
Deus pensa no homem! (Jules Supervielle)
Data 08/08/2010 19:31:20 | Tópico: Poemas -> Reflexão
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Não sei como exatamente Mas terá o meu semblante, Eu que sou todos os mundos Com cada um de seus instantes.
Vou separá-lo do resto E isolá-lo entre meus braços; Quero adotar os seus gestos Antes que seja o que será.
Já posso vê-lo à janela De uma casa que ainda não há. Tateio-o, toco-o com os dedos, Dou-lhe forma sem querer,
Dou-o a mim, tiro-o de mim, Pois tenho pressa de o ver! Observo-o tanto, retardo-o Por melhor o conceber!
Às vezes, informe, saltas, Te afastas e entras na noite Ou, crescido, tu me escalas E te tornas um gigante.
Eu que a todo olhar me finto Quero-te ao longe visível, Eu que sou silêncio infindo Te ensinarei a palavra,
Eu que não posso pousar Quero-te firme sobre os pés, Eu que estou em toda parte Quero-te num só lugar,
Eu que estou em minha lenda Sozinho como um cordeiro Perdido na mata horrenda,
Eu que não como nem bebo Quero-te à mesa assentado Com tua esposa ao teu lado,
Eu que sou supremo sempre E desconheço o cansaço, Eu que de mim nada faço,
Pois que não posso terminar – Quero que sejas perecível, Serás mortal, meu menino,
E eu te embalarei no berço Da terra, onde árvores cresçam.
Jules Supervielle (1884 – 1960) foi um famoso poeta na França e escritor nascido no Uruguai.
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