
Sou não sendo aquilo que sou
Data 30/11/2010 19:03:41 | Tópico: Poemas
| Sou carinho despenteado, rubor da tua pele, áurea de felicidade e carisma de idoneidade em traço que não gele um clamor descontrolado.
Sou beijo despoletado, remetido à boca cheia, em sentido figurado. Preso à tua ameia… o veneno que incendeia o teu retrato idolatrado.
Sou o sentido que te alheia e te cobre noutra remessa, na boca que te nomeia actriz da minha peça, punhado de sensações e partícula de multidões.
Sou o abraço que te afaga, o sorriso que não contesta, o ser que te não larga e o sinal em tua testa. Por vezes a trave mestra e outras a matéria que resta.
Sou a envolvência do sentido, actor em tua festa, a fuga ao prurido e o amor que te atesta, o conto do fiel bandido que amiúde se detesta.
Sou a vértebra do ciúme em estrutura cambiante. No inverno o teu lume em prisma ofegante. Também o teu queixume num verão assaz brilhante.
Sou a réstia da bonança, degustação do amor, na paixão a aliança e o clamor pleno da dor. O olhar de uma criança o nosso supremo valor.
Sou suspiro de uma maleita, a coragem que de ti desperta, pela nossa paragem estreita nesta caminhada incerta. O charme que se aceita no dealbar da descoberta.
Sou o simples pressuposto, miragem ou acalento, de semblante bem disposto e outras menos atento, que não foge com o rosto a simples descontentamento.
Sou o simples batimento de um coração já cansado, que omite o lamento pelo qual é fustigado. Que tem o maior provento no sentir-se sempre amado.
Sou a mescla consentida de uma qualquer existência, por vezes muito apetecida outras tida por paciência, que de forma esbatida define qualquer vivência.
Sou humana semelhança, pretexto de decisão em valiosa pujança, ou simples contradição, que na plena exactidão acentua a sua esperança.
Sou raio de humildade, fogosidade perdida, rastreio da capacidade que alimenta a nossa vida. Um misto de verdade numa mentira contida.
Sou homem e tu mulher, conflito de gerações, na razão que se tiver sem desculpas e perdões. A fraternidade que se quiser em quaisquer ocasiões.
Sou horizonte profundo, rio sem ter caudal. Um habitante do mundo no país de Portugal, sujeito a moribundo deste aperto universal.
António MR Martins
2010.11.30
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