
Cem Avós , Sem Netos!
Data 11/09/2010 22:54:50 | Tópico: Poemas -> Esperança
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Felizes daqueles que não viram ninguém partir Esvoaçando pelo ar num rasto de fumaça, Na emboscada liberdade ao encontro dos seus. Aqueles, que abalaram um dia pela madrugada E não disseram nada! Num dia brilhante ou numa manhã cinzenta, De sol escondido e inseguro ainda pela madrugada cerrada, De uma chuva a premiar muito baixinho um segredo Miudinho ao coração de quem fica. Apenas para quedar e segurar as lágrimas Que teimam em cair teimosas, as ingratas! Felizes dos pequenos que na sua infância assentam os olhos Em reconfortantes abraços nos sentidos mais apurados Dos corpos apertados num só amor: Aos olhos dos antigos que cá ficaram. Nos troncos das meiguices gratificantes e sábias, Envoltas aos ramos da grande árvore da experiência Conhecedoras das emoções, que vos recebem de porta aberta No conforto de palavras conselheiras. Desgraçadamente, de quem não os teve! Em momento algum conheceu a ternura de um abraço quente E duradouro. Talvez lembrando o sabor a chocolate De uma cevada acabada de preparar e ainda ferve… Acompanha com pão cozido pela manhã, Um pouco de queijo de ovelha e cabra O doce de ginja e uma tigela de marmelada. Nalguma casa humilde e pequena, Nobre em amor, conforto e carinho Enfeitado com o cheiro de bolinho de chocolate em pequena fatia, Dispostas sobre a farta mesa umas douradas farófias No paninho branco de linho bordado, Em finas cores, ou o já remendado Pano de algodão manchado de estar arrecadado, Numa grosseira estopa torcida Pelas mãos aplicadas das vossas avós! Ai daqueles que a solidão transporta Desconhecedores, da liberdade imposta Desde os tempos versados na origem! Derrotados, para onde ireis netos, sem lar de avós? Cansados, por onde andais vós, avós… sem netos! E quem não os tem, nunca os teve? Premiai da vida a vossa solidão em grandiosos abraços Em virtuosos olhares de amor em corpos meninos, Dos rostos pousados nos braços animados. Ai daqueles olhos novos e brilhantes Ai daqueles outros já vividos em inquietude, Por anos enrugados e escondidos entre os óculos Da solidão imposta ao convívio da juventude.
Carla Bordalo
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