
Portugal, um agregado de subservientes
Data 21/10/2010 15:27:03 | Tópico: Textos
| Esta é a história de um rato-marrom fêmea que vivia feliz no seu reino roedor com uma colónia fiel e subserviente de calungas. Todos os dias pela alvorada, o rato-marrom fêmea soprava a corneta de estimação e era ver o imediato amontoar de calungas à porta do refeitório, a fim de servir um bolorento e esburacado queijo a sua alteza roedora-mor. Enquanto o rato-marrom fêmea se deleitava, as calungas atropelavam-se devido à pobre visão que possuem para morder as minúsculas migalhas caídas às patas de sua alteza roedora-mor. Após o repasto, e inchada de fazer inveja, o rato marrom fêmea divulgava o plano de tarefas elaborado durante o profícuo sono que as suas fiéis calungas teriam de executar, de forma cabal, de modo a alastrar os corredores subterrâneos do reino roedor.
A Portugal - Jorge de Sena
A Portugal
Esta é a ditosa pátria minha amada. Não, nem é ditosa porque o não merece, nem minha amada, porque é só madrasta nem pátria minha, porque eu não mereço a pouca sorte de ter nascido nela. Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta Quanto esse arroto de passadas glórias. Amigos meus mais caros tenho nela Saudosamente nela, Mas amigos são por serem meus amigos e mais nada. Torpe dejecto de romano império, Babugem de invasões, Salsujem porca de esgoto atlântico, Irrisória face de lama, de cobiça e de vileza, De mesquinhez, de fátua ignorância. Terra de escravos, de cú para o ar, Ouvindo ranger no nevoeiro a nau do Encoberto. Terra de funcionários e de prostitutas, Devotos todos do Milagre, Castos nas horas vagas, de doença oculta. Terra de heróis a peso de ouro e sangue, E santos com balcão de secos e molhados, No fundo da virtude. Terra triste à luz do Sol caiada, Arrebicada, pulha, Cheia de afáveis para os estrangeiros, Que deixam moedas e transportam pulgas (Oh!, pulgas lusitanas!) pela Europa. Terra de monumentos em que o povo assina a merda o seu anonimato. Terra-museu em que se vive ainda com porcos pela rua em casas celtiberas. Terra de poetas tão sentimentais Que o cheiro de um sovaco os põe em transe. Terra de pedras esburgadas, Secas como esses sentimentos De oito séculos de roubos e patrões, Barões ou condes. Oh! Terra de ninguém, ninguém, ninguém! Eu te pertenço. És cabra! És badalhoca! És mais que cachorra pelo cio! És peste e fome, e guerra e dor de coração! Eu te pertenço! Mas seres minha, não!
Jorge de Sena - A Portugal, Quarenta Anos de Servidão, Lisboa 1979
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