
um dia na casa amarela
Data 28/08/2010 14:12:55 | Tópico: Poemas
| Estou aqui Como podia estar acolá dentro de um vaso Numa de experimentar ser flor Que come e bebe do que lhe dão
Podia estar na Jamaica a apanhar calor Ou no fundo de um poço possante A criar laços de amizade com o silêncio
Podia estar em qualquer parte do mundo A contar anedotas num palco Estar viciado em literatura moderna E comer páginas inteiras para fingir que morro
Podia dizer que sou outra coisa Para além daquilo que sou e teimo Pedir a direcção do mar a uma gaivota Que veio à cidade comer uns aperitivos
Podia ir mais abaixo que o fundo de mim Verificar se por lá existe alguma porta aberta Por onde o vento arrasta os mendigos, Os frutos e as manhãs nucleares
Cantar o amor à janela de uma janela qualquer Ou medir distâncias entre o passado e o futuro Com um morto em pé Ou fundar o amor a par da revolução que aí vem
Podia engolir a bússola que me há-de dizer Para que lado ficam os poetas mortos que nas mulheres fazem alegrias Onde é que se sonha com uma perna às costas Quem anda por aí a dizer que a verdade pariu pela boca
Podia evitar sal na comida e assim evitar poemas salgados Cair ao chão, partir-me em quatro E aprender como se inicia uma nova vida Sem dar baixa nas finanças
Procurar um céu dentro do céu Ver Deus a costurar asas aos Homens Com o fio de uma extensa lágrima
Podia morrer de vez em quando Para assustar o sonho e a vida Cantar como se fosse o primeiro A quem a morte o beijou
Podia ir à casa do Herberto H. E falar-lhe das minhas plantações de poemas Mas sei que o Herberto H. tem a sua plantação de poemas Mais bem cuidada do que a minha E está louco, mas a rir, Porque os homens acham que a plantação faz-se na terra
Espero um dia colher bons poemas à boca de sino E chamar os amigos cá a casa para um almoço Dar um verso a cada um E no final chamar o cão-poeta para fazer um bailado
Podia ser marinheiro, ideia a percorrer o mar, Azul terra, verde céu, menino branco no colo de mãe-preta, Podia ser grande como o Herberto H. Ou como o Daniel Que antes de ser livro fora árvore andante
E eu podia ser o nem tão pouco mais ou menos Ou aquela luz que a noite roubou Sim podia, mas a verdade é que eu estou aqui E daqui vejo tudo a crescer Os poemas também Isto é, Desde que o sol não seja em demasia E os minhas mãos não façam tremer a paisagem
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