
SONETOS FEITOS EM 06/08/2010
Data 06/08/2010 17:04:13 | Tópico: Sonetos
| 1 Poder acreditar no ser humano Um verme com um cérebro venal, E ter no meu olhar outro final Aonde superasse o desengano, Do quanto tento ser e já me dano Ou mesmo outro momento ainda igual A caricata face do animal Que um dia se imagina soberano. Poder adivinhar alguma luz Se em plena treva gera e reproduz A mesma imagem turva e degradante, Ainda de uma idéia em vã deidade A turba em total iniqüidade, Pretende ser deveras semelhante. 2 A sórdida figura em desencanto Voraz e em tempestades mais atroz Refaz a velha fera viva em nós E a cada novo dia mais me espanto E quando inda queria noutro manto Vestir e mesmo atar; quem sabe, nós Espelho também vago e turvo algoz E neste caminhar nada garanto. Apenas na tocaia me espreitando Um dia tão venal porquanto infando Reflete esta existência temerária, Retalhos em frangalhos, mero crime E ainda crê que um ser maior redime A corja noutra vida imaginária. 3 Aonde se espalhasse alguma luz Esta horda, horrenda súcia se aproveita E quando se percebe satisfeita Outra canalha gera e assim conduz À podre fantasia em dor e pus Somente desta forma se deleita E quando sob a terra enfim se deita Reveste de vergonha a frágil cruz. Não tento desmembrar-me desta imunda E tétrica figura vagabunda Vestida de um reinado que, imoral Pretende que deveras siga após A morte e se tornando mais atroz Ainda se pretende um imortal. 4 Da fome e da miséria esta rapina Perfaz o seu caminho e quer bem mais, Em dias tão vulgares e banais O passo rumo ao lodo determina, E quando num espelho se examina Pensando em seus reflexos imorais Atrocidade em dias tão normais A cada novo sonho, outra chacina. E vendo esta assassina criatura Aonde no vazio se assegura E gera outro vazio e não sacia, A morte que talvez a redimisse Demonstra tão igual, mera tolice E nisto se alimenta a hipocrisia. 5 A violência estúpida reinando Acima da esperança e da justiça Ainda noutro tempo se cobiça O pútrido canalha mais nefando E vejo esta figura desde quando A fúria desenhada mais mortiça Criando a base espúria e movediça Por todo este planeta se espalhando. Aonde quis a paz e a lealdade Olhar desta horda suja ora degrade Traçando no vazio o seu futuro, A fome por poder e por dinheiro Matando a cada dia outro Cordeiro Gerando outro holocausto turvo, escuro. 6 Falar de amor aonde eu vejo a fome? Difícil, na verdade é impossível Não vou ficar calado vendo o incrível Cenário aonde a vida se consome, E quando nada mais deveras dome O ser mais desolado e sei temível No olhar tão turbulento e corruptível Uma esperança morre e aos poucos some. Castigos? Não se vendo, por enquanto, Apenas a muralha em dor e pranto Enquanto outra metade se enriquece, Assim a luz que um dia ainda engana Traduz a imagem pútrida e profana Depois se redimindo numa prece? 7 Já não suporto mais a hipocrisia Nem mesmo esta falseta aonde a vida Expressa a torpe sorte presumida Aonde qualquer sonho existiria, E vendo assim o podre dia a dia, A messe sem destino ou destruída, Queimando em tom sombrio a torpe lida E nisto alguma luz não mais veria. Esquecem da promessa de justiça E fazem na miséria torpe liça Gerando a cada instante um novo e igual E neste turbilhão em ritual A podre face exposta da canalha A todo este planeta em vão se espalha. 8 Qual fora uma moderna e turva peste A fome desvairada por poder Gerada pela angústia de um prazer Aonde tão somente o vão se empreste, Ainda que em verdade mais agreste O sonho se pudesse em luz se ter, Vasculho a cada instante e posso ver Apenas o que em nada se reveste, Olhando neste espelho busco a paz E o que vejo decerto um Satanás Vestido com a pele de cordeiro, E bebo desta angústia doravante Enquanto novo sonho se garante Na busca insaciável por dinheiro. 9 Acordo e quando vejo ainda existe O mesmo amanhecer nublado aonde Uma esperança vã não corresponde Ao dedo da canalha sempre em riste, E se meu coração quer e persiste Apenas o vazio me responde E nada do que tento ora se esconde No quanto do meu ser inda resiste, Explicitando assim o meu futuro Decerto algum caminho mais escuro E nele tão somente outra manhã Idêntica a que tanto ora conheço Não muda nem sequer este adereço Gestado por figura tão malsã. 10 Há quanto se podia ver no olhar De quem comanda a corja sobre a Terra E a cada novo instante noutra guerra A fome não consegue saciar. Numa explosão tenaz, dura e vulgar Aonde sua face se descerra A torpe criatura não encerra E volta ao mesmo fúnebre lugar. Explode a cada passo noutro tanto E gera tão somente o desencanto Ao enlutar inteira a raça humana, A tétrica rapina se acostuma E quando percebendo resta alguma Entre esta corja inteira que se dana. 11 Por vezes quis a fuga quando havia A tempestade imensa dentro em mim, E vendo este retrato amargo ao fim, Tentara presumir a fantasia E nela até quem sabe um novo dia Ou mesmo algo melhor, por isso enfim Abandonando aos poucos o chupim Embarco vez em quando em utopia E tento algum sorriso mesmo quando Percebo a humanidade se tornando A cada novo tempo mais banal, Ensimesmando invés de alçar meu brado, Imaginando um mundo renovado, Porém quando o reparo. É tudo igual... 12 O amor que nos pudesse redimir Jogado pelos cantos sem proveito, No quanto cada sonho eu quero e aceito Tentando alguma luz no meu porvir, Imaginando o tempo que há de vir Enquanto em ilusões enfim me deito Ao menos nos meus sonhos, satisfeito Não tendo o que talvez nem mais pedir. Mas sei da nossa luta interminável Acreditar num mundo mais arável E deixar qualquer luz para meus filhos, Embora a criatura seja vil, Utópico delírio onde se viu O inepto desenhar de frágeis trilhos. 13 Não mais acreditara no possível Renascimento após a morte em ronda Ainda que à verdade corresponda O sonho deve ser sempre plausível, Cantar e imaginar e; mesmo incrível, Que esta alma no final já não se esconda E não se deixe atrás de qualquer onda, Mantendo-se mais lúcida e flexível. E tendo este frescor primaveril De um tempo aonde o novo se reveste Ousando num momento mesmo agreste Gerando outro caminho mais gentil, Pudesse ser assim, talvez um dia, Minha alma mesmo em fim renovaria 14 Já não mais comportando a decepção Somente e pelo menos vendo a luz, E nela nova face reproduz Quem sabe em mais liberta geração. Os filhos do passado já virão O quanto a liberdade em paz seduz, Retirando o cordeiro desta cruz, Deixando no passado esta Paixão. E crendo em renováveis caminhadas Em noites muitas vezes estreladas, Mas mesmo nas brumosas tendo a fé De um dia bem melhor do que este agora Aonde a fera atroz tudo devora Gerando esta farsante e vil galé. 15 Não quero ser amargo tão somente O amor sendo possível, pelo menos Transcende aos dias rudes e os venenos Transformem-se na luz, doce semente. O quanto deste sonho se apresente E torne os meus caminhos mais amenos, Olhando com cuidado estes pequenos Nos quais vejo bem mais do que o presente. Uma esperança é sempre necessária Por mais que a realidade é temerária Na solidariedade um facho além, Que possa nos guiar em plena treva E o coração liberto sempre leva Ao caminheiro o quanto o amor contém. 16 Gerar sem utopias, o otimismo Tarefa mesmo dura ou improvável Num solo quase nunca mais arável À beira de um temido cataclismo, E quando na verdade ainda cismo Tentando enfim tocar no imaginável Desejo um dia novo e renovável Deixando para trás a queda e o abismo. Seria muito bom me libertar E poder ter à frente céu e mar Num horizonte em paz para os que vêm, Embora seja uma árdua caminhada Ao perfazer assim suave estrada Diversa da que eu vejo em vão desdém. 17 É preciso sonhar, disto eu bem sei, Por mais que seja insana a humanidade, Romper o amanhecer em liberdade Ousando acreditar na nova grei, E assim com meus temores romperei Vencendo cada angústia que degrade Deixando no passado algema e grade Num tempo que decerto imaginei, Aonde a liberdade reine nobre E o manto mais escuso que a recobre Puído pelas ânsias da razão Não seja mais sequer um empecilho E quando este caminho em luz eu trilho Momentos mais tranqüilos se verão. 18 Afasto o meu cantar desta lamúria Inútil se não traz um senso prático, E não mais ficarei um tolo espástico Olhando sem sentido tal penúria, O quanto do meu canto se faz fúria E teima neste tom quase temático, Prevendo um tempo atroz e meso drástico Gerado pela angústia, pela incúria. Suavizar neste outonal caminho E crer talvez num dia onde o mesquinho Não reproduza em tanta intensidade No olhar suavizado pela idade A rosa sobrepondo-se ao espinho Quem sabe uma ternura, ao fim, me invade? 19 Liberto pensamento das correntes Espúrias destas vagas leis humanas E quando a cada dia desenganas A dor sem mais remédio tanto aumentes, Meus olhos não serão tão inocentes Buscando novas formas soberanas, Mas tento ver sutis, menos profanas As horas mais cruéis e impertinentes Quem sabe noutro tempo possa até Acreditar na pura e mansa fé Sem ser tão denegrida por igrejas, E ver o meu caminho sem algemas, E mesmo quando enfrento tais dilemas Que as horas sejam lúcidas, sobejas. 20 Meu verso muitas vezes radical, Trazendo o furioso tom aonde Apenas o vazio me responde E nada do que eu fale trague o sal Destemperada sorte em tom venal, O mundo na verdade corresponde Ao quanto de delírios não esconde Qual fosse algum cenário magistral. Mas posso e devo mesmo acreditar Quem sabe noutro tempo este lugar Presuma o nascimento de uma história Diversa desta agora em tom sombrio, É mais do que deveras desafio O se vitalizar de tal escória. 21 Tantas vezes eu buscara Mesmo em trevas luminária E sabia a necessária Luz sobeja nobre e rara, Quando a noite se fez clara Esperança em solidária Caminhada imaginária Novo sol, pois escancara, Mesmo sendo mero sonho Onde o canto em paz eu ponho Procurando a liberdade, Neste instante um vento leve Até quando em volta neve Traz vital tranqüilidade. 22 Emergindo de uma vida Entre tantos medos, creio Num momento sem receio Finalmente uma saída, Sendo aos poucos, pois urdida Num delírio quase anseio, Onde a luz; tento e rodeio Noutra face presumida. Expressando em mansa voz O que fora mais atroz Renovando o canto em mim, Dos engodos e mentiras, Num olvido, quando atiras Refloresce algum jardim. 23 O meu sonho suaviza Na medida em que envelheço, E bem sei, não envileço Presumindo a mansa brisa, O meu canto se matiza Muito além de um adereço Permitindo um recomeço Onde a voz se faz precisa. Após quedas entre tantas E se quando tu levantas Pensas nesta nova luz, O cenário apodrecido Noutro encanto resumido Ao liberto te conduz. 24 Venço com a mansidão As tormentas que carrego, Mesmo às vezes quase cego Vejo além uma amplidão E pressinto que virão Novos tempos e navego Na esperança onde me entrego Num amor feito em perdão, E liberto das algemas, Na verdade, nada temas, Pois somente ela liberta, E o caminho mais suave, Até quando a vida entrave Trazendo a palavra certa. 25 Onde muitas vezes vi O reflexo de outros dias Entre medos e agonias Encontrando agora aqui O que tanto pressenti E deveras não verias, Mas se tens as fantasias Todo o mundo cabe em ti. Versejar e crer na sorte E deveras nos conforte Num alento mesmo quando O cenário se entorpece Muito além de qualquer prece Farto amor nos transformando. 26 Da sabedoria humana Muita coisa poderia Transformar em novo o dia Onde a sorte já se dana, A palavra soberana De quem tanto sonharia, Transcendendo uma utopia Superando a voz profana, Este amor quando nos une Permitindo um passo imune Aos dissídios mais atrozes Libertário este andarilho Coração, quando palmilho Bebo amor em overdoses. 27 Quando pude acreditar Noutra face mais gentil, O que tanto já se viu Presumindo outro lugar Expressando a divagar A festança tão sutil, E se o mundo se faz vil Noutro rumo trafegar? Já não posso mais conter Tanta dor e desprazer E procuro uma esperança Última talvez, na vida, Mas se a vejo sendo urdida O meu passo ainda avança. 28 É sempre preciso crer Mesmo quando nada existe E se o canto se faz triste Busca além algum poder E vislumbra deste ser Mesmo atroz que inda persiste Um caminho onde se aviste Algum novo amanhecer. Esperar? Não, meu amigo, O melhor está contigo Quando existe a liberdade, Dos desejos mais banais, À procura de outro cais Onde a tenra tarde invade. 29 Nas folhagens deste outono Neste vento quase frio, Outro passo desafio E dos sonhos eu me abono, Mesmo quando imerso em sono Num passado escrito ao fio Da navalha em desvario Na esperança enfim me adono E presumo; um inocente, Um cenário onde se tente Pelo menos ver a paz, Liberdade a mola mestra Quando a vida é mais canhestra Uma luz ao fim se faz. 30 Não mais me flagelarei Vendo além esta figura, Qual atroz caricatura Dominando regra e lei, Se nos sonhos mergulhei, Vejo a sorte e me ternura O caminho em tal doçura Que deveras desejei, Mesmo em tanta pedra e espinho, Num desenho tão mesquinho, Inda vejo uma esperança, Iludido? Sei que sim, Mas persisto até o fim Quando o sonho além se lança. 31 Se ensimesmo este desenho Onde a vida se apresenta, Muitas vezes da tormenta Calmaria eu não desdenho E se tanto tenho empenho De lutar enquanto tenta Outra sorte me apascenta Mesmo quando atroz, ferrenho, Eu navego em oceanos Entre medos desenganos Seus terrores e procelas, Mas o sonho não mais cessa E se tenho tanta pressa É que nele te revelas. 32 Caminhando contra a fúria Destes dias tão banais, Procurando um mero cais, Onde vejo tanta injúria, Não me perco em vã lamúria Nem desejos tão banais Entre medos desiguais Tanta dor se eu trago; cure-a. Dessedento esta vontade Nela o tempo se degrade E presuma novo dia, Venço os medos e procuro Mesmo em céu tão turvo e escuro O que me iluminaria. 33 Versos; faço como quem Numa espreita tenta a sorte Onde quer que ainda aporte O passado sempre vem, Do futuro, mesmo aquém Delimito qualquer norte E se a vida traz suporte Nada mesmo me detém. Mas sei bem do quanto quero E num tempo tão severo Inda aguardo a remissão. Um lunático? Talvez, Quando nisto tudo crês Mansos tempos se virão. 34 No outono de minha vida Depois destes vendavais Na procura de algo mais Que traduza uma saída, A verdade construída Entre dias desiguais Em tormentas e fatais Ilusões sem ver saída. Neste imenso labirinto Vez por outra ainda sinto O temor que em dor invade, Mas encontro uma resposta Quando a sorte a vejo exposta Sob o sol da liberdade. 35 Nos anseios: sofrimento Tantos erros cometidos, Os caminhos presumidos Quando em paz os apresento Entregando ao forte vento Os meus ermos e sentidos, Deixo aquém nos vãos olvidos O meu velho sentimento, Atormentado canto Onde o nada enfim garanto Tão somente a iniqüidade, Mas ao ver neste horizonte Nova luz que ainda aponte No raiar da liberdade. 36 Já não posso mais se a vida Foi roubando cada verso E no fundo sigo imerso Na seara em vão perdida, A palavra presumida Num sentindo mais diverso Onde tento e desconverso Noutra senda construída, Das rapinas costumeiras Quer ainda ou mais não queiras O cenário se desola, Mas se atento busco a fonte Nela o mundo em paz apronte Da esperança a firme mola. 37 Esgarçando o quanto quis Num momento mais dorido, O meu canto presumido Traz um dia mais feliz, E se tanto bem me fiz Ao libertar o sentido Noutro tempo; eu não duvido Superando a cicatriz, Vela aberta e vento forte Num cenário que comporte Outro dia mais tranqüilo, Vasculhando o quanto resta A esperança adentra a fresta E em seus trilhos eu desfilo. 38 Jorra em fonte cristalina O meu sonho mesmo até Quando perco a minha fé E ao vazio determina O meu passo não domina O delírio. Sigo em pé E talvez por ser quem é A esperança me fascina. Tantas vezes noutros dias Entre medos me trarias Olhos tristes e vazios, Ao sentir na liberdade O que o sonho trace e brade Venço a dor e os desvarios. 39 Muitas vezes vira o fim Numa tétrica loucura E se tanto se perdura O caminho vivo em mim, Desejando de onde vim O que em paz a alma procura Mesmo imersa em amargura Traz a mansidão enfim. Resoluto caminhante Num delírio deslumbrante Quero crer felicidade, Mas sei bem do seu trajeto E por isso gero o feto Desta etérea liberdade. 40 Tantas vezes percebi Nos detalhes mais sutis Muito além do que já fiz Ou tentara desde aqui, Cada sonho onde sorvi Ou buscara ser feliz, Tolamente este aprendiz Nos meus erros me perdi. Quero crer no libertário Caminhar mais solidário Entre as pedras costumeiras, Inda mesmo quando vês A total insensatez E da cena tu te esgueiras. 41 Quando o tempo se anuncia Em brumosas faces, vejo Muito aquém do que inda almejo O final de mais um dia, Esperança se faria Neste sonho mais andejo E se tanto não prevejo No final uma alegria, O me sonho teima enquanto Noutro rumo vão me espanto E percebo este ilusório Canto em plena liberdade E o que ainda tente e brade Traça um rumo merencório. 42 Aprender com cada queda E tentar um novo dia Onde nada mais seria Senão erro que se enreda, O delírio tanto seda Quanto traz nova agonia Nisto tudo eu merecia O reverso da moeda, Mas o peito não sossega Mesmo quando uma alma cega Esperando alguma luz, O meu verso não se cala Nem a voz se faz vassala Onde em liberdade a pus. 43 Eu sei que tu jamais retornarás, Mas mesmo assim alento o velho sonho E quantas vezes; teimo e me proponho Tentando pelo menos ver a paz, Do quanto poderia e fui capaz O risco se apresenta e mais tristonho O verso aonde o mundo que componho Jamais ao sonhador, pois satisfaz, E sei das discordâncias de quem tenta Vencer em paz diversa e vã tormenta Singrando este oceano das paixões, Embora no horizonte veja a luz Ao quanto a cada instante decompus O mundo aonde o nada ainda expões. 44 O medo se aproxima, traz seu cheiro Remonta aos ledos de um passado Aonde percorrera desolado Tentando cultivar mero canteiro, E as flores; noutro engodo costumeiro Num ermo tantas vezes desenhado Traduz o meu cantar e inebriado Esqueço que já fora jardineiro. Depois de certo tempo nada resta E vejo alguma messe em frágil fresta E resolutamente busco ainda Um dia mais suave e nada tendo, Apenas me apoiando num remendo Que ao longe, no horizonte se deslinda. 45 197 Na porta dos palácios me permito Imaginar cenário mais gentil, Mas quando a fome espalha e resumiu O tom mais doloroso e quase aflito, Aos poucos outro canto; em mim reflito E sorvo este cenário amargo e vil, E quando se pensara mais sutil O sonho quando às vezes necessito. Reparo cada marca mais profunda E sinto a solidão enquanto afunda Na lama o pensamento de justiça, No quanto acreditei em novo dia E ver em cada tempo outra heresia De nada adiantou o sonho e a liça. 46 Viver esta esperança sem juízo Depois de tantos erros cometidos, Tocando com furor os meus sentidos Acumulando apenas prejuízo Aonde imaginara algum sorriso Os dias com certeza, combalidos E os medos novamente pressentidos No errático delírio eu me matizo. No vicejar da mansa primavera Beleza sem igual ainda espera Quem tanto acreditou no seu futuro, Mas quando outono chega e vê a face E nela o desolado mundo trace Apenas um cenário tosco e escuro. 47 Eu sei que terminou o nosso caso E desta forma a vida continua, Eterna companheira, a velha lua Já sabe do sol-pôr em ledo ocaso, Mas mesmo assim do sonho ainda aprazo E sito o meu delírio aonde atua A sorte desejosa e volto à rua Num tempo mais tranqüilo, mero acaso. Disfarço cada engano deste jeito E quando solitário enfim me deito Olhando para o céu bebendo estrelas E tento num instante até diverso Vagando sem sentido no universo Apenas num momento em paz, contê-las. 48 Não pude receber o teu recado E nem queria mesmo até ouvi-lo, A vida num momento mais tranqüilo Enquanto junto a ti tanto me enfado, Arisco pensamento num traçado Suave poderia e já desfilo, Raiando a cada instante em novo estilo O tempo se aproxima do meu lado. Restauro os meus anseios quando creio Num dia em plenitude e estando cheio Da luz que ora se emana em manso olhar. Distante dos teus passos, liberdade Rompendo esta ilusória e tola grade, Eu posso finalmente em paz, voar. 49 O jeito foi fingir que não te quero Embora este caminho; desilude Preserva o que inda resta em plenitude Vencendo um temporal atroz, severo. E quando em novo dia me tempero Ainda que se tente e tudo mude Se resolutamente esta atitude Permite um desenhar bem mais sincero, Esgoto os meus cenários nesta fonte E quando novamente além aponte Um sol imaginário eu possa ver Depois da tempestade esta bonança E mesmo se ao vazio a vida lança Melhor que não ter o amanhecer. 50 Meu pranto percorrendo todo o rosto Já não reconhecendo a face escusa De quem a cada passo se entrecruza Deixando este cenário em dor exposto, O quanto se aproxima em contragosto O mundo aonde a voz se faz confusa Errático cometa; nega a musa Num gélido e sofrido vago agosto; Não mais suportaria a decepção, Mas quando a realidade dita o não Expresso em calmaria assustadora, Quem tanto no passado ainda fora Imagem de um momento feito em luz Já não será na vida, imensa cruz. 51 Vasculho cada ponto de partida, E tento descobrir uma chegada Aonde noutro tempo; desenhada A messe me traria nova vida, E quando se percebe a resumida História muitas vezes sonegada, Depois de certo tempo resta o nada, A imagem totalmente destruída. Refaço-me porquanto mimetizo O tempo sem saber se inda é preciso Ou mesmo discordante em sua essência, E quando se percebe a lucidez Ao menos no futuro ainda vês Um ar quase talvez de paz, clemência. 52 Encontro solução; mas não vigora A força; aonde um dia eu pude ver O tempo num suave amanhecer Sem medo sem terror e sem demora. Um dia após a queda me apavora, Mas nele posso até reconhecer O tanto que inda resta por viver Ou mesmo outro caminho já se aflora, Restauro a minha força e com certeza Sabendo desta imensa fortaleza Gestada a cada instante pelas dores, A furiosa face em tempestade Por mais que no começo me degrade Promete com clareza outros albores. 53 Enluto um coração tão sem coragem Nas tramas tão cruéis de um grande amor, E seja da maneira como for O dia prometendo uma ancoragem, Expressa então a lúdica paisagem E nela nova fonte a recompor Gerando em seu poder transformador O quanto necessito em estalagem. Resumo em novos versos o meu sonho E quando ao mais sublime amor; proponho Deixando para trás as fantasias Amadureço em mim a forte idéia De ter em minhas mãos não mais a déia Que tantas vezes, tola, tu trazias. 54 A mão que acaricia também bate E marca tatuando o quanto insiste E mostra a solidão aonde existe A mera sensação de vago abate, O quanto do meu mundo se arrebate E leve com certeza o sonho em riste, Ainda quando fora atroz e triste A sorte traz em si novo arremate. Se desgraçadamente um dia a quis, O sonho, como um ledo chamariz Transcende à realidade e nega o olhar E reparando bem, nada valia Sequer a pequenez em fantasia Pudesse em tal cenário te espelhar. 55 Nos bailes que freqüentas e não danço Percebo a solidão em carne viva, Do quanto esta esperança já se priva O dia não seria tão mais manso, Mas quando no futuro ora me lanço E a sorte noutra luz em paz me criva Já não apenas sonhe e sobreviva Traçando para mim doce remanso. Esparso os meus demônios e os afasto, O olhar outrora duro e até nefasto Em pacificadora tez se vê E a vida que não fora tão tranquila, Somente por poder; enfim, ouvi-la Já passa a ter decerto algum por que. 56 Os olhos espremidos de tristeza Já não comportariam esperança, Mas quando no futuro o sonho avança Melhor deixar levar em correnteza. O quanto desta vida diz surpresa E o tanto que deveras sempre cansa A luta em desespero e a fina lança Da qual o sentimento se faz presa. Restando dentro em mim outro momento E nele com ternura me alimento Bebendo desta luz que um dia vem, Depois da solidão tão necessária Tocado por imensa luminária Encontrarei decerto um novo alguém. 57 Deste-me solidão, não a mereço Cansado de tentar ao menos isto Um novo caminhar e nele insisto Trazendo mais que simples adereço, E quando se precede este tropeço No aviso de um final aonde assisto A morte mais banal, mas não desisto E ao novo caminhar; pois me endereço. Servindo como fosse experiência O amor quando se tem dele ciência Presume liberdade e não algema, Mas quando em tom venal se faz o clima Matando o que seria enfim estima, A vida superando este dilema. 58 Tropeço cada passo, sem perdão E bebo desta sorte aonde um dia Apenas outra face mostraria O quanto busco em calma provisão, Cansado de lutar e sempre em vão, Depois de certo tempo a melodia Em novo tom decerto me traria Invés de sinfonia, esta canção Aonde se aproxima do infinito E quanto mais audaz se faz o grito A fúria se vencendo em temperança, Assim após tormentas, vejo o cais E nele se apresenta muito mais Tranquila o que inda fosse esta esperança. 59 Avanço teus castelos, fantasia, E sei do cavaleiro que inda esperas, Mas vejo tão distantes primaveras Aonde cada sonho se erigia Vencer esta loucura eu poderia Deixando para trás as frias feras E quando noutro rumo destemperas, Não mais partilho a dor, nem agonia Apenas liberdade dita a regra E nisto o meu caminho agora integra Totalidade feita em rara luz, Deveras muitas vezes eu sofri, Mas quando vejo o lume imenso aqui, Ao sonho cada passo me conduz. 60 Amores que não pude constatar Nem mesmo em tais promessas onde tanto Pudesse e na verdade não garanto Sequer o menor raio de um luar Perdido sem deveras suportar O duro e mais temido desencanto E quando novo tempo eu adianto Tentando tão somente caminhar Por entre os espinheiros, pedras e ermos A vida modifica velhos termos E traça a redenção onde pudesse Traçar outro desejo e nele a paz Aonde cada passo satisfaz Num rito feito além de mera prece. 61 Sonho que nos alimenta e inebria, Vontade de estar contigo de verdade, Sentir a pele, ouvir insanidades, Fazer todas as bobagens, Cobrir-te de carinhos, De doces palavras, Entranhar-te meu perfume, Junto e misturado viajarmos Num gozo extasiante e demorado; Regina Sentir tua presença e te sorver Com calma e com vagar em noite insana, Torrente se tornando soberana Inunda-nos decerto em tal prazer Bebendo cada gota e perceber Nesta ânsia tanto sacra quão profana Numa explosão sem par o mundo explana Num átimo o mergulho eu posso ver E sinto transbordando num rocio O gozo que recebo e propicio Na louca maravilha de nós dois, E após romper em nós esta alvorada Loucura tão querida e deseja Repete-se e repete-se... Depois. 62 Meu olhar mergulhado no seu Suscita a memória da minha pele Desejos realizados Marcada_mente De prazer e delírios de paixão... REGINA COSTA As peles se entranhando num só tom Matizes unos tocam os anseios E sinto na beleza de teus seios Um toque delicado, raro e bom, O amor ao transgredir regra qualquer Já se permite além do quanto pude, E vivo a cada instante a plenitude Menina, moça deusa, uma mulher. Embalos entre colchas e lençóis E nesta maravilha tu constróis Anelos que jamais separarão, E quando na nudez de um corpo belo Erijo com vontade o meu castelo, Matizes tão suaves de um tesão. 63 Balanças tuas mãos num até breve, E sinto se aflorando uma saudade Que aos poucos, sem respostas já me invade Por onde a correnteza/amor me leve, O sonho se transforma e já se atreve Bebendo com fartura à saciedade, Mas quando se percebe e; na verdade Apenas o vazio aonde neve Traduz o quanto quis e nunca pude, O risco se transforma em atitude, E após a tempestade nada vejo, Somente esta distante fantasia E nela novo tempo não teria Sequer a menor sombra do que almejo. 64 Capítulos refeitos desta história Aonde o grande sonho dera em nada, Adentro a noite outrora desejada E a vejo muito aquém, e merencória A lua que desnuda e traz a glória E nela nova sorte desenhada, Vagando pela intensa e rara estrada O amor se distancia da memória. E tanto pude até mesmo prever A imagem mais sobeja de um prazer E todo este cenário se abandona, Os ermos de uma dura solidão Hermético caminho dita ao não, E todo o meu passado vem à tona. 65 Digeres cada beijo que te dei, E traças do passado outro momento E nele ainda tão somente ainda tento Desvendar meu caminho nesta grei, Apenas derramando o quanto eu sei Reinando sobre nós o alheamento E neste desenhar tanto incremento A furiosa face e me mostrei. Alhures vejo a lua sem destino E quando ainda sonho, determino Estrada bem diversa da que outrora Pudesse traduzir qualquer promessa, E o mundo noutra face recomeça Enquanto a poesia nos devora. 66 Exprimes sem piedade os seus sorrisos Irônicos e mostras tua face Aonde quer que o canto ainda grasse Os dias não serão mais tão precisos, As sortes moldam erros e; concisos Os passos para além do quanto trace Gestando esta loucura que já desgrace Gerando à vida enormes prejuízos. Desfilas com soberba em altivez E quando mal percebes; tu não vês A mesquinhez exposta nos teus passos Meus dias entre tantos que eu pudera Já não suportam mais a tola espera E os tempos se mostraram vagos; lassos. 67 Farpas esparramadas pelo chão Escombros do que fora um sentimento E quando ao menos busco estar atento Os cortes e as feridas se farão, E nesta mais dispersa direção Ainda alguma paz, procuro e invento, E sei do meu cruel pressentimento Tramando a cada sonho um novo não. Esboço outra atitude, mas não creio No canto em tom diverso, em devaneio Gestando dentro em nós a hipocrisia No vértice dos sonhos te percebo, E quando desta dor ainda bebo, Concebo o que jamais receberia. 68 Guardaste minhas dores num recanto Jogado num armário, atroz olvido E quando um novo tempo é presumido Apenas no final, o desencanto E quantas vezes; tolo, inda garanto Um passo além do quanto é permitido A quem ao mergulhar sem mais sentido Envolve-se em terror, temor e pranto. Num pendular momento a vida traça Figura tão diversa e da desgraça Persigo alguma messe, mas não vem. E tento novamente outro caminho, Porém ao me sentir tolo e mesquinho, Do fim mais desejado sigo aquém. 69 Hoje descobri quanto me negavas Do mais sutil momento aonde um dia Pudesse imaginar e até teria Além destes vulcões; intensas lavas, E quando as sortes ditas; são escravas Olhando para além da fantasia Percebo o teu sorriso de ironia E sei que nada mais tu escutavas. Servindo tão somente de alimária A sorte muitas vezes temerária Pressente a queda e dita este tropeço, Eu sei que a solidão se faz cruel, Mas quando caminhando em tosco léu Cenário mais imundo, eu desconheço. 70 Idolatrei teus passos. Infeliz Momento aonde quis ter esta sorte E quando mais a vida se comporte Do jeito e da maneira que se quis, O passo mais audaz, quiçá feliz Traduz o quanto a vida nos transporte Levando para além de qualquer norte Onipotência em força geratriz. Respaldos encontrando aonde um dia O sonho noutro tanto se imergia Festivamente sigo rumo a ti, E mesmo quando a tarde é tão brumosa A noite em plena festa se antegoza Chegando ao quanto a Deus, sempre pedi. 71 Joguei as esperanças neste lixo Aonde tu mostraste o quanto vales, Depois de conhecer montanhas, vales O olhar cruel e tosco, um mero bicho E quando procurara um ninho, um nicho Ainda que deveras tanto fales A vida se traçando em fartos males Enquanto se buscara algum capricho E sinto ser alheias ao querer De quem somente um dia quis saber Em qual caminho houvera de seguir, Expressas solidão a cada olhar E nisto tantas vezes quis vagar Sem ter sequer noção do que há de vir. 72 Lograste tantas falas quando eu pude Apenas procurar algum alento Jogado contra a fúria deste vento O quanto se mostrara e já desnude Uma alma na verdade obesa e rude Traçando o mais venal de um sentimento E quando alguma luz, ao longe eu tento Vislumbro a dura treva em plenitude, Mesquinha enquanto mesmo viperina Aonde o teu caminho determina Não vejo mais sequer a menor chance De alguma serventia enquanto traças Em ermos tão distantes, ledas praças E nelas nem a voz em paz alcance. 73 Mentiste sobre cada novo fato, E assim ao te mostrares plenamente Apenas o vazio se apresente Aonde o velho sonho eu não resgato E quando se transforma em mais ingrato Caminho dominando passo e mente O todo se anuncia e qual demente Outro delírio em ti; bebo e retrato, Vencer os meus tormentos e tentar Depois de certo tempo outro lugar Imerso em luz tranquila e plena paz, Remendos do passado traduzindo Algum lugar aonde o quis infindo E o sonho se desdenha mais voraz. 74 Na mão direita levas a certeza De um tempo aonde eu possa acreditar Na paz que com certeza há de tomar Com toda maravilha a correnteza. A vida transcorrendo sem surpresa Dourando cada sonho num luar Disperso em maravilhas a tomar O quanto pude crer em tal clareza. Depois de poucos dias nada resta Sequer a menor luz e a mera fresta Agigantando em corte esta tortura Transcende à própria vida e sem disfarce Ainda que deveras busque e esgarce Ao fim de cada verso me amargura. 75 Ostentas teu sorriso de vingança Trazendo com furor o dia em trevas E quando noutro canto tu me levas Traçando a mera luz de uma esperança E nada após a queda já se alcança Sequer as horas claras. Ao fim nevas E quanto mais além dispersas cevas Tramando a cada dor, destemperança. Resumo o meu delírio em voz audaz E sei quando o caminho se desfaz Tragando cada dia em tom escuso, E sinto esta mortalha se tecendo Gerando a cada passo outro remendo E no final o medo eu entrecruzo. 76 Percebo que não queres o meu braço E nada posso além da minha queda Resisto enquanto o tempo já se enreda Tramando em solidão diverso traço, E o medo de sonhar porquanto o espaço Pagando com terror, mesma moeda A vida na incerteza agora veda Caminho aonde um dia me fiz lasso E sei do quanto posso a cada instante Ainda numa vida degradante Eu tento algum momento em calma e paz Mas sinto que me perco deste rumo Errático cometa ora me assumo Enquanto a vida eu sei, nada me traz. 77 Quebraste; em desencanto, cada sonho E neste delirar aonde um dia Pudesse transformar em alegria Apenas um caminho mais bisonho, E quando novo tempo eu me proponho E nisto a sorte mesmo poderia Vencer o que se faz com ironia Eu tenho outro momento até risonho. Vasculho cada parte de minha alma E nada do que encontro ainda acalma Quem tanto quis apenas ser feliz, Herético desenho se desvenda E quantas vezes; vejo mera lenda Amor quando a verdade o contradiz. 78 Resgato meu amor? Nem mais o quero, Apenas prosseguir a minha vida E quando nova luz se faz urdida, Eu tento outro caminho menos fero E sei do desamor duro e severo Aonde numa messe presumida A sorte não se vê mais decidida No quanto deste encanto degenero, Bastando para mim tranqüilidade, Ainda que meu peito teime e brade A consciência nega algum futuro E sei do quanto posso ou mesmo pude Porquanto já perdida a juventude A paz no meu outono, eu asseguro. 79 Saudade foi herança deste encanto Já morto e sem sequer saber por que Das flores, nem talvez algum buquê No fim desta colheita inda garanto, O medo de seguir, velho quebranto Apenas o vazio inda se vê E nada do que um dia onde não crê Uma alma em tenebroso e rude manto. Vestindo esta ilusão, e apenas isto, Alheio ao que vier, ora desisto E sigo em paz o rumo e apenas vi Depois da tempestade várias nuvens Mostrando com certeza ao quanto vens Reflexo do grisalho vivo em ti. 80 Tarântula devora o pobre macho E assim a natureza se repete No olhar aonde amor ora promete E nada se percebe aonde eu acho Nem mesmo qualquer luz ou mero facho Apenas esta dor que me acomete Gerando numa adaga ou canivete Ardor aonde em treva eu sobretaxo. Mergulho num vazio e sinto após A queda outro momento mais atroz Gerando nova dor aonde um dia Pudesse acreditar em paz e vejo O dia tortuoso e num lampejo Apenas o não ser nos tomaria. 81 Tanto tempo se percebe Noutro tanto mais diverso E se um dia eu fui disperso Hoje adentro em velha sebe O caminho que concebe Na expressão de cada verso Gera em si novo universo Fantasia ali se embebe, Vago à noite na procura Por quem tanto me amargura, Mas ternuras; também tem E nesta dicotomia Nova luz ora irradia Deixa atrás qualquer desdém. 82 Nada posso contra a sorte Nem lutar neste abandono, E deveras se me adono De algum sonho que conforte Na verdade já reporte Ao caminho aonde eu clono Outra luz e semi-tono Quando a vida não suporte. Resumindo a minha vida Em começo e despedia, Sempre assim, já não me engano, No final de cada caso Vejo apenas este ocaso Acumulo mais um dano. 83 Já não pude acreditar Neste olhar mais traiçoeiro De quem tanto vai ligeiro Rumo ao turvo e escuso mar Se eu navego ou naufragar O meu canto é mensageiro Do que outrora fora inteiro Hoje nada em seu lugar. Amar como? Nada resta Nem sequer a menor festa, Abandono assim o barco Com meus erros, eu sempre arco, Mas de um sentimento parco Não se vê sequer a fresta. 84 Novamente vou sozinho Sem ter porto ou ancoragem E seguindo esta viagem Solo duro e mais daninho, Percorrendo o vão caminho Sempre ao lado da paisagem Onde traço esta miragem Num insano tom mesquinho, Resumindo o meu delírio Sedução dita o martírio E não resta nem sequer A lembrança mais feliz Desdizendo o que se quis, Nada além; se inda vier. 85 Ouço a voz de quem um dia Já se fora para além, E o vazio me contém Onde tanto poderia, E se é sonho ou fantasia O delírio deste alguém Prosseguindo sempre aquém Transbordando em agonia, Eu mergulho no passado Resgatando este recado De quem foi e não mais volta, Mas deveras segue viva E por certo jamais priva Meu sonhar de sua escolta. 86 Num momento mais audaz O meu canto sem temores Onde quer e mesmo fores O teu sonho já me traz, Mensageiro mais audaz Entre tantos dissabores Ao colher em ti as flores O mundo satisfaz E um canteiro, o roseiral Num instante triunfal Delirante traz o aroma De quem tanto amor cevara E tomando esta seara Meu caminho em paz já doma. 87 Dissonâncias; ouço quando Tento ainda estar mais perto E se tanto ainda alerto Coração em contrabando Deste tempo se formando Bem diverso do deserto E o cenário onde desperto Num momento me inundando. Sendo assim a vida trama Muito mais que mera chama, Fogaréu em brilho raro, E este encanto dito amor Com carinho e aonde for Quero tanto e te declaro. 88 Nada mais se pode ver No horizonte em bruma e medo Onde o canto; em paz concedo Percebendo este prazer, Tanta luz posso colher E se traço novo enredo Deixo além qualquer segredo E percebo o bem querer, Neste encanto sem igual, O meu mundo, menos mal, Traduzindo calmaria, E se quero outra fornalha Onde o incêndio já se espalha Nosso amor se entornaria. 89 Restaurando a minha sorte Onde nada mais receio E se canto em devaneio Procurando um manso norte, Meu caminho se comporte Como tanto um dia veio Num sorriso nunca alheio Do desejo que conforte. Bebo em goles magistrais E deveras quero mais Deste amor em aguardente, Inebrio-me deveras E renasço em primaveras Cada passo que apresente. 90 Ao sentir tua presença Depois deste duro inverno, No caminho aonde interno O cenário me convença Que esta vida já compensa Apesar do torpe inferno Tendo após; um dia terno Sem a névoa espessa e densa. Resultando disto tudo Este encanto onde me iludo E aprofundo a minha voz, Do delírio desejado Bebo assim cada recado E concebo o mundo em nós. 91 Mais um pouco e poderia Encontrar felicidade Mesmo quando desagrade Ou decerto nega o dia Gera nova fantasia E se tudo em paz invade Bebo assim a tempestade E a transformo em calmaria, O meu verso segue em ti O que agora eu descobri Ser maior do que pensara, Ao sentir tanta esperança O meu passo a ti avança E penetra esta seara. 92 Ouço a voz de quem pensara Que já fora e não voltava Entretanto a fúria e a lava Novamente em vida amara, O meu passo se escancara Mesmo em onda enorme e brava Outro dia se entranhava Quando a queda desampara, Caminheiro sem destino Onde posso determino Qualquer dia mais diverso E se tive a melhor sorte Outro amor já me suporte Ilumina aonde eu verso. 93 Resgatando os dias meus Entre tantos que julguei Em diversa e dura lei Semeada num adeus. Resumira em turvos breus O que em paz imaginei, E se um dia mergulhei Atingira os apogeus. Hoje nada mais se vendo Tão somente o mesmo horrendo Espetáculo final. Ato atroz aonde eu vejo Desenhado o meu desejo, Como fosse última nau. 94 Aprendendo com a vida Ladeira abaixo anuncia O terror de um duro dia Sem saber sequer saída, A verdade destruída Não presume esta utopia Nem tampouco poderia Onde a sorte nos agrida A palavra faz sentido Quando amor é presumido Muito além de uma promessa E deveras desta forma Cada passo nos informa Ao que tanto se endereça. 95 Mais um gole de café E outro verso eu tento agora Onde o tempo desarvora E já perco rumo e fé Não presumo e sei que a pé O desenho se demora E o meu canto se apavora Não se vendo nem sopé Desta imensa cordilheira E se um dia ainda queira Desvendar alguma luz É preciso caminhar E deveras alcançar Muito além do que o conduz. 96 Já não posso mais falar De quem tantas vezes quis, E se trago a cicatriz Sonegando a luz solar, O que pude imaginar Traça além do quanto eu fiz, Uma espúria meretriz Alma morta em lupanar, Revestindo o meu caminho Onde tanto mais daninho Percebera qualquer passo, Onde às vezes dessedento O desejo em vão tormento Ocupando todo o espaço. 97 Neste astral imenso eu vejo Retratado o teu olhar E pudesse caminhar Muito além do passo andejo E se tanto inda desejo Neste mundo navegar Procurando algum lugar Onde em farto gozo almejo. O meu canto se anuncia E vagando noite e dia Alça além deste infinito, Sideral beleza aonde A viagem corresponde Ao que agora eu necessito. 98 Navegando pelos mares Onde a voz se fez presente O caminho que apresente Traça em mim os teus altares, E se agora tu notares O desejo onde alimente O cenário num repente Trama aonde navegares. Restitui o paraíso E tomando o meu juízo Nada deixa para além, E semeias a bonança E deveras sempre alcança O que tanto me convém. 99 Na narcísica beleza De quem pensa ser maior O caminho eu sei de cor E traçando sobre a mesa Preparando, a Natureza Entre sol, medo e suor Outro rumo bem pior Sem sequer ter sutileza, Presa agora do nefasto Do teu rumo se me afasto Eu preservo em paz o meu. Caminhar em liberdade Quando a sorte já degrade O que pensas: apogeu, 100 Apenas poderia acreditar No quanto quis a vida e nada veio, Olhando para os lados, de permeio Percebo a insolência a se mostrar E quantas vezes; tendo outro lugar, O teu olhar disperso e quase alheio Traduz o que pudesse sem receio Um dia noutro tanto se enfronhar. Vasculho cada parte onde deixaste E vejo tão somente este contraste Gerado pelo ser noutra vontade, Calando a minha voz, eu te percebo E sinto esta emoção feito um placebo Que ao próprio desalento se degrade.
MARCOS LOURES FILHO
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