
Ficaram apenas as memórias
Data 16/12/2010 12:35:06 | Tópico: Poemas
| Pressinto o mar à distância e os sulcos da chuva ácida queimam-me as veias e estiolam-me os ossos. As imagens inacessíveis da memória quebram-se no segredo dos deuses
Pedaços delineados da presença dos mortos esfarelam-se no ar onde se acende uma única luz rente à terra. É o sítio onde se alimentam as almas errantes alicerçadas no sal da desolação
Paredes meias habito com o sonho que cresce de dentro para fora como se fosse um álacre ou o fermento que leveda a sêmea e perco o medo de o sonhar
E a luz continua a entrar pelas frestas das janelas de tábuas mal pregadas algumas partidas, até por onde o sonho se esvai As imagens são os únicos sinais da memória esquecida
Atravessam os corpos fulgentes raios de luz. Últimos resíduos da memória em fragmentos de noite onde não há mais noite nem catástrofes nem solidão nem lugares outros por descrever nem sombras nem nada
Resta-me a perturbação de ter os dias sem amanhecer ou anoitecer sem queixumes nem precárias moradas amordaçadas para o vaguear da escrita e o voo do coração
Subtis os fogos e o Princípio que se gera no corpo da mulher Formas etéreas do seu ventre aos poucos crescem em imemoriais auréolas de fogo e ouro no esplendor das geadas e constelações
O doce caminhar o rumor dos beijos e as tréguas mal resolvidas. As estrelas secretas e o silêncio depois da tempestade e a bonança e as feridas por sarar. As tuas mãos de neve recolhem as conchas e o rumor das águas e o ciciar dos canaviais Nasce mais uma moura encantada
Sóis oblíquos dos dias esquecidos onde os íntimos desejos se confundem com a paisagem e a precariedade dos dias por viver
_______ in: onde os desejos fremem sedentos de ser
|
|