
TENHO MEDO
Data 14/08/2010 02:34:40 | Tópico: Poemas -> Amor
| TENHO MEDO
Chove...
As ruas estão desertas, sem luzes nem sombras, vazias... Apenas um ou outro veículo lambe as pedras encharcadas Dos meus passos sem sombras. No negro céu nem uma estrela acena... Nem o vómito de um grito bêbado trespassa o ar De lanças e lágrimas enforcados.
Chove...
O choro das folhas perdidas das árvores Rompe-me os tímpanos com violência... Até elas estão sós nesta noite moribunda...!
Tenho medo! Fixo o olhar nos troncos húmidos e imploro protecção. O negro investe pela minha alma dentro como um fuzil E dispara... dispara... dispara... Tenho medo!
Atiro à sarjeta o coração aflito... Como um louco piso-o Espanco-o Amaldiçoo-o... Porque me tortura assim?! Tenho medo...
Tão molhado como as ruas Que evaporam os sonhos no ácido da minha dor Arrasto-me sobre as pedras inúteis À procura de uma cartomante Que num oculto Tarot de mágoas e magias Me diga que sim, que é verdade, que vais voltar Nesta noite fria e hipócrita Onde a mente torturada se embriaga de frio e tédio.
Naquela viúva sala de mistérios e esperanças Imploro à caixinha dos búzios O som dos teus passos a cruzar a noite de mim! Abraço Exus, Caboclos, Orixás Expostos num assentamento de piedosa radiação Para que sintam este coração retalhado Tragam até mim o brilho do teu olhar... - Vistam-me de coragem, Génios da Vida!
Tenho medo...
Ergo os olhos lacrimejados para o céu Grito a todos os pêndulos que acariciem a dor Com largas e compridas garras felinas Aprumem a felicidade No movimento oscilatório do teu másculo peito que todos os incensos queimem no enxofre O delírio da chuva que cai e me atormenta!
No espaço ilimitado da loucura Peço a Santa Bárbara que numa espiga de trigo e mel Imunize do sofrimento este peito ferido... - Que um raio se solte do teu manto de luz Rasgue as trevas imundas deste viver tirano e cruel!
Diante das ondas que fustigam impiedosamente os rochedos Num frasco de vidro enrosquei a agonia E esperei que o manso ou o terrível ondular a afogasse... Vi Janaína levantar-se na invisibilidade da beleza Vestida de algas medusas e luar No cabelo uma galáctica de estrelas prateadas... Ajoelhei-me como o mais mísero mendigo Chorei Reclamei Supliquei... - Mãe de todos nós, Abençoada Iemanja, Cura a chaga que me destrói de tanto padecimento!
Aflito, o grito nem é grito... é pura desolação Alma gémea de um desespero qualquer Internada no hospício dos esquecidos de viver Onde as cordas da forca são exibidas Com o mesmo sorriso leviano e cínico Com que maltratam e corrompem a vida!
Chove... Ocultam-se as lágrimas nas gotas do céu...
Em chaga os joelhos já não doem. É tanta a insana angústia Tanto pedido de misericórdia Tanta crença em tudo que pode ser tanto Que já não tenho ânimo para tanto crer Nem vontade para tanta existência!
Tenho medo...
Só nesta tenebrosa noite sem relâmpagos Que incendeiem os sentimentos estrangulados Numa igreja conspurcada pelo vício da intolerância Procura água benta na pia baptismal das crenças Para expurgar a carne e a alma da tua ausência... - Ai, a vontade de te ter supera a punição do pecado!
Na magnânime escadaria de uma capela Abandonada aos répteis da consciência Arranco os pregos de platina dos crucifixos de ouro Cravo-os no peito com determinação Enquanto escamoteio uma oração piedosa À figura de todos os Jesus mortos pelo mundo Em nome de uma paz que nos sacrifica na guerra: - Traz-me aquele sorriso tão lindo Que extasiava de prazer o meu sangue!
Oh poderosos Alas que habitais o Universo Pelos quais multidões de batinas brancas se curvam Num pedido de clemência e obediência cega! Poderosos Maomés de espadas empunhadas Generais dos exércitos que comandam o sol Pelos quais outros povos gemem ténue devoção! Grandiosos Budas recolhidos sob a copa das árvores Mananciais de sabedoria e incompreensão Pelos quais os fascinados derramam a alma! Afastai da humildade do meu corpo vão e perdido A espinha aguçada da frivolidade De nada ter importância quando tu não estás! Embruteçam de rochas este sentir imundo Este amor transcendente e humano Para que ria como um louco Circunscrito à loucura de uma gargalhada! Que ria... ria... ria...
Ah! Quero dormir!
Oh lua! Lua branca! Lua manchada de negro e frio! Lança o meu coração esmagado contra os penedos Erguidos no parapeito deste imenso vazio Que me tritura de espasmos e horrores! Arremessa ao ar foguetes de recordações esquecidas Nos anais de uma agonia supostamente cruel e permanente Para que o futuro seja lido numa página amarelecida pelo passado E doa menos que este presente delinquente e infeliz! - Traz-me aquele que amo na nesga de um raio de algodão...
Oh lua! Poderosa lua! Lua que me fizeste apaixonado! Arranca de mim a obscuridade da paixão O vício do desejo Para que não ame Não queira Não espere...
Poderá um condenado aspirar alguma vez À razão e à calma?
Porque me abandonaram todos?! Porque me deixaram agonizante num chão sem valor?!
A fome que passo não é saciada pela presença da esperança Nem pela beleza do amor...
Porque me ferem as luzes do dia que não vem? Porque não brilha o sol e ilumina esta estrada Que apenas a mim conduz? Porque me abandonaram à mais torturante paixão De num momento ter o mundo numa vénia a meus pés E noutro ter o deserto a empolar os sentidos?
Estou cansado... Tão só Que nem o riso de uma criança Provocaria um sorriso em mim...
Chove... Inundado meu espírito Deixo-me naufragar Num poço de martírios...
Oh almas! Em quantos cemitérios vos adverti Que não queria amar Que tinha medo de sofrer?! Porque me viraste as costas Insensíveis ao vazio deste temor De acres odores?
Chove... Amanhã talvez as lágrimas Tragam contigo o perfume das flores...
António Casado Incluído no livro - Clamor do Vento
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