
A Noite (Hermann Hesse)
Data 03/11/2010 12:13:09 | Tópico: Poemas -> Reflexão
| Reacende a flor na várzea, longínqua flor da infância que só de raro em raro ao sonhador abre o velado cálice e deixa ver – cópia do sol – seu interior.
Por cima das cordilheiras azuis cega a noite vagueia puxando sobre o seio a veste escura: sorrindo esparze a esmo sua dádiva – o sonho.
Curtidos pelo dia, em baixo dormem os homens: têm os olhos cheios de sonhos, alguns viram o rosto suspirando para as flores da infância cujo aroma os atrai de leve na penumbra, e ao severo chamado paternal do dia confortados se alheiam.
Para o exausto, é um alívio refugiar-se nos braços da mãe que os cabelos do sonhador alisa com mãos despreocupadas.
Somos crianças, logo nos fatiga o sol - ainda que seja para nós destino e futuro sagrado – e tombamos a cada anoitecer pequeninos de novo no regaço da mãe, balbuciamos palavras da infância, palpamos o caminho do regresso às origens.
Também o pesquisador solitário que para o vôo ao sol se propusera vacila, também ele, à meia-noite voltado para o ponto de partida longe.
E o que dorme, quando um pesadelo o desperta, confusa a alma, pressente no escuro a hesitante verdade: toda corrida, para o sol ou para a noite, conduz à morte, leva a novo nascimento, dores que a alma receia.
Mas seguem todos o mesmo caminho: todos morrem e tornam a nascer, porque a eterna mãe devolve-os eternamente ao dia.
Hermann Hesse, poeta e escritor alemão, In: “Pequeno Jardim", 1919.
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