
Jactância de quietude (Jorge Luis Borges)
Data 23/10/2010 23:46:05 | Tópico: Poemas
| Escrituras de luz embestem a sombra, mais prodigiosa que meteoros. A alta cidade irreconhecível se faz violenta sobre o campo.
Seguro da minha vida e da minha morte, vejo aos ambiciosos e quisera entendê-los.
Seu dia é ávido como o laço no ar. Sua noite é trégua da ira no ferro, pronto em acometer.
Falam de humanidade. Minha humanidade está em sentir que somos vozes de uma mesma penúria.
Falam de pátria. Minha pátria é um palpitado de violão, uns retratos e uma velha espada, a oração evidente do salgueiro nos entardeceres.
O tempo está vivendo-me. Mais silencioso que minha sombra, cruzo o tumulto da sua levantada cobiça.
Eles são imprescindíveis, únicos, merecedores do amanhã. Meu nome é alguém e qualquer. Seu verso é um requerimento de alheia admiração.
Eu solicito do meu verso que não me contradiga, e é muito. Que não seja persistência de formosura, mas sim de certeza espiritual.
Eu solicito do meu verso que os caminhos e a solidão o testemunhem. Gostosamente ociosa a fé, passou beirando meu viver.
Passou com lentidão, como quem vem de tão longe que não espera chegar.
Jorge Luis Borges, poeta argentino, poema traduzido por Héctor Zanetti.
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