
MEUS SONETOS VOLUME 007
Data 20/11/2010 07:04:22 | Tópico: Sonetos
| 601
A noite, com certeza foi nublada E nisso meu saveiro se perdeu. A boca que se deu não provou nada, Apenas a vontade ainda ardeu.
Sou teu, mas o que faço se não queres? Apenas repetir o mesmo mote. Banquete necessita de talheres, O doce que se foi procura o pote.
Meus olhos te buscando nada vêm, A trama embaralhada vai sem rumo. A boca com batom beija ninguém Em sonhos, tão somente, eu me perfumo.
Amor aquém do gozo de costume, Olhando desde o vale, quer o cume...
602
À noite, em confidências e segredos, Guardados neste cofre dos desejos. Refaço nossa sorte, bons enredos, E vibro tantos beijos, mil festejos...
Cabelos, pernas, olhos, sisos, medos... No brilho dos olhares, relampejo... Denunciam vontades. Nossos dedos Se buscam nesta noite. Assim prevejo
O dia que virá, nossa folia, Em sonhos clandestinos, fogo intenso. Somente neste amor, querida, eu penso.
Amor que se tomou pura magia. Tua nudez querida e desejada, Na cama que sonhamos, minha amada...
603
A nossa amizade Carinho traduz Traz a claridade Reforça esta luz,
Amor de verdade Pra sempre seduz. A felicidade É quem nos conduz
E mostra a beleza Da vida sem medo, A nossa riqueza
E o nosso segredo É ter na pureza, Em paz... nosso enredo...
604
A nossa casa, amor, já não existe... Procuro meus quintais, não mais os vejo. Meu bem, a vida queda-se tão triste! A morte vem chegando, em seu cortejo!
Um frágil coração jamais resiste À ausência dolorosa do teu beijo! Sou pássaro faminto, sem alpiste, Sou tarde que perdeu seu azulejo!
Vivendo de ilusões cadê a casa Onde fomos felizes? Sem jardim, Mergulho esse infinito, sem ter asa.
Meu mundo se perdendo, sem confete... É quarta feira, cinzas, mesmo assim, Teu nome irei gritando: Bernadete!
605
A nossa tarde juntos, nossa vida... Outonos que sabemos já se vão... Amor quando em promessa, despedida, Compartilhamos mesma solidão.
Amor que nos uniu, sem desespero; Na tarde que despenca em rapidez. Eu sinto esse agridoce do tempero Tal fosse nosso amor que assim se fez.
Amor vitorioso, mais sagrado, Vencendo tantos medos, preconceitos. Agora que vivemos lado a lado, Em plena lucidez, tão satisfeitos.
Sabemos construir felicidade Nas asas deste amor em liberdade...
606
A orquestra nos chamou. Meu coração Batendo alucinado e tão feliz. Dançando este bolero, uma emoção; Além de todo o bem que sempre quis.
À luz de um cabaré, a noite é nossa. A lua tropical nos ilumina, Amar pra sempre além do que se possa, No fogo da paixão que já domina...
Bandaleon tocando a noite plena, Eu não me canso nunca de pedir Que a sorte tão ditosa nos acena
Então te peço, beija-me querida, Que o mundo simplesmente irá sorrir Assim, pra sempre em toda a nossa vida...
EM HOMENAGEM A FLAVIO VENTURINI
607
A pacificadora sensação Que toma nosso peito, sem cobranças Forjada pelas tréguas, alianças Formando em dois soldados, batalhão.
Dela mesma se faz renovação E no cantil, somente as esperanças Nas velas desfraldadas, confianças, No mar tempestuoso da paixão...
E somos companheiros de viagem, Nas estações, nos cais, em vários portos Por mais que sejam duros, sejam tortos
Os caminhos; seguimos. Numa aragem Serena e mais sensata. Mas com ardor De quem sabe regar, canteiro e flor...
608
A pacificadora voz da morte Chegando calmamente aos meus ouvidos, Esqueço antigos sonhos prometidos Permito que a emoção tosca se aborte.
Bizarra companhia; num transporte Que leve aos vales turvos permitidos A quem teve seus sonhos mal vestidos Perdido, ao Deus dará, sem rumo ou norte.
Não posso ser mesquinho, até desejo O fim da caminhada sem proveito. E posso até dizer: vou satisfeito,
Sorte melhor, no fundo eu já prevejo, Qualquer que seja a sorte: abençoada; Melhor que este vazio, que este nada...
609
A paixão acontece de repente, Sem tempo pra defesas ou pudores, Momentos que, sutis, aterradores Num êxtase que envolve plenamente.
Por mais que a liberdade, a gente tente Não somos destes passos, mais senhores, Nesta explosão divina em mil fulgores, Sem rumo que nos guie ou oriente.
Minha alma te sorri em breve instante, Seguindo cada raio fascinante Que emanas simplesmente num sorriso.
Apaixonado sigo cada rastro, O barco vai perdendo âncora e lastro, Liberto alçando inferno e Paraíso!
610
A palavra se solta e vai liberta E nada pode enfim a controlar. As coisas vão passando por passar Quem dera se eu pudesse ser poeta
Teria uma palavra mais dileta E tudo voltaria ao seu lugar. O rio vai correndo para o mar, Traçando, no caminho a sua meta.
Quero o gosto das lavras e das minas E as águas deste rio, cristalinas. Meu sonho vai morrendo – assim – embalde.
A palavra se perde sem saber Aonde encontrar um bem querer Que venha por amor ou amizade..
611
A pálida manhã em frio e medo, Alvoroçando um sonho quase vão, Quem dera discernisse este segredo Que ronda e quase toca o coração.
O dia se nublando desde cedo, Talvez inda retrate a solidão, Meu pensamento foge, quieto e ledo, Reflete simplesmente cada não
Que a vida em avidez já desmedida Num bulício insensato me deixou. A luz que nunca mais alumiou
Há tempos se mostrando enfim perdida Parece prometer a claridade, Nos braços de – quem sabe – uma amizade...
612
A par da insanidade que entornaste Qual fosse farto espinho em minha estrada A vida faz do riso o seu contraste E trama depois disso, o mesmo nada.
Enquanto a poesia sonegaste O vento sacudindo a paliçada, Derruba a fantasia, mostra o traste Em que minha alma viu-se transformada.
Vestígios do que fomos? Não os vejo, Nem mesmo algum momento de alegria, A morte, na verdade, o que desejo
Trazendo a sepultura como altar No cárcere dos sonhos que se cria Somente a solidão tem seu lugar...
613
A par de cada sonho que mentiste Coleciono medos tão somente. Embora o meu olhar prossiga triste Amor ainda insiste, tolamente.
De tudo o que em verdade sei que existe, Apenas restará simples semente Que agora em despedida não resiste E morre, sem carinhos, simplesmente.
Enquanto, sei que mentes, e sonegas Um resto de esperança; eu não me calo, Quem teve no passado algum regalo
Ao ver estas estradas, vaga às cegas, Depois de cada curva no caminho, Não teme mais sequer pedra ou espinho.
614
A par de tão divina sensação Entrego-me ao amor sem mais defesas. Percebo que os percalços da paixão Também são ricas formas de belezas.
A vida nos promete solução A todos os problemas, incertezas, Somente pareados na emoção Nós venceremos duras correntezas...
Sejamos minha amada como um feixe, Gravetos que se unindo fortalecem Multiplicando o pão, o vinho e o peixe
Ao espalharmos somos bem mais fortes, Nos nós que nos tapetes que se tecem Mudando, solidários, nossas sortes...
615
A par desta ilusão, sigo sozinho, Vencido pelo amargo da saudade. Aonde outrora quis fosse meu ninho, Apenas o vazio e falsidade.
Quem sabe possa crer que em outros tempos A vida não permita o sofrimento. Por mais que sejam tantos contratempos, Um novo alvorecer; teimoso, eu tento.
E vago por estrelas e cometas, Perdido nos espaços infinitos. Felicidade e paz, divinas metas, Distantes dos meus olhos tão aflitos.
Quem sabe após a chuva venha o sol, Uma esperança trago por farol...
616
A par desta ironia em que pintaste O céu deste fantasma que hoje eu sou. Formando com a luz, duro contraste, Apenas o vazio inda restou...
Lacaio deste encanto que legaste, O sonho tanta vez me escravizou, Colhendo cada fruto que cevaste A névoa, tão somente se mostrou.
Amores não carrego em meu alforje Por mais que uma ilusão meu verso forje, As mãos não me obedecem, vão vazias...
Na lúbrica manhã que vem surgindo, As nuvens e a fumaça pressentindo A morte num torpor das fantasias...
617
A par desta verdade, não me calo, Eu sei o quanto dói tal traição, Aperta bem mais firme cada calo, E torna o meu viver amargo e vão.
Se ao menos eu pudesse decifrá-lo Talvez recuperasse a mansidão. Quebraste da ilusão, um frágil talo E o fardo que carrego? Sem perdão...
Eu sei que na verdade, ela também Queria o teu querer. A morte tem Poder de apascentar quem tanto sofre.
Procuro a solução, mas não concedo Tu violaste; amigo, este segredo, Tomando em tuas mãos o inútil cofre...
618
A par do quanto é bom teu caminhar Estampo o teu retrato na camisa, A brisa avisa e invade devagar O tempo ao mesmo instante se ameniza.
Depois deste granizo que caiu, Matando minha sede em tua boca O verso que se versa mais gentil Atraca meu saveiro em bela toca
Retoca cada passo com ternura, Texturas delicadas, belos seios, A gente de contente não tem cura Não tema quando exprimo os meus anseios.
Na rede sem moinhos, nosso céu, Redemoinhos giram carrossel...
619
A par do que a parceira diz ser meu, Na tenda dos milagres me avinagro. O amor sem calorias, morre magro, O rumo sem consumo se perdeu.
Sonhar com festa intensa, um himeneu Ao hedonismo tolo não me sagro, Porém se tenho tempo já consagro O que deveras verso concebeu.
O riso tão sarcástico e macabro Fingindo ser comparsa, o peito eu abro E fecho num desfecho que não basta,
Abasto-me em diversa direção Sem termos de vingança ou de união. Enquanto a poesia tola pasta...
620
A par do que passei Difíceis caminhadas... Carinho em encontrei Em mãos abençoadas. Bem mais do que pensei Nestas duras jornadas
Amiga, eu pude ver O quanto és importante. Na força do querer Tornando-me um gigante Já posso até prever Futuro radiante
Sabendo, na verdade, Valor desta amizade
621
A par do sonho raro que vivemos Sentindo todo o visgo deste amor, Percebo este poder transformador E vago pelo rumo que escolhemos.
De toda a luz que em glória recebemos, Mosaico de alegrias a compor Um mundo mais sublime ao meu dispor Além do céu imenso que nós vemos.
Ao ter nos olhos brilho da esperança A gente vai dançando a mesma dança No brilho que te entrego e que recebo
Dos olhos desta bela namorada, História que passei; abandonada, Martírios que vivi; já não concebo.
622
A parte que me cabe desta festa É o bar abandonado da esperança. O mar que em tempestade já se empresta Fomenta este vazio que me alcança.
Encalacrando o peito, sem pujança Invado qualquer parte da floresta Bebendo deste rum, alma descansa E o gozo sem limites desembesta.
Apenas um partícipe, descubro Nos olhos deste sonho outrora rubro A vastidão do vago que carrego.
Se sarcasticamente tu gargalhas A boca vai se abrindo nas navalhas Deixando o meu olhar, vazio e cego.
623
A parte que nos cabe da maçã Permite-me dizer que creio nisso. No amor que quando entorna mostra viço Qual fora ventania temporã;
Mantendo acesa a chama, doce afã, O fogo que nos toma sempre atiço; E vendo sem ter vendas te cobiço, O sol que justifica esta manhã.
Nas manhas e manias que inda trago, O gosto deslumbrante de um afago, O mago sentimento em que se dá
O gozo deste amor que nunca cessa, A boca desfrutando da promessa Cumprida, sem pudores, desde já...
624
A paz de um ancoradouro, belo cais Decerto a mais sublime das vitórias Não deixe que se apague, assim, jamais O brilho em que se irmanam nossas glórias.
Desejo o teu carinho sempre mais, Mudando o rumo antigo das histórias, As dores vão ficando, enfim, distais Jogadas bem distante das memórias.
No teu aniversário, comemoro O amor em que amizade me decoro E sinto o vento manso que me roça;
Na brisa desta tarde benfazeja O bem de quem se quer e se deseja A paz que, verdadeira, me remoça.
625
A paz do amor inflama quarto e sala E invade totalmente o coração, Meu brado em alegria, ninguém cala, Nem mesmo muda rumo ou direção.
Do pão multiplicado, afasto a fome, Do chão já divido uma igualdade Fantasma da injustiça, corre e some, Nos olhos de quem ama, a liberdade.
Fraternidade alcanço nos teus passos, Em laços solidários bem traçada. A luz irradiando nos espaços A poesia em todos, entranhada.
O paraíso, em ti, amor, diviso, E o toque dos teus lábios; mais preciso.
626
A paz em devoção, eterno pleito Que toma a nossa vida totalmente Meu canto em teus encantos, satisfeito, Transborda em alegria, calmamente,
Felicidade muda em seu conceito Do amor vira sinônimo e pressente Que o mundo em nova face, dê direito A quem necessitar ser mais contente
Deixando o sofrimento já perdido, Distante, sempre ausente, e sem sentido Deixando a solidão assim de lado,
Eu tenho já comigo esta alegria De ter a anunciada sintonia Deixando o meu caminho iluminado.
627
A paz em que se fez amor maior Sem par e sem limites, tão intenso. Teu corpo vasculhei e sei de cor Somente em ti, querida sempre penso.
Na glória de ser teu, felicidade, O sol que forte brilha na manhã, Falando deste amor/sinceridade Percebo esta alegria em doce afã;
Além de todo amor, a paz domina E faz de cada dia uma esperança. Viver a nossa história, minha sina Trazendo para a vida esta festança
Que faz de cada noite um claro rito De amor além dos mares, infinito...
628
A paz que encontro em ti já não tem preço É tudo o que desejo nesta vida, Além de todo amor que te ofereço Encontro no teu corpo uma saída
Prazer ao procurar teu endereço Mostrou que minha sorte, decidida Não quer e não permite mais tropeço, Pois sabe quanto dói, a despedida,
Do sonho quando, outrora, benfazejo Banhado em esperança, ouro de lei, Por isso ao perceber-te, enfim prevejo
Além do que num dia imaginei, Um mundo em que rebrilhe este luar Trazendo a paz que enfim eu pude achar...
629
A paz que eu procurei a vida inteira Em braços tão diversos, diferentes Em bocas e carinhos envolventes Encontro agora em ti, bela trigueira.
Minha alma, com certeza é caminheira E busca noutros cantos, noutras gentes Vontades que se mostram mais prementes De ter uma paixão alvissareira.
Amor perfeito achei nos braços teus Por isso uma alegria radiante Na aurora deste sonho promissor.
Quem teve nesta vida tanto adeus Já sabe valorar em cada instante A força gigantesca deste amor...
630
A paz que num momento se assenhora Relembra uma esperança feita em luz, A ponta desta faca adentra agora Cortante, inebriando, bebe o pus.
Fiando a tempestade ao som da lira, Na garganta restando a leda espinha Que feita em agonia diz mentira, Transparecendo o nada de onde vinha.
Os risos que se foram generosos Tentando demonstrar qualquer ternura, Aos poucos mostrarão quão onerosos Os guizos mais insanos da procura.
Saudade do que fui e não bebi, Trazendo um vão retrato, volto a ti...
631
A paz que verdadeira me remoça Permite que se almeje um novo dia, A solidão que sempre nos destroça Já morre ao perceber uma alegria.
Não deixe que a tristeza faça troça Marcando em sofrimento a fantasia, O peito mais feliz já se alvoroça Sentindo o vento calmo que nos guia.
Quando completas outro ano de vida Eu sinto quanto Deus foi muito bom, Pois tens este poder, divino dom
De ser por todos sempre a mais querida, Meu verso, um servo teu se faz sutil Louvando o teu cantar sempre gentil.
632
A paz tão necessária, amor sincero, Deixadas pelos cantos de uma casa A sorte desejada assim se atrasa Matando a poesia que inda espero.
Se em luas tão diversas me tempero Minha alma em fantasia já se abrasa, Enquanto no vazio amor se embasa O veto que não quis se mostra fero.
A cargo desta insânia me desgasto, O amor jamais será um bom repasto Parece com o tal capitalismo
Que agora se expressando em bancarrota, Perdendo num segundo rumo e rota, Condena o teu amor ao egoísmo...
633
A pedra continua sem ter limo, De tanto que ela muda já se cansa. O amor quando distante da esperança Esconde a fantasia que eu estimo.
De ter honestidade, se eu me primo, Tu vens com teu olhar de cobra mansa, Sorrindo falsamente, traz a lança, Por isso nestes versos eu te ultimo
E quero uma resposta mais exata, O amor quando demais não se maltrata, Apenas a verdade nos liberta.
Brincando por debaixo dos lençóis, Que faço se me entrego aos claros sóis Nos quais toda a verdade se acoberta?
634
A pedra do caminho que impedia Um passo mais audaz rumo infinito, Eu descobri, querida era granito, Que sabes ser deveras dura e fria.
Felicidade eu sei o quanto urgia, Porém amor não ganha amor no grito Num jogo sedutor eu acredito E nele existe sempre uma magia.
Assim, ao perceber este empecilho, Um coração deveras andarilho, Venceu a tempestade num deleite.
Da pedra solitária que encontrei, Com teu amor decerto imaginei Pra nossa casa, enfim, um belo enfeite...
635
A pedra no caminho Gigante, intransponível, Em duro e forte espinho, Num mundo corruptível, Recomeçar, sozinho, Seguindo um outro nível...
Assim na nossa vida, Amiga, amada, amante, Um ponto de partida, Surgindo a cada instante, No fim, outra saída, Se mostra fascinante.
Da vida qual um fel, Refazer doce mel...
636
A pele arrepiada, olhos sedentos, Delírios que enlouquecem um cristão, Prudências esquecidas no porão. Carinhos mais vorazes, violentos.
Assim vamos cumprindo os meus intentos, Entregues à completa sedução Do gozo sem limites, a paixão Percorre teus caminhos, passos lentos...
Até chegar à fonte prometida, A gruta dos desejos, umidade. Cascata que em delícia, amor invade
Do amor que assim jamais ninguém duvida Eu faço dos carinhos, minha estima, Enquanto corpo a corpo, a gente esgrima...
637
A pele carcomida se destrói E mostra uma ossatura bem mais frágil. Aquém do que sonhara num presságio, A vida em solidão por vezes dói.
O medo muitas vezes me corrói, Mas tento a fuga em salto bem mais ágil. O verso se perdendo num naufrágio Dos sonhos, outro canto já constrói.
O quase consegui me acompanhando Há tempos não permite uma auto crítica. Amor uma figura quase mítica
Aos poucos minha carne lacerando Permite que adivinhe-se o final Na paz que nascerá do amor boçal.
638
A pele se esvaindo na saudade, Expõe minhas entranhas, vagos lumes. Carpindo a perda amarga, na verdade A vida não me traz qualquer perfume.
Abutres vão fazendo os seus repastos No corpo carcomido, entregue às moscas. Sonhara com amores puros castos, As luzes se tornaram bem mais foscas.
O beijo da pantera ao fim do dia, Gargalha em ironia, extasiada. Do quanto que pensara em fantasia Não sobra, com certeza, quase nada
Somente um gesto antigo e renitente, Expressa alguma luz neste poente...
639
A pele sensual, fina penugem; O rosto tão macio, o gozo o gesto. Movendo mansamente já ressurgem Os medos deflagrados; sou teu resto... Os brilhos dos teus olhos já refulgem Nos sonhos que aos desejos eu empresto E o corte tão profundo traz ferrugem Na boca a sensação de um louco incesto... Mas temo solitário em minha cama, Que o vento que te rouba faz segredos. Acende e vulcaniza toda a chama Dormito lentamente no teu braço. Vencido pelos trágicos degredos, Agarro-me ao teu corpo e nem disfarço...
640
A pena vai expondo o coração Do ignaro caminhante, um andarilho, Que sabe ter apenas negação Durante a tempestade que ora trilho.
Metástases dos sonhos, vida em vão, Minha alma se contém neste espartilho Da senzala e chibata, escravidão, A sorte não permite outro estribilho.
No cerne da questão, antigo fardo, Numa expressão temível, velho bardo Dizia deste cardo no caminho.
Na verve de um poeta se desvenda O encanto imaginário de uma senda, Porém quebrando a taça; perde o vinho...
641
A perfeição do amor deveras lindo Recende ao fogo ardente de um desejo Que aos poucos nos entranha e vai fluindo Causando intensamente o relampejo
No qual nós dois seguimos sem limites Eterna procissão de gozos tantos, Senhora de meus sonhos, acredites Na força sem igual de teus encantos.
Intensa labareda a nos tomar, Na força que não cede em fortaleza, Nas ondas dos teus braços, bebo o mar Seguindo passo a passo a correnteza
Deitando todo amor que existe em nós, No gozo mais audaz, divina foz...
642
A plenitude feita em cada vôo Em devaneios, sonhos, esperança. O mundo em maravilha sobrevôo Nas asas tão sublimes da lembrança. Um canto de alegria quando ecôo Depressa o sentimento vem, alcança.
Criança que se mostra intransigente, Em tantas peraltices, faz a festa, Amor vai inundando a toda gente, E dele- Amor, amor na certa gesta Tornando-me verdugo e penitente, A sorte de te amar, decerto atesta
A glória em perfeição, versos e risos, Em passos mais profícuos e concisos...
643
O pleno caminhar em noite clara Aonde este cenário bebe a lua Minha alma muito além vaga e cultua Gerando esta emoção na qual se ampara
A vida desenhando em tal seara O todo num momento enquanto nua A sorte se aproxima e continua Marcando em consonância o que declara;
Invisto cada verso neste sonho E sei do quanto possa e amor componho Ousando dentro em nós felicidade
Vencendo os meus temores de um passado E nele tão somente o que ora invado Presume o que deveras dome e brade.
644
A plenitude intensa em que me abasto, Encontro em nosso amor, força inaudita. O quanto que tivera em vã desdita, No olhar que se mostrara vago e gasto.
Amor em fantasia tem seu pasto E aplaca qualquer sombra da maldita Solidão. A esperança que me incita Fazendo da alegria o seu repasto.
Eu sinto o teu perfume em cada flor Regada pelos sonhos prazerosos, Vivendas e canteiros; nosso amor
Em lúdica emoção, se faz presente. Ao vislumbrar delícias, risos gozos, Percorro a velha senda, novamente...
645
A podridão do corpo começara, Sentira o gosto azedo, fecalóide, As mãos se decompunham, já notara. Do cérebro porções dum alcalóide
Esparramavam pelo chão... U’a vara, Logo atravessaria seu mastóide, Deixando à mostra tudo que almoçara. Sentia-se zumbi, talvez andróide.
Mas nada de chegar a morte santa, Redentora de tanto sofrimento. A cabeça rodando, se levanta;
Cai em seguida. Pútrido, seu mento Abrira tantas fendas... Ele canta Incrivelmente, goza co’o tormento!
646
A poesia, insana companheira Espalha em simples versos, emoções. Transmuda, num segundo, as ilusões, Nas mãos desta terrível feiticeira.
Às vezes diversão como bandeira, Em outras; sofrimentos e paixões, Loucuras em gigantes proporções; Tocha que nos perdendo nos inteira.
Amarguras e risos se sucedem, Em tresloucada estrada, maestrias. Os versos muitas vezes não concedem
Senão estas verdades incompletas, Alquímicas palavras, mil magias Nos dedos tão sensíveis dos poetas...
647
A poesia é fardo que escraviza Enquanto nos liberta; aprisiona Na mão que nos afaga ou abandona No forte vendaval, na mansa brisa.
A velha companheira que exorciza Deixando o sentimento vir à tona; Uma alma que se espelha ou mesmo clona Deveras verdadeira ou imprecisa.
Detona o que há melhor dentro de mim, De antigos dissabores o estopim Que gera tempestade e calmaria.
Vivendo sob esta égide cruel, Do Inferno ao purgatório, chego ao céu Guiado pelas mãos da poesia...
648
A poesia é o vero Sal da Terra, Traduz tanta alegria, ou dor imensa. O quanto se percebe alma descerra Na boca que hoje eu beijo, a recompensa.
Valsando entre as estrelas versos soltos, Marcados os compassos desta dança. Os mares que se foram já revoltos Conhecem calmaria na esperança.
Não quero soluções definitivas Nem mesmo a falsa luz de vaga-lumes Do quanto tantas vezes dás e privas Espalhas os diversos, vãos perfumes.
Apenas poesia não traiu O sonho que se fez manso e gentil
649
A poesia está, deveras, morta; Eu não tenho esperanças que reviva A musa dos meus sonhos está cambota, Destino de quem fora sempre altiva...
Se nem a solidão bate na porta, Meu coração batuca e já se esquiva, A lua está sem brilho e morre torta. O beijo se envenena na saliva
A moça que eu queria se esquivou; O resto dos meus sonhos? Aposento. O coração depressa se entregou.
Amores que passaram tão estóicos, Amor-bradicardia, bate lento... Matando decassílabos heróicos!
650
A poesia vive da beleza Não importando a forma nem tamanho, As ordens que chegarem já de antanho Não significariam que há destreza.
Servirmos tal banquete em nossa mesa, É sempre, com certeza um belo ganho, E quando no luar claro me banho, Desvendo a mais perfeita fortaleza.
Dedilhas a canção com maestria, Embora não mais beba da harmonia Minha alma dança ao som de teu poema.
Palavras que transformas e lapidas São pérolas por certo bem urdidas, Usando em perfeição tão belo tema...
651
A poesia, amada, nunca morre, Assim como esse amor que imaginamos. Quando a tristeza vem, amor socorre E nos refaz intensos qual sonhamos...
Na rosa da emoção, a poesia, Eterna companheira dos amantes, Nos versos que entoamos; fantasia, Que forra o nosso peito, por instantes...
O brinde que fazemos ao amor, Em cada verso vivo, nossa meta, Permita que se diga ao sonhador Da profunda ilusão de ser poeta.
A rosa que nos guia, essa aliança, Eternizada sempre na esperança!
652
A pomba da esperança me deixou Sozinho neste cais, ao vento breve, O meu canto impreciso, o que restou No tempo que se foi, que a dor não leve O gosto desta vida que amargou Somente teu carinho que me enleve
E salve desta errante caminhada Por entre mil jazigos da saudade. Depois de tanto tampo quase nada Do que tive na vida foi verdade, Somente a mão divina abençoada, Que trazes companheira em amizade...
Meu coração que estava assim sem rumo, Depois de te saber, acerta o prumo...
653
A porta às armadilhas, cedo cerra. Quem tem um sentimento igualitário Amor vai se elevando sobre a Terra, Além do que eu pensara; imaginário
Sonho aonde esta glória assim encerra Um canto mais audaz e necessário. No amor a solução pra triste guerra, Vencendo em calmaria um adversário
Que contra a sua força não podia Entregue sem defesas, fantasia Vislumbre mais sublime em alto plano.
Alegrias em vôos plenos benditos Percebem mansos vales; tão bonitos, Lançando-se sublimes, do altiplano.
654
A porta da ilusão pra sempre aberta Deixando a claridade penetrar, O coração vazio já desperta E pede nova chance de sonhar.
De tudo o que vivi, agora alerta Minha alma se deixando navegar, Fazendo de teu corpo uma coberta Realça esta vontade de ficar
Ao lado de quem quero tanto bem, E sei que me deseja assim também, Sabendo do que triste caminhei
Por isso minha amiga, vem comigo Eu quero o teu amor, bem mais que amigo Após as dores tantas que passei.
655
A porta do barraco permitia Que apenas pelas fendas inda houvesse O brilho que se molda como prece E faz do meu viver alegoria.
Enquanto a porta, às vezes não se abria O jeito foi tentar que inda viesse Antes que a tempestade recomece Aquela a quem teimoso eu já queria.
Resisto, mas não posso mais negar Que as ondas justificam que este mar Não seja tão somente revoltoso.
Se obuses inda trago em minhas mãos, Não quero mais ouvir nem mesmo irmãos Ferino e tolamente caprichoso...
656
À porta do juízo, meus pecados. No precipício louco sigo em frente... As hastes que me prendem nos costados, Um grito agonizante faz demente.
Chibatas dilaceram. Amputados; Braços e pernas. Vou morrer, somente... Os olhos tento ver, estão furados. As danças dos fuzis na minha mente...
Primeiro que sangrar delira a gralha. O rosto dilacera. O pau de arara. Não há um vencedor nessa batalha...
-Respira esse infeliz, vai bater mais! Um teimoso sorriso em minha cara Como se perdoasse Satanás!
657
A porta quando abrindo mostra a sala Deixando a claridade entrar inteira Enquanto na verdade tuda fala Sorriso da morena mais faceira.
Mulher de coronel, o que me importa? Vontade sem limites, não sossega, A fome desejosa quando aporta Caminha sem juízo, viva e cega.
Depois desta fartura sobre a mesa, A noite, uma criança sem juízo, A cama tão macia, sobremesa, É tudo o que eu mais quero; o que preciso.
Enquanto o coronel, gordo, dormia, Na cama da visita, uma folia...
658
A porta que fechaste, sem adeus, Jamais alguém abriu, está trancada... No mundo perseguindo os sonhos meus, Depois de tanto tempo, nada, nada... Meus olhos procurando por um Deus Que possa me dizer de ti, amada, Aos poucos se tornando mais ateus, Se perdem sem ter lume, nesta estrada... É duro este vazio que restou, Depois de tanto tempo de ilusão, Meu mundo sem sentidos se acabou, Na porta que trancaste, sem por que, Também aprisionaste o coração, Que te procura sempre... Mas, cadê?
659
A porta que sonhara escancarada Aos poucos se fechando nega a sala, Antiga fantasia então se cala, Minha pele se torna degradada
A face; a se mostrar tão enrugada, Pesando com escombros minha mala; Futuro neste instante nada fala, Já vejo assim, o fim da longa estrada...
Outonos desfilando folhas mortas, Fechando com certeza minhas portas, Inverno se aproxima. Inevitável...
As sombras do que fui tomando a cena, O resto de ilusão vem e envenena Tornando o amanhecer quase intragável...
660
A porta vai se abrindo devagar O teu perfume se afastando, lento. Queria tanto te sentir... Amar Se traduzindo em dor e sofrimento.
Réstias de luz roubadas do luar, A janela batendo com o vento É como se eu pudesse adivinhar Pela porta entreaberta, este tormento...
Distante do calor de teus abraços, Na cadência cruel, ouvindo os passos Que descem pela escada deste prédio...
Escuridão retorna à minha vida, Partiste sem ao menos, despedida, Deixando a solidão, terror e tédio...
661
A praga da peleja me daria... Um desejo mais torpe que me toma, A manta que te cobre, fantasia, O medo de viver contudo, soma...
A chuva que teimava já se estia, Amores encontrei na velha Roma, Na lei do que me importa, mais valia. A boca normalmente vira estoma.
A plaga onde pelejo já distante... Por ondas e por mares navegados... Não quero nem permito tal instante,
Amores nunca foram revogados... Nos beijos que me deste delirante, O coração desmancha apaixonado....
662
A praga de um ciúme faz da gente Que busca tão somente uma alegria Virar na mão do amor um penitente Que sofre sem descanso todo dia.
Se é marca de batom, ou se é perfume A tralha da mulher não dá descanso, Lá vem a baboseira do ciúme Não deixa mais nem afogar o ganso.
Se a mulher do vizinho usa sainha, Ou se requebra a bunda na calçada, A culpa, com certeza é toda minha, Assim pensa a jamanta desgraçada.
Depois ainda quer tirar o atraso. Se dessa eu me livrar; jamais me caso!
663
A primavera está em cada olhar Mosaico de perfume entre mil cores No pólen traduzindo estes amores Fecundação se espalha e ganha o ar.
O vento nos tocando devagar, Balança sutilmente belas flores, Matizes tão diversos nos alvores Encanto sem igual, amor sem par.
Na brisa matinal, terra orvalhada, A cada novo sonho outra florada Permite que se entenda esta paixão
Tomando o sentimento nos transporta Abrindo o coração, adentra a porta Trazendo em alegrias, o verão...
664
A primavera traz as suas flores Assim como se fosse um grande amor Que nasce nas tempestas e nas dores, Mostrando o seu perfume encantador
Amada, nos caminhos onde fores Permita este momento sedutor Do céu que se renova em belas cores, Recende à primavera e cada flor.
No viço destas folhas se renova A vida se acasala em primavera. De todas as delícias que se prova
Depois do duro inverno que enfrentamos Amor em novo amor renasce e gera Quais fossem; no arvoredo, fortes ramos.
665
A primavera vestida em podridão Regando cada flor com sangue e pus. Jogado sem destino na amplidão O barco da esperança aonde eu pus
O sonho que se foi pura ilusão Pesando em minhas costas feito cruz, Nadando em tanta merda em profusão Cruzando por favelas, bala e obus.
A casa vai caindo em tanta orgia, Política virando putaria O povo se ferrando sem parar
Amizade amargando qual jiló A gente sem ninguém caminha só Enquanto elite come caviar...
666
A primeira vez nua, em nosso espaço; Que tão distante, longe sem embaço, Te desnudaste inteira, Terra amiga, Cantávamos felizes, u’a cantiga...
Eras muito mais bela; nenhum traço Desenhara-te linda assim; Picasso, Nem Da Vinci, nenhum deles; me diga Quem pudera pensar que a Terra antiga,
De beleza gentil e inesperada, Fosse roubar teus olhos, minha amada; Pois tão sedenta andava só de luz;
Assim, mal percebendo o triste blues, Num momento de glória, apaixonada, A Terra, qual teus olhos, tão azuis...
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A produção de um belo e doce vinho É feita com volúpia e com prazer, No colo da morena eu já me aninho No jogo de se dar e receber.
A vida que se fora como um fardo Agora se permite em festa plena. Quem dera se eu pudesse ser um bardo E traduzir em versos tela e cena.
Mas ouça este repente que ora eu faço Clamando o meu amor ao mundo inteiro. Deitando calmamente em cada abraço, Traduzo o que pressente um jardineiro
Que sabe o que deseja e sem ter hora Prepara todo o solo desde agora.
668
A prova da inocência cabe à quem? Parece que hoje as coisas se diferem, Enquanto os holofotes interferem História vai perdendo o velho trem.
Quem tenta, reconhece e sabe bem Poderes tão diversos já se ingerem, E as mãos do delator tudo sugerem Atirando sem destino, matam cem.
Depois de ter a casa destroçada Não sobra à pobre vítima mais nada, Senão rezar bastante e de bom grado
Torcer para a verdade aparecer. Porém é necessário, amigo, ter, Mesmo inocente um ótimo advogado...
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A pulga na cueca faz estrago; Assim também o amor que a gente fez Tomado por total estupidez Morrendo sem sequer ter um afago,
Quem quer a mansidão de um calmo lago Buscando tão somente a placidez, Esquece no caminho a lucidez Perdendo esta ilusão que ainda trago.
O fato é que o amor já se estropia Enquanto a gente mata a fantasia, Quem vive da emoção, nisto não peca.
Mas tendo algum problema pela frente, É necessário sempre que o enfrente Senão vira dinheiro na cueca...
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A pústula explodindo em minha pele, O rastro dos demônios que carrego À louca procissão que me compele, As lutas mais insanas, morrendo ego.
Expondo o que restou já decomposto, Alívios; não terei, nem os mereço. Insalubres; os pântanos do agosto, Eterna sensação de um vão tropeço.
Tenazes no pescoço, mil tentáculos, O crânio esfacelado expõe o nada. A morte ao se mostrar, traz espetáculos, A fonte dos prazeres decifrada
E o vento que balança o coqueiral Espectros num maligno ritual...
671
A puta cocainômana se vende Nos bares e botecos dos ricaços. O corpo apodrecido pouco rende, Do quanto já foi belo, sequer traços.
Enquanto um baseado a vaca acende Cigarros espalhados pelos maços, A maquiagem borrada enfim se estende No rosto destruído por inchaços.
A noite não tem fim sequer juízo, Viagens por inferno e Paraíso Mecânicos orgasmos simulados
E um corvo crocitando em ironia Na carne destroçada faz sangria...
672
A sorte se desenha Aonde nada havia Sequer a fantasia Que o tempo em vão desdenha, E quanto mais se venha Tentar esta alegria Amor sendo utopia Vazios ora embrenha E sei do quanto pude Apenas juventude E sonho sem proveito Do todo em desatino Deveras me ilumino Na lua onde me deito.
673
A pútrida figura que caminha Sem rumo pelos ermos do passado, Num gesto viperino acalentando, A alma perambula vã, sozinha.
Saudades do que fomos é só minha, Em outros braços vejo acorrentado O amor que se perdeu em puro enfado, Migrantes esperanças, andorinha...
No intuito de tentar ser mais feliz, O verso se tornando meretriz Entregue ao mais completo desespero.
O corte mais profundo adentrando a alma, Nem mesmo uma ilusão ainda acalma, A morte servirá como tempero...
674
A pútrida figura toma a cena, Esvai-se entregue aos vermes tão somente. Na fúnebre paisagem se pressente A mágica da vida, intensa e plena.
Tumba pacificou quem envenena O torpe transformado em complacente A víbora escondendo cada dente Serpente expondo a face tão amena.
Memórias seletivas negam trevas, Das glebas eternais que agora cevas, A bela floração de lírios, cravos.
Quem nunca teve amigos, só escravos, Matando em voz solene, a fantasia Demonstra, finalmente, serventia...
675
A pútrida lembrança do que fui Ao esgotar meu tempo, esgoto exposto. O medo de viver ainda influi E cospe esta saudade no meu rosto.
Quem não conhece o templo e assim intui Colhendo do que planta, só desgosto, Aos poucos cada passo em dores pui E o fosso vai se abrindo recomposto.
Não meço mais palavras nem me calo, Já sei aonde aperta um duro calo E disso faço gozo e galhardia.
Amiga; nada mais trarei pra ti, Andando sem destino, eu me perdi, Apenas sobrará u’a campa fria...
676
A quem por tantas vezes quis liberto E vejo rastejando pela casa, A vida no vazio não se embasa, Distante muitas vezes é incerto
Se nada vejo enfim quando eu desperto, A chama se perdeu e apaga a brasa, Sozinho, nem a glória mais me apraza, De trevas eu prossigo recoberto.
Carcaça carcomida pelo tempo, Vencido por terrível contratempo, Encontro no final alagação.
A noite que se fez deveras fria No terremoto mata a poesia, Não deixa nem escombros pelo chão.
677
A refeição servida é sempre lauta Enquanto amor for regra, lei e norma, Felicidade nunca sai da pauta Um gozo interminável já se forma
Meu barco não espera capitão, Apenas um teimoso timoneiro Tomando desde sempre a direção, Coração se mostrando por inteiro...
Os dias em carinho assinalados, Superam qualquer treva desumana, Os olhos nestes mares navegados Permitem nova senda soberana;
Caminhos que distantes percorri, Encontro o porto, agora. Está em ti...
678
A rima que se faz do sonho, arrimo, Que uma expressão pacífica transtorna, Além do que decerto tanto estimo, Por vezes me maldiz, noutras me adorna.
Tornar minha palavra bem mais morna, Às vezes não condiz com o que primo, Na fúria em que este verso ora se torna A velha insegurança traz o limo.
Desdigo a poesia em que me farto, Usando como afago a dor do parto Que embora fatigante, me sustenta.
No vago em que procuro inspiração, A amarga insensatez da solidão É dos meus versos tolos, a placenta...
679
À rosa debruçada na janela Eu faço deste verso uma homenagem, Da mesa vou guardando a rara imagem Que a música divina me revela.
O pensamento solto, toma a sela E voa até tocar esta paisagem Chorinhos, cavaquinho, uma visagem Na qual o sentimento já se atrela.
Tocado pelo sonho de um menino, Poeta em redondilhas doura a cena. No canto em tanto encanto me alucino,
E bebo cada gota que entornaste Nos céus da poesia, doce e plena, Que com o teu lirismo emocionaste.
680
A rosa decomposta no jardim, Em ventos desfolhada, na janela. Mostrando o que sobrou do amor em mim, Servido sem talher à luz de vela.
Do couro verdadeiro sobrou brim, O conto do vigário se revela No falso do batom mais carmesim, A boca que beijava não é dela.
No gesto mais discreto silencia O resto mais completo que esperei. Se empresto meu discurso em fantasia
Queimei os seus retratos por desfeita. Na cama em que cansado, eu esperei, Agora vem mansinha e assim se deita.
681
A rosa delicada da esperança Transborda-se em perfumes e desejos. No gesto tão bonito, uma aliança Se faz na profusão de doces beijos...
Regada com carinho e mansidão, Não deixa que os espinhos te maltratem, Na rosa carmesim, a tentação De termos os delírios que nos atem.
Semente que brotando gera a planta Depois de certo tempo, vive em flor, Que o verso do poeta sempre canta, Em todos os acordes de um amor...
Cuidando desta flor, tenho a certeza De cultivar assim, tanta beleza!
682
A rosa desabrocha em podridão Molhando o meu jardim em sangue e riso, Bebendo do veneno provo o não E vejo a morte vindo em cada aviso.
O toque em gargalhada é mais preciso Na garatuja feita coração. Porém amor prendendo em alçapão Não deixa nem resquícios, vai conciso
E fere em fero corte, crava as garras, Mas vejo em suas mãos doces amarras, Respiro suas águas bebo o mar,
Salgando esta delícia dos desejos Luxúrias em carícia esqueço os pejos E vejo a maravilha de te amar...
683
A rosa destinada para mim É dona de um perfume inebriante. Bem sei quanto me encanta estar assim, Nos braços desta flor tão deslumbrante. Vivendo neste sonho sem ter fim, Te quero minha amada, a cada instante...
Eu quero te enlaçar neste momento, Beijar a tua boca, flor perfeita. Sentir o teu carinho, doce vento, Tu para mim, bem sabes foste feita. Em todo sofrimento és meu ungüento. A rosa perfumada aqui se deita
E vamos nesta noite de verão Tragarmos toda a luz desta paixão...
684
Ouvindo a voz do vento Decerto me chamando Ao dia bem mais brando Aonde a paz eu tento, Viceja o pensamento E sei do passo quando O mundo se moldando E nisto um raro alento Vencer os meus temores E seja como fores Verás além o brilho Da estrela que nos guia Dourando a fantasia Enquanto em paz eu trilho.
685
A rosa em seus perfumes sabe bem Que espinhos fazem parte de seu ser Assim como o ciúme, também tem Pode de seduzir e enlouquecer.
Saudades tantas vezes quando vem, Mistura o sofrimento com prazer. Sem teu amor, querida, eu sou ninguém, Ajuda-me a sorrir, sonhar, viver...
Não deixe-se levar por este medo, Entendo, mas não posso permitir Que a vida nos transforme desde cedo
E venha causar dor em quem desejo. No vento que te roça, vem sentir A mansidão em fúria deste beijo...
686
A rosa mais bonita do jardim Durante a vida inteira, eu procurei, Estrela vai brilhando dentro em mim, Rainha deste sonho, sou teu rei.
Depois de tanto tempo encontro enfim, A deusa que em loucuras tanto amei. História deste amor chegando ao fim Vivendo o Paraíso que sonhei.
Porém daquela rosa em perfeição Apenas farto espinho e solidão, Os olhos abaixando volto só,
Escondo o meu olhar de todo mundo, Reinado não durou nem um segundo. Mas peço, por favor, não tenha dó!
687
A rosa maltrapilha não sabia Dos meus desejos loucos, sensuais, Enquanto se entregando à poesia Mais se afastava; tola, deste cais
Quem sabe do que quer tanto porfia Lutando até chegar aos ideais, Aos espinhos, minha alma resistia Vencendo os desenganos usuais.
Porém a maltrapilha viu-se bela E a rosa caprichosa e feminina Mudando num instante sorte e sina
Volúvel maravilha se revela E foge desdenhosa, do jardim, Desmoronando o resto que há em mim...
688
A rosa no jardim, Você em minha cama, Felicidade assim, Acende sempre a chama
De quem sonhou por fim, Com chuva, mel e lama, Bebendo até no fim Amor que tece a trama
Felicidade espreita Mas vem, decerto, inteira, A boca insatisfeita
Procura por roseira, Não me faça desfeita, Vem logo, companheira...
689
A rosa percebendo quem cuidou Com tanto esmero deste meu jardim Em suaves perfumes me mostrou O que guardo deveras dentro em mim.
A mão de quem em sonhos esperou Delícia dos prazeres teve enfim O gosto delicado que entranhou A boca feita em rosa carmesim...
Sentir o doce aroma penetrando Pelos umbrais da casa, em vento brando Permite que se creia: sou feliz!
O campesino bruto já se amansa Envolto pelos raios da esperança Colhendo o roseiral que sempre quis...
690
A rosa quando prosa me maltrata E traz nos seus espinhos um veneno, Que corta e me invadindo, me arremata E deixa o coração, triste e pequeno...
Fascínio no sorriso da menina, Eu sinto e não renego o sentimento. No brilho deste olhar que me domina, No cheiro do perfume solto ao vento...
Trazendo uma alegria sem medida, Um ácido sorriso que me encanta, Mostrando uma razão à minha vida, Por isso essa alegria, tanta, tanta...
Menina, não és rosa, disso eu sei; Porém traduzes tudo o que eu sonhei...
691
A rosa que em néons traz os matizes Supremas aquarelas da esperança. Projeta no infinito a bela dança De ternos corações, seus aprendizes.
Enquanto em luzes fartas tu me dizes Do quanto amor se dá pra quem alcança A força incomparável da aliança Vibrando no poder dos chafarizes.
Receba o meu carinho, meu afeto, Nos vértices do sonho eu me completo, Tangenciando estrelas que ora trago
Abrindo o peito entranhas rubras cores Cevando com carinho as belas flores Fazendo numa oferta, imenso afago...
692
A rosa que esperavas, a mais bela, Amarga esta ternura tão antiga, Enquanto a solidão já se revela, O vento da saudade desabriga.
Pintando em cores gris, divina tela, Perdida entre lamentos, cada briga Matando uma emoção. Desta aquarela O amor, em agonia, já periga.
Dolores, o teu nome traduzia Um mar de tão sublime fantasia No qual eu sigo imerso e te ofereço
Desde a primeira estrela que vier À rosa mais perfeita. Uma mulher À qual num verso triste eu agradeço...
693
A rosa que te enfeita e tanto ampara Espalha o seu perfume em nossa casa, O tanto de prazer que nos abrasa Tomando cada sonho nos aclara.
No incenso de minha alma, o que buscara, A vida na verdade não se atrasa Se amor em mansidão a glória embasa Mudando os velhos ventos escancara
A porta da alegria e da esperança Sabendo desde sempre da mudança Não temo mais sequer velhos espinhos.
Bebendo da ilusão os caros vinhos Não vejo após a curva desta estrada A sorte qual pensara, destroçada...
694
A rosa que trouxeste em pensamento Vibrando como a flor mais desejada. Sabendo que viver cada momento É ser por toda a vida mais amada...
Aromas que procuro em cada flor, Recendem nesta rosa em meu jardim. Mostrando que a beleza deste amor Ressurge de repente sempre, enfim...
Eu quero este perfume que exalavas Nas horas mais divinas minha rosa... Vulcânicas delícias, tantas lavas, Abriam tuas pétalas, vaidosa...
Mas sinto que perdi os meus caminhos, Nas garras tão cruéis dos teus espinhos...
695
A rosa sedutora bem sabia Que tinha mil perfumes delicados, Amores que em amor se delicia Das rosas iluminam belos fados...
Um louco colibri ao ver a rosa, Em versos dedicou o seu desejo A rosa por sinal tão vaidosa Ao pobre colibri negou um beijo...
De tanto que sofreu o pobre ser, Que enlouquecido vive sem ter rumo. Agora a sua sina é só viver Em busca dum amor que lhe dê prumo...
Procura inutilmente por amor, E beija, sem parar, basta ser flor!
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A rosa solitária no jardim, Sabendo ser tão bela não notara Que mesmo uma esmeralda nobre e rara Não pode ser feliz, vivendo assim.
Um dia ao perceber que amor, enfim, Precisa de outro alguém que manso ampara, Além do que a coitada em vão pensara, Divina criatura carmesim...
Ao vê-la tão tristonha, um colibri Beijando com cuidado a deusa nua Parece, delicado, que flutua
Chegando sutilmente vem a ti Dizer que ser feliz não custa nada, Quem ama se permite ser amada!
697
A rosa sonhadora, tão bonita, Perfuma esse jardim, tão delicada. A rosa assim querida, pois bendita, Já sabe que está sendo muito amada...
A rosa que se entrega, mansamente, Depois de tanto tempo de botão Aberta a luz da vida, totalmente. Percebe o louco vento da paixão...
Jardim em que nasceu, rosa tão bela, Depois de tantas noites sem perfume; No aroma desta rosa, que amarela Se avermelha na dor deste ciúme...
Mal sabe que o rosal todo flutua, Ao ver sua beleza, mansa e nua!
698
A rosa tão vaidosa quão ciumenta A fera que a pantera tanto esconde. Paixão quando demais tudo arrebenta O mundo, vou perdendo, mas aonde?
São fases que se mudam com a lua Poeta nunca soube quem eu sou, Se marco meus caminhos alma nua Nos marcos sinto tanto mar eu vou...
Eu quero dessa rosa tal perfume No gozo desta fera meu prazer Persigo qual falena brilho e lume No fogo, com certeza irei morrer...
Mas deixe que eu te cuide, minha amada. Que a noite sem amor, é sempre nada...
699
A roupa que trazias vai jogada Num canto deste quarto onde estivemos. Varando sem ter tréguas, madrugada, Do amor que tantas vezes nós fizemos...
Eu me lembro de teu corpo sobre o meu Nesse jogo que excita e dá prazer Do tanto que sonhamos, flor morreu, Regada em outras mãos, quis esquecer...
Mas tenho uma lembrança bem feliz Do tempo em que tivemos nossa lua. Agora que embrenhaste outro matiz, A noite sem ter lua continua...
Mas sei que amanhecendo um outro dia, De novo vou amar a poesia...
700
A rua escura e fria, sem ninguém... Vontade de chorar o tempo inteiro. Chamando por teu nome, nada vem. Somente o vento frio é companheiro.
Sozinho, tão distante do meu bem. Amor que foi-se embora, traiçoeiro. Quem dera se eu tivesse amor de alguém, O sonho então seria verdadeiro.
Mas essa dor cruel, essa agonia Matando o que restou de uma ternura, Mascara de tristeza a fantasia
Da vida que sonhara tão amiga, Agora, morre envolta na amargura, Ternura que acabou, demais antiga...
Homenagem à DOLORES DURAN
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