
MEUS SONETOS VOLUME 036
Data 30/11/2010 14:51:02 | Tópico: Sonetos
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Atemporais esgarces da ventura Esfoliando aos poucos ilusões. Espoliar os sonhos, direções, Mergulho a resvalar a sepultura.
O resto do que fui, o tempo apura, E molda as velhas roupas e porões. Tomado por anzóis, guinchos e arpões, A noite que virá; talvez escura.
Olhando para trás quase não vejo Senão a sombra amarga de um desejo Comprado nas esquinas e nos becos.
Assolam-me atrozes ventanias Que em meio às procissões de velharias Mecônios conspurcando meus jalecos...
2
Atendo ao teu chamado para dança, Adoro o tango, dengo, mesmo a valsa, Dançando do meu lado, assim descalça, A noite sem sentir, depressa avança.
E mostra quanto é boa esta aliança Que é jóia verdadeira, nunca falsa, O brilho dos teus olhos se realça Lembrando o belo olhar de uma criança
Que sabe ser feliz, amada minha, E faz ser também todos que conhece, Meu peito no teu rosto já se aninha
E faz de toda dança, a fantasia. Quem dança com amor, faz uma prece Que encharca todo o mundo de alegria...
3
Atendo com volúpia ao teu chamado E vou mais que depressa descobrir Teu corpo tão cheiroso e delicado E louco de vontades, impedir
Que faças outro gesto tresloucado, Pois quero novamente repetir Amor que a gente fez, louco e safado A noite inteira até o sol surgir...
Pois sei que estás sedenta e eu também... Rever tua nudez tão deslumbrante Bebendo desta fonte delirante
Que em bela inundação, comigo vem... Vontade de sentir de novo o cheiro Que vem deste teu corpo, amor trigueiro...
4
Atento a cada gesto e sem perguntas Eu passo a minha vida, um eremita Diverso de pessoas que andam juntas Minha alma, uma presença a mais evita;
Andando pelas ruas, vou sozinho Nem mesmo a lua vem por companhia Se quem durante a vida não quis ninho, Mercê da solidão, não fantasia.
Apenas vaga mundos sem destino, Bebendo das sarjetas da esperança. Se às vezes um sorriso; inda declino, Talvez seja por simples temperança.
Quem sabe, no final da minha história A lua venha, mesmo merencória...
5
Atento às mais diversas propagandas Comprando alguma inútil novidade, A mão que, pela tela, a casa invade E quando vês, no fim, em nada mandas.
Nem mesmo os teus desejos mais comandas, Deixando na poltrona a tal vontade, Programa que de tolo, nos enfade De novas bugigangas, as quitandas.
Depois de certo tempo nalgum canto Esquecida, jogada em desencanto Aquela “divinal” quinquilharia
Que tanto desejavas. Mal nutrida Carcaça desprezada, concebida Pra te enganar em fútil serventia...
6
Aterroradamente me perturbas, As costas vergalhadas, meu presente... Nas chibatas rosáceas críveis turbas Não deixam nem espera por semente.
Solitária demente te masturbas, Na noite mais vazia que pressente. Mascaras as senzalas velhas tubas. Distâncias são crepúsculos na lente...
Me castras esses astros que vergasto Meu ópio se fui sépio, nada fica O símbolo pedido meu repasto.
Aportes de sutis malabarismos... Revigoro solventes, pele estica Estio nos teus trilhos, meus abismos!
7
Atordoado, eu sigo a minha sanha Querendo ser feliz, mas isso é mito. Às vezes sem sentido me desdito E a dor de uma saudade, leda, entranha.
O verso que elaboro, vai aflito O tempo se passando em noite estranha Arrasta-se este dia no infinito E a solidão se mostra então tamanha...
Minha alma sem abrigo; má, bastarda, Nas ânsias de um encanto que já tarda Já farta não encontra a claridade.
Quem dera se na boca que cuspia, Sorriso transparente de alegria Viesse no formato de amizade...
8
Atormentando amor com versos vários, Diversos do que sempre me propus, Recebo destes ventos temerários O gosto mais amargo que supus.
Fechando o sofrimento em calendários Passados do que amor que agora pus. Invado teus desejos, não templários Bebendo de teu corpo farta luz...
Se faço com meu gesto teu ciúme, Me esparso e vou disperso no meu canto. Roubando do jardim, todo o perfume
Matando a sensação de tua ausência, Amor sentindo em ti, total encanto, Já sabe e necessita de premência...
9
Atormentado, sigo noite afora, Encontro na sarjeta um bom abrigo, Não tendo quem amei aqui comigo Vontade de partir, e de ir embora...
Até a poesia, agora chora, Distante da ilusão que ora persigo, Eu tento prosseguir, mas não consigo No desabrigo, a sombra me decora.
E aflora esta terrível solidão, Gerada pela dor da negação; Já não suportarei ser tão sozinho,
Numa árida paisagem, nada tendo, O dia que sonhara se perdendo Nas curvas insolentes do caminho...
10
Atos e relatos, lagos somos, Bebendo do luar extasiante. No quanto nos unimos, mesmos gomos O bem que se propaga ao mesmo instante.
Mesmo em dicotomia vamos juntos. Semblantes e sentidos confluentes. Nos átomos atamos tais conjuntos Na confraria rara convergentes.
A par do que somamos, sendo assim Vasculho cada ponto de partida Chegando finalmente vou a mim Tocando claramente a tua vida.
E vivas eu espalho em louvação Ao bem que nos traduz nossa união.
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Atrás da minha porta? Eterno não, O vento da esperança não me alcança Enquanto a solidão jamais descansa Minha alma não encontra solução.
Vontade de sentir em redenção A vida que sonhei; sincera e mansa. Voltar a ser de novo uma criança Que traz dentro do peito uma ilusão...
Brinquedos espalhados nas calçadas Jardins entre mil flores, primavera... Os restos de emoção que inda carrego.
Manhãs entre alegrias demonstradas Nos olhos de quem quis e não me espera, À falsa fantasia eu já me apego...
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Atrás desta morena e sua saia Prossigo sem pensar no que passei, Agora que o caminho eu encontrei, Já posso vislumbrar divina praia.
Que a sorte benfazeja nunca traia Mudando novamente o que tracei, Não quero ser vassalo nem ser rei Apenas que a saudade se distraia
E volte pra bem longe e nunca mais Refaça dos meus braços o seu cais, Deixando o coração assim miúdo.
Sabendo que meu norte tem teu nome, Com todo este prazer matando a fome O rumo desta vida; jamais mudo.
13
Através da janela o minuano Dizendo deste amor que já não tenho. Agora se completa mais um ano, A vida fecha aos poucos o meu cenho.
Do amor somente a dor e o desengano, Por mais que uma esperança faça empenho, Outono tão terrível quase insano, E o frio onde sozinho eu já me embrenho.
Saudades de quem foi pra nunca mais, Apenas a lembrança inda me aquece, Recordo de teus lábios sensuais
Volúpias e o descanso do depois. Paisagem invernal, a noite tece, Fantasmas que me rondam. De nós dois...
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Através dessas formas, das visões Que sempre adivinhava meu desejo; Palpitam sem sentido corações Num turbilhão divino onde te vejo.
Surgiste neste céu, estrela amada; Rolando qual cometa, confundindo. A noite sem te ter, não vale nada, Aos poucos teu amor me decidindo.
Rasgando este universo, alma infinita, Queimando nestas sombras, meu mormaço. De formas delicadas; tão bonita, Domina certamente cada espaço.
Aspiro teu amor a cada dia, A cada pensamento e poesia!
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Atravessamos vales, cordilheiras Unindo nossos sonhos, força e gozo, Noturnas travessias, costumeiras Trazendo um novo canto mavioso.
Esperanças desfraldam as bandeiras Embora tantas vezes belicoso O passo deve ser silencioso Senão pode acordar as feiticeiras.
Vestidas de canhão e de fuzil, Numa tocaia algoz, nada gentil, Ou quem sabe atiçando estas hienas
Que atacam sempre em bando e nunca sós, Disfarçadas em ricos paletós, Fazendo nos Congressos tristes cenas...
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Atravessando as ruas da ilusão Bebendo nos botecos da esperança A gente vai fingindo enquanto trança Os pés nas várias tendas da paixão.
Nos becos sem saída da emoção Perfuram nosso peito, cada lança Que nada se fazendo em temperança Permite que se entenda a sedução.
Olhando de soslaio; assim reparo Na moça que rebola sobre a mesa, Sentindo o teu perfume apuro o faro
Preparo logo o bote sobre a presa, Depois de tanto tempo em desamparo, À boca sequiosa, a sobremesa...
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Atravessando os ermos do caminho Na busca sem ter fim pela esperança, Quantas vezes, sentindo ser sozinho, Apenas com teu nome na lembrança...
Nos vergéis e nas sendas mais floridas, Sabia que podia descansar; De resto, essas tristezas escondidas, Num momento, queriam aflorar.
O canto que tentara não se ouvia, Encanto divinal de amor eterno. Outro verso de amor, amor fingia, A vida parecendo com inferno.
Achando tão somente dor, quimera. A rosa me salvou a primavera!
19
Atravessando trevas nebulosas, Em busca da amplidão do teu carinho. As mãos que se perfuram, olorosas, Lancinantes desejos pedem ninho.
Angústia dos jardins que perdem rosas, Embalde me apeguei ao teu espinho... Nos mares das volúpias tenebrosas, Um canto que se cala, passarinho...
Neste atroz pesadelo, latejante, Mistura das tremendas fantasias. Represo meus temores, arquejante.
Não posso receber a vida amarga Como quem saboreia as ambrosias; Amor que me devora: afaga e larga....
20
Atravessei, inteiro o Ceará Numa procura insana por aquela Que um dia imaginei encontrar lá Guiado por meu sonho feito estrela.
O brilho de seus olhos levará Pois sei que a lua mostra-se mais bela Dourando o meu caminho que estará Aonde amor imenso se revela.
Passando por Sobral e Juazeiro Depois de ter no Crato uma notícia Que o amor mais delicado e verdadeiro
Eu acharei, enfim em Fortaleza. E assim em noite clara e mais propícia Eu encontrei você, minha princesa...
21
Atravesso no olhar, mares distantes Do cais que preparou nosso desejo. Amar não é saber o que foi antes Nada do que virá, eu sei, prevejo... Apenas em teus olhos diamantes Sentindo rebrilhar um azulejo Viajo dentro em ti, tantos instantes.. Tocado como fosse por um beijo. Nos precipícios todos da paixão Invento minhas asas, caio em mar. Atraído, vencido, uma ilusão? Apenas sei das asas e dos medos. Apenas de teus seios que, ao tocar; Me envolvendo, aumentando teus segredos...
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Atrelas teus desejos minha estrela, Avanças tão frenéticas vontades, Mulher, flor divinal, quero contê-la No peito que se mostra em firmes grades.
Por mais que dos meus sonhos desagrades, Um dia ainda penso convencê-la Que digo nos meus versos as verdades Sonhando com manhã voraz e bela.
Audaciosamente eu te procuro, Vasculho nos meus poros, meus sentidos. Clareias num segundo o céu escuro
Incandescentes lumes já me alcançam, Em lava teus fulgores convertidos, Depois das erupções, sempre me amansam...
23
Atrelo-me aos fantásticos domínios, Aonde tu espalhas tal beleza. Seguindo com torpor, raros fascínios, Pretendo ser somente tua presa.
Jamais suportarei uma arrogância Tampouco esta ganância que se expõe. O amor quando liberto, em elegância, Um tempo benfazejo, em paz, compõe.
Seletas companhias, luas nossas, Rastreio cada passo que tu dás, Jamais mergulharei em torpes fossas, Com toda paciência, mesmo audaz,
Escrevo meu futuro com as mãos Que possam cultivar benignos grãos...
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Atrozes sensações de desalento Tomaram minha vida em triste dia, Uma alma se encontrando tão sombria, Soluça merencória em um lamento.
Batendo na janela um frio vento, Trazendo sem ter dó, dura agonia, Matando pouco a pouco a fantasia, Um sonho que me salve, eu juro, tento...
Depois de tantas horas doloridas, Vagando sem destino em noite triste. As hordas de quimeras redivivas,
Percebo a claridade em nossas vidas, Lembrando, minha amiga, que inda existe As mãos de uma amizade, sempre altivas...
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Audaz, o caranguejo me consome, E bebe do meu sangue, cada gota. A vida pouco a pouco já se esgota O sonho que eu tivera, ledo, some.
O resto de esperança se carcome, Perdido sem ter rumo, busco a rota, Entranho uma esperança em fria grota Porém este crustáceo, tudo come.
Arrancando os meus olhos, sem disfarces, Enquanto me acarinhas logo esgarces Os restos que amanhã vão pelo esgoto.
Na boca que eu sonhei, a cusparada, De tudo o que eu desejo sobra o nada, O coração vazio, podre e roto...
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Augusta sensação ungindo a vida, Percebo esta alegria que me trazes, Escondo sob a manga vários ases, Quem sabe vai à luta e não duvida
Da força que se estampa desde as bases, Calcando o meu rincão, terra batida, Mandingas e feitiços, tu desfazes, Preparando talvez, uma saída...
Invejo-te deveras; nunca fui Aquele a quem a paz se fez constante, Arrebentando tudo num rompante
O tempo vai aos trancos, já não flui. Mereço alguma chance? Sei que não. Preparo a cada dia, um alçapão...
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Augusto; tirando ouro do sepulcro Tornando assim jazigo uma jazida Aonde a poesia tem seu fulcro A morte sobrepõe-se além da vida.
Nas asas dos seus anjos ases vejo, Funérea maravilha, podridão. No esgoto da existência, a cada ensejo Pantera disfarçada, solidão...
Males íntimos da alma de um poeta, Moldando nos escombros a beleza. Magia tumular que se completa Servida como um verme posto à mesa.
O bardo em sua verve traz um odre De um vinho sem igual, amargo e podre...
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Augustos, velhos anjos já morriam Deixando em cada campa uma ironia Sem asas, tais velhacos já sabiam Que a noite prostituta não viria.
Sepulcros e mortalhas se faziam De rendas e cetins, falsa alegria. Em cada cusparada devolviam Tudo que um falso beijo inda trazia.
Solilóquio qual louco eu perfumava Em podres crisantemos, demos, anjos. Orgasmos se expeliam como lava
Relentos eram simples companhias Amores se esbaldavam liras, banjos Mostrando tanto bem que me querias...
29
Auréolas vorazes me devoram... Nas sacras escrituras são falsárias. As pétalas felizes me decoram Nas ilhas que fugi, velhas Canárias
Os bares que embarquei frágeis defloram As luas que portei de formas várias Delírios que sorvi, tão cedo auguram... Nas lutas que ganhei podres sectárias
Arresto e capuccino são meus cordéis As marcas que deixei são menestréis A vida que passei, vem de viés
Não sei por que cortei, as mãos e pés. Nas horas que sorteio peço dez... Nos navios vou lavando os teus convés!
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Aurora em tal beleza desfraldada Em ondas cristalinas, tantos brilhos, Nos raios deste sol vai estampada O rumo dos meus sonhos, tantos trilhos...
As plantas, os rochedos, a montanha. Recebem tal clarão que tanto encanta. As formas tão suaves, vento assanha As folhas destas matas. Manso canta.
Ao fundo deste quadro tão sensível, Os olhos da morena que sonhara. Aurora se pintando, mais incrível, Deslumbra a natureza, tela rara...
Em meio a tanta luz, se sobressai Tua beleza, amada, em sonho, esvai...
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Aurora se mostrando mais inteira Em vários brilhos, tantos quanto ofuscam. Meus versos dediquei-te a vida inteira, Espaços magistrais, eles te buscam...
Eu quero uma sonata que amor fale, No cálice divino dos teus braços... Não deixe que este amor nunca se cale, E venha descansar, te dou abraços...
Em versos mais sublimes, quero ter, O gosto de te ver bem junto a mim.. Sabendo que em teus braços vou morrer, Eu quero teu amor até no fim...
E sinto que serei bem mais feliz Vivendo em nossa vida o que bem quis...
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Aurora terminando, a vida passa... A morte desafia e me persegue... Quem fora caçador, se encontra caça, Na fonte que se seca, vou entregue...
A vida se cansando, sangra, lassa... Não haverá ninguém que me carregue, Nos templos divinais, já se esfumaça Qualquer que seja o sonho em que se apegue...
Aurora derradeira, vislumbrada, Não deixe meus retalhos no caminho... A vida que passei se fez marcada.
Sem lume vai secando meu jardim... O tempo cruel fera traz sozinho O mundo que remando, morre em mim...
33
Auroras que imagino, vagos lumes, Na vagas que se quebram no meu mar Trazendo no buquê tantos perfumes; Das vagas ilusões me fiz amar.
No vinho com buquê encantador, Inebriado sinto teu aroma, O cheiro que perfaz este vapor No mundo sem destino, já se soma.
Patéticos, meus versos te procuram, Parece que nasceste deste sonho, No rosto tão suave se emolduram Formando teu semblante mais risonho.
Auroras que me trazem novo brilho Indicam que o amor sempre é meu trilho...
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Ausculto a mansa voz do coração Batendo em disparada, taquicárdico. Volúpia se transforma em sedução Deixando bem um frio antártico.
O meu olhar se encontra, assim, catártico Ao ver em tal beleza, esta emoção, Meu peito se mostrando quase enfártico, Já transborda em divina tentação.
Viver cada momento em plenitude, Qual fora tolamente um ser lunático. Revejo junto a ti a juventude,
Meu canto se tornando mais temático, Exprime em cada verso, em atitude Amor que é para mim, quase emblemático...
35
Ausência de calor e de carinho, Somando nossos nadas, não dá nada, Serpenteando a dor em cada estrada Aguardo o que talvez entranhe o ninho.
A noite se esvaindo de mansinho, Esgota logo cedo uma alvorada, Na força do chicote vai lanhada A pele de quem vive tão sozinho.
A cada nova farpa deste arame, Eu sinto a minha vida vesga, infame. Estrábico desejo em que se apegue
O sonho de um estúpido animal De ter, em comunhão fenomenal, Um barco que outro mar inda navegue.
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Ausência dolorosa e tão sentida, Se fez nestes momentos mais tristonhos. Querendo te encontrar em vão, querida, Restaram-me somente ledos sonhos. Teu cheiro se espalhando em minha vida Promessa de outros dias mais risonhos....
Agora que percebo, que chegaste A cama se aquecendo devagar Tramando uma vontade em que se gaste Toda energia em fogo a nos queimar. Percebo que te tendo, que contraste! Tua distância pode me matar...
Vem logo e traz depressa em teu calor, O sol que nos aquece, meu amor...
37
Ausência vai batendo em minha porta, Eu sei que só terei mais alguns meses, E neles desejando muitas vezes, Porém a ilusão se finda, morta.
Não posso me enganar, nem deveria, O que resta de mim é muito pouco, E mesmo que estivesse insano, louco, Jamais conhecerei tanta alegria.
Dedos amarelados por cigarros, Tomado pelo câncer, sem defesas, Ainda que me restem fortalezas,
Sinais da doença nos escarros, Sanguíneas libações saem de mim: Não resta qualquer dúvida: é meu fim!
38
Ausência vai tomando o coração, Distante de teus braços, meu amor. O vento se tornando um furacão, O céu perdendo brilho, mata a cor.
Apenas tão somente uma ilusão Deixando o meu canteiro já sem flor, Quem teve nesta vida uma paixão Conhece plenamente gozo e dor.
Angústia dominando toda a cena, A noite que eu queria tão amena, Espalha esta tristeza sobre mim.
Quem dera se eu pudesse te tocar, Ouvir em tua voz, distante mar, Cevar em alegrias, meu jardim...
39
Ausente de mim mesmo; cismo à toa, À tona em agonia vêem meus ermos, Vontade que inda resta diz que sermos Seria o que; talvez; sonho ressoa.
O barco que à deriva perde a proa, A mente vaga em busca de outros termos, Dizendo dos meus versos, ora enfermos, E ao longe, a fantasia nada ecoa.
Se eu sou a merencória madrugada, Minha alma, um albatroz procura pouso, Na cama de um faquir tenho repouso,
Palavra a cada frase degradada, Arrancando os meus olhos; morte lenta, Enquanto este naufrágio, em paz, me alenta...
40
Ausente de teus olhos, céu escuro, Refém do quase tanto que não tive, Aonde em que planeta vão estive, Só sei que, tolamente eu te procuro.
Açudes de ilusão em solo duro Semente mal lavrada já não vive, Por mais que a vida amarga tanto prive Insólita vontade; inda perduro.
Palhaço que buscando um picadeiro Esmera-se em estúpida esperança. Sabendo ser tal ato, o derradeiro,
A peça chega ao fim sem solução. O verso que pensara de aliança Agora encontra rima em solidão...
41
Ausente do calor de teus abraços, Apenas a esperança do meu lado. Tristeza que acompanha aqui, meus passos, O vento feito inverno vem gelado. Sentir o coração descompassado, Deitando no teu colo, sonhos lassos...
Saudade de teus lábios, teu sorriso, Estar junto contigo a cada instante, Tu foste sem sequer mandar aviso, A vida se tornou tão vacilante. Verão tomado em gelos, e granizo. Deixando a primavera tão distante...
Porém o manso orvalho já anuncia A terna mansidão de um novo dia.
42
Ausente dos caminhos da ventura, Distante de teus olhos, sofrimento. Somente amor profundo traz a cura, Apascentando assim, todo tormento.
Percebo o quanto Deus faz em ternura, Mudando a direção de cada vento, Uma alma que se mostre clara e pura, Permite ao sofredor, candura e alento.
Não te sinta tão só; amiga minha, A mão do meu Senhor já te encaminha Aos mais suaves prados, com certeza.
Louvando o Criador que nos ensina O Amor em luz tão mansa e cristalina, Ajuda a conhecer rara beleza...
43
Avalanche de sonhos que governa O caminho desditoso de um poeta. Enquanto a fantasia assim hiberna, Eu perco a direção, o rumo, a meta...
Quem dera a juventude fosse eterna, A força se mostrando tão dileta, Na fonte de teus olhos, bela e terna Minha alma tão sedenta se completa.
Marcos de momentos mais felizes, Deixando no meu peito as cicatrizes Que o tempo inexorável, destruiu.
O templo dos meus sonhos, ilusões, Enferrujando; o tempo, os seus portões, Aos poucos, entre as trevas, já ruiu...
44
Avalizando os sonhos mais audazes Palavras e sentidos misturamos, Querência sem igual, nós desfrutamos Em meio a tantos versos, rimas, frases
O amor que nos transporta em várias fases Além do que sentimos ou pensamos Por vezes em delírios embarcamos, Mas somos tão felizes quão vorazes.
Erguendo os nossos olhos em conjunto A vida não permite um outro assunto Senão farta loucura em riso franco.
Bebendo cada gota deste sonho, Meu barco nos teus mares; logo ponho, E o dia nascerá tão terno e branco...
45
Avanço a noite imensa ao lado de quem amo, teu nome já reclamo, e nele a recompensa
do amor mais do que pensa a quem sonhando eu chamo, sem ser cativo ou amo, em noite mansa e densa.
Vibremos nesta dança que nunca cansará atando em aliança
o sol que brilhará, amar, uma esperança que eu quero agora e já
46
Avanço com meus sonhos, a manhã Tocado pelos raios deste sol. Ao ver teu corpo nu, beleza grã Intensa claridade em arrebol.
Na tua companhia, amor bendito, Olvido os meus problemas, me liberto, E de soslaio, os seios belos fito, E de uma letargia eu já desperto
Atiças com palavras de malícia, O coração faminto de quem quer Saber deste manjar, rara delícia Imerso no teu corpo de mulher.
O amor que a gente sente, não sacia, Prazeres traduzindo assim: bom dia...
47
Avanço minha mão pelos teus seios E desço até chegar ao Vênus Monte Abrindo úmidos lábios, doce fonte E sugo teu clitóris sem receios.
Estamos dominados por anseios Que fazem do prazer nosso horizonte, A boca é tão somente simples ponte Volúpias e luxúrias, loucos veios.
Na cópula fantástica a promessa Do orgasmo que virá como um vulcão. E devagar, querida sem ter pressa,
Cavalgas com vontade o garanhão Que explode num prazer sensacional E alaga tua gruta divinal...
48
Avanço sobre as pedras e os espinhos, Contigo nada temo, vou em frente. Os olhos que se espalham pelos ninhos Vislumbram tal momento iridescente
Aonde com certeza eu terei O gosto desta boca sobre mim, O amor vem dominando toda a grei, Cevando com carícias o jardim
Aonde percebi bela roseira Que assim perfuma todo este canteiro, Tu és a minha amada companheira, Certeza de um amor mais verdadeiro.
Que seja sempre assim a nossa vida, Jamais admitirei a despedida...
49
Avassalador desejo em que arremeto Meu barco navegando amor profundo. Por vezes, alguns erros que cometo
Eu tento corrigir em um segundo. Mas saiba que eu te quero e te prometo Lutar, se for preciso, contra o mundo...
Aflora esta vontade em cada frase Um vero sentimento soberano. Se sei que nesse amor encontro a base, Jamais cometerei mais outro engano.
Decerto nos teus passos, minha estrada. Deveras tuas mãos tão carinhosas, Serão eternamente perfumadas Trazendo para a vida aroma em rosas...
50
Aventureiro barco em solidão Nos bárbaros caminhos desta via Enfrenta desmedido furacão Com risos e palavras de ironia.
Sem medo e sem fazer u’a previsão Se atira nos desejos todo dia. Após novo naufrágio ou explosão Refaz-se e não aprende, nem procria.
Vivendo corações já se renega E mata em cada cais, o comandante. Do nada que ganhou o nada lega
Apenas os resquícios do naufrágio Tomando o coração a cada instante. No fundo se defende, de tão frágil...
51
Avesso aos delicados rapa-pés, As sedas; não rasguei nem rasgarei, Fazendo da verdade quase lei Eu vejo a vida sempre de viés.
Respeito diferenças, crenças, fés, Não suportando império, mato o rei, Liberto, o Paraíso que criei, Jamais se prenderá; torpes galés.
A porta que cerraste; enfim eu abro, Vislumbro o teu olhar em descalabro, E acendo o candelabro da esperança.
Enquanto estás ao fútil, amarrada, Eu subo destemido; a nova escada, E a chave do futuro,a mão alcança...
52
Avinagrando, enfim, suaves vinhos Desesperança chega e num momento, Por falta de emoções, ledos carinhos Permite um maremoto violento
Causando esta total devastação Secando os meus canteiros, vou desértico. As nuvens retornando, um furacão, Cataclismo que traz fim apoplético.
Estrelas se perdendo, turbilhões, Restando tão somente este vazio, O vento prometido nos tufões Imensos pesadelos hoje eu crio
Desfilo minha angústia pelos ares, Adentro em fantasia, os lupanares...
53
Azar! Durante tanto tempo estive Sob o jugo terrível dos maus fados. A sorte tão ingrata sobrevive Distante dos meus dias já sonhados. Por mais que já pensara noutros dias O vento nunca veio benfazejo. Tentando transformar em fantasias As coisas bem mais simples que desejo. Sorriso de mulher por mim amada, Amigos que perdi, sem perceber... As curvas tão fechadas desta estrada Por mais que são difíceis, quero crer
Que levam no futuro a uma mudança. E a cura de um azar? Uma esperança!
54
Azulejar a sorte de quem ama, Abiscoitar o gozo deste coito O velho pescador jamais afoito, Prepara na tocaia a sua trama.
Detendo em suas mãos constelação Afaga com suprema serventia, O vício só é bom quando vicia Amor não necessita de facão...
O resto é ter decerto sempre calma. A palmatória nunca me ensinou, Apenas o carinho traz colheita.
Acobertando os erros de minha alma O velho sentimento não poupou, A noite entre dois corpos nus se deita...
55
Babando tanta baba, um babador Queria ser além de simples arca, Quem sabe se sonhasse com amor, Seria babador menos babaca.
Faria ao mundo, assim grande favor, Na lama em que se esgota, finca estaca E faz de todo pobre sonhador A carne que devora, achando fraca.
Mal sabe este panaca sem juízo, Que o bom da nossa vida é ser feliz. Apedrejando assim o paraíso
Maltrata quem não sabe ser servil Ao mundo que deseja, e sempre quis, Distante de quem ama. Porco vil...
56
Bacantes caminheiros desta noite, Desnudos sobre a cama, temporais. A língua se fazendo como açoite, Vontade de prazer cada vez mais.
Teu cheiro que se entranha em minha pele Desnudos e suados, sem pudores. Ao fogo desta orgia nos compele, E nus, sacramentamos os amores.
Derramo sobre ti, minhas vontades, Tu abres os caminhos do infinito Sentindo os dedos, lábios, liberdades.
Latejo meu desejo dentro em ti, Até que em explosão de gozo e grito O céu derrama estrelas bem aqui...
57
Back-up que nós fizemos permitiu Lograr um exitoso resultado. Do joio, diferença tão sutil Fazendo deste trigo, abençoado.
As desavenças queimo em algum grill O amor que nós vivemos, ilibado Ouvindo da alegria, canto e brado, Tornado que se entorna em paz, gentil.
Olhando o meu passado, aumento o zoom E vejo que de dois somos só um E tendo esta certeza dentro em mim,
Depois de tudo aquilo que busquei, A vida finalmente diz okay E o céu se torna agora, belo e clean...
58
Bagunça o meu coreto e faz a festa Não deixa mais sobrar nenhum detalhe, Na boca que procura cada entalhe, Promessa de invasão em doce fresta.
De todo o meu juízo nada resta Senão esta vontade que se espalhe O corte tão gostoso que avacalhe O siso que não cabe nem se empresta.
No sal, suor, sangria desatada Fornalha inesquecível, gozo franco. Contigo o fogo pleno não estanco.
Sozinho na verdade não sou nada. Apenas reviver o que senti, Deitando o meu prazer bem junto a ti...
59
Bagunça o meu coreto esta vadia Que quando beija, cospe e vai sorrindo, Se eu peço que me esquente, ela me esfria Se eu quebro a minha cara; diz: - Que lindo!
Um espinho cravado na garganta, Um tapa que estalou na minha face, A sorte quando chega, a vada espanta, E vive se escondendo num disfarce
De meiga donzelinha, moça pura. Quem vê a sua cara de menina, Não imagina a sina que tortura, Que lambe, faz amor, e me domina.
No sim e não disfarço a dura luta, Rainha da sandice, deusa e puta...
60
Bagunce o meu coreto, faça a festa. Seja o que quiser mas não se canse., Da vida sem promessa nada festa Premissa é ser feliz, se quiser dance.
O bom não veio? Dane-se querida! O risco corta? Corra mais depressa Senão a morte alcança e sem saída Não deixa nem motivos para a pressa.
Perceba o dom de estar onde sonhaste Com braços estendidos, cai a noite. Na queda não resolve nem guindaste, A dor de uma saudade vira açoite
Mas tenha uma certeza minha amiga, O mundo vale a festa e vale a briga!
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Bailando a noite inteira já me perco No corpo da morena mais tinhosa. De todos os prazeres eu me cerco E a noite vai sem fim, maravilhosa...
No cálice da boca tão molhada, Teus lábios sequiosos e carnudos. A gente penetrando em madrugada Brindando nossos corpos já desnudos...
A lua na janela nos espia E manda nos seus raios, brilho intenso Contrastes com a tez bela e trigueira.
Num quadro onde esbanjando fantasia Eu guardo na lembrança e sempre penso Na alegria de amar, mais verdadeira...
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Bailando a noite inteira num desejo Que faça nossos corpos se entranharem. No quanto descobrimos tal traquejo Os gozos e os prazeres provocarem
O fogo da paixão que nos consome Deitando em alegria a noite imensa. Matamos da vontade toda a fome Sabendo quanto amor sempre compensa.
Pois somos, do banquete, comensais Que se fartam, deveras em delírios. Os jogos que fazemos, sensuais, Deixando no passado alguns martírios
O teu corpo, um colírio magistral Do amor o meu altar e catedral.
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Bailando nos teus braços, Na noite/ madrugada, Atamos nossos laços Em carta já marcada,
Ocupando os espaços, Não deixamos mais nada, Apenas nossos passos, Na rua, na calçada.
Depois no nosso quarto, Em contraluz, aceso, Mergulho até que farto,
Amor que sei mais teso, Fazendo tal folia Que eu quero, todo dia..
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Bailando nossa sorte em aguardentes Em poços defumados da incerteza. Rasgando minha sina perco os dentes, E sinto que perdi minha leveza.
Mas vejo outros caminhos decadentes Por onde trilharei tua beleza Amada sensação de penitentes Em busca da verdade e da pureza
Negada por quem tem o cadeado Guardando neste cofre uma esperança. Tomando para si destino e fado,
Na velha apologia do pecado. Distante deste AMOR, o velho avança E matando a alegria, nega a dança.
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Bailando sobre mim, a colombina Entorna poesia em fortes gozos, Momentos delirantes, fabulosos, Nos quais a fantasia nos domina...
Um velho pierrô que se fascina Com teus delírios fartos, maviosos, E os bailes desfilando prazerosos Não deixam que se seque a farta mina.
Viagem mal termina e já repetes, Espalhas serpentinas e confetes Tomando este salão velhas marchinhas,
Quem dera mestre sala, a noite inteira Dançando com gentil porta bandeira As festas compartilho, tuas, minhas...
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Bailarina que grácil me alucina Nas curvas generosas se balança; A boca que se mostra me domina, Nos requebros gentis, sensual dança.
A fome dos desejos descortina A noite que tateio nunca avança. A mão que me promete nova sina. Nos cabelos castanhos, laço e trança...
Os dedos já cobertos, finas luvas, Atalhos esquecidos descobertos... Meus olhos derrapando belas curvas.
Os sonhos erotizo e me agasalhas... Nos botões da camisa que, entreabertos, Penetram meus olhares qual navalhas...
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Bailemos sem limite, a noite inteira Que a vida nos permite tal festim. Vencendo esta saudade matadeira, Encontro o que melhor resiste em mim.
Não deixe que esta tarde tão faceira Se perca sem destino sem um fim, Nem mesmo que se perca esta roseira Plantado com carinho no jardim
Dos sonhos onde fomos lavradores, Unindo nossas mãos em bom arado Amor matando o medo do passado,
Refaz em vida belos refletores Deixando a solidão, assim de lado, Trazendo em nosso céu risonhas cores...
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Baladas embaladas para entrega, Nas noites tão charmosas lá de Sampa Nas Raves, nas boates, quem navega Diverte-se querida, assim às pampa.
Enquanto um caipira aqui da roça, Olhando para a moça da janela Prepara o coração, sobe à palhoça E num beijinho doce se revela.
No fundo é tudo igual, amor, gatinha, O jogo só é bom quando bem feito. Amor que em tanto amor, amor aninha Começa num beijinho e vai pro leito,
No mato ou no motel, a estrela brilha, Garanto que é a mesma maravilha...
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Balança esta roseira Põe fogo no quintal, Amiga e companheira, A vida sem igual
Se mostra verdadeira Enfim fenomenal, Na força feiticeira Que faz um carnaval
Em festas e bailados, Em risos e traquejos, Olhando para os lados,
Pressinto tais desejos, Juntando nossos fados, Tomando nossos beijos...
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Balança este coqueiro, morenaça. A gente não se cansa de saber Que o gosto adocicado da cachaça Rodando sem parar me dá prazer.
Dançando assim pelado em plena praça Platéia se masturba, eu posso ver Por mais que teimosia não nos caça Atrás do trio elétrico o poder.
Perigas nesta estrada se sozinha, Te quero sem juízo, toda minha, Fogoso quero sempre esta caçada
A presa estando presa, que delícia Depois é só carinho e com malícia Tocaia se mostrou abençoada.
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Balança o coreto Na dança dileta Dizia o poeta Aqui não me meto!
Ser franca e direta Eu não me intrometo, Na luz predileta Que invade meu gueto.
Eu sou teu amigo, Por certo, querida, O resto? Nem ligo,
Encontro a saída Se corro perigo? Quem sabe duvida...
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Balançando a roseira Quebrando a sapucaia, Amada verdadeira Na solidão não caia,
Que a vida é feiticeira Mas corta qual navalha, Contigo a vida inteira, No amor que já se espalha
No campo e na cidade, Que faz a gente crer Na tal felicidade,
Vontade de viver, Saber da claridade Que traz um bem querer...
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Balançando na rede com meu bem, Vontade preguiçosa de ficar, Gostoso, nosso amor no vai e vem, Chegando, de mansinho, devagar... Como é bom, nessa vida ter alguém, Que a gente sempre possa confiar Depois de tanto tempo sem ninguém Só quero, meu amor, te namorar... A rede, de repente, se rasgou Na queda, tua saia levantou, Mostrando este lugar belo e preciso, Desculpe meu amor, vou te dizer, Quando a rede rasgou eu pude ter A mais bela visão do paraíso!
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Balançando o coqueiro, eu peço a Deus Que me dê um restinho de alegria. Os dias que passei só foram teus, Brincando no regaço de Maria. Quem sabe claridade vê os breus E conhece também manhas do dia.
Meus versos vão dizendo da paixão Que é sempre tão traquinas e moleca. Devora num segundo o coração, Depois já sai sorrindo, esta sapeca. Só restando o luar e o violão Fazendo a gente logo de peteca.
Mas guardo disto tudo uma esperança Vivaz como brinquedos de criança...
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Balangas tanto beiço, mas no fundo Não gostas do que escrevo nem um pouco, Fingindo ter ouvidos feito um mouco, Meu verso te parece nauseabundo.
Se tanto quanto quero não abundo Cansado de gritar, jamais fui louco, Sem nada que me fale nem tampouco O muito prometido é vagabundo.
Se tudo o que apetece é ser feliz, Desculpe, mas o sonho contradiz O que a verdade mostra a cada instante.
Amor jamais se fez só por osmose, Coceira de desejo? Escabiose. Paixão é pneumonia galopante...
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Balbucio seu nome, estremecido. Da vida que eu bebia em cada gota Os tempos em que havia me esquecido Andando com minha alma quase rota,
Não resta mais sequer algum vestígio. Vieste e me salvaste da tormenta. Pressinto que, em teu peito, algum prestígio Já tenho. Amor no peito que se assenta
Trazendo uma esperança iluminada; Permite que eu consiga vislumbrar A vida como porta de chegada Depois de tanto tempo a naufragar...
Trouxeste no teu braço salvador Certezas de viver em pleno amor...
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Bandeira que amizade assim desfralde Erguida como um lenço branco, em paz. Beleza que se espalha no arrabalde Certeza de alegria e encanto traz.
Uma amizade imensa nega a fraude E vence sendo intensa e mais capaz. Sem ter a mão cruel que nos escalde Fartura sem igual nos satisfaz.
Moldando nosso tempo sem ter gládio Certeza neste campo que ora invade-o Forrando cada palmo deste chão
Com toda a maravilha que se encerra Nos âmagos benditos desta Terra Cevada com carinho e compaixão...
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Bandeira tremulando em rijo mastro Chamado para a paz e para a guerra, Seguindo cada passo encontro o rastro Daquela que em desejo, amor encerra.
Do céu em maravilhas, como um astro Olhar enamorado não mais erra E vendo a branca alvura em alabastro A resistência tola cai por terra.
Não posso mais negar quanto eu te quero, Se é tudo o que eu preciso para ser Feliz, é neste sonho que eu tempero
A vida em busca insana e fascinante. Além do que eu pudera perceber, Desejo o teu amor a cada instante...
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Bandeirante ditoso na clareira Correndo sem cristais ou esmeraldas, Enquanto a poesia tu desfraldas Esqueço o que dizia esta bandeira.
O amor jamais seria bandalheira Não fosse em tuas coxas méis e caldas, Depois de certo tempo troco as fraldas E faço toda noite a mamadeira.
Rasgaste a camisinha de propósito! Olhaste para mim como um depósito, Mas saiba, meu amor, eu ando duro.
Do tiro que tu deste num escuro Invés de garantires teu futuro Fizeste no final, um despropósito!
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Bandeiras da esperança desfraldadas Tremulam incessantes, sem descanso. Ao caminharmos juntos, de mãos dadas Decerto alcançaremos tal remanso.
Emoções nos dominam quando alçadas Ao infinito plano aonde alcanço Alegrias em ondas delicadas, Encanto assim sublime em mar tão manso.
Enamorado, bebo eternamente Dos lábios da mulher raros licores. Um grande amor que enfim já nos contente
Desnuda nossa pele, estampa a sorte De ter a cada noite teus fulgores, De altares da esperança, um bom suporte...
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Bandeiras desfraldadas nesta torre Onde avisto chegarem galopantes Corcéis em belo céu que agora morre Nas colinas em cores deslumbrantes.
Bandeiras desfraldadas nesta cama Misturas de perfumes e de sonhos, A voz aveludada não reclama Os mantos descobertos e risonhos.
Bandeiras desfraldadas nesta busca Do corpo pela pele que sonhara. A mão que acaricia, nunca brusca, Encontra em quente lago uma água clara.
No visgo deste lago me perdi, Bandeiras desfraldadas, ‘stou aqui!
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Bandido tão silente enquanto agia Roubando dos pequenos, sempre mais. Fazendo nos congressos sua orgia Os chifres denunciam Satanás
Vestido com perfeita galhardia Galhada sobre a testa sempre traz. Fazendo nos ingênuos tal sangria Matando em nascedouro é bem capaz
De se forjar amigo de quem sangra, Depois nos feriados ir para Angra Iates e banquetes sem ter fim.
Amigos do demônio, com certeza, Só peço ao Salvador que, por fineza Afaste esta canalha aqui de mim...
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Banhado no desejo de te ter Dormindo no aconchego dos teus braços Molhando minha vida em teu prazer Recebo teus afagos, velhos laços...
E sinto que esta noite será nossa Em tantas fantasias que pretendo Gosto que tua boca já me adoça Em festas e folias convertendo.
Eu quero te saber bem mais tranqüila Nas vezes e nas tramas bem urdidas Amor que tanto amor já se destila Vivendo em pleno gozo nossas vidas...
Suando, nossos corpos se procuram Em meio a tantos sonhos se torturam...
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Banhando o lindo seio em minhas águas, A bela criatura não sabia Que em braços destas braças minhas rias As lágrimas corriam, minhas mágoas...
Vertido neste rio que, em cascatas, Amor não permitiu felicidade, Ao ver a triste chama da saudade Em meio às minhas dores fluo em matas.
Depois desses milênios; solitário, Revejo uma esperança na nudez Nos carinhos que faço, insensatez;
Nos beijos que transbordo temerário Enchentes perfilando maravilhas, Unindo em poesia, antigas ilhas...
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Banquete da alegria em mar sereno, Promessa bem sutil quase em desarme, No sonho em que preciso concentrar-me Um dia com certeza mais ameno.
Sabendo reviver amor mais pleno, Na sorte de poder banquetear-me, Não posso prescindir de tal alarme Do mundo em que sonhei, sem ter veneno
A sorte- ser feliz- já não retarda Encontro o fantasia em dia augusto De um passo mais audaz e mais robusto
Mostrando na certeza, ser capaz De ter uma manhã ensolarada Num mundo mais perfeito em plena paz...
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Banquetes que pensei; simples fiasco, Orgíacos momentos desejados, Se agora do meu corpo restou asco Os pés do caminheiro, calejados.
De quem se fez poeta, nem o casco, Palavras me servindo de cajados, O alívio que eu encontro em cada frasco Sofrimentos enfim remediados.
A perna diabética lateja, A amputação se mostra a solução, O cheiro que me invade, podridão,
A angústia se tornando enfim sobeja. Distante dos antigos refletores, Contorno com meus versos, tantas dores...
87
Barata desbarata o meu barato Num ato que insensato não repito. O beijo da morena é desacato Preciso de outro verso, senão: pito.
O gato que; fugindo, vira rato O quanto em desencanto não palpito. Velhice feita em verso que retrato Não vale neste jogo mais que apito.
Das velhas picuinhas, estou fora Ariscas as palavras saltam muros, Depuro o que em tortura trouxe apuros
Voz em modernidade já deplora A rima que me arrima é simples soma Embrulha e me embaralha enquanto embroma...
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Barata na cintura da baiana Fazendo reboliço e remelexo, Eu quero em nosso amor um bom desfecho, Assim a gente sabe e não se engana,
No gosto desta boca, pura cana, Abrindo toda noite, calça e fecho, O resto mal servindo de apetrecho, Sorriso de soslaio, tão sacana...
Embalas meus desejos em quadris, Balanças os cabelos num convite, Por mais que a sensatez amor evite
Dos medos resta alguma cicatriz, Mas sei que venceremos preconceitos Vivendo em pleno amor, todos direitos...
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Barbáries encontrei em minha vida Assim como mentira e falsidade, Às vezes já fechada uma saída O amor veio arrombando qualquer grade.
Se eu trago a cicatriz, sei da ferida E tento disfarçar tranqüilidade, Porém se a porta eu vejo destruída Adentro sem temor nem vaidade.
E assim eu vou seguindo o meu destino De ser quase um corsário da ilusão, Prefiro ter meus pés sempre no chão
Senão bem mais depressa eu me alucino, Se tudo o que vivemos foi em vão, Eu permaneço sendo um peregrino...
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Barcaças parindo sonhos Medonhas embarcações Os fardos são tão bisonhos Nas carnes, putrefações.
O barco que nunca tive, O vento que nunca veio. Lugares por onde estive, Arcando com meu receio.
Mulheres que não beijei Os seios que não vislumbro Amores que eu estraguei Nos chumbos já me deslumbro
E bebo desta fornalha E escarro em podre canalha..
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Bares, becos, bocas, ritos, rumos, onde? A vida não permite mais enganos. De todos os momentos, velhos planos, Vazio dentro da alma, já se esconde.
Quem dera se eu tivesse barco ou bonde, Talvez não fossem frios, desumanos, Os olhos que eu pensara, soberanos Adelgaçando o sonho outrora fronde.
Restante do viver, desilusão, Recolho os meus pedaços, negação E tento numa colcha de retalhos
Abrigo, mas que faço se não vem Nem mesmo estrela guia, bonde ou trem. Deixando o coração já em frangalhos...
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Barganhas que fazemos com o mundo Determinando os rumos, ódio/amor Mudanças tão velozes, num segundo Em glória ou morte a vida a recompor.
Histórias tão diversas, rua escura Batidas arrastadas, tempo passa. Na determinação, ação e cura Depois o que viera se esfumaça.
Crianças espancadas pela vida, A sorte se levando em plena brisa. De tudo se repete na batida Do relógio que nada mais avisa
Senão da morte certa que virá Na glória deste amor que odiará...
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Barquinhos de papel pela enxurrada, Numa festa sutil, criança pobre. O medo dos fantasmas, vida cobre O que foi quase tudo, resta nada...
A não ser os barquinhos... Em cada Novo almoço, torcer para que sobre Uma rapa de angu; nisso descobre Que a tal felicidade vai cansada...
Nas janelas, bolinhas de sabão, Pelos ares, fugiu tanto balão; Nos papagaios, cerol não havia...
Brincadeiras; queimada, corda, pique. Amarelinha do tempo, no repique Dos sonhos, vai reinando a fantasia...
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Bases frondosas: árvore esperança... Grinaldas buquês, festas, despedidas... Alabastrinamente vão vestidas O que restará dessa contradança?
O que tenho melhor- amor - avança; As tardes que deixei estão perdidas... Nos meus dedos, meus medos são feridas. Nas bodas, tuas bodas, a criança
Morta, ressurge, tímida, reclama... Perco-me, cego, morde a dor que inflama Te perder foi atroz, mal tumular...
Escadarias, luzes, enlutado... Tais esperas, festejos, triste fado... Quem me dera jamais poder amar!
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Bastam-me mais uns poucos sentimentos, Não quero transformar tristeza em ouro. A dor preconizada nos tormentos Qual faca penetrando no meu couro
Esquartejando tudo. Sofrimentos, Meus cruéis guias, sabem desse agouro. E sempre recebendo os duros ventos Deixando bem distante ancoradouro.
Amor não quer saber de tais partilhas Da minha sina, apenas traz veneno. Quem dera se pudesse um sonho ameno
Aonde desfrutasse maravilhas. Mas nada me sobrou senão saudade. Daquilo que jurei : felicidade...
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Bastando que se entregue ao raro encanto Por vezes eu me ausento, mas retorno. Aqui minha morada templo e canto Amor saiu tostado do teu forno.
Embornal em que trago a liberdade, Tristeza vai deixando a gente em paz. Capaz de tempestade e claridade Amor emoldurado não compraz.
Atrás do que se foi e não mais volta À solta pelas ruas e calçadas. A pele da morena, plena escolta Cantantes esperanças, madrugadas.
Às vezes posso ser até pernóstico Do amor que nós tivemos, nem acróstico...
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Bastardas sensações de medos crus, Ensimesmando sempre a mesma história Voando sobre nós os urubus Querendo o que sobrar da merencória
Fornalha em que vivemos quase nus, Sem rumo e sem troféus sem ter vitória Na mão do vencedor qualquer obus, No corpo derrubado, riso e glória.
Eu bebo do teu sangue e te escarrando Demonstro quanto amei cada mentira. Depois de ter fugido não sei quando
A vida em precipício já se atira. Sei lá se estou querendo ou vou te amando, A mando do que fomos; nada gira...
98
Batendo nessa porta e nos batentes, Não posso penetrar na tua sala. A vida me rangendo podres dentes A solidão disfarça e não se fala.
Os sonhos se parecem inocentes, Na sedução da carne, a dor resvala... As mãos que acariciam são tementes, Os olhos fugidios qual impala...
Já posso traduzir em desventura Haréns que me deixaste, perfumados, A mão desfia em atos de brandura.
Os dias não serão mais ocupados. Amor que me deixaste, sem ternura. Amêndoas os olhares preocupados...
99
Batendo nesta tecla o tempo inteiro Fugindo da verdade em falsas tramas, Se logo em desafio tu reclamas, Apago num instante o fogareiro.
Vagando por teu corpo qual veleiro, Dos ventos desejosos sobre as ramas Não posso suportar lamentos, dramas, O gozo se mostrou meu companheiro.
A mão que te dedilha mais precisa, Vencendo o que já fora uma ojeriza Estúpida ao amor, alço degraus
Chegando ao campanário dos prazeres, Deslindo catedrais onde puderes Trazer um calmo cais pras minhas naus...
3600
Bateu na porta, abri depressa... Amor, Fazendo estripulia, veio vindo Devagar invadindo sem pudor, E quase que zombando, estava rindo... Naquele instante sinto que perdi O rumo planejado há tanto tempo. Aos poucos me tomou; me convenci Que desta vez não era passatempo... A mais bonita moça do cerrado Morena com sorriso mais gostoso, Domou meu ar, meu céu, beijo melado Que tanto desejei, amor fogoso... Agora que este amor é minha lei, A porta, de uma vez, eu arrombei!
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