
Queira Deus Palmeiras Verdes
Data 07/12/2010 00:14:33 | Tópico: Poemas
| …e ouvia os helicópteros quando ia ao frigorífico. Abria a porta e lá dentro, ao lado dos iogurtes, morriam palmeiras a um canto verde, bêbadas de uvas soltas arrepiadas em glacê. Depois já não queria escrever mais. Arrumava o tempo a juntar ovos, ou lambia talheres enquanto areava os dourados num tricô monocórdico de vida que passa ás meias horas. A janela quieta aguardava o assento de medíocres passados. Por ali andava em sala, recortava figuras de silêncio como uma sombra chinesa. Escondia coisas. Raramente falava a campainha e desmazelava a reforma em procuras… Os óculos, os dentes, o cabelo e aquelas novelas oclusas num preto e branco cinzento que faziam faltam à memória. Gemiam ossos pelo corredor. Aos domingos, todos os domingos, penteava os cabelos velhos de branco em frente ao espelho do guarda-vestidos. Senhorio do caruncho que negava ao mogno primário o esplendor do castanho mortiço que falava línguas de um século. Sentava-se á janela a ver as vistas, arranjada para a missa dos outros no adro contíguo. Nunca o candelabro… Porque tinha escondido a luz do amor numa pneumonia sepulcral que tinha o marido na morte. Num embacio da vidraça riscava o dedo em inverno, último ou lá próximo. Regava as flores de plástico e comia restos de abandono na carpete. Cama de tombos e saudades quando o choro lhe tinha alguém descendente no amparo. Amolgava deste modo as paredes soltando caliça mofada, cansada de ser bengalas. …e ouvia os helicópteros quando ia ao frigorífico. Ouvia o relógio de cuco e orações, ouvia poemas em papel de feltro e outras coisas que não acontecem assim. Ouvia os dias, os carros lá longe por debaixo da janela, ouvia o gato que já não tinha, a primavera, o napalm, o marido a tossir e os filhos a voltarem da escola… A janela quieta aguardava o assento de medíocres passados. Embebedou-se de uvas arrepiadas em glacê. Adormeceu sem ouvir nada a olhar o fim da rua. Adormecem sem ouvir nada…queira deus palmeiras verdes.
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