
O Edital
Data 05/08/2010 19:41:18 | Tópico: Poemas -> Infantis
| O Edital
“Augusto Gil”
Manuel era um petiz de palmo e meio (ou pouco mais teria na verdade), de rosto moreninho e olhar cheio de inteligente e enérgica bondade.
Orgulhava-se dele o professor. No porte e no saber era o primeiro. Lia nos livros que nem um doutor, fazia contas que nem um banqueiro.
Ora uma vez ia o Manuel passando junto ao adro da igreja. Aproximou-se e viu à porta principal um bando de homens a olhar o que quer que fosse.
Empurravam-se todos em tropel, ansiosos por saberem, cada qual, o que vinha a dizer certo papel pregado com obreias no portal.
"Mais contribuições!" - supunha um. "É pràs sortes, talvez!" - outro volvia. Quantas suposições! Porém, nenhum sabia ao certo o que o papel dizia.
Nenhum (e eram vinte os assistentes) sabia ler aqueles riscos pretos. Vinte homens, e talvez inteligentes, mas todos - que tristeza analfabetos!
Furou o Manuel por entre aquela gente ansiosa, comprimida, amalgamada, como uma formiga diligente por um maciço de erva emaranhada.
Furou, e conseguiu chegar adiante. Ergueu-se nos pezitos para ver; mas o edital estava tão distante, lá tanto em cima que o não pôde ler.
Um dos do bando agarrou-o então e levantou-o com as mãos possantes e calejadas de cavarem pão. Houve um silêncio entre os circunstantes
E numa clara voz melodiosa a alegre e insinuante criancinha pôs-se a ler àquela gente ansiosa correntemente o que o edital continha.
Regressava o abade do passal a caminho da sua moradia. Como era já idoso e via mal, acercou-se para ver o que haveria.
E deparou com este quadro lindo de uma criança a ler a homens feitos, de um pequenino cérebro espargindo luz naqueles cérebros imperfeitos.
Transpareceu no rosto ao bom abade um doce e espiritual contentamento, e a sua boca, fonte de verdade, disse estas frases com um brando acento:
" - Olhai, amigos, quanto pode o ensino. Sois homens, alguns pais e até avós. Pois por saber ler este menino é já maior do que nenhum de vós! Poesia de Augusto Gil
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