
Vou dançar a Polka
Data 18/11/2010 00:05:51 | Tópico: Poemas
| Vou dançar a Polka… Sei que tenho de o fazer! Tenho de desembraiar e perder a vida numa dança qualquer…Polka, Tango, Valsa… Tenho o som assassino das palavras cruéis a fender-me no fígado. Tenho o vómito ao pé das amígdalas a vociferar… Escritores de Merda!!! E vêm piegas, inocentes, com pezinhos de lã e dotes virginais, que o Pacheco ejacularia putas e escárnio se lhe perguntassem: “o que diria aos novos escritores”… -Olha que se fodam!!! É desta maneira que tenho as letras, pobres, pró vinho, para dançar como um escroto, vil, ordinário, que até o Pacheco mandaria apanhar no cú e ele ia, e eu ia, a dançar a Polka, a cravar vinte paus por extenso, que me dá nojo ver reduções da expressão á escala numérica! È isso, detesto matemática e amo a Polka…vá…uma Polkazinha…vá lá… Os carneiros alinhados em frente á Sociedade Portuguesa de Autores, com manuscritos impressos em papel branquinho e eu de cuecas na cabeça, com merda até ás orelhas a cravar um olhinho… -Deixa-me lá ver a tua ficção científica, deixa-me provar o teu sonhozinho de merda, cheio de robots e fadas e fodas lamechas… Sempre em Polka, em Valsa, em Fandango… Qualquer porra que honrasse o artista, o Zé, a Maria do Best-Seller dor de corno, da paixoneta punheteira que se pensa no Liceu vá lá…um Tsara, uma Yourcenar… Não… o que eles querem é disto, uma varinha de condão que pinga moedas mágicas, com monstros, com conspirações á Rodrigues dos Santos e á Dan Brown…sim, que essa porra do Tolstoi, do Borges e do Satre já eram… A propósito…o Satre também era um filho da puta, mas dançava a Polka…e dançava bem o cabrão. Certo dia que não sei de verão ou inverno disse para enfiarem o Nobel no recto, que ia dançar…Polka, Tango, Folclore…o que fosse, para deixar bem claro que a escrita não se paga, não se vende, não é ficção, nunca é ficção… È física, a doer, a fazer bebés, a lavar a loiça, a beber ácido e a comer iogurtes… Polka, Polka, Polka…é uma alegria!!! Ah…depois os criativos, os cursinhos, os ursinhos, a pelúcia das letras em delicias de: “aprenda técnicas sublimes de escrever”, “Truques e dicas para disfarçar o mau jeito e acabar a fazer lindos postais de natal, de casamento, de baptizado”…escrita criativa por assim dizer…de Polka…Nada!!! Sei que tenho de o fazer! Dois dentes de alho esmagados uma cebola duas lágrimas. Quem te sabe assim á beira de um tacho abatida de peito e cansaço a perder o tempo e o ser, o tempo de ser… Sai um bitoque para uma mesa qualquer ao lado daquela onde bebo um gin tónico. Consigo a momentos entre o troado dos talheres ouvir-te em poema, a cozinhar na língua o fel, a vapor, a pôr em banho crucificado o teu nome Maria, a venderes-te á lei da valia de um Judas Iscariotes que explora o teu corpo a suar futuros de sangue e de nada… De avental, de touca… Maria? Coroa de espinhos operários que sustêm suores de obra-prima, de força… e de Polka!!! A ti ninguém te escreve, Maria… Madalena pecadora das cozinhas… Não és criativa, não tens uma varinha de condão, nem conspirações mirabolantes… Até a varinha mágica te tiraram e deram-te uma colher de pau para que não possas fugir, para que não possas escrever senão refogados e lágrimas que não têm romance, nem deus nem dança!!!! Oculto sob o avental… o teu corpo Mulher. Como estas outras que estão a meu lado tão fúteis como um verbo de encher… E tu a encheres…panelas e pratos, terrinas, travessas…a encher o dia, que te vai levar de novo á cozinha, á algazarra dos putos, ao hálito etílico de um Cristo que carrega baldes de massa em força de pão para a última ceia. Dois dentes de alho esmagados uma cebola duas lágrimas. Vejo-te com uma faca na mão e queria-te a rasgar o destino, a rasgar o avental, a touca, o patrão de alto a baixo, esses empreiteiros porcos que babam pelos queixos nódoas de gente…rasgar estas gajas de lábios pintados e meias de renda que sobem na vida a entesar o pau sem pegar na colher. Rasgar-me a mim, espetar-me como gin tónico no focinho e verter na humanidade um cálice de lágrimas de coragem…depois…confessares-te Maria. Sei que tenho de o fazer! Confessares-te ao mundo debaixo do avental, confessares o tempo e o ser, o tempo de ser… Mulher. E para nunca mais teria de ouvir poemas de doce, romances de açúcar, só passos, de Polka, de Tango e de Valsa… Tenho de o fazer… Depois aos grupinhos, ás tertúlias, a brincar á democracia das letras com peregrinações á primeira hora das editoras, a prostituírem-se a querer vender banha da cobra, Harry Potter’s, guerras das estrelas, coisas de gajas na meia idade…fodasse pá e a Polka pá… Eu que me foda é? Está bem mas…mas mando-vos todos bardamerda, Pessoanos e Camonianos e Lobo Antunianos, e Saramaguianos… Que não me vendo pá… Danço Polka!!! A propósito…a Polka é uma dança? Que se foda a Polka…o que eu quero é dançar o meu lápis até ao cadáver dos dedos!!! Tenho dito!
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