
Esse grande simulacro (Mário Benedetti)
Data 09/09/2010 09:39:27 | Tópico: Poemas -> Reflexão
| Cada vez que nos dão lições de amnésia como se nunca houvesse existido os ardentes olhos da alma ou os lábios da pena órfã
cada vez que nos dão aulas de amnésia e nos obrigam a apagar a embriaguez do sofrimento convenço-me de que meu território não é a ribalta de outros
Em meu território há martírios de ausência resíduos de sucessos / subúrbios enlutados mas também singelezas de rosa pianos que arrancam lágrimas
cadáveres que ainda olham de seus hortos lembranças imóveis em um poço de colheitas sentimentos insuportavelmente atuais que se negam a morrer no escuro
O esquecimento está tão cheio de memória que às vezes não cabem as lembranças e rancores precisam ser jogados pela borda no fundo o esquecimento é um grande simulacro
ninguém sabe nem pode /ainda que queira /esquecer um grande simulacro abarrotado de fantasmas esses romeiros que peregrinam pelo esquecimento como se fosse o caminho de Santiago
o dia ou a noite em que o esquecimento estale exploda em pedaços ou crepite / as lembranças atrozes e as de maravilhamento quebrarão as trancas de fogo arrastarão afinal a verdade pelo mundo e essa verdade será a de que não há esquecimento.
Mário Benedetti, poeta uruguaio (1929-2009), poema "Ese Gran Simulacro" traduzido por Dalila Teles Veras, publicados na revista literária A Cigarra no. 35, junho 2000, Santo André, SP.
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