
O ninho que não havia
Data 02/10/2010 00:15:25 | Tópico: Contos
| - Sabes, hoje encontrei um ninho de melro, com três ovos deste tamanho - disse-lhe o avô cruzando as pontas dos dedos indicadores, para lhe dar uma ideia do quão pequeninos eles eram. - A sério avô?! - perguntou-lhe a menina encantada, de olhos arregalados e brilhantes, quase não cabendo em si de contente. - Sim. E amanhã, logo de manhãzinha, se quiseres, levo-te lá e mostro-te o ninho que está bem escondido num buraco da parede da nossa quelhada(*) do "covão". A menina quase não dormiu nessa noite, tal era a emoção que lhe invadia o ser e lhe subia pelo interior do peito acima, fazendo com que se sentisse a mais afortunada de todas as crianças que conhecia. Afinal o seu avô tinha-lhe confiado um segredo, que, agora, só eles dois sabiam e em breve iria poder ver com os seus próprios olhos aquilo que nunca até ali tinha visto, nos seus ainda tenros cinco anos de vida. No dia seguinte, porventura ainda o galo nem teria cantado e já ela tinha dado um pulo da cama para fora, prontinha a acompanhar o avô aquele tal sítio que só ele sabia. Estranhou o silêncio da casa bem como a ausência de todos. Mas não tardou muito a saber ao que se devia; o seu avô tinha morrido nessa madrugada. Deu-lhe um ataque a caminho da "desprezos", para onde se dirigia como fazia todos os dias por via de ir tratar das ovelhas que o esperavam ansiosas e de barriga vazia, após metade de um dia e uma noite inteirinha fechadas na escuridão do curral. Encontrou-o um vizinho, estendido no chão, quase a chegar à "miséria". Correu ao sítio onde o avô lhe disse que estava o ninho e vasculhou cada um dos buracos da parede. Mas nem sinal de ninho algum com ovos daquele tamanho. Desolada voltou para casa e a tristeza agigantou-se mais ainda, pois para além de já não ter avô, não encontrou o ninho nem pôde ver os ovos que lá estavam dentro como tanto desejava. Talvez nem fosse verdade, disse-lhe a mãe mais tarde. Não. Não podia ser! O avô não lhe iria mentir só para lhe agradar na véspera de morrer. Nunca o soube...

(*)quelhada é o nome dado a uma pequena parcela de terra de cultivo.
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