
Em lugar de uma carta (Maiakowski)
Data 11/10/2010 18:34:06 | Tópico: Poemas -> Amor
| Fumo de tabaco rói o ar. O quarto – um capítulo do inferno de Krutchônikh(1). Recorda – atrás desta janela pela primeira vez apertei tuas mãos, atônito. Hoje te sentas, no coração – aço. Um dia mais e me expulsarás, talvez, com zanga. No teu hall escuro longamente o braço, trêmulo, se recusa a entrar na manga. Sairei correndo, lançarei meu corpo à rua. Transtornado, tornado louco pelo desespero. Não o consintas, meu amor, meu bem, digamos até logo agora. De qualquer forma o meu amor – duro fardo por certo – pesará sobre ti
onde quer que te encontres. Deixa que o fel da mágoa ressentida num último grito estronde. Quando um boi está morto de trabalho ele se vai e se deita na água fria. Afora o teu amor para mim não há mar, e a dor do teu amor nem a lágrima alivia. Quando o elefante cansado quer repouso ele jaz como um rei na areia ardente. Afora o teu amor para mim não há sol, e eu não sei onde estás e com quem. Se ela assim torturasse um poeta, ele trocaria sua amada por dinheiro e glória, mas a mim nenhum som me importa afora o som do teu nome que eu adoro. E não me lançarei no abismo, e não beberei veneno, e não poderei apertar na têmpora o gatilho. Afora o teu olhar nenhuma lâmina me atrai com seu brilho. Amanhã esquecerás que eu te pus num pedestal, que incendiei de amor uma alma livre, e os dias vãos – rodopiante carnaval – dispersarão as folhas dos meus livros... Acaso as folhas secas destes versos far-te-ão parar, respiração opressa?
Deixa-me ao menos arrelvar numa última carícia teu passo que se apressa.
Vladimir Maiakowski (1893-1930), escritor soviético, com fina sensibilidade poética. Inimigo de qualquer forma de coerção, entrou em choque com a prepotência do regime, ao qual defendia, o que deve ter criado um grave conflito íntimo, que levou ao suicídio em 1930. Escreveu este poema em 1916, Petrogrado. traduzido por Augusto de Campos.
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