
O Meu Olhar, de "O Guardador de Rebanhos" - Poema II (Fernando Pessoa)
Data 11/11/2010 21:34:54 | Tópico: Poemas -> Reflexão
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O meu olhar é nítido como um girassol. Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando para a direita e para a esquerda, E de vez em quando olhando para trás… E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto, E eu sei dar por isso muito bem… Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança se, ao nascer, Reparasse que nascera deveras… Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do mundo…
Creio no mundo como num malmequer, Porque o vejo. Mas não penso nele Porque pensar é não compreender…
O Mundo não se fez para pensarmos nele (Pensar é estar doente dos olhos) Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos… Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, Mas porque a amo, e amo-a por isso, Porque quem ama nunca sabe o que ama Nem sabe por que ama, nem o que é amar… Amar é a eterna inocência, E a única inocência é não pensar…
Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa) - O Guardador de Rebanhos, Poema II -08/03/1914.
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