
CEGUEIRA
Data 22/09/2010 20:19:08 | Tópico: Poemas
| Numa inércia de condenados, mergulhei nas águas profundas de um lamento, à espera que a humidade da noite lavasse o pus das feridas e o rasto vagaroso dos dias apagasse a serapilheira da tua sombra renitente, que insistia em assobiar nas janelas, como um murmúrio de pássaros negros.
Bebi a dor nas águas inquinadas do fundo do poço, onde não chega o cântico das manhãs e as folhas arrancadas pela fúria do outono ensopam a luz dos sonhos derramados.
Com o suor azedo dos meus versos cimentei as fendas rasgadas no peito, por onde me invadiam as heras da solidão, nas noites em que recordo teu perfume distante. Lentamente, resgatei o corpo e a alma à viuvez selada do meu coração. Mas continuo cego. Sem nada ver.
Feitiço algum me devolve a luz do olhar, após ter sido contaminado pelo clarão do teu rosto.
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