
MEUS SONETOS VOLUME 039
Data 01/12/2010 07:13:09 | Tópico: Sonetos
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Buscando tão somente por alguém, Mineiro coração faz a colheita A claridade em sonhos sendo feita Esconde a tempestade que inda vem.
Atrás daquele monte a negra nuvem Enquanto o sol ainda não se deita Parece que em tocaia, numa espreita O dom de destruir, percebo, tem.
Na falsa calmaria desta tarde O gozo da ilusão que eu sei inda arde Depois de certo tempo em alto brado
Trará a tempestade mais cruel, Porém a sensação de um calmo céu Retrata o que vivemos no passado.
2
Buscando ter sossego, certo dia, Entranho meu desejo numa mata Aberta nos meus sonhos de alegria Deitado numa pedra, uma cascata Roncando maviosa melodia, Que invade traz a paz e me arrebata Formando o fundo para a sinfonia Dos pássaros. Trancado em casamata Levando minha vida sem descanso, Somente desta forma uma ventura Depois de tanto tempo; sinto, alcanço... Tua presença amada no aconchego Aumenta muito a chance de uma cura Mas, nua como estás... Cadê sossego?
3
Buscando tua sombra em noite clara Vagando sem destino por aí, O quanto; no passado, amor; sofri O verso que ora faço já declara.
Quando tua presença tudo aclara, Sabendo desta luz que existe em ti, Valeu a pena; a dor que conheci, E sei que este sorriso, cura, sara...
Abrindo o coração, sendo sincero, Tu tens toda a loucura que eu espero Num misto de ternura e insanidade
Na doce fantasia que me encanta, A deusa sem pudor e sacra, santa Malícia com sutil ingenuidade...
4
Buscando uma alegria, bebe um trago Do fel que recebera como herança. Numa macabra insana e louca dança, Procura em desconsolo algum afago.
O sonho muitas vezes qual um mago Engana e até promete uma esperança. Farrapos do que fora uma criança Jogados das janelas neste lago
Que em tez tão poluída não disfarça. Repete a tão useira e antiga farsa Criada em noite insone e mais sombria.
Gargalho sobre os restos que carrego, Fingindo ser estúpido, vou cego Forrando a minha noite em ironia.
5
Buscando uma guarida no teu peito, Amiga, minha eterna companheira, Tomado pelo grito insatisfeito Da dor que se mostrou bem mais inteira. Persigo, neste mundo o meu direito De ter felicidade verdadeira...
Quem fora plenitude de ternura Agora sem ninguém vai tão sozinho. A vida se pintando em amargura, Maltrata me deixando sem carinho. A noite sem estrelas morre escura, Um pássaro se perde sem seu ninho...
Por isso te procuro e na verdade, Eu creio em toda a força da amizade...
6
Buscando, da fortuna, o meu direito Encontro meus pedaços pelo chão. O manto que cobria contrafeito Embala tantos sonhos de perdão.
Vencer que me fizera satisfeito E dar o meu recado, rente ao chão, Vertendo meu amor, insatisfeito, Tocando bem de leve o coração,
Permita te fazer um novo filho E saibas que com isso, maravilho. Não deixe que o destino nos afaste.
Amor que sempre teve o sentimento De desabar assim, cada momento. Não sabe que o futuro nos deu a haste.
7
Buscar a claridade em cada noite... Ser vão e companheiro da verdade. A noite perspicaz me traz açoite O vento de meus sonhos, u’a saudade...
Não posso conviver com tanto engano, Nem posso me deixar ao desatino... O medo renovando torpe plano, O canto da sereia é meu destino...
A minha alma procura por saída, Nos teus braços remansos e delícias... Venerando total e leda vida,
Já busquei por teus passos, nada encontro... Desfrutei liberdades e malícias, Nossa vida é completo desencontro...
8
Buscar a plenitude na aliança Que possa permitir um novo dia. Saber qual a importância da alegria Movendo com firmeza uma esperança;
Quem luta com vigor, o amor alcança E um templo ao Deus Eterno, em si, já cria, Deixando para trás, terra sombria, Tornando assim a vida, calma e mansa.
Vivi tantas mentiras; só restando De tudo o que sonhara, medo e dor. Ao conhecer palavras do Senhor,
O mundo se transforma. Em passo brando, Caminho sem temores pela senda Que Amor pleno e sereno, já desvenda...
9
Buscava meu caminho em senda quase escura, Os rios, bela fonte, em doce melodia. O rumo desta estrada, incerto, eu não sabia. Só sei que caminhava, a trilha tão bela e dura.
Na fonte cristalina, o frescor d’água pura, Entretanto estranhava, estava sempre fria. Por mais forte esse sol, mais e mais se resfria. Na senda maviosa, estranha criatura.
O meu olhar, curioso, embalde se detinha; A senda que segui, decerto não é minha! Um olho mais atento observa e não se engana...
O meu caminho é leve, as fontes são risonhas... Não tem nenhuma dor, não tem águas medonhas. Mas, logo que acordei, o adeus de Mariana...
10
Busco em cada sinal, em cada esquina A sombra de quem foi morte e começo. Qualquer sinal chegando me alucina E nos meus pés, teus rastros, eu tropeço.
Corto meus pulsos, sangro; cego a sina Que muda todo instante de endereço. A lua penetrando esta cortina Servindo de consolo e de adereço.
Como o Rio de Janeiro me inebria! Teu nome repercute como um eco. A noite tropical depressa esfria
Esguia esta cidade é muito pouca. Entrando num cortiço ou num boteco A corda em meu pescoço abrindo a boca Marcos Loures
11
Busquei a vida inteira, nunca nego, Uma pessoa amiga que pudesse, Amenizar a dor que assim carrego, Sem que sequer cobrança me trouxesse
Poder compartilhar os meus problemas, Ouvir-me, tão somente ou me alertar, Alegria e conforto sendo os lemas De quem já sabe, enfim, nos apoiar.
Por mais que isto pareça ser bem fácil, Garanto ser imensa raridade. Um coração gentil, por vezes grácil
Que traga tanto alento para a vida Nos laços bem mais firmes da amizade, Só encontrei em ti, minha querida...
12
Bye bye, adeus, so long, já fui,galera; Não guardo mais as fotos nem recados, Os quadros esquecidos, pois mofados, Depois de certo tempo, enfado e espera.
Quem sabe reconhece e até tempera A vida com desejos malcriados, Em outras direções, olhos focados, Desleixo, a solidão, aos poucos gera.
No quarto as bandeirolas, velhas flâmulas Futuro de fumante diz das cânulas Traqueotomia à vista, morte a prazo.
Se eu tenho enfim por mim, tanto descaso, A culpa é deste inferno que hoje piso Teimando ver após, o Paraíso...
13
Cabeça decepada na bandeja Servida com pimenta, azeite e sal. Banquete que esta corja já deseja Em rito bem sacana e sensual.
Fartura em que a vida, assim preveja Delírios desta gente canibal Em nome de um amor que sempre almeja Prazer tão imbecil quanto carnal.
Nas gargalhadas sinto que esta festa Um dia não terá prosseguimento; Cadáver que em cadáver já se gesta
Depois de certo tempo, vira fera. Nas armas, cocaína, condimento No qual fino festejo se tempera...
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Cabeça tá coçando? Fique de olho Aberto; meu querido companheiro. Pois pode ser a peste do piolho Um bicho sem vergonha e bem matreiro. Ataca jovem, velho até pimpolho Passeia no cabelo e travesseiro.
Já tive esse bichinho aqui comigo E foi um osso duro de roer, Parece na verdade até castigo, Passando um pente fino pude ver O quanto de piolho fez abrigo É coisa bem difícil de esquecer.
Pequenino, mas coça assim à beça Andando com os pés sobre a cabeça...
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Cabeça vai girando qual piorra Rodando bar em bar, bocas e seios, A sorte lamentada, uma cachorra Usando sem limites podres meios,
Procuro que alguém que me socorra Não importando quais sejam os meios Cansado desta merda, dessa porra Que se danem juízos ou receios.
Eu quero navegar em mansos mares, E o gozo da amizade que inda venha. Revejo velhas caras, seus altares
Halteres tão inúteis, força insana, Assando minha vida e pondo lenha Na força em babaquice que me engana.
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Cabelos desmanchados pelo vento, Sorrisos estampados nesta face, Vontade de sentir cada momento, A vida sem sequer qualquer disfarce.
Eu sinto cada toque desejoso Qual fosse uma explosão imensurável Depois de tudo vem o gozo Imensidão de estrelas incontável.
A mão tão delicada vira garra, Entranha no meu peito, dilacera, O coração exposto vem, agarra, Os dentes da princesa são de fera...
Vontade de sentir cada detalhe Da força que penetra em cada entalhe...
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Cabelos tão dourados quanto os teus Roubando deste sol, a claridade. Não posso permitir, de novo, adeus, Nem quero mais saber de uma saudade...
Bem sei que o sol te vendo não nunca esquece Dos raios que roubaste na manhã. O deus enamorado se enlouquece Se esconde em tantas nuvens, triste afã...
Bem sei que quando andavas pelas praias, O vento em teus cabelos, mil carinhos... Beijava tuas pernas, coxas, saias... Buscava sem juízo, doces ninhos...
Inveja que causamos á natura, Fazendo em pleno dia, noite escura...
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Cabem mil universos no meu peito, Embora tantas vezes siga só. Dos passos não deixando nem o pó O sonho não se afasta do meu leito.
Um velho coração insatisfeito Procura desvendar sem medo ou dó. Porém realidade, amarga mó Destrói o que em delírios fora feito.
O mundo sendo vasto é tão pequeno, Dos versos há quem sabe algum aceno, Mas nada se movendo sobre a Terra,
Poética ilusão, frágil paisagem, Efêmera e sublime esta viagem, Transpõe num vôo audaz montanha e serra...
19
Caçando o que não tive, vou sozinho Na inglória caminhada pela vida, Às vezes percebendo uma saída, Engano, então retorno ao velho ninho.
O peito aberto imita um passarinho Que voa em liberdade, construída A cada amanhecer e concebida Ao perceber aberto o seu caminho.
Porém na flor da minha mocidade, Imerso na total iniqüidade Não tive, na verdade, quase nada.
Agora que o outono rouba a cena E a vida cruelmente já me apena, Aguardo que inda tenha uma guinada,
20
Caçando os meus fantasmas pela casa Que sei mal assombrada, dos meus sonhos. Os ritos corriqueiros são medonhos, Tristonho coração já não se atrasa.
Chegando de manhã, nada mais tendo, A falsa plenitude vira arroto, Movido por controle mais remoto, Segredos do que fomos não desvendo.
Quis chácara, mas xícaras, trouxeste, Os chacras, tolos mantras, mantas ânsias... Confusas expressões mostram ganâncias
Plantando neste solo mais agreste Minha boca esfaimada se sacia Nos resíduos banais da fantasia...
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Caçando, devoramos nossa caça E dela em regozijo faço a festa Amor que sutilmente ganha a praça Ternura em fantasia sempre gesta.
Arestas que podamos no passado Permitem que pensemos no futuro De um jeito mais feliz, anunciado Dourando em alegria um céu escuro.
A mão de uma ventura sem igual Pressente com firmeza, amanhecer, Bebendo tua pele sensual, Amor que se transforma quer prazer
A vida estende encanto que deseja No peito uma alvorada benfazeja.
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Caçando-te querida sou a presa Que sabe do poder desta pantera, Mantendo amor em chama sempre acesa Jamais outro caminho, assim, me espera.
Tu trazes nestas mãos, a primavera E mostras com carinho esta certeza De tudo o que sonhei. Ah! Quem me dera Não perderia nunca esta princesa
Que é maga nas carícias e nos beijos, Treslouca minha vida, e faz feliz. Cumprindo o que diziam realejos
Encontro nos teus braços o que eu quis. Certeza de poder ser devorado, Num sonho assim bendito, iluminado...
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Cacarejando festas por aí Decifras as baroas e os barões De todas as medalhas que sofri Pelejas são apenas mergulhões.
Metáfora demais que me perdi Fazendo dos enredos, turbilhões. As bocas que entre trevas percebi Estrelas entre céus viram bilhões.
Pacotes e coiotes, alquimias Se mias não humilhas quem seria São sérias estas séries, certos dias
As sondas feita em línguas não se cansam, Enquanto provocando hemorragia O gozo das festanças logo alcançam...
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Cachorro que se perde do seu dono Vagando pelas ruas sem licença Vivendo a sensação de um abandono Na vida perpetua uma descrença.
Tentando descansar, esquece o sono, Um osso sem valor é recompensa, Um beijo apodrecido vira abono, A noite sem ninguém, passando imensa.
Uivando de saudade se lembrando Do tempo em que podia até sonhar Castelos de ilusões se desabando.
O frio desta noite me enregela, Preciso urgentemente te encontrar, Mesmo que seja sempre uma cadela!
25
Caço-te nos lençóis de nossa cama, Não encontrando nada, a noite passa, No que se fora assim, intensa chama Sobrando tão somente esta fumaça
Em mil gracejos tolos, sutil trama Se mostra sem motivo, uma chalaça Apenas minha voz inda reclama, Ausência que se fez,a minha alma esgarça.
Errante te procuro e nada vejo, Mas mesmo assim valeu o nosso amor. Talvez pra ser feliz, outro traquejo
Que nunca mais teria quem sonhou. Buscando o teu carinho redentor, Esqueço tanta vez quem mesmo sou...
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Cada dia renovando uma esperança De ter essa alegria que buscara, Sabendo que esta noite é qual criança; É pedra preciosa; jóia rara...
Nas horas imprecisas, minha amiga; Que bom saber que posso te encontrar. Por vezes nossa vida já periga Qual barca que teima em naufragar.
Meus versos são meu canto de amizade Em busca da verdade desta vida. Eu sei que sempre dói uma saudade, Da luz que se passou, está perdida...
Por isso, minha amiga te agradeço, E todo o teu carinho, reconheço...
27
Cada macaco sabe do seu galho E desta forma a vida é mais suave, Quando compartilhamos nossa nave É certo que teremos mais trabalho.
Se ao teu lado, querida, eu me atrapalho, Eu vejo agora nisto um grande entrave, Para evitar que a dor assim se agrave, Eu mostro esta carranca de espantalho.
Cada um no seu quadrado; estou na minha, Seguindo o meu destino nesta linha Depois de certo tempo; estou sozinho.
Um pássaro procura companhia, Mas não suporto mais tanta agonia Ao ver outro canário no meu ninho...
28
Cada qual com seu cada qual, dizia Um velho amigo lá das Minas Gerais Assim também se faz a poesia Que tem os seus segredos, rituais.
Soneto necessita de harmonia, Por mais que as rimas sejam tão banais, Sem métrica soneto não se cria, A roupa só se quara nos varais.
Não vejo porque tanta discussão. A criança conhece a redondilha Dançando na ciranda. É tradição
Do povo brasileiro e lusitano, Depois do que aprendeu se desvencilha Cravo fugiu da rosa? Desengano...
29
Cadáver de um romântico, passeia Entre as estrelas tolas da ilusão. Celestes armadilhas da expressão, A lua não seria, assim tão cheia.
Hipérboles, metáfora incendeia Andinas maravilhas, rés do chão. Das almas andarilhas, negação, Realidade mata aranha e teia...
A poesia, agora, perde a tinta, Desta aquarela, poucos os matizes, Mulheres tão distantes, más atrizes
A peça há tanto tempo vai extinta, Meu passo quase trôpego se esconde Aonde a fantasia perde o bonde...
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Cadáver insepulto que carrego; De um tempo que passou, deixou resquícios... Não sei bem se eu afirmo enquanto nego Embora saiba bem destes indícios...
Depois de tantos mares que navego As asas decolando em precipícios, Distante do que fosse esse meu ego, Se sigo, talvez sejam só meus vícios.
Os nomes, muitas vezes sepultados, Volta e meia pululam e renascem. Diversos, os caminhos, nossos fados,
São mais do que retratos na parede. Falar neles é como se voassem Em busca de outras fontes, matar sede...
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Cadáver putrefeito da esperança Algoz que tantas vezes me iludiu, Sorriso em face estúpida, imbecil Cravando na ilusão espada e lança.
Arcana das paixões, a morte avança Dos cárceres dos sonhos, mãe gentil, Enquanto a fantasia, serva vil Espalha as suas garras por vingança.
Acorrentando as mãos de quem resiste, Ao fim verei num ato tolo e triste A cena derradeira desta peça.
Sem ter sequer a chance de sonhar, A morte devorando devagar Sem nada, nem ninguém que ainda a impeça.
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Cadáveres carrego, bem pesados... Amores e saudades sempre voltam Nos sonhos, pesadelos, sinas, fados... Tantas horas perdidas me revoltam
Pés cansados, imersos, afogados Em plena comunhão, vultos escoltam... Nas mantas, meus temores abrigados Precisam de tais nuvens que se envoltam.
A vida foi passando de viés, Saudades e esperanças; o que eu trago. O mundo que pensei atou meus pés
Carrego minhas dores – turbilhões... Todos os meus cadáveres; afago. Cansaço de quem leva multidões!
33
Cadáveres dos sonhos vão à toa, Devoram cada parte do que fui, Se o tempo como insano ainda flui A voz do meu passado vem e ecoa
Adorna uma ilusão, cevando o nada E quando me surpreende está vazio. Alheio ao que tivemos, não adio Inverno de minha alma, destroçada.
As marcas de teus lábios em meu rosto, O beijo apodrecido da pantera, A vida que em teus braços degenera
Deixando o cerne frio, amargo; exposto. Esposo da esperança, a realidade Devasta provocando mortandade...
34
Cadáveres que trago do passado Entranham nos meus versos, degeneram. O quanto que pensara fosse um brado Agora os sons diversos desesperam.
Carcaças espalhadas pelas ruas, Na mendicância crua, esparramada. Enquanto mansamente continuas, Não resta dos meus sonhos quase nada.
Apenas um sepulcro dentro da alma, Vestígios do que fomos, vãos carinhos. Colecionando dores, vivo o trauma Da solidão imensa em nossos ninhos.
Assídua tempestade não se vai, A tela ao fim da peça nunca cai...
35
Cadê minha Tereza? Foi pro mar... Quem era ventania, virou brisa, A morte traz medida mais precisa. Quem fora majestade? Sem altar...
Depois dessa viagem, foi parar Onde toda maré se torna lisa... Tereza, bem distante, o mar avisa, Que nunca poderei mais te encontrar...
Perdoe se não pude nem sentir O que pensei doesse. Vou pedir A Netuno que nunca mais te veja...
É tudo que minh’alma mais deseja, Tua cabeça traga na bandeja; Nem quero teu cadáver prá carpir...
36
Cadê teus olhos tristes que não vejo? Cadê a poesia que fizeste? A noite se engalana sem desejo E a sorte quase sempre não me veste...
Vento que balançando essas palmeiras Nas praias deste amor que nunca tive. As horas sem amor são verdadeiras O resto do que penso não contive...
Agora não me venha com certezas Que sabes que não é o meu direito, Vivendo sem sequer sentir tristezas, Do nada sempre ao nada, satisfeito...
Porém eu jamais nego que eu te amei Em versos e metáforas fui rei...
37
Cadeias da tristeza, me livraste... Deixando meus pés livres para a vida... Das dores infinitas, me abjuraste. Deixando essa mãos livres... Esquecida
Da proteção divina, me negaste... Então mãos e pés, trazem despedida. Quebraste sem saber toda fina haste Que mantinha meus pés. Foste bandida!
Cadeias de tristezas, teu legado... Preâmbulos mortais, velhas cantigas... Um coração que fora apaixonado
Percebe velhas dores, tão antigas... Um coração que bate, vai de lado... Te imploro, vou tristonho, mas nem ligas!
38
Caia por cima de mim, Nas danças e nos folguedos Meu amor tão grande assim Vai em busca dos segredos,
Tua boca carmesim, Tua língua, lábios, dedos, Tanto amor que não tem fim, Aplacando os velhos medos.
Nos meus braços, tua pele, Silhueta mais esguia O teu corpo me compele
A fazer estripulia. Antes que a noite congele Aqueçamos a alegria.
39
Caindo a noite, pântanos brilhando... As almas subiriam para o espaço. Azuis com as tristezas carregando, Não deixam testemunhas nem um laço...
As horas enlutadas vão passando... A solidão e o medo, meu cansaço... As almas ao subirem, já deixando A noite onde mergulho e me disfarço...
As luzes azuladas trazem medo. A morte se refaz nesse segredo, Quem são? Por quê? Ninguém responderá!
Mistérios d’existência ficam lá, Nas almas que fugiram do degredo... Meu amor, porventura, onde estará?
40
Caindo sobre os sonhos, pesadelos... Nos seios desta amada que não ama... Meus mundos não permitem revivê-los Nas lavas dos vulcões percorro chama.
Nos brotos das abóboras, seus grelos, Quem dera reviver amor sem lama. Envolto nos meus sonhos qual novelos Que trazem meus destinos. Velha trama...
Adormeci nos braços desta lua... Balançando, deitei na mansa rede. Mulher que nunca veio, estava nua...
Nos desertos, meu corpo mata a sede. A boca que silvava, continua. Um grande amor que nunca tive, atua...
41
Caiu um aguaceiro dos meus olhos No dia que a morena foi embora, Tristeza eu colhi em tantos molhos, Meu peito foi sozinho e chora, chora... Saudade é como um trem desgovernado Não deixa mais a gente nem dormir, Lembrando do seu beijo tão molhado, Perdão, morena, agora, vou pedir... Eu sei quanto que errei; morena linda, Fiz tanta bobageira pela vida... Meu coração, morena, é seu ainda, Sem você, minha estrada vai perdida... Não deixe que a saudade matadeira Acabe com paixão tão verdadeira!
42
Calado pelo encanto – amor harmônico, O verso que se fez em pessimismo. O brado em solidão morrendo afônico, Amor causando em nós um cataclismo.
Furores sem limites, fogaréu, Ardências e calores, jogo feito. Aladas fantasias, risco e céu. Floradas de esperança no meu peito
Alcanço o que queria e desejava Embora a lava queime nossos pés, O quanto tantas vezes procurava, Em sonhos, catedrais, altares, sés
Debulho os nossos ritos, faço a festa O quanto ser feliz é o que nos resta.
43
Calados passarinhos, ninho morto... Nas vibrações etéreas, vento manso. Meu pensamento frágil voa absorto Em meio a mansidão deste remanso...
Nos áditos perdidos, rumo torto, Embalde tantas ruas, eu me canso... Amar sem ter alguém, é meu aborto, Procuro pela guia e não avanço!
Espedaçado, pávido, indeciso... Caminhos inauditos e ferozes. Edênico desejo, paraíso,
Conglobam-se velórios e quimeras... Nos meus escuros sonhos, ouço vozes Distantes. Dos amores d’outras eras!
44
Calando as mais temíveis penitências, O amor abriu as portas da alegria, Não vejo tão somente coincidências Percebo este poder feito alquimia. Espalha assim o amor, benevolências Trazendo a luz intensa a cada dia.
Impávidos olhares no horizonte, Traduzem claras nuvens- esperanças. No quanto o meu desejo sempre aponte O riso prometido nas festanças, Marcado por franqueza, viva fonte, Na plena fortaleza em alianças.
Arcando com meus erros, sou feliz, Um velho sonhador, vero aprendiz...
45
Calando o canto amargo do passado, Lúgubre cantochão em ladainha, Amor em nosso peito emoldurado Permite uma colheita em rara vinha.
Se eu vinha de um destino traiçoeiro, Agora em tom maior, a melodia Adentra e modifica o cancioneiro Perfaz pura emoção, nova harmonia.
A voz que se mostrara quase agônica Expressa a fantasia de um tenor. Mudando em alegria, antiga tônica Recobre este cenário em farto amor.
Homérico caminho que deságua No gozo do desejo, aborta a mágoa...
46
Calando o coração tão andarilho A voz do amor se fez inquestionável. Na fonte do prazer inesgotável Derramo o quanto quero e maravilho.
Não vejo mais qualquer um empecilho E sigo percorrendo o passo amável, No mar do amor imenso, navegável Eu traço com certeza o bem que trilho.
Por mais que tantas vezes enganado, Andando por caminho torto, errado, Eu inda tinha um resto de esperança
De ter após a dura tempestade Algum caminho solto, em liberdade Trazendo enfim um pouco de bonança.
47
Calando para sempre os meus deslizes Jamais esquecerei o que vivemos Por mais que noutras sanhas nos perdemos Amor já superando velhas crises.
As dores se despedem, más atrizes Do gozo mais profano que bebemos Decerto navegar exige remos Vontades que decerto queres, bises.
Melancolia é coisa do passado, Jamais imaginei o que me trazes, A vida se permite em várias fases
Porém ao ter alguém sempre ao meu lado Não vejo mais problemas nem terrores, Entregue à mansidão nego pudores...
48
Calando sobre o quanto não sabia Rugindo sobre o quase que perdi Remorso colorindo a noite fria, Vencido pelo quadro que esqueci
Rolando pela velha escadaria Da casa que matei quando nasci. Talvez inda me reste uma alegria Despida em noite boa. Vem pra aqui.
Remédios para quê? Já basta o tédio. Maldito este luar em seu assédio No orgasmo que chamei, mas que não veio.
Problemas acumulo; mas sem seio; Sem coxa de morena ou de mulata Caleidoscópio cego me retrata...
49
Calaram já faz tempo nossas vozes Deitando sobre todos; a amargura De tantas esperanças vis algozes Aos quais nem mesmo a morte, enfim, depura.
Enquanto o manso amor aqui floria Espinhos espalhados pelos ventos, Matando em nascedouro a poesia Gerando em triste aborto estes tormentos
Na podridão dos olhos da pantera O vício no hemorrágico banquete Recobrem com mortalha a primavera Fazendo de minha alma atroz joguete
Esparramando a dor tão simplesmente O desamor sorri; cruel serpente...
50
Caldo de cana, mel, ou rapadura. Doçura se tornou, querida, um saco, O amor se confundiu, foi pro buraco, Matando qualquer forma de ternura.
Amor errado, trama em noite escura, Confere solidão, ingênuo e fraco. Recolho os cacarecos num só taco Cortando em minha carne, vejo a cura.
É carne de pescoço, eu te garanto, Causada pelo tédio e desencanto, Atrás da solução, quebrei a cara.
Enroscas tuas pernas noutras pernas, Em plena primavera, o amor invernas, Mas deixe-me sozinho, vê se pára...
51
Caleidoscópio diverso, Amor muda seu matiz. Cantando assim cada verso Procurando ser feliz...
Porém no fundo, o poeta, Finge mais que se imagina. Mesmo quando se alucina Ou Cupido acerta a seta
A palavra é feiticeira Pouco a pouco nos invade Mentirosa é verdadeira.
Amar é mais que vontade. Dor é também companheira, Se juntar vira saudade...
52
Caleidoscópio, eu vejo em tantas flores Mostrando uma beleza interminável, Por onde tu seguires, onde fores Reflexos de um prazer inesgotável.
Ditando sobre nós a redenção Teus passos me servindo como guias A vida transportando em turbilhão Eterna maravilha em melodias.
Nas ilhas que deveras foram tantas Durante minha dura caminhada, Agora que em verdade tu me encantas Não temo nem soçobro em derrocada.
Deixando bem distante o meu calvário Encontro o paraíso imaginário...
53
Calor enlanguescente que desperta Não deixa quem amava mais dormir. Amor um sentinela sempre alerta Embora na distância, hei de te ouvir...
Palavras que soltamos, mais dispersas, Não cabem nos meus versos enfadonhos, De tanto que esperamos nas conversas Agora quê que faço com meus sonhos?
Jogados sobre a cama, sem sentido, Não deixam os meus olhos mais fechados, Perdendo-me nos braços deste olvido, Os sonhos se tornaram duros fados...
Amada não permita que isso ocorra, Amor tão delicado: me socorra!
54
Calor vai consumindo e tão confusa A deusa se perdendo no suor, O mundo talvez fosse bem melhor Se a moça levantasse a sua blusa...
Talvez inda tivesse num nuance Visão do mais sublime paraíso, Porém a chuva chega sem aviso E rouba da ilusão última chance.
Apenas sou mais um que se perdeu Tentando receber o que foi meu E agora não pertence a ninguém mais.
Recibo já rasgado, o que fazer? Se teimo e nada tendo a receber Arranco o que sobrou dos meus varais.
55
Calor vai me tomando esta manhã Ao ver deitada aqui tua beleza, Vontade me domina em louco afã De ter entre meus braços tal princesa.
Teu seio no formato de romã Na boca maravilha em framboesa. A febre me tocando, mais louçã; Querer-te toda minha, uma certeza...
Sorris e nisto excitas-me bem mais. Sussurros meus desejos, devagar. Tremores e ternuras já me traz
Olhar de uma menina apaixonada. Na chama em que me sinto fervilhar, Amando sem parar, fazer mais nada...
56
Camaleão audaz mudo de cores. Em tardes eu vou blue, negro noturno. Carrego inda comigo meus amores. Meu passo numa espreita sói soturno
Levando como cargas,dissabores. A vida transtornando cada turno Plantei felicidade colhi dores, Nos porões de minha alma eu já me enfurno.
Coração tão vira-lata rebate Nas madrugadas frias, triste, late. Uivando em dissonância, a noite traz
Um pesadelo enorme, mata a paz Amores sem vergonhas ou verdades Transparecendo cedo as veleidades...
57
Caminhando busquei novas manhãs. Os ventos tempestades me queimaram... As mãos se esfarraparam, foram vãs, Os tiros e canhões dilapidaram...
Nas tentações profanas das maçãs Dos sonhos, pesadelos me sangravam As noites solitárias são malsãs Meus sonhos – liberdade - já calaram...
Os dias que se mostram mais saudáveis Rapinas, tentam loucas; destruir. As dores se tornando insuportáveis,
Vorazes, as tristezas não disfarçam E querem nosso amor já destruir... Bicos esfomeados, tudo caçam...
58
Caminhando comigo, lado a lado, Aladas esperanças vêm à tona, Atadas minhas mãos em outro prado, Calado; o sentimento inda ressona.
Abandonado, eu tento um novo curso, De tudo o que já tive; nada resta. Mudando novamente o meu percurso Adentro a ventania que se empresta
À sorte de quem fora e não voltou, Partícipe de um duro pesadelo. Saudade em minha pele se entranhou, Deixando ao coração, o frio e o gelo.
Dos elos que se quebram, liberdade? Apenas tão somente esta saudade...
59
“Caminhando e cantando e seguindo a lição” Que a cada novo dia aprendemos bem mais. Mais forte do que o medo, e o vento da paixão Além do que se mostra em longínquo e bom cais
Demonstra uma alegria em força e sedução Unindo em diferença a derrota jamais Virá para quem sabe e tem plena noção De um mundo bem melhor que é feito em plena paz
A partir deste sonho, um mar em calmaria Na placidez do canto, a brisa soberana Que faz de cada noite a promessa de um dia
Sem lutas e sem fome, assim felicidade Da qual sempre quem ama em versos já se ufana Virá tendo por lastro, a força da amizade...
60
Caminhando por aí, pelas esquinas, Teus passos flutuantes, vou seguindo... Sem saber, nunca sai destas retinas; Que tanto,um só carinho, vão pedindo...
Caminhando por aí, sequer percebes, Meus versos se perdendo, sem sentido. Transmites mansos ventos que recebes, Enquanto eu...Nos teus passos, vou perdido...
Quem sabe encontrarei o meu caminho? Quem sabe... Me perdoe mas eu te amo, Não sei se nos teus braços eu me alinho,
Decerto sem saber que te reclamo Desfilas pelas ruas, galerias... Enquanto eu... Me sobraram poesias...
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Caminhando por ruas tão vazias, Somente a minha sombra me acompanha. Luar adormecido na montanha Deixando estas calçadas mais sombrias.
Sonhando com prazeres; fantasias Um mundo mais feliz. Terrível sanha. Apenas solidão ainda entranha Matando pouco a pouco as alegrias...
Eu te procuro e nada tendo O dia novamente amanhecendo, Caminhos paralelos, infinitos...
Há tanto que eu queria te dizer Do amor que ainda sinto. Sem te ver, Os versos são somente sons aflitos...
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Caminhando sem cansaço Pelo sertão das Gerais, Procurando um forte abraço Da amizade feita em cais.
Esperança eu logo traço, Pois sei que isto é bom demais, Estreitando cada laço, Sem eu me esquecer jamais
De uma amiga que carrego, Dentro do peito em abrigo, Sem seu brilho fico cego,
Sem a sorte que persigo, À amizade eu já me entrego, Deixe-me ser teu amigo.
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Caminhante perdido sem ter trilhos, Desconforto gigante em impotentes Passos que se fazem andarilhos Buscando outro caminho, outras vertentes.
Encontro na verdade os empecilhos Comuns da miopia que sem lentes Confunde seus amigos com caudilhos E rosna pra quem ama, unhas, dentes...
A sonda que lancei, sem ter resposta Sonares se perderam neste mar. Porém pele curtida cria crosta
E aos poucos se transforma na couraça Que penso proteger do que encontrar... Só resta uma saudade e a vida passa...
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Caminhas entre luzes, na calçada Néons acompanhando cada passo. A lua se embebeu de madrugada E vaga sem destino pelo espaço.
Os sons se misturando na balada, Nos olhos a vitória diz fracasso, Imagem distorcida não diz nada. O rito de esperança então devasso
E caço cada parte do que fomos, Na múltipla visão dos mesmos gomos Flutuas pelos bares, ruas, becos.
Da música de outrora ouvindo os ecos, Eternamente jovem. Quem me dera. Inverna em noite clara, a primavera...
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Caminhas pela casa toda nua, Beleza sem igual já se acentua Ventura incomparável, gozo e festa Calando com ternura uma tempesta.
A sanha sem pudores continua, Na cama, no motel, em plena rua. Na fúria inesgotável que se atesta Fartura que o desejo nos empresta.
E quando penetrando em cada gruta, A fêmea insaciável determina O andar da carruagem. Sempre astuta
Abrindo suas coxas, minha lança Invadindo as entranhas da menina Que engole tão voraz e não se cansa...
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Caminhas sutilmente pela praia Requebros entre as ondas, sol e areia Enquanto o teu olhar já me incendeia O vento levantando a tua saia
Permite que se vejam belas pernas Morenas e roliças, fogo e chama, O meu desejo agora te reclama E quer nossas venturas, doces, ternas.
Tua nudez; prevejo num momento, E quero sempre e tanto, sem juízo, Chegando num galope ao paraíso,
Liberto o meu sedento pensamento, Querendo, toda noite muito mais, Trejeitos e vontades sensuais...
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Caminheiro, as estradas do sertão Desabando o vazio das andanças Desaguando no mar do coração Sem força sem pecado e confiança No resto do que fora uma canção Guardado em algum canto uma lembrança.
Um gosto de saudade sangra a boca Deixando bem distante a juventude Que foi-se em agonia quase louca, Vontade de sentir nova atitude Mas força que restou parece pouca, Morrendo sem ter gana ou ter saúde.
Caminheiro; em teu passo eu já prossigo, E posso te dizer, és meu amigo...
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Caminho cabisbaixo, vou cismando Buscando teu retrato, bem guardado A vida pouco a pouco vai passando, Meu peito em sofrimento, torturado...
Meus males são reféns do nosso amor De tantas amarguras que carrego. Dizendo que te encontro em cada dor Que tento e não consigo, nunca nego.
Desdéns colecionados pela vida, Nos temporais ferozes que enfrentei, Minha alma sem sonhar segue sofrida Por campos e montanhas que nevei
Com lágrimas e frio, vento forte, Sentindo esse bafio, minha morte!
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Caminho em noite vaga, tolo, insano Navego pelos bares e caladas. Jogado pelos cantos e calçadas Amor feito saudade é tão tirano.
Quem dera reviver cotidiano Palavras entre sinas bem traçadas, Porém as luas sempre disfarçadas Demoram transtornando cada plano.
Queria a cor do mundo em meu olhar O brilho esmeraldino da floresta. Se apenas solidão é o que me resta
Apenas solidão; vou encontrar; Amor porta-estandarte do vazio, Promete em carnaval somente o frio...
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Caminho em pedregulhos; perco a linha O trem de minha vida descarrila As dores vão fechando e fazem fila, A noite que congela é toda minha.
Buscando uma alegria que não vinha O sangue em agonia já destila Em goles gigantescos de tequila, Uma esperança aos poucos se definha.
Amigo, na verdade me liberto Das pedras que encontrei estrada afora. A bosta que estercara revigora
E deixa até florir neste deserto. Bebendo deste sonho em conta-gotas As roupas que eu vesti ficaram rotas...
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Caminho em tempestade, devagar Mineiramente venço os vendavais Chegando calmamente em cada cais Vejo o melhor momento de ancorar.
Na praia dos meus sonhos céu e mar Em tons maravilhosos, sensuais Fazendo desse todo um pouco mais Num gozo esmeraldino azulejar...
Jogado pelas ondas barco segue Sem blague, sem mentiras, peito aberto, Aos braços e carinhos vou entregue
Vogando por errantes caminhares Nos ventos, sem temores me liberto Amor bem junto a mim, nos calcanhares...
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Caminho feito em glória, meu tesouro. Florida senda exposta dentro da alma, Do verdejante sonho, ancoradouro, Dos louros e vitórias, luz que acalma.
Encontros entre as almas que se buscam, Verdades infinitas que nos guiam Sem trevas nem neblinas, não se ofuscam, E tantas maravilhas fantasiam.
Passando pelas noites sem temor. Tremulam esperanças nos seus passos, Cenário divinal a se compor, Tomando num momento estes espaços.
Delírios virginais em claros tons, Espalham pelas terras, belos sons...
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Caminho feito em luz glorificou Porém o meu destino é ser sozinho Saudade de quem foi e não voltou Deixando simples sombra sem carinho.
De tudo o que eu pensei nada restou, Somente esta saudade onde me aninho. O canto deste sonho me chamou De volta a percorrer velho caminho
Que leva, num instante à mesma cama Aonde em toda noite ardia em chama. Amor que com loucuras se verteu
Em mágicas palavras, sonho breve Felicidade, agora não se atreve Matando o que pensara ser só meu...
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Caminho junto a ti a vida inteira Com passos bem mais firmes, dia a dia... A vida se mostrando feiticeira Encanta-nos com força e com magia...
Colhendo cada flor desta roseira Que traz em seu perfume a garantia Da paz tão delicada e verdadeira Do amor que mais que tudo, sempre queria..
Amada, seguiremos nossa vida Em toda a primavera da esperança. Deixando a solidão bem esquecida
Num canto abandonado, tão distante... Em nosso amor, querida uma fiança Do dia que virá, mais deslumbrante...
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Caminho numa praia junto a ti, A noite traz a lua como guia. Espraio nos meus olhos alegria Depois de tudo aquilo que vivi
Saber que enfim consigo o que pedi Amor que seja intenso em fantasia E mate, de uma vez toda a agonia Que um dia em falsos beijos conheci.
Reflexos do luar por sobre as águas Convite para um louco mergulhar. Agora um coração que não tem mágoas
Encontra seu destino mais sereno, E a noite vai passando, devagar, O amor que a gente faz, sincero e pleno...
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Caminho passo a passo com quem amo Enveredando espaços infinitos. Versejo e com força amor eu chamo E venço a solidão em claros ritos.
Meus olhos que já foram tão aflitos Agora neste sonho em que amor tramo Reféns de uma alegria, vão benditos Somente em teu olhar encontram amo.
A vida em perfeição com plenitude Remoça no teu canto em juventude Amando-te demais, vou amiúde
Na busca sertaneja por açude Assim como é preciso ter saúde Amar é sempre um gesto de atitude!
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Caminho pela vida, simplesmente, Na semi-morta luz de uma esperança Aguardo em fantasia a nova dança Que um dia prometida, qual demente
Escapa entre meus dedos, novamente. Guardando o que já fui, leda lembrança Quem dera se eu pudesse ser criança Recuperar a vida totalmente.
Porém um tédio imenso, uma tristeza Deitando em minha cama, põe a mesa Deixando uma vontade de morrer.
Quem teve uma alegria, pelo menos, Recorda de outros dias mais amenos, Numa ânsia de sonhar e de viver...
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Caminho pelas ruas do passado... Meu lago placidez, já se secou. Meu mundo sem vergonhas, destroçado, Mostrando que quem vinha já passou.
Recebo, da saudade esse recado: Esqueça nessa vida quem te amou... Não posso conviver com tal pecado, As brasas dos seus olhos me queimou...
Viver é percorrer imenso tédio. Não posso conceber tanta frieza. Procuro para a dor, falso remédio.
Espero seu amor, eternamente, No vento, procurei a natureza Encontrei triste lago, novamente...
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Caminho pelas ruas lado a lado Com bela estrela viva e deslumbrante, Fazendo de meu canto enamorado O rumo que procuro a cada instante.
Depois de padecer, muito cansado Do tanto que sofri, estar diante Do bem por tanto tempo procurado, A vida se ilumina, radiante.
Na tua companhia não me canso E avanço a noite inteira, dança e festa, Vagando qual cometa as pernas tranço
Inebriado em olhos tão bonitos. Amar-te em mil delírios, o que resta Senão felicidade em doces ritos...
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Caminho pelas ruas sem destino... Os olhos que me vêm me torturam... As noites que não tive me asseguram O resto que sobrou desse menino,
Que as dores tão cruéis em desatino, No verme que passeia; transmudaram A minha morte em vida asseguraram. Onde estará teu olhar? Já me alucino!
Completa a minha cota de tristeza, Nas ruas que caminho, sem beleza, A certeza absoluta deste nada,
Que me acompanhará eternamente... O tempo vai passando. Eu, de repente, Sentado aqui - sozinho- na calçada...
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Caminho pelas ruas sem ninguém Apenas a saudade é companheira O frio da lembrança quando vem Deixando para trás qualquer bandeira,
Aguardo em desespero por alguém Que trague uma esperança costumeira, Mas olho para o espelho e nada tem Nem mesmo uma palavra corriqueira
Que fale de um amor ou da amizade Que mostre uma alegria em meu caminho, Vivendo tão somente sem carinho
Eu perco meu destino e liberdade, No peito uma ilusão em desalinho Repete este estribilho: uma saudade!
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Caminho pelas trevas mais obscuras Em busca do clarão que me negaste. Vivendo nessas tramas da loucura Aos poucos percebendo tal desgaste.
Não minto sobre os medos que inda tenho, São tantos que não cabem num poema. Porém a cada dia sempre venho Mudando lentamente um velho lema...
A timidez que impede que eu reclame À lua tanto brilho que desejo, Por vezes tanto fogo que me inflame Espero e não consigo, nem um beijo...
É fácil compreender por que reclamo, Que faço deste amor se não te chamo?
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Caminho por estrelas quando vejo Os olhos divinais que tanto quis. Sabendo que vertido meu desejo Na boca que me fez ser tão feliz...
Montanhas escaladas nos mistérios Das noites que passamos acordados, Amores envolvidos sem critérios Demonstram velhos sonhos decorados...
Amada que me trouxe liberdade Das fontes que percebo inigualáveis, Vasculho pelos becos da cidade Os olhos divinais inalcançáveis...
Divinos sentimentos são capazes De penetrar amores mais vorazes...
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Caminho quando traz tanta aspereza Que impede a mais tranqüila caminhada, Moldado nos teares da incerteza Não deixam nesta vida quase nada.
Quem sabe, num momento de beleza A vida se mostrando transformada Com toda uma alegria e com leveza Ressurja em esperança, qual florada
Que traz a primavera em nossos olhos Colhendo as alegrias quase em molhos Deixando uma amargura para trás.
Assim, querida amiga, na verdade, Se a vida é feita em paz, viva amizade, Talvez até sonhar seja capaz...
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Caminho que me leva à sedução Meu canto é lírico, eu bem sei, mas tento Usando da palavra como ungüento Focar na fantasia esta emoção.
Por tantas vezes tão somente o não Tomava o meu destino, sofrimento, E quando escuto a tua voz então Amor vai entranhando o pensamento.
A marca do teu beijo em minha boca A força deste amor que já nos toca Permite uma alegria sem limite.
Tristeza perde uma razão de ser Enquanto vejo em nosso amor prazer Estrela sensual não mais evite...
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Caminho que nos leva, todo de ouro, Aonde as esperanças já florescem Os sonhos e desejos sempre crescem Tomando nossa vida em tanto louro.
Tu és, neste caminho, o meu tesouro; Teus versos carinhosos enobrecem Amor que se faz fonte, nascedouro De um tempo divinal que luzes tecem.
Tomado por teus passos, caminhando Em trêmulas vontades, te tocando Sorvendo em tua boca um doce vinho.
Amor que se espalhasse pela Terra Cessaria com toda estupidez da guerra Trocando estes obuses por carinho...
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Caminho Santiago, Compostela, Nas rotas dos romeiros Juazeiro. Nos raios deste sol, ventos e vela. No mundo dos migrantes, um luzeiro...
Nas rezas nas oradas, na capela, Amor que se derrama verdadeiro. Esperança que sangra se revela, No pátio deste mundo sorrateiro...
Aparecida traz seu santuário, Os homens agradecem, procissão... Nas rias das urgências estuário...
No medo se comprova a devoção. As tristezas guardadas num armário, Esperança acalenta um coração...
88
Caminho sob a Lua de São Jorge Bebendo cada rastro que deixaste Saudade vai enchendo meu alforje Lágrima com sorrisos, num contraste
Fazendo da esperança um alimento Minha alma numa espreita, de tocaia Aguarda que tu chegues num momento O vento levantando a tua saia...
Jamais te deixarei, esteja certa Por mais que sejam duros os caminhos. Porteira da ilusão pra sempre aberta Teu cheiro prometendo mais carinhos
O prumo desalinha, não desisto. Enquanto houver amor, mais eu resisto...
89
Caminho sobre as mágoas que carrego, De tempos que não foram mais felizes. Amor que em tanto amor sempre navego, Mostrando meu futuro sem deslizes.
Não posso permitir a despedida, Seria tão cruel com quem deseja Viver o que se resta duma vida Na brisa em que me amanso e que me areja...
Pois saibas, meu amor; tão obstinado, Deseja teu amor todos os dias. Amor quando te vejo, sou guiado Por lindas, delicadas; melodias...
Amor que reproduz todo o meu céu, Na boca destilando vinho e mel...
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Caminho sobre urtigas, urze, erica... Meus passos se perdendo neste pasto. Fulvos, os meus desejos, vida rica, Nos peitos delirantes, sonho casto...
Não posso nem pedir, mas sei que fica O gosto da saudade, amor bem gasto As luvas dos meus sonhos, sei pelica, Nos versos, minha vida já contrasto...
Nas pedras, corredeiras, seixo e lodo... Os caules dos arbustos espinhosos; Pairando sobre mim, um triste engodo...
Nas fontes exauridas, mato a sede... Perfumes que pensei ter; olorosos, Meu sonho? Estar deitado em uma rede...
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Caminhos doloridos, percorrera Aquele que buscara rara luz. Nas pedras encontradas; percebera, Que a vida maltratando reproduz As urzes nos destinos. Toda fera Ao mesmo tempo assusta e já seduz Princesa disfarçada na quimera Que mostra num sorriso, a dura cruz. Da mesma forma amor que fundo toca Rasgando a minha pele, não permite Que tenha uma alegria que se enfoca No sonho que falseio p’ra mim mesmo. Não ouço nem sequer sei quem admite Que amar é como andar bem junto e a esmo...
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Caminhos em loucura percorridos Seguindo esta jangada mar adentro, Cervejas e prazeres embebidos, Temperos em dendê mel e coentro
No centro do cenário a moça nua, Rodando sobre a mesa dos meus sonhos, O corpo ensolarado, agora sua Encantos entre cantos tão risonhos.
Na praia, areia, gozos de sereia Acendendo a fogueira no lual, O fogo do desejo a lua ateia Andança nesta dança sensual.
Balançando os seus seios e cabelos, Das coxas a promessa de novelos...
93
Caminhos mais floridos te desejo Embora tanto espinho nos caminhos. Na sorte que te quero e que prevejo As flores se misturam com espinhos.
O céu que traz o sol, nos dá trovejo, Às vezes no inimigo bons carinhos, Na boca que não quero, tanto beijo; Na que mais que necessito, os escarninhos...
A vida é mesmo assim, amada dor. É flor, espinho e pedras, solidão. No frio valoriza-se o calor.
Do medo é que se mostra uma coragem, A liberdade nasce em podridão, Na mão que nos açoita, nasce o pajem...
94
Caminhos que nos levem mundo afora Além destas notícias dos jornais. As dores e maldades jogo fora O mundo se mostrando muito mais Que toda a sensação que tenho agora, Do medo que nos toma e mata a paz.
Passando pelos mares, ilhas, rios Ardendo nas queimadas da ilusão. Tocando nestes nervos, olhos, fios Dizendo da amizade e do perdão. Povôo os corações que sei vazios, Com todos os sentidos da emoção.
Os passos prometidos, liberdade, Os laços bem mais firmes da amizade.
95
Caminhos que percorro em lágrimas marcado Deixando que se aflore a dor e o sofrimento. O medo de viver, há tempos entranhado, Explode vez em quando e invade o pensamento.
No verso que hoje invento, um derradeiro brado. A dor da solidão no peito toma assento Matando o que pensara, um dia, no passado Ser da alegria plena, o forte e belo vento.
Encharco-me do vinho amargo, avinagrando, O tempo não ignora e segue deformando Imagem refletida e agônica, num lago.
Amor amortalhado, imensa distorção, Na quase conseguida, estúpida ilusão, No espelho da água, a morte, enfim faz seu afago...
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Caminhos que seguimos mais unidos São largos sem ter pedras ou espinhos. Os ventos da esperança são sentidos Batendo nas janelas, abrem ninhos.
Os pós destas estradas; revolvidos, Polvilham tais angústias nos sozinhos, Porém quem tem os sonhos divididos Recebem tão somente bons carinhos.
Os cardos arrancados, urzes, pedras Nas mãos do amor; querida, eu sei não medras E vences qualquer muro, vai liberta.
Palavra que encontrei pra traduzir O bem que tantas vezes vi surgir, Felicidade assim, em alma aberta.
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Caminhos que senti profusamente Em várias cercanias que eu trilhava. Vestido deste sol tão inclemente Por certo em cada passo mais suava A mão já tão cansada quão tremente Carinho em outra mão bem sei, buscava.
Tropeça, cai, machuca, mas se ri E mostra em gargalhadas ser matreira Depois que novo rumo, assim, perdi A mão que desejei tão companheira Encontro, finalmente por aqui Depois de vasculhar a terra inteira;
Nas ânsias por amor bem mais sincero Encontro em ti, querida, o que mais quero...
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Caminhos tão diversos que percorro Demonstram quanto a vida vale a pena. Enquanto a solidão ao longe acena Nos braços de quem amo, eu me socorro.
Depois de cada vale encontro um morro E após um outro vale toma a cena Se alma for inteira e não pequena A vida traz o frio e mostra o gorro.
Assim entre os espinhos e as floradas, Estrelas tão distantes alcançadas E o verso me servindo como alento.
No eterno vai e vem, ondas do mar, Aprendo a cada dia, mais amar, Libertando afinal meu pensamento...
99
Caminhos tortuosos enfrentamos, Neste desejo simples, mas audaz. Dizer que simplesmente nos amamos, Talvez sangrar a dor que a vida traz.
Nos versos onde em sonho nos beijamos Com fúria e com ternura tão voraz Mas saiba que no amor nos encontramos Um sentimento vivo, manso, em paz...
Se sinto tua falta a cada dia, Espero tua voz me acalentando, Tua presença em forma de alegria
Denota quanto bem por ti já tenho. Por isso é que aos poucos digo, venho Neste crescendo raro, estou te amando... Marcos Loures
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Camões em seus sonetos qual Vinícius Faziam do Amor, motes perfeitos, Às vezes verdadeiros ou fictícios, Porém por quase todos, bem aceitos
Amar e ter coragem de assumir Num tempo em que a discórdia já domina, Talvez garantirá melhor porvir, Jamais deixe que seque a fonte, a mina...
Por mais que a vida mostre-se macabra, Fomente esta emoção, nada ela custa. O peito ao deus erótico, pois, abra Não creio ter o Amor, medida justa.
“Amar sem ter medidas”, é saber Olhando para Deus, O conceber...
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