
Margem Sul
Data 22/11/2010 20:34:38 | Tópico: Poemas
| Suponho que se chamam Libânio e Maria… Maria não…não. Lurdes, assim será. Não sei sequer o que me levou a supor tais graças; Mas assentam-lhes. Vejo-os sair todas as manhãs de um palacete nas avenidas novas. Estão apaixonados. Libânio, que podia ser Romeu, ama Lurdes, uma Julieta de Lisboa...de Lisboa toda e de todos os cantos onde serenata o desamparo. Suspeito, sem ter de suspeitar que trabalham no metro a dar vista aos cegos. São exuberantes! Caminham a representar Shakespeare, como se fossem reis, da Avenida da República. Têm uma teatralidade venérea, com cheiro… Todas a manhãs. Trajam farpelas de época, ao que lhes assumo algumas posses. Pela avenida fora, adornam os transeuntes de uma indiferença parva. Só eles existem…todas as manhãs nos palácios da avenida. Libânio é uma camurça amargurada pela coça dos tempos, é um pente e dois sapatos com a custódia de uma carteira com papiros envelhecidos, sem bilhete de identidade. Lurdes, ostenta pinturas de guerra, com batons vermelho vivo a lembrar charcos de sangue nos palacetes da cidade. Suponho que é assim. Lurdes, faz pairar o ar, faz parar o trânsito, faz pairar Libânio que se encontra encantado numa côdea parada no vermelho dos semáforos… A Lurdes sinaleira, com duas laranjas loucas a desfilar em contra-mão e a estampar risos nos carros. Ninguém pára, todos olham…cegos, com Lurdes a dar-lhes vista. No milésimo de uma buzina, a rua agora também paira… Universitárias decentes, bibelôs púberes, agentes de seguros e um quiosque admirado! Não pára o 28, á pinha de apressados, direitos a Cabo-Ruivo. Via desatravancada e continua uma valsa a dois. Este mês que passou surpreendeu em afectos no banco do jardim… Sentados a merendar, a jogar pão velho aos pombos, na divisão de uma garrafa. Os pombos também são seus…de Lurdes e de Libânio. Sentei-me no banco em frente a cegar um meio sobrolho. Libânio é poeta ou louco, ou as duas coisas… De uma catacumba de silêncio, onde as cataratas choram as quedas do mundo, levanta-se num repente lúcido e grita…grita alto, grita aos pombos, grita aos cegos…sussurra a Lurdes um grito que gravou há muito tempo, antes do grito, antes do pairar… -“Porque o amor é uma coisa que me dá nos teus olhos suspiros infindáveis… Os pombos ficam cegos…Libânio insiste… -“Subo ao teu peito enquanto um ar de arrepio me inspira os pulmões…” Lurdes esticou um lenço porque o pobre do Libânio se engasgou com um cancro…tossia muito! Tossia tanto, que Lurdes e uma carcaça mais um pombo aflito pairaram no meio da estrada. Fui…cego, nunca mais os vi… Porém, hoje ao fim da tarde vi a Lurdes das avenidas sentada a olhar o rio… A Lurdes sem pairar… quieta Todas as manhãs… A Lurdes de Lisboa, que é de Lisboa toda onde serenata o desamparo. A Lurdes triste, sem pão, sem palácio, sem pombos sem transito… Sem Libânio… Que se fartou de Shakespeare, das avenidas, de côdeas, de tossir…que atravessou o rio... e foi morar para a outra margem.
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