
Mariana
Data 02/12/2010 21:33:23 | Tópico: Poemas
| Mariana só... Teus olhos vazios são a penumbra das esquinas que dobras. Sonho contigo Guardas uma nota que inventa um futuro que é passado. Estás deitada no mármore, esventrada num espelho de sangue Há risos de escárnio e uma infecção apodrece o universo Hoje és notícia sem rosto nem lágrimas, no fecho da edição. Mariana só... No soalho fétido do teu casebre de subúrbio, lúgubre e operário, os naperons que cobrem as cabeceiras são hoje mortalhas de saudade. Somente... Mariana só... Que adivinhas-te o ser mulher nos teus seios adolescentes desflorada pela miséria Matas-te a fome em poções de corpo alheio, de olhos vazios, narcóticos, soporíferos Quem te quis em desejo repentista, beija esta noite os filhos á mesa, numa casa sem naperons sombrios. Mariana só… Das calçadas e Avenidas calcorreadas em devaneio que te deram ás madrugadas gélidas, vãos de escada embriagados Possuída ás migalhas por poetas etilizados e magalas da província Mariana só… Sonho contigo És Orfeu na noite escura, quiseras tu olhar para trás e ressuscitar sobras de ti numa ode á mulher inteira, minha criança apavorada Mariana só… Só, sem lembrança de ninguém, só fome e indiferença, só violada por comer, só humilhada por viver, só prostituta sem querer, só sem sorte e amarfanhada, só a lâmina afiada, agora no mármore esventrada, num espelho de sangue deitada, já não és mulher não és nada… Agora a tua condição é nome de solidão, notícia sem rosto, nem lágrimas… no fecho da edição. Mariana só…Mariana!
Lisboa 9-02-2009
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