
Plenitude (Manuel Bandeira)
Data 12/09/2010 12:10:23 | Tópico: Poemas -> Alegria
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Vai alto o dia. O sol a pino ofusca e vibra. O ar é como de forja. A força nova e pura Da vida embriaga e exalta. E eu sinto. fibra a fibra, Avassalar-me o ser a vontade da cura.
A energia vital que no ventre profundo Da Terra estuante ofega e penetra as raízes, Sobe no caule, faz todo galho fecundo E estala na amplidão das ramadas felizes,
Entra-me como um vinho acre pelas narinas... Arde-me na garganta... E nas artérias sinto O bálsamo aromado e quente das resinas Que vem na exalação de cada terebinto.
O furor de criação dionisíaco estua No fundo das rechãs, no flanco das montanhas, E eu absorvo-o nos sons, na glória da luz crua E ouço-o ardente bater dentro em minhas entranhas
Tenho êxtase de santo... Ânsias para a virtude... Canta em minhalma absorta um mundo de harmonias. Vêm-me audácias de herói... Sonho o que jamais pude - Belo como Davi, forte como Golias...
E neste curto instante em que todo me exalto De tudo o que não sou, gozo tudo o que invejo, E nunca o sonho humano assim subiu tão alto Nem flamejou mais bela a chama do desejo.
E tudo isso me vem de vós, Mãe Natureza! Vós que cicatrizais minha velha ferida... Vós que me dais o grande exemplo de beleza E me dais o divino apetite da vida!
Manuel Bandeira (1986-1968), poeta pernambucano dos mais destacados na literatura de língua portuguesa.
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