
FICOU O VENTO
Data 27/11/2010 19:13:39 | Tópico: Poemas -> Amor
| Pernoita a solidão no meu abandono
A vela de um veleiro Acena Para além do horizonte Um “até nunca mais” Como se levasse no convés A réstia de um sorriso Ou de um encanto
Pernoita o abandono na minha solidão
Um frasco de veneno Um copo de vinho A corda da forca O desespero de um insecto A minha gargalhada
Coisas que a borracha do tempo decalca Na carne
Amarroto o riso e jogo-o no lixo A felicidade morre afogada numa poça À alegria piso o rabo e como gato Sobe ao cimo dos telhados da cidade
Fica o vento… Fica uma espécie de buraco negro na elanguescia Dos passos que se arrastam pelas ruelas… Mortalha definida dos meus pensamentos!
O vento sibila na minha ânsia negra de voar Até onde Ícaro voou Descobrir por detrás de cada intenção o punhal O mal Como se um ninho de víboras espreitasse de cada pedra De cada ulmeiro podre caído no matagal De cada boa intenção De cada frase onde o amor surge como uma rameira!
Quem sabe se depois do fim dos Oceanos Ou do espaço sideral de todos os Universos Não existirá um lugar eleito para a minha paz Com um pequenino lago de nenúfares Onde o meu corpo possa exercitar a solidão Sepultar o passado no cemitério do tempo Fazer do esquecimento um coqueiro? Lambuzar-se de sombras e frios e escuros Até afundar a mágoa no precipício do meu cosmos E afundar-me na argamassa da estupidez!?
Não lamentem as dores que os lamentos humilham! Não me venham com tratados e coitados Crentes de que isso acalma a fúria de um fracasso Como quem no conselho que não consegue dar Encontra um estereotipo vago que para tudo serve Até para dizer que me devo conformar Com tudo o que não quero conformar-me!
Agito-me para lá dos ventos e das palavras Exijo um porquê na altivez de uma lágrima Algo que me diga secretamente tudo o que sei Num grito amorfo mas pungente Um grito fatal Um grito ardente Um grito feito incêndio numa floresta Exijo um grito! Exijo um mito um céu um pedaço de inferno O garfo de Lúcifer a espada de Gabriel Qualquer coisa que acorde esta infinita vontade De esperar o amor na esquina duma taberna Sairmos fodermos sermos reis por um minuto Acreditarmos que a felicidade mora mesmo ali Dentro de uma veia rasgada por uma faca Tirada das ligas das mulheres da rua! Exijo um pedaço do Hades para mim!
Este cabecear as pedras não me chega! Este partir as esquinas dos prédios, não basta! Preciso quebrar o céu o sol qualquer luz Qualquer pedaço de mim solto no espaço Qualquer coisa que diga ao mundo que passei por aqui…
Ninguém precisa saber que passei por aqui! Ninguém tem de saber que passei por aqui! Ninguém quer saber se passei por aqui! Porque haveria alguém de procurar por mim Na cisterna olímpica do lixo que produzi na vida Na ansia de fingir que um dia passei por aqui Como se isso fosse muito importante para toda a gente Crente de que eu era toda a gente e isso era importante para mim!
Falta-me a alma para também a rasgar… Uma alma rasgada diz mais de si e do mundo que todas as palavras Que possa rabiscar aqui para dizer o que não interessa a ninguém! O mundo quer lá saber das minhas dores? Para que servem as minhas dores? Que mundo? Ainda se fosse o meu mundo Escondido na concha de um avo de piedade por tudo o que lutei Mesmo quando não lutei por coisa nenhuma Mesmo quando me questionei porque deveria lutar por algo Mesmo quando me sentei na inércia de um sofá à espera do fôlego Que me levasse para além do sofá e pudesse num acto de coragem Assumir uma coisa qualquer nesta necessidade mesquinha de dizer Ao mundo do qual não quero saber nem me interessa Que por uma razão estranha até estou aqui E pela mesma razão parto!
Mas não posso dizer nada porque não tenho alma… Porque terá de ser alma? Porque não lhe chamam outra coisa? Sei lá… Um penico! Talvez tenha um penico… Se não tiver arranjo… Talvez conheça quem tenha… Talvez mo empreste… Eu só quero ter um penico… Só um… Nada mais!
antóniocasado 27 Novembro 2010
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