
PERFIL
Data 08/10/2010 02:41:05 | Tópico: Poemas -> Introspecção
| Sou aquele que reconsidera o poema dentro de um ovo de Colombo Retira a excalibur da movediça engrenagem social Reitera dividir o menino com a espada de aço de Salomão Enforca Egas Moniz no poial de um castelo de Toledo em ruínas Assassina o Mestre de Aviz e explode a abóbada dos Jerónimos Entorta as linhas paralelas das ferrovias de Dona Maria
Sou aquele que precisa de oxigénio na fantasia
Sou aquele que conta os átomos que sobram do caos social Almoça cadáveres em Hiroshima vê Chaplin em Hollywood Envenena Hitler num bunker de fungos em Auschwitz Oferece a Hirohito o mais incompleto Atlas do sistema solar Acende velas brancas ao capitalismo no altar da falta de senso E ainda encontra tempo para se redimir de si por extenso
Bebo uma cerveja com Freud num café familiar de província Declamo os Lusíadas do cimo da estátua de Álvaro de Campos Aos cegos que procuram um cravo afogado em punhais Nos mares mais que traídos dos nossos luso-ideais
Comigo o braço forte de um Viriato livre e independente Que me encha a alma e regenere o sangue dorido de todos os vícios Com que a sociedade impregnou a juventude Para não tivesse olhos nem boca nem ouvidos nem opinião
Sou um livro hebraico escrito num Avéstico Nordestino actual Contando mil aventuras em histórias quadriculadas De um Jesus sepultado algures não sabem bem onde Crucificado no Monte Sinai pelas mãos de um Moisés incógnito Que apenas escreve penas nos Livros Sagrados Que enchem de ouros e pedrarias os eleitos divinos e afins Enquanto os crentes martelam a fome no Muro das Lamentações Bebendo à pressa as sopas frias de uma canja de galinha de ironia
Sou aquele que guarda na algibeira a covardia do dia
“Antes o despotismo que a razão” brada a batina branca romana “Ámen” bradam as togas pretas de doutorados poderes iluministas Abrem-se as mãos e as leis ao paradoxo do poder dos egoístas Abrem-se as pernas ao remanescer ejaculativo da miséria
Somos as prostitutas da história Judas e Madalena Ou a cruz de ouro de um religioso Mussolini ou Salazar Que contam os abortos escondidos nas toalhas das irmãs Que caridosamente penitenciam Ave Marias e esconjuros Ou apregoam a pés juntos a serenidade de um mandador Eleito por deus para o caso de existirem ainda dúvidas
Sou o apedrejado na mansão dos loucos e profetas Que lambem subsídios como os cães as mãos dos donos Escrevem letrados tratados os Bozo Torresmo Croquete Da nova sociedade de novelas futebóis e concursos retrete Editam livros sem ideias vendem retratos de tão conhecidos Líderes de uma civilização de perfeitos vencidos Consomem o luxo no bucho do lixo que apenas traduz A glória inglória dos perfis que atabalhoam a história
Sem carreiro caminha-se como se as mãos não fossem mais Que extensões de um vazio que corrói a alma e vomita as entranhas No cimo de uma nuvem cria-se um paraíso de sorrisos e chapéus Delicadezas vis nas sevícias que ocultam as práticas mais abjectas Que são pisar o caído para ter o gozo pleno da autoridade Despir o nu para promover a moda e a vaidade Querendo mais e sempre mais e mais que mais Ainda que tudo isso seja uma cibernética falsidade
Sei lá se a minha nudez tem etiqueta ou cartão de crédito válido Sei lá se o meu olhar reflecte um Ferrari ou um Lamborghini Apenas sei que a minha casa alberga as piscinas e os palácios Que o ouro saído das unhas dos trabalhadores consegue comprar Tem razão Marx tem razão Engels tem razão Vladimir Mas a ganância ultrapassa a vicissitude da vã filosofia Para quem defende a liberdade de não saber o que é ser livre
Estou aqui num geométrico ângulo de sindromas e cacos Enchendo o peito de ar sibilando com as veias nas folhas das árvores À procura da trela perdida de um animal abandonado no lodo Estou aqui diante de vós como Cristo sem religião A apregoar o amor entre os homens… Ou não?!
Sou homossexual pelo direito adquirido pela usucapião de mim Solidário com as flores corrompidas pelos exércitos que passaram Ou pelos palcos dos falsos discursos de retóricos governantes Estendo a rodilha da homofobia na janela do dilema De uma Creta inventada para a minha alegria passar
Eu sou o vento do norte que recusa ficar
Não tenho pressa nem tempo nesta modernice dramática De esquecer a semântica da metáfora e engolir a morfologia sintáxica De escolher palavras que não entendo para dizer o que não sei se quero Convencido de que os outros talvez descubram no palavrão a razão De uma raiva que explode vulcanicamente nos meus nervos De uma atroz insatisfação e raiva e ódio e tédio contra mim
Sou o fracasso escolar dos que não tem dinheiro para comprar livros Sou a rouquidão da alma das crianças violadas pela alta sociedade Sou o comprimido que mata de silêncio todas as Madeleines do mundo O terramoto no Haiti as inundações em Moçambique o temporal na Madeira A guerra na Faixa de Gaza a intransigência de Espanha os Países Bascos Eu sou os pregos de todas as cruzes os gritos dos generais os fuzis As lágrimas de Gioconda no auto-retrato de Da Vinci uma gôndola Um moliceiro um rabelo uma traineira resgata às ondas da minha dor Quando vejo o mundo cruzar as indiferentes esquinas da praça da solidão E me deixa prostrado numa parede fria de uma casa em ruínas
Sou o copo de vinho de um alcoólico a heroína de um toxicodependente A lotaria de um compulsivo jogador social habituado ao jogo natural Numa máquina do tempo num salão de jogos e etiqueta Sou a gravidez da menina violada entre gritos e violência A lei católica que permite o nascer da indesejada criança O machão marido que por direito canónico espanca a mulher sua serva Condenada a servi-lo até que a eternidade consuma ambas as almas Iluminadas pela violenta e harmoniosa paz do senhor Sou o canhão de Luther King as experiências de Pavlov Pasteur que procura saber porque não morrem os pobres das mesmas penas Que os ricos que lhe pagam para que lhes cure infecções com bolor
O ridículo de todas estas cenas banais anormais e estúpidas
Sou o Coliseu de Roma o Terreiro de Diana A Catedral de Alá o barroco cristão Nefertiti Um pouco do perfume de uma rosa estrangulada entre as pedras
Um raio de luz Na revolução da vida!
08 Outubro 2010
ANTÓNIOCASADO
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