
O rio [fragmento] (Otávio Paz)
Data 11/09/2010 23:13:47 | Tópico: Poemas -> Introspecção
| A metade do poema sobressalta-me sempre um grande desamparo, tudo me abandona,
não há nada a meu lado, nem sequer esses olhos que por detrás contemplam o que escrevo,
não há atrás nem adiante, a pena se rebela, não há começo nem fim, tampouco muro que saltar,
é uma esplanada deserta o poema, o dito não está dito, o não dito é indizível,
torres, terraços devastados, babil8nias, um mar de sal negro, um reino cego,
Não, deter-me, calar, fechar os olhos até que brote de minhas pálpebras uma espiga, um repuxo de sóis, e o alfabeto ondule longamente sob o vento do sonho e a maré suba em onda e a onda rompa o dique, esperar até que o papel se cubra de astros e seja o poema um bosque de palavras enlaçadas,
Não, não tenho nada a dizer; ninguém tem nada a dizer, nada nem ninguém exceto o sangue, nada senão este ir e vir do sangue, este escrever sobre o já escrito e repetir a mesma palavra na metade do poema, sílabas de tempo, letras rotas, gotas de tinta, sangue que vai e vem e não diz nada e me leva consigo.
Octavio Paz (1914-1998), poeta e escritor mexicano, Prêmio Nobel de Literatura em 1990. O poeta faz da poesia uma forma natural de convivência entre os homens. Este poema foi traduzido por Haroldo de Campos.
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