa traz um manso embalo...
73
Não pude imaginar outra saída E mesmo te perdendo me encontrei. O quanto teu amor eu desejei E nisso desenhei o bom da vida.
Quem sabe tanto sonho não duvida Fazendo da esperança a sua lei, Invade com firmeza antiga grei Sabendo que ao final, a despedida.
Esparsos caminheiros vão sem rumo, E todos Os engodos eu assumo, E aguardo tão somente este castigo
De ter a solitária desventura, Num mar de imensa e pálida amargura, Distante do caminho que persigo...
74
Não pude decifrar tantos sinais; A minha parabólica sonega E enquanto a poesia segue cega Enfrento turbulências, vendavais.
Aonde encontrarei mananciais Se não sei mais de vinhos nem de adega O amor só se completa numa entrega Por isso o bem querer nunca é demais.
Cadenciando o passo chego ao fim Adestro o coração; domada fera, E acendo sem querer este estopim
Promessa de explosão fenomenal. Nos seios divinais de uma pantera Incêndio se espalhando no quintal.
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Não pude decifrar estes sinais Que um dia me mostraste; sorridente. Um velho sonhador que, impertinente, Demora na esperança sempre mais
Ao ver os teus poemas divinais Credita ao grande amor um fato urgente, Mas morre num segundo, de repente, Distante do que outrora quis seu cais...
As pedras vão rolando, nada sobra, O tempo com certeza vem e cobra Não deixa pra depois; secando a fonte...
A lua se escondendo traz a treva, Minha alma agrisalhada agora neva Nublando totalmente este horizonte...
76
Não pretendo teu mistério, Nem concebo teu pecado. Não vivo num monastério, Nunca fui santificado,
Perdido sem adultério Um viver desesperado. Nunca preciso esse Império Nem fiquei preocupado...
Vastos mares, oceanos, Acenas com teu perdão Não farei mais outros planos.
Respeito essa decisão. Mas a rosa que plantaste, Morrendo triste, desgaste! Marcos Loures
77
Não pretendo saber da vacuidade Ausência que transtorna uma viva alma, Não tenho nem domino a faculdade De saber do remanso, minha calma...
De meus passos sentindo essa saudade Que me trouxe teus olhos, tua palma, Amar é superar em paz um trauma, É saber dessa vida, a crueldade...
Não pretendo mistérios nem segredos, As águas correrão sempre pro mar... Importa-me saber de toscos medos,
Se por mal divinal não sei amar? O sangue me escorrendo pelos dedos, A noite me esperando tanto bar... Marcos Loures
78
Não preciso provar quanto eu te quero Tu és minha rainha e meu desejo. Viver o nosso amor intenso; espero, Saber de teu carinho em cada beijo... Em teu gosto e sabor, amor tempero E faço meu banquete. Sempre vejo Tua nudez em sonho... E te venero Por ser esta delícia que prevejo... Não deixo que jamais alguém te fira Prefiro fenecer, se for preciso. O mundo sem parar por certo gira Mas caio nos teus braços novamente. Tu és o meu destino e paraíso, Vem cá quero te amar e bem urgente!
79
Não preciso do pão, a fome passa, Não preciso da luz, não temo o escuro. Nem alegria; circo, rua e praça, Nem sensação de um ar que seja puro.
Mesmo esperança... tonta e velha farsa, Eu não temo o chão, frio, pobre e duro. Trazendo para o sangue esta fumaça Das fábricas, dos carros... isso; aturo.
Não preciso da boca que me mente, Não preciso do mar, estrela e lua. De nada necessito, nem de gente...
Das ruas entupidas, não preciso. Nem alma quando inútil já flutua. Mas nunca me retire o teu sorriso...
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Não preciso dizer quanto eu desejo As mãos que me acarinham, mansamente. Vivendo teu amor, te peço um beijo Que venha e me transtorne, totalmente...
Eu quero que tu sintas meu carinho, Descendo por teu corpo sedutor. Vivendo esta alegria, de mansinho, Chegando à plenitude em nosso amor...
Meu coração reclama tua ausência, Esqueço minha dor, meu sofrimento, Estando junto a ti, na convivência Divina que nos traz amor, alento...
Amor, não necessito nem dizer, Meu coração não cansa de querer!
81
Não precisas usar a tua lança, Pois dela não percebo serventia; Enquanto uma esperança anestesia, O véu em trevas feito nos balança.
Quem sabe se beber de uma bonança Terás o que desejas todo dia, Fartando-se da luz e da alegria, Enfim terás o riso em aliança.
Permita-se, portanto imaginar, Um tempo onde viver seja sublime, O amor sendo distante de algum crime,
Não se resume em simples lupanar. Roubando das estrelas, cada brilho, Terás em paz e glória um estribilho... Marcos Loures
82
Não posso te esquecer um só momento Pois trazes para mim uma esperança De um dia ser melhor, morto o tormento, Felicidade plena enfim se alcança.
Ouvindo tua voz vem à lembrança Toda a ternura intensa, sentimento, Fazendo parceria em aliança Soltamos nosso canto esparso ao vento...
Apaixonadamente sou teu par Na busca de alegria e de prazer. Contigo sem limites vou viver
O que de minha vida inda restar. Em teus braços, querida me envolver E toda esta magia desfrutar.... Marcos Loures
83
Não posso suportar o teu desdém, Sequer imaginar tão grande dor. Um coração deveras sonhador Procura a vida inteira e ninguém vem.
Às vezes ao pensar que tenho alguém, Encontro simplesmente o desamor, Revejo tuas sombras no sol-pôr, Mas; simples ilusão. Nada, porém.
Terríveis e vazias minhas horas, Cansado dos infaustos, das demoras, Eu sei que não virás; são irreais
Os sonhos que debruço nas ameias, Espaços tão distantes que vagueias Ancoram esperanças noutros cais.. Marcos Loures
84
Não posso suportar mais tantas brigas, O amor não deve ser tão maltratado, Querendo o tempo todo estar do lado De quem enquanto beija, desabrigas.
Ouvindo mil mentiras, nas intrigas Deixando o coração despedaçado, Um sentimento assim ameaçado Quebrando suas hastes, suas vigas...
Querendo tão somente ser feliz, Eu sei quanto me queres, mas tão tola Permite esta agonia que me assola
Amor não pode estar só por um triz. A noite que virá será medonha, Se a gente não criar; enfim, vergonha... Marcos Loures
85
Não posso suportar esta verdade Que mata a fantasia de quem ama. Enquanto sem pavios, morre a chama, O amor se transformou. Fatalidade...
O medo que domina e já me invade, Durante toda noite ainda inflama, Porém sem ter ninguém em minha cama, É triste e dolorosa a realidade...
Eu peço, não desprezes meu amor, Jamais serás feliz, isso eu prevejo, Debochas com sarcasmo o meu desejo
Matando um coração tão sonhador. Sou vítima das tramas da paixão, Seguindo cada rastro, como um cão....
86
Não posso suportar a tua ausência Nem mesmo consegui me libertar Vivendo em nosso amor a penitência Que marca e nos tatua, devagar.
Herdando tão somente esta demência Quem dera se eu pudesse te adorar. Porém sendo difícil, convivência Sem tréguas, não me canso, irei lutar.
Mas quando a noite chega, a solidão Chamando por teu nome me maltrata, Sou vítima das tramas da paixão.
De toda a fantasia, um desvalido, Cevando uma ilusão, amarga ingrata Nos braços deste amor, feroz, bandido... Marcos Loures
87
Não posso suportar a luz do sol Que teima em adentrar minha janela. Na solidão completa, um vago atol Entre as nuvens cinzentas se revela.
Não quero a claridade do arrebol, Meu barco vai sem leme, perde a vela, Do amor já fui outrora um girassol, Porém a realidade desatrela
Deixando, mesmo amarga, a liberdade Que prezo e que persiste junto a mim. Não posso suportar a antiga grade,
Nem mesmo disfarçada em amizade. Reflito o que plantei e de onde eu vim Cevando a cada dia, a tempestade..
88
Não quero a sensação da embriaguez Que possa transformar angústia em paz. Do quanto a realidade já desfez E a fantasia estúpida me traz.
Por mais que seja dura a lucidez, E o meu olhar se torne assim mordaz, Não quero mais a vaga insensatez Mesmo que me isto me torne mais audaz.
Vencer os pesadelos com sorrisos, Os dias sempre são tão imprecisos, E nisso esta magia do viver.
Refaço em pensamento a caminhada, E vejo os pedregulhos desta estrada Com espinhos há tanto que aprender...
89
Não quero a placidez que não resiste Ao gozo do tormento que me encobre Pintaste teus cabelos deste cobre Desculpe-me, essa cor nem sei se existe
Apenas não desisto se desiste Depois de tanto tempo se descobre Que a morte não fará que o sino dobre Eu sou um passarinho sem alpiste
Mas mesmo assim procuro um velho canto Que se canta me encanta e traz meu pranto Depois destes meus versos peço nexo.
Agora, não me venha com bravata A blusa que tu vestes, a regata Levanto e, não se espante, puro sexo... Marcos Loures
90
Não quero a piedade deste amor, Eu quero teu amor sem piedade. Viver as nossas noites no calor De tantas fantasias, liberdade...
Eu quero o gosto azedo do limão Tempero para o doce que produzo. Amor quer a pitada da emoção, Um pouco, que demais, resta confuso...
Eu quero uma vontade de viver, Ao mesmo tempo trama um novo dia. Vontade de viver e de esquecer A vida, nos teus braços, fantasia...
Eu quero esse aço doce mel e fel, Um fogo mavioso, em manso céu...
91
Não quero a noite eterna sem te ter; Talvez fosse promessa que fizemos. Se não consigo mais sobreviver Meus versos; em carinho, concebemos...
Na noite que virá, sem outro dia, Espero que me encontres. Dê um jeito. Não deixe esmaecer a fantasia, Morrer fazendo amor: Isso é perfeito!
Num ato carinhoso de lazer, Deitado nos teus braços, cavalgado, Numa agonia intensa do prazer, Num gesto assim divino, abençoado..~
A certeza absoluta que preciso, Entrar pelos portais do paraíso!
92
Não tenha medo, venha o que vier querida Estarei ao teu lado, eu só serei contigo. Não deixe que a mortalha em nós tão escondida Apresente essa dor como fosse castigo Pelo nosso querer que é bem além da vida. Eu tento te encontrar, às vezes não consigo, Em busca deste sonho eu deixo toda lida Para seguir risonho amor demais amigo. Não tema chuva e frio; estarei sempre aqui. Nós somos unha e carne, a mesma embocadura Se dentro do teu seio, amor eu me perdi, Não há por que temer, as pedras do caminho, Vivemos nosso caso, em tramas de ternura. Trazendo para amor, longevidade: vinho...
93
Não tenha mais receio meu amor... Qual nuvem esperada num deserto Promessa de um futuro encantador, Eu sinto que tu vens, estás bem perto...
Um fruto que se mostra em bela flor, Um dia que virá divino; é certo; Estio que trará sol e calor Acorde inicial, raro concerto...
O mel de teu olhar, alento e paz, As tréguas esperadas em batalhas. Pois todo o bem da vida amor me traz
Estou a te esperar, não tenha medo, Permita que o amor com suas malhas, Enrede nossas vidas, sem segredo...
94
Não tenha este desplante de falar Do amor que se perdeu na contramão; Querida; eu não aceito nem perdão De quem em nuvens mata o meu luar.
Não tendo outro caminho, irei buscar O rumo noutra senda ou direção. A boca escancarada de um leão Aos poucos, ao rugir, me faz pensar
Que tudo o que vivemos foi mentira. A mão que acarinhando me ferira Escondendo entre os dedos canivete
Atrocidades tantas; cometeste, Não posso perdoar quem me deteste E em plena sacanagem pinta o sete. Marcos Loures
95
Não tendo uma ilusão que se confisque Apenas quero amor em minha vida, Coração não quer saber de uísque Prefere uma cachaça bem curtida.
Distante da morena que me pisque O olhar, fingindo estar tão distraída, Não quero uma emoção na qual me arrisque Carinhos bastarão, minha querida.
Bebendo deste amor não me empanzino Por mais que te pareça assim franzino, No peito de um mineiro cabe além.
Eu quero o teu tempero, guapa prenda, No amor que nos enrede e que nos prenda Certezas de alegria sei que vêm... Marcos Loures
96
Não tendo quem escute nem socorra, Um prisioneiro aguarda o julgamento. O quanto se deseja que não morra Parece que se esvai em sofrimento. Saudade neste instante chega e jorra Molhando em força incrível, toma tento.
Atento, vou vencendo estas quimeras, Refém do paraíso em que te achei, Revivo a mansidão de antigas eras, E sinto o quanto posso ser teu rei. Errantes emoções, nas quais temperas Aromas que tu trazes, sentirei
Enquanto houver um rastro de alegria, Tramando em nossa vida, tal magia... Marcos Loures
97
Não tendo quase nada de concreto O jeito é se perder nas ilusões, O olhar que dei, audaz, mesmo indiscreto Fingindo ser em outras direções
Enquanto em fantasias, me completo, À toa vou fazendo os meus serões Os sonhos noutros barco, louco freto Sereia já naufraga embarcações...
Marujo que não sabe marejar Marulhos não ouvi, perdi teu mar, Às marcas, meus senhores. Mas falseio.
As chances são remotas, sem medalha, O vento da esperança me atrapalha Que culpa tenho enfim de ser tão feio? Marcos Loures
98
Não tendo por resposta um só retrato Esboço em garatuja o meu sorriso, Caricatura em toque tão preciso Expressa o que em verdade, sou de fato.
Outrora procurara num regato, A mansidão exata que eu preciso, Mas vindo o turbilhão cruel, conciso, Em ondas, persevero e me desato.
Ao vasculhar meus restos pelo chão, Não tive nem sequer a percepção De ter amanhecido cada trilho.
Ao pó que me resumo, retornando, Enquanto o dia frio vai raiando, Recebo deste sol um frágil brilho. Marcos Loures
99
Não tendo perspectivas de um aprumo Eu tento pelo menos disfarçar, Caminho tantas vezes devagar E mesmo assim me perco deste rumo.
À solidão eu sei não me acostumo E tento muitas vezes me livrar, Porém nada encontrando, vou buscar Da vida qualquer gota. Seco sumo...
Às vezes me pergunto sem respostas, Carrego a fria cruz em minhas costas, Das hortas semeadas nada sei.
Apenas quero crer e não consigo, Na seca que carrego aqui comigo, O quanto que não trago e cultivei.
9700
Não tendo mais tutano já não brigo, Eu já passei da fase de teimar. Se o vento propalando faz queimar Destrói a plantação, sonega o trigo
Não teimo em procurar qualquer abrigo Nos braços de quem pude em vão buscar, Depois de tanto tempo, quero andar Sozinho, pois não vejo mais perigo.
Se eu ligo esta tevê buscando o rosto Do sonho que pensara já deposto Eu vejo que caiu, logo o sinal.
O tempo sem ter tempo é contratempo. Amor jamais seria um passatempo Não fosse a nossa vida este jogral.
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