
Uma Tragédia Brasileira
Data 11/11/2010 19:34:28 | Tópico: Poemas
| Precipita sobre aquela gélida lápide Onde dorme cabelos encaracolados Cor-de-fogo... Adormecida está olhos-jade...
Sopra o vento veneno que mortifica... Sobe a poeira e se vivifica os ciprestes... Jaz, fria... Longe do mundo terrestre... Muito próximo do enigma da vida...
Repousa sob a caiada cruz, uma ave... Pia notas tristes, tétricas e sinistras... Com abundantes lágrimas e força das mãos Cavo um turvo túnel pela úmida noite...
Tenho meu próprio desespero como açoite E como eminente inimigo, meu coração... Ferido estou pelo dente siso da ansiedade. Pelos meus dedos? Terra preta e sangue rubro.
Cavo, cavo, cavo... Com ensandecida velocidade... Até que, por fim... Toquei algo rígido... Duro... Era teu recanto de última e infeliz morada!
Ah! Jesus! Como minha alma padecia! Como eu chorava! Não era possível que ali, desfalecida, ela jazia! Não! Eu nunca poderia deixar-te partir... Querida!
Não hesito um minuto atômico sequer: Quebro toda colcha de madeira verniz... Vi-te morta! Fim do meu mundo infeliz! Morta! Morta! A mais formosa mulher!...
Morte, sua mão infame a tocaste!... Torpe, miserável! Ela é minha! Só minha! Pego-a em meus longos braços... Toco na face Angélica morta... Dou afagos...
Como teceu errado a aranha da Vida? Como é vil e cruel a Natura e o Mundo?
Beijo-te muito... Frios e roxos os lábios... Bebo com minha língua, meu pranto de sal. Caio sobre teu corpo... Sinto o gosto do metal... Esboço-te um pulcro sorriso... Sinto-me esvaindo... Vejo, por um instante, teus olhinhos se abrindo... Cai, ensangüentado, sob a lápide, meu punhal...
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