
SONETOS FEITOS EM 05/08/2010
Data 05/08/2010 08:32:43 | Tópico: Sonetos
| 1 No caos aonde a vida me arremete Especular momento em decisão, E volto a mergulhar da imensidão No quanto ainda resta e me compete, O fato na verdade só repete O tempo que se perde em direção Deixando para trás a atracação Quem dera timoneiro. Sou grumete. Repito a mesma velha ladainha E penso quando a sorte é mais daninha Apenas num segundo bem tranqüilo, Por entre tantas nuvens vida afora A melodia atroz já se decora Enquanto no sombrio céu; desfilo. 2 Já não me bastaria tão somente Acreditar na sorte ou mesmo assim Vagando sem saber se ainda há fim O nada novamente se apresente; Por conseguinte vivo plenamente E penitente chego a crer enfim No todo que inda resta dentro em mim, Qual fosse do não ser, mera semente. Ao tentar perceber novo desenho O tanto quanto posso eu desempenho E terminando a vida desta forma, Pensando no passado e no futuro Do nada e do vazio eu me asseguro E a própria persistência me deforma. 3 Lavando minhas mágoas noutro fato Apenas resistindo ao que virá Sabendo e desdenhando desde já O nada dentro em mim sempre constato, E quando procurara algum contato Erguendo o meu olhar, não notará Sequer a menor sombra, pois e lá Caleidoscópio traça um medo inato. Errático e talvez mesmo bisonho, Na foz de qualquer rio se me ponho Deste estuário vejo apenas isto, Caminho contra a sorte e assim persisto Vacante coração aguarda quem Decerto no final, eu sei, não vem. 4 Coração deste poeta Acelera e não tem jeito Bate forte, toma o peito E no fim não se repleta A verdade mais completa Deixa o sonho insatisfeito, Mas, deveras sempre a aceito E o meu ego nada veta. Do passado vejo a sombra Do futuro que me assombra E traduz ansiedade, Morto-vivo qual zumbi Neste instante eu me perdi, Busco à toa, a claridade. 5 Sem sinais de alguma chance Vago apenas por saber Que no fim ao bel prazer A danada já me alcance, Inda mais quando me canse De sonhar e de embeber A alegria; eu posso ver, Meramente num relance. Balanceio a vida assim E perdido sei que vim Mergulhando em tais perguntas As palavras repetidas Transcendendo nossas vidas Que deveras inda ajuntas. 6 Nada mais posso, afinal O meu erro foi tentar Novamente algum lugar Abortando aquém a nau. Ao subir novo degrau Procurando o patamar, Nada além irei achar, É o desejo bem ou mal. Apresento a minha cara E se tanto já prepara Outro bote esta serpente, O meu canto desafina E a palavra dita, ou sina, Inda vivo plenamente. 7 Jorra em mim outro momento Bem diverso do que agora Inda tento e me apavora Quanta dor e sofrimento! No delírio aonde invento O cenário se decora E resume sem ter hora Desnudando este provento, Reparando bem melhor O desejo; eu sei de cor, Mas não canso de aprender Outra queda se anuncia E deveras todo dia Caminhando ao bel prazer. 8 Um jagunço da esperança Bala à solta, voz nem tanto, Onde quer e me adianto O meu passo logo cansa, Não importa a temperança Nesta terra aonde o espanto Produzindo morte e pranto Traduzindo por pujança. Pirracento coração Sabe bem que inda virão Festas novas noutro dia, E o meu canto desafia A palavra solidão Inda busca uma ironia. 9 Participo do cenário Sou bufão e nada mais Onde quero temporais Vento calmo e solitário, Resumindo o necessário Desejar entre os cristais Outros erros são vitais, Mas me tranco neste armário, Vendo assim o olhar de quem Propusera e já não vem Deixo tudo para trás, O meu ermo sonhador Apressando aonde for Novamente nada traz. 10 Sou bisonho e até por isso Nada resta do passado Onde quis algum legado O cenário é movediço, Neste olhar ledo e mortiço Outro olhar; vi desenhado E o meu canto desvairado Já não trama qualquer viço, Paraíso? Não conheço A saudade este adereço Pesa tanto em minhas costas E se tento outro caminho, A verdade em tom mesquinho Adivinha tais respostas. 11 Caminhando vida afora Sem saber qualquer paragem Não encontro uma estalagem Onde o sonho ainda ancora, Quando a sorte não aflora O que trago na bagagem Diz da dura paisagem Na tocaia sem ter hora, Curvas tantas enfrentando Sofrimento desde quando O menino quis crescer, Bala, foice, canivete O meu mundo só promete Tanta dor e desprazer. 12 Nas tocaias desta vida Aprendi qualquer defesa Sendo assim, a mera presa Que pensavas distraída Num instante de surpresa Nesta espreita percebida, Pela sorte prevenida Encontrando uma saída. Nem jagunço ou coronel, Nem inferno nem o céu Nada freia quem peleja, A minha alma sendo andeja Não encontra, e tanto faz, Um segundo mais de paz. 13 Quando o tempo quis virar Eu tentava algum descanso, Nalgum canto num remanso Num regaço a perfumar Alma tonta quis amar E ao inferno onde me lanço, Afinal jamais avanço Fico quieto num lugar, Prisioneiro deste intento Onde amor nega provento Nada serve, nem a vida, O melhor não posso tê-lo Sonho vira pesadelo, Esperança de partida. 14 Sou decerto das montanhas Das Gerais e sei tão bem Que a vontade quando vem Dominando minhas sanhas Se tu perdes, logo ganhas E a verdade não contém Do caminho sigo aquém, Mas aprendo suas manhas. Procurando dentro em mim Vou aguando este jardim Com o pranto da saudade, A viola sertaneja Corredeira murmureja E o meu sonho volta e invade. 15 Não quero ficar parado Nestas curvas do caminho, Caminhando mais sozinho Esperança lado a lado, O meu sonho derramado Jorra sangue feito vinho E o meu canto, um passarinho Neste tempo desolado, O meu peito violeiro Dos meus sonhos, companheiro Sabe bem qual a razão, Mas o tempo é sem juízo E depois do prejuízo Dias novos, pois virão. 16 Na fartura do meu sonho, Minhas contas; pago agora O que tanto se demora Na verdade não proponho, Se o caminho é mais tristonho A saudade me apavora, A viola logo chora E outra moda eu já componho, Trovador e repentista Meu olhar tenta e despista, Já não vê mais nuvem quando Por detrás de cada monte Vai mudando este horizonte E este tempo está fechando. 17 Minha sorte se tempera Na saudade de quem ama, Acendendo cada chama De tocaia a dor me espera, Na palhoça, na tapera O meu peito não faz drama A viola já reclama Quando chora e destempera, A morena mais bonita Tão cheirosa quanto à flor, No meu peito diz amor, Mas na vida, uma desdita, Só me resta esta vontade E no peito, uma saudade. 18 Vou fazendo a minha vida Da maneira que eu puder Com saudade da mulher Que na curva vai perdida, Coração já não duvida Venha o tempo que vier, Seja como Deus quiser Levo a vida de vencida, Na partilha dos meus sonhos Os que ficam são tristonhos, Mas me dão felicidade, Pelo menos trago em mim Esta rosa no jardim, Nos espinhos da saudade. 19 Faço verso de improviso Vou tentando outro caminho, Coração, bicho daninho Nunca teve paz, juízo E se busca o paraíso O que encontra é tão mesquinho, Caminhando assim sozinho, Mas tem tudo o que preciso. Tenho o sonho em minhas mãos, Da esperança tenho os grãos E o meu canto me consola, Quando a noite é de luar, A vontade de sonhar Eu derramo na viola. 20 Nada trago no meu peito No embornal somente a lua, A vontade continua Sonho nunca satisfeito, Mas na rede onde me deito A saudade senta a pua Faz estrago e o sonho amua, Porém vivo do meu jeito. No sertão à bala e foice, O meu amor cadê? Foi-se Noutros rumos, mas ficou Coração bate apertado Vai falando do passado Quando foi feliz e amou. 21 A verdade de um poeta Não traduz a claridade Quando o sonho vem e invade O real; já não completa Vive além de qualquer meta E procura em ansiedade A palavra quando brade Nada a cala, é arco e seta. Volto aos ermos chego após E se tento antes me engano Novamente noutro plano Realçando a minha voz, A minha alma libertária, Mesmo cega, é luminária. 22 Não pudesse mais cantar Nem tampouco ter nas mãos Os meus olhos entre vãos Procurando algum lugar, Num caminho sem parar Entre dias, meros grãos, Os meus sonhos, artesãos Pensam em frutificar. Resoluto, mas nem tanto Quando a dor invento e espanto Traço em linhas paralelas Universos que freqüento, Vou levado pelo vento, Os meus sonhos são as velas. 23 Nada cala a voz de quem Não se traz entre as algemas, Mesmo quando a vida temas O futuro sempre vem, Na esperança sigo além E enfrentando os meus dilemas Crio as minhas piracemas Reproduzo o que não tem, Sinto até o quanto nego E depois neste nó cego Nas palavras meu cinzel, O que tanto me afligisse, Muitas vezes; que tolice! Busco além do próprio céu. 24 Vicejando dentro da alma Primaveras onde um dia Este outono reinaria Esta voz ora me acalma, Mas no fundo a sorte palma Por caminhos de ironia, E decerto não traria Senão medo dor e trauma, Violento temporal Num jazigo original Ergue apenas meu sepulcro, Mas se tenho esta palavra Da aridez procuro a lavra, No vazio gero o fulcro. 25 Tantas vezes vida afora Encontrei matizes vários Entre sonhos necessários E o terror quando apavora A palavra, se senhora E domando estes corsários Entre sonhos solitários Novo tempo revigora, Mas depois alento cessa E o que fora uma promessa Realçando a dor em mim, Do não ser ao tanto quanto Poderia quando canto, Estercando o meu jardim. 26 Onde quis a primavera Nada mais que agrisalhado Céu ditando o seu recado Numa espreita, dura espera E se o tempo degenera O que trago é desolado Caminhando sempre ao lado Cevo em mim esta cratera, E bisonho ou mesmo até Transbordando em medo e fé Sigo além do quanto eu disse, Vago em noite enluarada, Mesmo quando está nublada, Sonho lavras de Matisse. 27 Órfão de uma vã saudade Que deveras nada diz Solto a voz em chamariz E o teu nome volta e invade, Nesta dura tempestade O meu peito estéril, gris Desta fúria geratriz Teima em nova e falsa idade. Mocidade? Já perdida, Mas renovo a minha vida, Os meus dentes são mais fortes E as palavras traiçoeiras Mesmo quando e até não queiras Ditam novos, belos nortes. 28 Acertando estes ponteiros A verdade é soberana, Mas meu peito já se engana Sonhos belos, traiçoeiros Reacende estes luzeiros E o meu canto ora se dana Na vontade mais profana, Nos florais dos meus canteiros. Rósea luz emana quando O meu sonho se entornando Fecundando o solo agreste, Neste instante é que percebo, O meu verso este placebo Quando nunca mais vieste. 29 Engravido-me de um sonho E percebo quando o aborto O delírio, se inda importo Outro tanto que componho Resoluto, mas bisonho A palavra não conforto E tampouco quando exorto A saída, enfim proponho, Basculantes, persianas, As saudades; não enganas São deveras feras belas Sem futuro, ou mesmo alheio Ao que tanto inda rodeio Quando aquém meu rumo selas. 30 Expressando em riso e pranto A vontade de encontrar Qualquer tom, qualquer lugar Onde a sorte; em paz, garanto, Quando busco ali; portanto, Um caminho a desvendar Estendendo em céu e mar O meu vasto desencanto, Quando o sonho se desfaz E permite este mordaz Delirar de quem poeta, A senzala se aproxima, Dita a sorte, muda o clima Modifica rumo e meta. 31 Viu de tantos sonhos os heréticos Caminhos entre os quais pudesse crer Num novo e mais suave enternecer Após os meus delírios epilépticos, Destinos onde os quis quase proféticos Errôneos entre tanto desprazer, Porém logo que os pude reviver Senti estes caminhos vãos e herméticos, Apocalíptica loucura, insânia em vagas Horrenda face e nela tu me tragas Somente os derradeiros dias meus, E os olhos no horizonte em turbulência Procuram qualquer luz, paz ou clemência, Apenas; detalhado, um torpe adeus. 32 Dos transes padecidos, a ilusão Presume novos erros e decerto Enquanto o meu caminho ora deserto Somente duros dias se verão, Alheio ao que pudesse atracação, O quanto deste cais jamais aberto Explode em rumo atroz e mesmo incerto Tramando tão somente a negação. Aonde fora tosco, ledo e irônico Agora num sorriso que histriônico Transcende à sanidade e nega a paz. No quanto imaginara esta venérea Beleza o que vislumbro, a dor funérea Traçando em desatino, um tom mordaz. 33 Ao segurar a vida entre meus dedos Não pude controlar sequer timões, E quando esta verdade tu me expões Os dias morrem frios, frágeis, ledos. Aprendo com enganos, velhos medos E tento novos tempos, direções, E nada do que dizes; soluções, Ousando em torpes passos, desenredos. O quanto quis a sorte noutra tônica E a vejo se esvaindo agora agônica Mordaz e simplesmente alheia a tudo. Desafiando ainda, num conflito Num dia mais tranqüilo; eu acredito E novamente- embuste- desiludo. 34 Embalde caminhando noite afora, Ao perecerem sonhos, nada resta Senão a mesma face tão funesta E dela esta incerteza se demora, O quanto do meu sonho não decora A noite onde eu pensara riso e festa, Adentro e mal percebo qualquer fresta O sonho quando vem, inda apavora; Dos mantos da ilusão, sequer a túnica A voz que imaginara audaz, mas única Agora se perdendo em ecos tais Que nada mais permite discernir O rumo aonde possa algum porvir Entre caminhos vários, desiguais. 35 Equóreo pescador buscando a sorte, Enfrentando bravias ondas sonha Ainda quando a noite cai medonha, Procura qualquer cais que inda o conforte, A bússola se perde e sem seu norte À morte aproximando inda se oponha E quando no sombrio mar se ponha É necessário ser audaz e forte. Mas ledo navegante do vazio O quanto posso crer e não desfio, Teares em fieiras mais diversas, A vida se enovela e me tonteia A sorte permanece vaga e alheia Enquanto a um novo porto, em calma, versas. 36 À prole dos meus sonhos, o legado É feito em desarmônica verdade, Apenas a total iniqüidade E o rumo; há tanto tempo desolado, Espreito alguma sorte, atocaiado Somente este sombrio vento invade, E quanto mais a vida se degrade Terror já não se vê defenestrado. E o canto em discordância gera infausto No cáustico cenário, este holocausto Da cria entre tormentas e vazios, Restando a quem se faz insano e atroz, Silêncio aonde havia ainda a voz E dele os mais terríveis desvarios. 37 Um sevo caminhar entre terrores E neste desenhar jamais eu pude Traçar a caminhada em plenitude Sabendo bem diverso aonde fores, Não tento procurar por novas cores, O céu; há tanto tempo já me ilude, E a cada novo instante tudo mude Agrisalhando enfim os meus albores. Atrevo-me a sonhar e até sorrir, Sarcástico demônio dita as regras E quando este cenário vil; integras Negando qualquer dia que há por vir, O pântano domina a minha sorte Somente a charqueada me comporte. 38 O céu quando traçou a minha dita Não teve algum cuidado, nem tampouco O olhar abençoado. Ledo e louco, Meu passo de algum sonho necessita. E quando é tão vazia esta desdita O que resta em verdade é muito pouco E tento até fingir, um quase mouco, Porém esta saudade volta e grita. O sonho quanto o quis afrodisíaco Trazendo algum luar paradisíaco Apenas sonegara esta visão A vida se esparrama e quase esquálida Sonega a persistência da crisálida E aborta a minha vã libertação. 39 Onde novos caminhos poderia Singrar o coração de quem se dera, Apenas a mortalha, esta quimera Gerando a dura e farta hipocrisia, O canto noutro tanto não teria Sequer o mesmo tom em primavera A morte é o que decerto ainda espera Quem nunca noutro tom permitiria. Amáveis e tocáveis messes, quando O todo dentro em mim já desabando, Uma ilusão espúria e nada além, E quando me imagino em calma e luz, Somente este terror se reproduz E nada após a curva, nem ninguém. 40 De todos os demônios, meus infensos Os ermos de minha alma são fatais, E quando se aproximam, vejo-os mais A cada novo dia, tão imensos, Os céus entre neblinas, fúrias: densos E os cantos dos antigos madrigais Agora mortos sonhos e; jamais, Quando se vêm além somente os lenços, Partidas entre dores e tormento E busco uma saída, ainda tento Vencer os meus terrores, mas no fim O quanto poderia em sonho régio Agora se traduz em sortilégio Gerindo cada passo de onde vim. 041 A deleitar-se um sonho mais audaz Não deixa que se pense na verdade E quando esta ternura ainda invade Um dia mais suave enfim se faz, A voz em consonância dita a paz E todo o meu caminho nega a grade, Apenas encontrar tranqüilidade Num rastro mais atroz e até mordaz. Assisto às ilusões como quem busca Apoio após a queda atroz e brusca Vencendo os seus tropeços vida afora, Mas quando acordo e vejo solitário O quando que pensara solidário A vida sem proveitos; desancora. 042 Os meus erros que à dita não iludem Repetem velhas frágeis ironias, E quanto mais diversas me trarias As noites onde os passos nunca mudem, Nem mesmo as falsas luzes inda ajudem Traçando as minhas noites mais sombrias, E nego a claridade de outros dias Ainda quando os sonhos amiúdem. Na pequenez desta alma insone e espúria Apenas o que a rege, esta penúria Expressa a solidão reinando em mim, Acossa-me o desejo de outra sorte, Porém a cada sonho que se aborte, Mais próximo eu percebo então meu fim. 43 Lutar somente contra o que se sente E crer numa vitória após a lida, Assim ao se encontrar a já perdida E estúpida loucura de um demente O corte se mostrando plenamente, Não vejo no final qualquer saída, E tento algum refúgio nesta ermida Consolidada agora em minha mente. O fato de sonhar talvez pudesse Traçar algum caminho mais diverso, Mas quando no vazio ainda verso, Restando esta ilusão em mera prece, Vacância se transforma em norma e lei Herméticos caminhos entranhei. 44 Exíguo este cenário aonde eu vejo Iníqua fantasia se perdendo, O olhar por vezes fúnebre remendo Não traz a menor sombra de um desejo, O tanto quanto posso e ainda almejo Num ato mais suave, mero adendo, Retrato este terror, atroz e horrendo, Pensando ser apenas um lampejo. Metástases invadem cada parte A morte se aproxima ora destarte Não deixa qualquer sombra de esperança, E fragilmente sigo até o fim, Abrolhos dominando o meu jardim, A sorte no vazio enfim se lança. 45 “Seu” moço dê licença de eu contar As dores que carrego no meu peito, A lua se espalhando quando deito Bebendo os raios claros do luar Viola no meu sonho a pontear O dia noutro dia satisfeito, Uma esperança agora faz seu eito Aonde quis meu canto em paz arar. Na sorte traiçoeira de quem ama, A voz desafinada toma a trama Enquanto uma saudade faz a festa, Desta janela aberta dentro em mim O cheiro mais gostoso do jasmim E um beija-flor entrando pela fresta. 46 O quanto mais cuidoso, o pensamento Procura soluções onde não há Esgoto o meu caminho e desde lá Apenas da esperança me alimento Hercúlea esta batalha aonde eu tento E sei que nada mais me proverá Somente este não ser dominará O passo quando inepto busco e invento. Decrépito velhusco ora me engelho E o tanto se traduz num torpe espelho Traçando cada ruga em minha face, E quando quis um véu primaveril, Apenas a mortalha é o que se viu E nela este cenário enfim se trace. 47 Arguto sonhador, poeta tenta Novéis delírios entre tantos fardos, E quanto mais audazes estes bardos Maior é dentro da alma uma tormenta. Entre caminhos duros e retardos Os dias se apresentam; na sangrenta Batalha entre o que eu quero e se apresenta Ferido mortalmente por vis dardos. E sei tal cupidez em tons venais É mera estupidez e nada mais, Mas vejo retratado desta forma O tanto quanto eu quis e não teria, Amor é meramente uma utopia Que a realidade aos poucos já deforma. 48 Sendo investido apenas pela rústica Loucura que transcende à própria vida Encontro a cada passo a repartida Noção de outra manhã em vaga acústica. Ecoa dentro em mim em dissonância Este infortúnio aonde quis a dor Com seu poder atroz, transformador Marcar com virulência e discrepância, No quanto se moldara este espetáculo Diverso do que oráculo dissera Miraculosamente escapo à fera, Sentindo-me roçar cada tentáculo, E quando imaginara sóis e méis Apenas os rancores, vis tropéis. 49 Admoestando a dor ainda tento Vencer os descaminhos mais constantes E mesmo quando aquém nada garantes Eu bebo a imprecisão de cada vento. E quando se mostrara mais sangrento O olhar entre terrores, tais farsantes Delírios mais atrozes, provocantes Meu canto se aproxima virulento. As noites solitárias, duras, parvas Eclodem em terrores estas larvas E a morte da crisálida entontece, O quanto quis apenas uma messe A vida refletindo esta alma infecta Além do ledo inferno após me ejecta. 50 Jazigo em punição expresso em voz Acentuada em tétrica e fatal Espasmódica e lúbrica, venal Ao mesmo tempo lúdica e feroz. Esparsas ilusões, amor algoz Enquanto num momento sensual Expondo este delírio em sol e sal Desata com furor; antigos nós, Nova ventura ou dura realidade? O quanto deste sonho se degrade E impeça até meu rumo de provê-lo, No tanto imaginário em gozo e sonho, Cenário desejoso e mais bisonho, Transforma o paraíso em pesadelo. 51 Acordei assim... Com vontade de ti sentir mimetizado em mim, Teu cutâneo manto a me cobrir, Teu abissal sonho a colorir Tua voracidade a devorar... REGINA COSTA Teu corpo no meu corpo amanhecendo Delírio incomparável, farto gozo Caminho que extasia; majestoso Entrelaçar sobejo se tecendo, Um sol quando irradias; estupendo Tornando o nosso dia prazeroso, Anseios dominando o caprichoso Desejo que ora em ti bebo e desvendo. Voracidade em toques mais audazes E nesta louca insânia tu me trazes O porto imaginável, nu e exposto, O tanto que te quero e necessito Num dia delicado e tão bonito Meu rosto se entranhando no teu rosto. 52 Deixando esta morada aonde um dia Pudesse tão somente imaginar Um cais, um porto e quase mesmo altar E nela o sonho em caos se refugia, Bebendo fartamente a fantasia No quanto pude outrora acreditar E vejo noutro tom já realçar Os erros onde o nada se tecia, E deixo para trás qualquer detalhe Aonde o barco apenas, pois encalhe E a solidão decore assim as docas, Do tanto que pudera e nada tive Ainda quando a espera não se prive Dos sonhos quando ausente, me provocas. 53 Na pálida incerteza onde se impera A solidão e; dela, eu me inebrio O quanto se transforma em desvario Gestando a turva face da pantera, Ausência de quem tanto ainda espera E sigo navegando imenso rio, A cada novo dia um desafio E o tempo na verdade não coopera A morte se aproxima e vejo ali A paz que tantas vezes persegui Gerada na mortalha e num jazigo. No sepulcral silêncio, este abandono E quando do vazio enfim me adono Descanso finalmente, ora consigo. 54 Neste ócio se traduz a solidão E nada mais eu vejo senão isto, E quando no final, calo e desisto Percebo em minha morte a solução, O velho desdentado, o tempo em vão, Num caos sem precedentes eu persisto E finalmente além agora avisto As brumas da soturna decisão. Apodrecendo em vida, o quanto resta Expressa esta armadilha e pela fresta Apenas adivinho alguma luz, Mas nada se trançando no horizonte Somente este caminho já se aponte Numa expressão de cal, mortalha e pus. 55 Separado de um sonho aonde um dia Tivera a imprecisão de um passo além E quando a solidão à noite vem O manto em tons grisalhos teceria, A sorte não se vendo, só se adia O tempo onde a morte dita o bem, Restando dentro em pouco, sem ninguém Apenas a mortalha caberia. E singro os meus herméticos caminhos E bebo destes sonhos tão mesquinhos Resumos de tais noites em que a messe Deixando para trás qualquer promessa, E o fim que dentro em pouco se endereça E nele toda dor a ausência esquece. 56 Ignoro o meu futuro, mas percebo O quanto nada resta e sigo assim, Vagando do princípio ao ledo fim, O sonho, na verdade algum placebo E quando em fantasias eu concebo A mágica expressão; não vejo em mim Senão a inexpressão deste jardim E a morte em solução; quero e recebo, Se um dia fui audaz, agora sinto Apodrecendo o sonho, e estando extinto Já nada mais consola quem batalha Senão a negação do próprio ser Assim ao me sentindo a me perder Enfrento o frio fio da navalha. 57 Na verdade o que inda quero Não traduzo em verso quando O meu mundo se tornando Muitas vezes mais severo, Revelar o quanto espero E percebo desabando Outro tempo em contrabando, Mesmo até sendo sincero Vivo e livre do que um dia Tantas vezes poderia E não sei porquanto existe, O cenário que desnudo No passado disse tudo, Mas agora o vejo triste. 58 Onde vejo algum lugar Feito em claridade e sonho O meu canto; ali proponho E começo a navegar Entre as sendas deste mar Um canoro, mas medonho Desfilar deste bisonho Caminheiro a se fartar Esperando alguma luz E deveras não produz Nem sequer um brilho em mim, A vontade nega o rumo Quando enganos eu assumo E percebo em paz meu fim. 59 Ao satisfazer quem tanto Não pudera um só segundo Perceber o quanto imundo O luar em desencanto, O meu canto vagabundo Outro dito em tal quebranto Quando o vejo enfim me espanto E me perco deste mundo. Vagamente quis a sorte E deveras sem meu norte O final se vendo alheio Ao que tanto procurava Mesmo a via fria e brava Pela qual meu sonho veio. 60 Já não tenho mais um dia Nem de paz nem de promessa O meu rumo se endereça Onde a sorte não veria, Tendo em mim tal fantasia O delírio recomeça E o meu pranto já não cessa Feito em dor, farta agonia. Esperando alguma chance O vazio ora se alcance E depois de tantos erros, Só restando ao caminheiro O desejo derradeiro Feito em trevas e desterros. 61 Quero o dia mais bonito Neste sol irradiando Um desejo se mostrando Onde o sonho eu necessito, E se tanto eu acredito Neste encanto desde quando O meu tempo se moldando Nas essências do infinito, Versejando em paz e sorte, Tendo alguém que me conforte Nada temo nesta vida, Labiríntico caminho, Se não vou ou sou sozinho Eu encontro uma saída. 62 Demarcando cada passo Com vontade de chegar Onde tanto quis brilhar Ou deveras já desfaço O meu erro num cansaço Num desejo a me tomar E bebendo do luar Vejo a vida noutro traço Reparando agora bem O caminho sempre tem Seus espinhos, pedregulhos, Mas depois de tanta queda A esperança em paz me seda E traduz novos mergulhos. 63 Vendo ao longe esta morena Que pudera um dia ser Pura essência de um querer E deveras me envenena, Onde a sorte se apequena Na mortalha do prazer A vontade de viver, Tal tempesta já serena. Vejo a vida de outra forma Na vontade que transforma E traduz em brilho aonde O passado não mais fale Noutro tempo se regale O que em sonho se responde. 64 Violeiro e trovador Noite afora bebo a lua, Desço o sonho e vou à rua Procurando outro sabor, Navegar aonde eu for E desejo se cultua Na esperança que flutua E traduz em multicor Este prisma no horizonte Onde o olhar agora aponte Fonte nova em luz e glória, A saudade se esquecendo, Deste vão, tolo remendo Nada resta na memória. 65 Aprendendo desde cedo A dançar conforme o tom, Se delírio fosse bom Beberia este segredo, Mas agora não procedo Como fosse um raro dom Este encanto, ledo som, Meu amor em novo enredo. Ascendendo ou desvendando Outro dia desde quando O meu canto quis em luz, Mas se tenho em minhas mãos Esperanças de outros grãos A colheita se produz. 66 Corri mares mais distantes Entre as ondas tão bravias E esperava em novos dias O que outrora me garantes Já pudessem ser constantes No vazio onde me guias Os delírios, fantasias, São dispersos diamantes, Reunindo em cantos vários Os meus passos, necessários A quem tanto quis outrora, Na esperança me perdi, Mas agora e desde aqui Noutro porto, o sonho ancora. 67 Nessas margens do meu sonho Erros fartos; reconheço, Só não sei se inda mereço Ou ao nada me proponho, Vejo quanto te envergonho No caminho e num tropeço Vou tocando e até do avesso Novo rumo e em paz; enfronho. Enfadonha a vida quando Este sol se desenhando Vê nublado este horizonte Já cansado da batalha Onde o fogaréu se espalha Noutro lado a passo aponte. 68 Onde entre os mortos pudesse O meu sonho trafegar Procurando algum lugar Bebo o quanto se oferece E deveras já se esquece Quem quisera outro luar, A vontade de sonhar Gera a dor e mata a messe, Na verdade, o quanto pude Em saber desta atitude Já transmude o meu destino Sendo assim se nada faço Inda busco o meu espaço Dia a dia eu determino. 69 Ao tentar outra esperança Poderia ver até Um caminho feito em fé Onde o nada a vida alcança, E o meu passo já se cansa Não suporta mais galé Procurando mesmo a pé Qualquer cais; uma bonança. Mas se tanto quis um dia Outro canto poderia E no fundo é tudo igual, Nos corcéis raro tropel Invadindo terra e céu Num delírio magistral. 70 Tantas vezes pude crer Na vontade mais atroz E se ouvisse a mesma voz Desditosa do querer E sem nada mais fazer A não ser buscar a foz Ou tentando crer em nós, Onde mora o desprazer. Resumindo e vendo nisto O que tange quando insisto Transcendendo ao próprio verso, Do passado quando assombra Não vislumbro alguma alfombra O meu rumo além, disperso. 71 Já não quero a falsa luz De quem crê apenas nisso Num terreno movediço Outro passo eu jamais pus E se vendo em contraluz Perde logo qualquer viço O que tanto ora cobiço Teu caminho não traduz, Deu pra ti. É fim de jogo E deveras nem por rogo Volto atrás. Olho pra frente, No passado se perdeu, O meu canto sendo meu Noutro canto não se sente. 72 Se é por falta de um adeus, Eis aqui, já está dado Aproveita este recado E se perca noutros breus, Outros dias, ledos, meus Eu pensara noutro fado, Mas agora no passado Os delírios, apogeus. Resumindo assim o fato, Se decerto eu me resgato, Dando o fora, por favor. Não se esqueça de levar Cada raio do luar Que perdeu, contigo, a cor. 73 Hoje enfim me libertando Desta estúpida promessa Vou seguindo e me interessa Outro tempo calmo e brando, O passado desde quando O futuro já começa, Pois sozinho se tropeça Muito longe te levando, Eu desejo boa sorte E talvez alguém suporte Carregar tamanho fardo, Já não tenho paciência E por certo a virulência Desta que se fez um cardo. 74 Parta agora pro diabo, Para o inferno que lá se cria Quem transporta esta alma fria E um sorriso de nababo, Enfiando em pleno rabo O que tanto caberia, Noutro tempo poderia, Mas agora em paz, acabo. Serventia? Pois nenhuma, À saudade se acostuma Quem enchera tanto o saco, Entre tanta palhaçada No final não sobrou nada; Neste merda não me empaco. 75 A verdade seja dita É preciso ter na fé Paciência e mesmo a pé Não suporto voz maldita, O meu canto necessita Liberdade e sei até Da montanha ao seu sopé Outro fim o olhar não fita. Vou levando a minha vida Da maneira que eu puder, Mas não quero mais sequer Ouvir quem jamais foi minha A verdade ora se alinha Da maneira que eu quiser. 76 Não suporto babaquice De quem acha ser bacana O delírio quando engana Traduzindo o que não disse, E ficando na mesmice Mais um dia, outra semana A verdade quando dana Tanto faz; vira tolice. Abandonos? Nada disso, Alma nunca perde o viço Segue em frente e sendo assim Vai picando a tua mula Bosta quando se acumula Vira esterco em meu jardim. 77 A palavra mais audaz Que eu conheço é: liberdade, Não suporto qualquer grade O que eu faço, tanto faz, Interessa a minha paz, Resto eu deixo na saudade E se tudo se degrade, Caio fora, e sou capaz. Vasculhando esta gaveta Nada mais do que prometa Levo fé, pois minha amiga. Diamante? Jóia rara? Falsa pedra se escancara Noutro rumo, pois já siga. 78 Passa boi, passa boiada Nos caminhos de um amor, Outro dia a se compor Deixa atrás a madrugada, Vou seguindo a minha estrada Seja lá como e se for O meu canto sem favor Vai seguindo a sua estrada, Quanto a ti, moça bonita, Nem meu sonho necessita Nem vontade faz a festa. Já prossigo o meu caminho E prefiro até sozinho, Quando a sorte já não presta. 79 Na verdade sou apenas Um pedaço de ilusão Outros dias se verão E se trazem mais amenas Incertezas e envenenas Com terror sem compaixão Já não quero a direção Ao não mais, pois te condenas. Resumindo assim o fato, O meu mundo ora resgato E te deixo enfim em paz, Mas o quanto quis outrora Já nem mesmo me apavora O caminho se refaz. 80 Jogo as cartas sobre a mesa, Nem bilhete nem recado, O meu rumo foi traçado Sem saber qualquer surpresa Vou seguindo em correnteza Desta vida e se me enfado Deixo o tempo no passado E ao futuro outra incerteza, Mas melhor ficar assim, Cada qual no seu pedaço, Novo canto agora eu faço Ou retorno de onde vim, Só não vou ficar mais nessa, Minha vida? Recomeça! 81 Este tempo feliz que um dia vira E crera ser possível, quando após Do sonho se vislumbra alguma foz, Mas quando se percebe. Vã mentira. Enquanto esta esperança além se atira O mundo desatando frouxos nós E sinto em discordância a nossa voz Felicidade errando assim a mira. E quantas vezes; pude imaginar Apenas um cenário a se mostrar Suave e, na verdade, falsa luz. Restando quase nada do que fomos, Disperso deste sonho em vários gomos Ao nada cada passo nos conduz. 82 Dos erros tão comuns à juventude Percebo cada engano que cometes E neste delirar já me arremetes Ao nada que deveras desilude, Enquanto neste tom nada se mude E geras o vazio e sem confetes Os dias mais felizes; comprometes Na insensatez da estúpida atitude. E sei que nada disto mais traria Ao menos qualquer luz, marcando o dia Com trevas em brumosa realidade, Descarto um ledo passo e no futuro Um porto mais tranqüilo eu me asseguro Ganhando a todo instante a liberdade. 83 Jamais quis ser estorvo para alguém E sinto muito até pela partida, Mas quando se percebe a presumida Mortalha aonde o nada mais detém Cansado de lutar contra o desdém De quem se crê maior, mas se duvida Do herético caminho feito em vida Diversa da que à sorte se convém. Vestir as minhas faces mais cruéis? Não quero reverter os méis em féis Apenas prosseguir e agora em paz, Meu mundo se caiu, problema meu Há tanto meu olhar, pois percebeu E agora, na verdade, tanto faz. 84 Falando com franqueza, minha amiga Eu quero ter somente dentro em mim O canto mais tranqüilo e busco enfim Quem tanto o mesmo passo já persiga. No quanto desejara e não consiga Cevar com mais cuidado este jardim, Eu sinto a face escusa e mesmo assim Ainda ao caminhar, o passo obriga. Mas deixo-te à vontade, vá em paz E tudo neste instante se desfaz Deixando para trás sequer saudades E quando tu quiseres companhia, Esqueça que tivemos algum dia Um sonho aonde em fúria já degrades. 85 Um passo para frente; olho o horizonte E sei que qualquer dia o sol virá E quando isto aconteça mostrará Da vida uma razão, talvez a fonte. Mas quando na brumosa tez aponte Sabendo deste fato e desde já O rumo noutro espaço levará Mesmo que ao ledo estio se remonte. Reparo cada estrela e busco o brilho Aonde na verdade o sonho trilho Deixando o sentimento em que apequeno Minha alma se transforma e de repente O quanto se deseja e se pressente Traduz algum momento mais sereno. 86 Serenas noites; tudo o que mais quero E sinto o caminhar em pedras quando O tanto que eu quisera desdenhando Traçando novo rumo mais austero, E sendo neste instante, até sincero Jamais eu poderia vislumbrando Um ar tão poluído quão nefando Num rude delirar duro e severo, Assim ao me entregar a novo passo O velho num segundo; em paz, desfaço E traço o meu destino noutra trama, O quanto quis e nada mais terei Mudando de cenário e; nova grei A um dia mais tranqüilo ora me chama. 87 Já não me caberia decidir O rumo aonde possa ter suave O passo se a verdade sempre entrave Deixando em amargura algum porvir A sorte se transforma em elixir Sem nada nem tormenta que inda agrave Se tudo não mostrasse a face grave Matando e nada posso presumir. Agora descansar; somente nisto Pensando e quando enfim eu já desisto Há muito precisava ter certeza Do quanto se perdera em inverdades Não restarão sequer as tais saudades O mundo decorrendo sem surpresa. 88 Aprendo a decidir com calma e quase A vida não pudera ser assim A sorte transformando tudo em mim, Ainda que deveras sempre atrase Permite o caminhar em nova fase E renascendo em paz este jardim, Pressinto que terei, agora enfim, Um dia com mais firme e forte base. Eu sei que precisava apenas disso E a paz tão necessária; hoje eu cobiço E faço do meu verso um doce alento Vagando em solidão? Melhor; garanto, Do que se entorpecer em tolo canto Jogando uma palavra solta, ao vento. 89 Percebo cada curva e sigo após Tentando adivinhar o fim da estrada E sei que mesmo quando der em nada Valeu cada momento, até atroz. Rescindo o meu contrato e busco a foz, Depois de tanto dar, tomar porrada A vida não seria desejada A quem se transformou em mero algoz. Presumo qualquer dia em tom diverso, Mas sei também deveras ser perverso Versando sobre tais cotidianos E neles eu percebo o quanto posso, Ainda até se fosse algum destroço Já não suporto mais os tantos danos. 90 Alheio ao que pudesse ser ou não Eu tento e descobrindo novo rumo, O tanto quanto eu teimo e me consumo Num verso possa dar definição, E sei quando outros dias formarão E vejo no final, deveras prumo E quando no vazio eu já me escumo, A sorte pega em paz outro vagão. Descarrilada a vida de quem busca A luz em noite opaca e mesmo brusca, Ariscos os meus ermos, disto eu sei. No fundo em concordância com a vida, Espero mansamente uma saída E digo que decerto a esquecerei. 91 Perceba a solidão enquanto a vida Transcorre paralela em festa e gozo, O canto se tornando pavoroso E a sorte noutra face resumida, Ainda quando o tempo não decida E trace novo rumo; é caprichoso Cenário onde outrora majestoso Agora noutra estrada sem saída. Esboços em retalhos são comuns Enganos? Sei que tenho, ainda, alguns E vejo a própria história resolvê-los. Só não suporto mais a noite insana Aonde o meu caminho enfim se dana E trama tão somente pesadelos. 92 A podre criatura que devora E traça atocaiada a sua presa Percebe na verdade a sutileza Do tempo quando a vida em vão aflora, Por isso é que caminho desde agora Vencendo qualquer dura correnteza E trago cada passo com firmeza Se a própria queda; às vezes, revigora. Já não mais me percebo encurralado, Outono no meu céu, pois desenhado Permite a mansidão, mas nada disto Esgota a minha eterna paciência, Do todo que se tem qualquer ciência Ao fim sem destempero, em paz, assisto. 93 Bastando tão somente acreditar Nos dias onde possa ter a sorte De quem em novo rumo me conforte E saiba e reconheça este lugar. Mas quando se percebe e sem traçar Sequer neste desejo qualquer norte, Ainda que a verdade dura corte Não posso e nem consigo sonegar. Esbarro vez em quando nos meus erros E quando mal disfarço em vãos aterros A charqueada em lodo se rebela, E toda esta vontade eu dessedento E entrego o meu caminho ao próprio vento O coração abrindo à plena, a vela. 94 Já não sei mais sequer o que fazer Com toda a incoerência demonstrada Por quem se fez outrora tão amada E agora se desdenha em desprazer. Lutando contra a sorte eu pude ver O fim da velha e dura, torpe escada E a queda noutro tom prenunciada Esboça a realidade a me envolver. Voltando ao recomeço desta história Não quero na verdade uma ilusória Vontade de beber de qualquer jeito, Depois de certo tempo num outono Enquanto dos meus passos já me adono, Uma ordem sem razões; jamais aceito. 95 Perdoe se deveras fui assim Durante muito tempo quis um dia Aonde tão somente eu poderia Vencer a discordância viva em mim, Acendo neste instante outro estopim E todo o meu passado explodiria Deixando para trás tal companhia Vivendo plena paz, até que enfim. Rascunhos em desenhos tão mal feitos Os dias não seriam mais perfeitos Se tudo presumisse apenas queda, Mas logo me levanto e no horizonte O olhar com mais firmeza sempre aponte E a vida numa messe e em paz se enreda. 96 Abrindo os velhos olhos de quem sonha Eu posso presumir cansaço e dor Nas tramas onde tanto o desamor Pintara numa face mais bisonha, O tempo na verdade não se oponha Enquanto o meu traçado inda compor Com toda fortaleza e com vigor Não tendo mais a voz tão enfadonha. Resquícios de uma vida imersa em pranto, Mas quando novo dia eu me garanto Na força de quem busca apenas paz, O risco de sofrer? Já não padeço, Um sonho que busquei; mero adereço, Meu passo com firmeza então se faz. 97 Jogando sobre a vida esta toalha Já não comporto mais sofrer em vão, E sei que novos tempos mudarão O rumo desta vida onde se espalha A fúria de uma torpe e vil batalha E nesta entorpecida imprecisão, Meu mundo se repara em novo não E o bote que preparas ora falha. Alertas de emoção depois do outono São quedas num terrível abandono E desabono um passo dado assim, Espero pelo menos qualquer dia Ausente desta espúria fantasia Traçando a calmaria dentro em mim. 98 A sorte esta jagunça sem juízo Fazendo uma bagunça no meu peito E quando noutro encanto eu me deleito Pesando sobre mim o prejuízo, Assim se novamente eu me matizo Já não me dou sequer por satisfeito Sem essa de qualquer engano aceito Eu quero é descansar num Paraíso Ainda que preciso seja até Andar todo o caminho mesmo a pé O quanto me importando desde agora É ter a mansidão de um lago calmo, É quando em calmaria canto um salmo E a paz suavemente em mim se escora. 99 Bastando de promessas a quem tenta Seguir em tom suave a paz que um dia Ainda noutro fato prometia Quem desta forma agora desencanta. Vestindo esta saudade, fina manta O frio onde mais nada enfim queria Somente uma mentira, uma ironia Enquanto o descaminho em paz se espanta. Aprendo esta lição somente após A queda sobre a pedra mais atroz Vagando pelo espaço de um segundo Neste abissal delírio não me ponho Nem alimento assim um mero sonho E nem sequer no falso eu me aprofundo. 100 Não posso presumir o que virá Nem mesmo se ainda venha algum dilema A vida noutra via já se emblema E segue novo rumo aqui ou lá, Percebo que jamais perecerá O sonho libertário e sem algema, E quando a fantasia vira um lema O todo se aproxima e brilhará. Num canto após qualquer queda presumo O fim e demonstrando um supra-sumo A força no final revitaliza Suavizando a queda após o fato E desta forma o sonho em paz, resgato Traçando meu caminho em mansa brisa
MARCOS LOURES FILHO
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