
O feiticeiro
Data 30/08/2010 14:35:49 | Tópico: Poemas
| O FEITICEIRO.
(Um cordel de JOSE PEDRO PONTUAL)
Quem crer na misericórdia Da Providência Divina Nunca cai em tentação Nem também sofre ruína Sendo justo para Deus Satanás não lhe domina
E quem não crer nas palavras Do nosso Deus criador Não pode viver feliz É um ente malfeitor Que vive solto no mundo Causando o maior pavor
Para provar o que digo Vou contar um ocorrido Que servirá de exemplo A qualquer ente banido Que profana contra as forças Do Messias prometido
Na usina Santo Inácio Perto da cidade Cabo Um macumbeiro perverso Virou-se num bichão brabo Com o satanás no couro Contendo esporão e rabo
Chamava-se esse ente Antônio Pedro Morais Ruim igualmente a peste Matou os seus próprios pais Maltratava Jesus Cristo Gostava do satanás
Ele ainda era solteiro De ruim vivia só Era doido por um jogo De baralho ou dominó Dava tudo por Xangô Vivia do catimbó
Na macumba ele fazia Moça casar sem querer E tendo raiva de um Fazia o pobre correr Latindo de mundo afora Para quem quisesse ver
Mulher casada que ele Pensasse um pouquinho nela Preparava sete pingos Das lágrimas de uma vela Com enxofre e creolina E botava na porta dela
Pó de cavalo do cão Com sua feitiçaria Tronco de jurema preta Cuspia em cima e benzia Qualquer mulher se entregava A ele no mesmo dia
Tinha um molambo enrolado Num pacote de cordão Um esqueleto de um sapo E um livro de oração Uma coruja pelada Nas garras de um gavião
Dezesseis caranguejeiras E uma lacraia choca Um urubu e um gato Dentro de uma maloca Quatro dentes da finada Bisavó da mãe de Noca
Raspa de unha e um dente Da víbora de faraó A queixada de um jumento Do tempo da sua avó Sete espinhas de jibóia Dentro de um caritó
A polícia o perseguia Mas nunca pôde pegá-lo Porque ele se envultava Em gato, cão ou cavalo Cegava as autoridades E não sofria um abalo
Nunca existiu um cristão Pra dar um tabefe nele E nem houve macumbeiro Para trabalhar contra ele O que tentasse morria Tudo tinha medo dele
Tinha um tacho muito grande Que o satanás lhe deu Nesse tacho cozinhava Qualquer um preparo seu Muito mais que Cipriano O infeliz aprendeu
Ele tinha a oração De Pezeta e Cafuringa Uma caveira e uma negra Chamada Tota do Pinga Os olhos e a boca eram Cobertos de pichilinga
Tinha as pestanas da negra Verdelenga Curutuba Um chifre de cabra preta E um saco de curuba E dizia abertamente: Meu poder ninguém derruba
Dizia mais que Jesus Para ele não existia Era a ilusão dos bestas Igreja era outra arrelia O satanás para ele Era um ser de mais valia
A força que acredito É a de pai Lucífer Com ela eu devoro um A hora que bem quiser Desonro qualquer donzela Descaso qualquer mulher
O cabra que me abusar Eu lhe empesto com brocha E sangue de gato preto Nunca mais ele debocha Morre roído na rua Igual tapuru na rocha
Dizem que o padre Cícero Pode mais que satanás Mas é também macumbeiro Como eu e nada mais Cristo era o poderoso Morreu, perdeu o cartaz
Só acredito que ele Era bamba de primeira Se me virasse um bicho Daqui para quinta-feira E fosse daqui do Cabo Até lá numa carreira
Quando ele disse isso Viu o diabo em sua frente Deu um rinchado tão grande Que assombrou muita gente Saiu danado correndo Igual cachorro doente
Nasceu-lhe um rabo comprido Um esporão na canela Sua língua ficou preta Que só fundo de panela Assim contou-me uma moça Que ele foi dono dela
Na carreira que ele ia Destinou-se ao Juzeiro Dando cada relinchado De assombrar qualquer romeiro Com os olhos encarnados Que parecia um braseiro
Passou em Serra Talhada Com o maior desespero Numa certa encruzilhada Mordeu um catimbozeiro Cortou o nariz dum corno Na estrada de Salgueiro
Adiante ele encontrou-se Com uma mulher chifreira Ela deu-lhe uma dentada No cangote bem certeira Que rasgou até os pés Todo o couro da traseira
Na quinta-feira bem cedo Em Juazeiro chegou Entrou de igreja adentro Defronte ao altar parou Nessa hora o padre Cícero Na sua frente ficou
Ele disse: Meu padrinho O diabo está em meu couro Corria o povo assombrado Com aquele desadouro Padre Cícero tocou nele Com seu cajado de ouro
Padre Cícero disse a ele: Nesta hora preso estás Com sete correntes santas Das forças celestiais E dizei a que viestes Que daqui não passes mais
Ele disse: Eu profanei Do autor da criação E também dos seus poderes E vim lhe pedir perdão Nisso vem chegando um negro Trazendo um livro na mão
Tinha os olhos cor de fogo Chegou montado num bode E foi dizendo: Seu padre Salvá-lo o senhor não pode Porque ele me pertence Desde os pés até o bigode
Disse o padre: Se retire Com seu monstro vá embora O negro lhe respondeu: Eu não vou dizer agora Que ainda tem mais gente Pra eu levar nesta hora
Aqui tem mulher casada Ajoelhada rezando Que o chifre do marido De grande está entortando E eu de lá do inferno A tudo estava anotando
Mulher de unhas de pontas E a saia bem ligada Os lábios da cor de sangue As sobrancelhas raspadas O que vem ver na igreja Presta pra minha morada
Aqui tem tanta chifreira Que ninguém mais dará breque E tem homem tão chifrudo Que dá pente, escova e leque Que deixa a mulher sair Para criar o moleque
Moça que não é mais nada Aqui dentro tem também Mulher de casas suspeitas Aí tem pra mais de cem E eu vim lhe reclamar Porque essas me convêm
Com essa voz do diabo Padre Cícero se ergueu Mostrou-lhe um crucifixo bento O moleque estremeceu Pegou o monstro no meio Dali desapareceu
Por toda parte do mundo O caso foi espalhado Nas grandes bibliotecas Também ficou registrado Uma luz do meu padrinho Aqui termino o livrinho Leva quem achar de agrado.
|
|