
SONETOS FEITOS EM 30/07/2010
Data 30/07/2010 08:51:39 | Tópico: Sonetos
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Sempre te avança o passo quando tento Encontrar outra vez quem já se fora, A sorte se perdendo em sonhadora Paisagem onde o canto é meu sustento, Encantos variados num momento Sorvendo a mesma estranha e tentadora Vontade de encontrá-la. Redentora Delícia que perdera em forte vento. Mas quando encontro um rastro, logo some Inútil caminhar e nada tome Nas mãos senão tal sonho e mesmo assim Apenas o ditame mais atroz Deixando perceber os frágeis nós Levando a minha história a um ledo fim.
002
Eu vejo estremecer as minhas bases Enquanto desejava ao menos paz, O rumo quando assim já se desfaz E nele em cada dia mais audazes Caminho que decerto tu desfazes E tento caminhar, mas deixo atrás Ainda quando fosse mais tenaz Os erros são deveras contumazes. Não pude nem devia discernir O quanto de esperança num porvir Apenas meramente adivinhado, Sangrias refletindo a minha história, A lua a cada ausência, merencória O medo no meu rosto desenhado.
003
E apenas aparece enfim o medo Aonde quis a sorte e nada veio, Tramando a cada passo um tempo alheio Ao quanto mais desejo e até concedo, No olhar extasiado, o desenredo Resumo de um passado aonde o anseio Negado transformara em dor, receio Labuta quando em gládio eu não procedo. Insone lutador que meramente Sorvera o quanto quis e à sorte mente Enquanto ainda tenta novo dia, Mas quanto mais feroz a correnteza, Menor a resistência em fortaleza E o fim, sem mais defesas se anuncia.
004
Com ânsia e com ardor a vida atenta Aos erros costumeiros e ferozes De quem se procurando; nega as fozes E os rios se transformam; tez sangrenta, Minha alma tão somente à dita enfrenta E tenta caminhar entre os algozes Delírios e perdendo-se entre atrozes Angústias; afinal bebe a tormenta. Escassos sonhos trago e sei que nada Permite ao marinheiro a desejada E tão querida e em paz, bela ancoragem. O barco sem timão vagando enfim Chegando ao que persisto e vejo em mim Apenas como pútrida paisagem.
005
Falaste como quem já não mais quer Nem mesmo ouvir a voz de um dia Ainda noutro sonho poderia Trazer alguma sorte, um bem qualquer, Mas sei do quanto agora e em vão sequer Eu possa penetrar na fantasia Na qual a minha vida se perdia Nas ânsias tão dolentes da mulher. O corpo desejado, a bela senda O olhar enamorado não desvenda E bebe este vazio a cada não, E o ritmo desairoso em passo amargo, Meu sonho neste instante eu fujo e largo Deixando para trás e aos que virão.
006
Pensar no teu amor ou mesmo até Tentar acreditar onde se esconde O manto da ilusão e não sei onde Ainda possa ter sequer a fé. O canto se perdendo e sei quem é Aquela a quem a vida corresponde, E quanto mais desejo, não responde Já não enfrento mais qualquer maré, Inverno transtornando o corpo enquanto Minha alma em primavera busca o encanto Perdido e sem saber do ancoradouro, E mesmo que eu pudesse, inutilmente, O mundo se apresenta e a sorte mente, Matando desde o frágil nascedouro.
007
Não é sem fundamento o verso quando Explode em desacordo e imprecisão, Os dias mostram sempre o mesmo não, E o canto num martírio se tornando, Desta ínclita vontade não restando Sequer qualquer promessa ou direção, Errático caminho dita em vão E a vida noutra história se marcando, Ausente dos meus dias, o que outrora Ainda em vã memória, o sonho ancora Tentando transformar em nova meta, Mas quando se percebe a realidade Apenas o vazio então me invade E a vida a cada instante a vejo infecta.
008
Com meus respeitos tento alguma chance E nada se presume enquanto anseio Seguindo a minha vida em tom alheio O nada na verdade ainda alcance, O sonho não passando de um nuance, Enquanto a claridade em vão rodeio O mundo perde a base e nada veio, Somente este terror onde se lance A vida noutra estada mais sutil, O amor que desejara não se viu Nem mesmo a menor sombra desde quando O tempo; pouco a pouco o vi nublando E o quanto desejei e nunca vinha, Felicidade; eu sei, jamais foi minha.
009
Quem fez as setas mansas e sutis Gerando desta dor um novo enredo, E quando na verdade assim procedo Encontro nos teus olhos o que eu quis. Pudesse ser assim, mas por um triz O manto se transforma em desenredo E tento adivinhar qualquer segredo Jogado nalgum canto este infeliz. Espero novamente um dia alegre, Mas sei quando a verdade o desintegre E gere esta tormenta no final, Esparso caminheiro, muita vez O sonho se transforma; insensatez Transborda num delírio sem igual.
010
Ao me ferir o peito em tal momento Aonde nada pude e nem teria Somente a mesma face da heresia E nela sem saber eu me alimento O quanto do desejo diz tormento, A morte a cada passo se anuncia E gera tão somente outra agonia E resistir até, decerto eu tento. Atento aos meus diversos dissabores, Prossigo e busco até por onde fores Os rastros que deixaste no caminho; Esgoto em ti as últimas vontades E quando me percebes, já degrades Tornando o meu delírio então; daninho.
011
Ela ama outro caminho que não esse E quando me percebo solitário O quanto for sonhar; desnecessário Delírio quando o mundo em vão tecesse, Meu canto noutro encanto se perdesse E nada mais seria temerário, Mas quando me percebo e o mesmo vário Delírio sem querer obedecesse. Assim ao me perder em cada passo, O rumo noutro rumo já não faço Esparso sonhador dores respira Sorvendo cada gota da mentira Aonde poderia simplesmente Viver o que se quer e enfim se tente.
012
Havia-a em minhas mãos, mas a perdi Assumo os meus erráticos anseios E sei dos dias mortos, velhos veios Levando para além o que há em ti. Estúpido farsante eu me embebi Nos ermos e em caminhos tão alheios, E quando mais atrozes devaneios O mundo mais distante enfim, daqui. Apresentando agora este falsário Delírio tantas vezes necessário Até para quem sonha e busca a paz, Enquanto em discordância a vida passa, O amor que se pensara esta fumaça Ao longe noutra senda se desfaz.
013
Quando triunfou esta vontade De poder ter nas mãos outro momento E sendo assim deveras meu fomento O amor já não traria o quanto agrade, Resumo cada passo no que invade E toma sem sentir o pensamento Gerando tão somente o sofrimento Porquanto sem limites, e alto, brade. Meu dia se transforma e nada aguarde Sabendo que afinal é muito tarde Meu canto se perdera noutro rumo, E o tempo nevoento deixa marcas E quando em mar suave agora embarcas Apenas na tormenta eu já me escumo.
014
Da antiga ingratidão que ainda trago No olhar e dentro da alma, simplesmente Meu mundo se transforma e quando ausente Dos dias e dos sonhos este afago, O quanto desejara e em dor alago As margens e mergulho inutilmente Buscando cada fato que apresente Acumulando apenas tal estrago. Respiro um ar tranqüilo quando eu creio No amor onde se encanta e sem rodeio A vida transformando a cada instante O quanto poderia haver e nada Resume dentro em mim a mansa estrada Que um dia quis comigo e o tempo espante.
015
Algemas que forjei e não havia Sequer qualquer promessa de união, As horas noutra face mostrarão Somente o quanto resta em fantasia, O dia se transforma e da euforia Eu vejo tão somente a negação E tento imaginar a solução, Porém qualquer promessa a vida adia Esboço mal traçado e caricato Sequer um bom momento; inda resgato Imerso nestes duros temporais, E quando uma resposta se precisa Palavra se perdendo em plena brisa Traduz o que eu pensara: nunca mais.
016
Não devo procurar quem me alente Nem mesmo algum momento de alegria E quando a minha sorte poderia Viver eternidade plenamente O risco de sonhar já se apresente E trace com terror e rebeldia O quanto deste encanto ainda havia E deixa meu olhar qual penitente. Preparo última queda e não me esqueço Do quanto doloroso tal tropeço Escadaria abaixo, medo e infausto, Restauro esta verdade, mato o sonho E assim a cada dia decomponho Ausento deste estúpido holocausto.
017
O fim da dura pena em solidão, Gestando outro terror a cada instante O sonho muitas vezes delirante Explode novamente e dirá não O canto sem proveito, a solução Mergulha no vazio e doravante Ainda quando muito tente e cante, O fato se resume; imprevisão. Ascendo ao mais complexo dos altares E logo quando ali tu te sentares Verei às quantas anda a minha vida, Lutando para apenas ser feliz, O quanto do impossível sonho eu quis Já não deixa que eu veja uma saída.
018
Devo lutar, mas vejo que afinal O risco de sonhar se entranha em mim, Gerando novamente este estopim Numa explosão sem par, dura e fatal, Arcar com cada engano é natural Ainda precisava ver o fim Trazendo dentro da alma o quanto enfim Pudera acreditar ou menos mal. Mergulho neste mar em turbulência O amor não mais concede uma clemência E gesta apenas outra tempestade, O quanto quis e nada pude ter Somente os dissabores de um viver Que a cada novo dia mais degrade.
019
Vejo que à proporção do quanto eu quero Já nada mais condiz com este fato No qual a sanidade enfim resgato Tentando pelo menos ser sincero, O sonho mesmo amargo, duro ou fero Revela a solidão deste regato E o passo a cada dia não resgato Somente o fim dos sonhos eu espero. Restando muito pouco do que outrora Deveras se resiste me apavora, Já não consigo mais ouvir a voz De quem se fez além de meramente No quanto a realidade se apresente O amor desfaz antigos, firmes nós.
020
Quando os prazeres tecem ilusões E nelas eu sacio cada verso, Meu mundo se transforma e já disperso Delírios entre tantas profusões De sonhos e terríveis emoções Ousando mergulhar neste universo E quando mais nos ermos vou submerso Deveras mais desnudo tu me expões. Rescaldos de uma vida onde talvez Houvesse qualquer messe e se desfez Deixando para trás qualquer caminho, Enastro-me deveras no vazio E quando a realidade desafio, Percebo quanto sou frágil, sozinho.
021
Cresce a minha aflição a cada dia Somente pela ausência de esperança Enquanto o tempo além ainda avança O sonho se perdendo em agonia, O amor que eu tanto quis, mera utopia Reside meramente na lembrança E aonde se fizesse temperança Realidade atroz me consumia, Aguardo um novo tempo, mas sei bem Que apenas o vazio ainda tem A força dominando todo verso E o tanto quanto eu quis e nada existe, O velho coração não mais persiste E a voz sem mais sentido, além disperso.
022
O mesmo amor que me enche de ternura Durante tanto tempo se perdendo Enquanto prenuncia-se um remendo Totalidade em sonho; amor procura. O quanto desta vida me tortura Nesta insegura face obedecendo A tempestade eu sinto me envolvendo E a paz que imaginara não perdura. Arisco sentimento, o tal do amor, Esbarra vez em quando e o dissabor Atropelando o sonho dita o fim, E enquanto se anuncia nova sorte, Ainda que tão pouco me conforte É tudo o quanto existe vivo em mim.
023
Do gosto da alegria, nada resta Apenas o retrato amarelado Dizendo de outros tempos, do passado Aonde só se vê a tênue fresta O todo quando ao nada já se empresta Meu rumo sem destino, destroçado, O vento que pensara abençoado Prenunciando em mim nova tempesta. Restauro a fantasia, mas não posso, O quando desta vida sou destroço E tramo uma saída onde não tem. Depois de tanto tempo solitário O canto desta feita é necessário, Mas sei que é da verdade muito aquém.
024
Cobrindo com profunda sombra aonde O tempo se mostrara mais cruel Tomando cada espaço deste céu, O sol já não se vendo além, se esconde, O quanto desta tarde corresponde À minha vida e sei qual meu papel, Agrisalhados tons no escuso véu E quando clamo alguém, nada responde. Mesquinhos dias dizem desta sorte E nada mais decerto aqui comporte Senão este vazio dentro da alma, Amar e acreditar em nova messe, Enquanto o céu deveras se escurece, Apenas esta brisa; além me acalma.
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Mortal melancolia toma em fúria O espaço aonde quis felicidade E quando este terror, na vida invade Gerando tão somente a vã penúria, O tempo reproduz a dor e a injúria O manto se transforma e já degrade Enfrento sem defesa a tempestade, Um vendaval emana-se na incúria. Arcando com as hastes. Sem sustento Ainda a salvação ao longe eu tento, E espreito; atocaiado, alguma luz Que possa clarear este caminho Marcado pelo medo e tão daninho E nele toda a sorte que propus.
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Unindo enquanto fico muito aquém, Os laços que pudessem me trazer A força inesgotável de um querer Aonde na verdade, nada tem, A vida se percebe em tal desdém E quantas alegrias; pude ver Durante a caminhada e o desprazer Tomando cada passo me detém. Angustiadamente vejo a tarde E nada na verdade que se aguarde Senão este tão gélido delírio De quem se acostumando com o ledo Caminho feito em trevas e me cedo Somente ao mais brumoso e vão martírio.
027
Ao ver-te carinhosa em rua imensa Expressas outra face bem diversa Daquela enquanto a vida fora imersa Nas nebulosas noites, dor intensa. O quanto deste passo não convença A quem conhece bem a tão dispersa Imagem desta atroz dura e perversa Realidade aonde nada vença. Somente este fastio dita o rumo, E quando me anuncio em desaprumo O canto em discordância segue alheio, E embora sonhador, o quanto leve A vida num momento frágil, breve Apenas esta sombra que rodeio.
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Como neste infeliz caminho a vida Trouxesse esta desdita costumeira, E mesmo quando a sorte não mais queira Apodrecendo o passo, sem saída, A cada madrugada a dita urdida Nas ânsias desta dor mais corriqueira O risco de sonhar mata a bandeira E deixa em carne viva esta ferida. Resulto deste infausto e nele busco Um dia que eu pudesse; menos brusco, Seguir os meus princípios, ser feliz, E o corte se aproxima da raiz Matando o que restara em esperança Enquanto a noite em mim, domina e avança.
029
A vida é desditosa para quem Procura alguma luz; mesmo distante Aonde cada passo se adiante Encontro o que deveras não contém Esbarro nos meus erros e ninguém Presume novo rumo doravante, E a queda se aproxima em inconstante Desejo e dele a vida segue aquém. Acordo e quando vejo retratado No olhar de quem amei; o meu passado Marcado pelas rugas, pelas cãs, Encontro estas respostas que procuro Num tempo doloroso e mais escuro, Mostrando desde agora as sortes vãs.
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Porém quando adiante o passo e tente Buscar novo caminho vida afora, Verdade em tom sombrio me decora E o tempo se mostrando impertinente, O fardo onde o nada se apresente Vergando cada passo, desarvora E deixa meu destino sem ter hora Sequer, marcando em dor o quanto alente. Apresentando a ti meu rumo opaco, Somente a solidão, bebo e destaco Raiando em tez brumosa neste céu E dele nada vindo senão isto Mergulho no passado e não resisto Ao turbilhão atroz, duro e cruel.
031
O quanto é perigosa a caminhada E nela se percebe esta armadilha Enquanto a solidão, amor palmilha Depois de certo tempo resta o nada, E a sorte desta forma desenhada Prepara a queda enquanto não partilha Exposto a mais cruel, venal matilha Minha alma se percebe destroçada. Registro em todo engodo, um novo dano E quanto mais decerto eu já me engano O risco de viver somente aumenta Explodem sensações, as mais horrendas E quando na verdade nada entendas Palavra que me dizes, virulenta.
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Quando passa suave e mansamente Aquela que pudesse desenhar O quanto é necessário e bom amar, O coração se volta novamente E bebe desta vida e a paz que sente Permite claramente se entregar, Galgando neste instante além do mar Invade o pensamento, plenamente. Ausento da esperança quando sinto O sonho noutro sonho sendo extinto E morro um pouco mais longe de ti. Porquanto a minha vida só pudera Saber neste delírio a primavera, Percebo o quanto agora envelheci.
033
Com teu jeito em tão nobre poesia Encontro além da mera realidade A fantasia plena que me invade E novo ser decerto geraria, Mas quando se presume em utopia O tanto quanto a vida desagrade E traça noutro tom esta verdade Matando qualquer luz que ainda havia. Espelho na tormenta a dor desta alma E nada com certeza; ainda acalma A vida de quem tanto desejara Apenas um momento em paz enquanto A sorte se transforma e assim me espanto Ao ver em mim a turva e vã seara.
034
Procuro a inspiração aonde o nada Persiste e transbordando em ilusão Traduz as dores fartas que virão Tornando sem sentido cada estada Minha alma nesta fúria desenhada Embrenha-se em temido turbilhão, E vejo muito além a solução Vagando sem destino; leda estrada. À parte quando eu pude ter nas mãos Momentos de esperanças artesãos E olhares mais tranqüilos; mas a vida Prepara; atocaiada um novo bote, E sem ter nada além, tudo desbote Trazendo invés de glória, a despedida.
035
Meus sonhos tão convulsos noite afora E o nada se trazendo por resposta, O quanto desta sorte me desgosta A morte em plena vida me devora, E quando o meu caminho desarvora Apenas sonegando esta proposta O corte deixando alma agora exposta Vontade de ficar e de ir embora. Marcando com tenazes unhas, garras Ainda quando busco e não desgarras Adentras; furiosa, cada encanto E o nada após o sonho em vão, garanto Expresso no vazio a realidade E nela este tormento que inda invade.
036
Tornando sem conforto a minha vida, Apreende com as garras cada passo, E tanto poderia, mas desfaço A estrada noutra idêntica, partida. E sei do quanto pude e se duvida O caminhar expressa e sei do escasso Desenho aonde o nada tento e traço Ausência a cada instante presumida. Resplandecente noite do passado Agora vejo o céu frio e nublado Neste outonal delírio aonde o canto Destroça qualquer messe que inda venha, Moldando cada instante aonde embrenha Somente o quanto resto em desencanto.
037
Restando mera sombra do que um dia Pudesse ainda haver dentro de mim, O todo se perdendo e neste fim O mundo se transforma e não traria Sequer a menor sombra de alegria, Desdéns são costumeiros; sendo assim Apenas discordância e nisto eu vim Sondando qualquer luz e nunca havia. Acreditar no sonho? Que tolice. O próprio dia a dia me desdisse Deixando a cicatriz marcada aonde Um grande amor pudesse imaginar, E sei da desventura e sem lugar Meu mundo no vazio ora se esconde.
038
Um triste viajante dos seus dias Encontra meramente disfarçado O quanto se pudesse do passado Viver ainda ledas fantasias, Desvendo cada passo onde trarias Os olhos neste tom abençoado, Mas quando me percebo e desolado As horas quando muito são sombrias. Repare neste instante solitário E saiba deste encanto necessário A quem se fez poeta e agora vê A vida sem sentido mais nenhum, Meu canto se disfarça e é tão comum Passar sem nem sequer saber por que.
039
Resta um momento morto aonde eu quis Viver apenas isto: uma ilusão Enquanto amanhecera sem razão Meu pranto noutro canto, um infeliz, A sorte a cada instante contradiz E sei dos meus tormentos que verão O canto em dissonância e desde então Cevando dentro em mim a cicatriz, Nefasto caminheiro do não ser Aonde poderia haver prazer Se nada é permitido; a quem mais sonha Por isto é que me entrego ao abandono, E a cada novo dia desabono Fortuna tão atroz, leda e medonha.
040
Morrer e ter somente esta incerteza Do quanto ou se deveras devo ainda No nada após o tanto onde se finda O rio sem saber da correnteza, Dos sonhos mais heréticos sou presa E quando a realidade assim deslinda O pânico domina e a sorte brinda Com todo este sarcasmo em sutileza. Esparso caminhante sabe bem Do nada que deveras sempre vem Depois de anunciada tanta festa Há pouco além de apenas um jazigo O sonho mais feliz que inda persigo, Já não traduz sequer o quanto resta.
041
As ilusões tão frias e venais Entranham dentro da alma de quem sonha E quando a face escusa da vergonha Derrama sobre nós; perversos sais E quanto mais além tu já trais Percebo a cada passo aonde eu ponha Esta expressão dolosa e até medonha E nela meus destinos entre os ais. Aprendo um pouco mais a cada instante De um mundo na verdade degradante Acostumado à dor e ao temerário Delírio de um não ser aonde um dia O quanto de emoção se fantasia, Porém ledo destino é vão corsário.
042
Lavrado coração em ferro e medo, O quanto deste dia já não vejo Aonde poderia algum ensejo Trazer esta ilusão, nada eu concedo, Apenas aprendendo desde cedo A dor invés de sonho e de desejo Assim o meu caminho malfazejo Expõe a cada passo o desenredo, O mundo se mostrando sem remédio A mera fantasia gera o tédio, E o pânico permite apenas isto, Retrato em tal desordem construído, O tempo se perdendo em dor e olvido, E quando busco a paz, logo eu desisto.
043
Revelo a cada instante em voz tranquila O quanto possa mesmo ser diverso Do quadro mais complexo e perverso E nele cada passo se desfila Aonde a realidade não perfila E bebo este caminho mais disperso Gerado pela ausência e nisto eu verso Moldando a discrepância em mera argila, Destoa deste sonho o meu desejo E quando novamente eu me revejo Ausente da esperança mais sutil, Errático delírio se mostrando E nisto se perdendo desde quando O mundo noutra face se reviu.
044
A dor quando ultrapassa algum limite E deixa se notar o quanto ausente Do olhar este delírio onde se sente O mundo que pudera e se acredite, Vencer o mais temido delimite O canto aonde o mesmo é pertinente, E sendo desta forma o mais potente Delírio onde tudo se permite. Quem sabe noutro rumo a vida possa Gerar além do medo a própria fossa E nela num mergulho desumano, À cântaros presumo novo engodo E bebo deste sonho em torpe lodo, E aos poucos sem destino, enfim, me dano.
045
Hei de beber no cálice que imundo Traduz a minha vida em ato inglório E quanto mais deveras merencório Caminho e nele vejo o fim do mundo. Pudesse acreditar por um segundo E o todo se transforma em meritório Delírio aonde o canto provisório Expressa a realidade e ali vou fundo. Num ato delicado ou mais gentil, O mundo desabando quando viu Apenas o meu fim e nada tenho Senão a mesma face em dor e tédio E sem saber sequer se algum remédio Permita algum delírio ou mesmo empenho.
046
Acaso se inda houvesse alguma chance De um dia bem melhor para quem ama, Mantendo mansamente acesa a chama Aonde o meu caminho tente e alcance, O todo se mostrando num nuance A vida renascendo em mesma trama, Permite o quanto quero e se reclama Do todo que perdera e ao fim me lance. Esgarço o passo e nisto nada vejo Senão tal mesmo infausto de um ensejo E nele sem permuta, resto alheio. Tentacular delírio me embotando, O mundo se permite mais infando Enquanto esta ilusão, torpe eu rodeio.
047
A morte, este resgate aonde eu tente Ao menos encontrar a minha paz Do quanto nesta vida fui capaz No fato de ser mesmo impertinente E quando se mostrara plenamente O enredo noutra via se desfaz, Gerando o descaminho mais mordaz E nele me envolvendo, inconsciente. Apresentando aqui meus derradeiros Espinhos tão comuns nestes canteiros E deles nada tendo senão isto, Resgate de uma vida em vã promessa O passo logo além já se confessa E nele sem saída e em vão, desisto.
048
Mergulho no vazio que me deste E dele nada trago, vou sozinho E quando na esperança ainda alinho O tempo noutro fato se reveste, O manto mais atroz e mais agreste Cobrindo cada passo e me avizinho Da morte, derradeiro e sacro ninho E nela toda a messe já se investe, O carma se aproxima do seu fim, E arranco o que restara então de mim, Medonha face exposta e agora nua, Marcada com dorida realidade Pressinto a dor que enfim tanto degrade Enquanto o meu dilema ainda atua.
049
Angustiado tento outro sentido E nada se fazendo aonde um dia Apenas se mostrara esta heresia De um mundo mais cruel e desvalido, Resumo de outro tempo percebido E nele cada passo não traria Senão tanto problema e sentiria Meu mundo sem respaldo, consumido. Esgoto mais um tempo e nada vindo, Ao menos onde outrora quis infindo Cenário se transforma neste instante. E o marco; mais audaz, ainda vejo Tomando com terror o meu desejo E a morte se mostrando fascinante.
050
Cansado de lutar já não consigo Vencer os meus fantasmas e me entranho Num mundo dolorido e tão estranho Aonde não se vê nenhum amigo, O corte se transcorre e enfim persigo Meu mundo noutro mundo em perda ou ganho E quando este tormento sem tamanho Expõe o meu caminho ao desabrigo, Amortecendo a queda, uma ilusão Traduz os dias frágeis que virão E mostra a realidade mais atroz, Cerzindo em violência o dia a dia O todo noutra face não veria Deixando na distância a minha voz.
051
Durante qualquer tempo ainda quis Pensar e ter a sorte de viver Além do que pudesse ao bel prazer Julgando num instante ser feliz, Mas quando o mundo mostra a cicatriz E nela sem sentido passo a ver O dia que julgara a se perder O tanto quanto possa é chamariz Da morte sem sentido e nem razão, Olhando para trás só vejo o não E bebo da cicuta quando tento Vestir uma emoção bem mais airosa E o todo se transforma enquanto glosa A vida sem sequer um provimento.
052
Estúpido e venal; apenas creio No trágico final da torpe vida Aonde a sorte em dores fora urdida O manto se aproxima do receio, E sigo tão somente opaco e alheio E nada desta luz é percebida Marcando a cada traço outra ferida E a morte sem defesas, eu rodeio. Esgoto cada chance em ledo fato E sei do quanto possa e não resgato A vida de outra forma senão esta E o tanto se perdendo no tão pouco, E olhando sem sentido, quase um louco Apenas a mortalha inda me resta.
053
Somente me restando então a morte E nela e dela sorvo cada gota, A sorte noutra face semi-rota E o peso que meu corpo não comporte, Agarro alguma chance, mais sei bem Da incrível virulência desumana E o passo no vazio já se dana E dele nada vejo e nada vem, Ouvindo dentro em pouco esta palavra Que tantas vezes tive vida afora, Somente esta ilusão ainda aflora Algoz já sem destino, o medo lavra E deixa preparado meu calvário Além do que julgara necessário.
054
Marcado a ferro e fogo em carne viva Não tendo outra saída senão crer No passo e nele apenas posso ver A face da incerteza, desmedida, Resumo tão atroz desta partida Morrendo a cada instante sem saber Do todo que virá sem merecer Somente preparando a despedida, Exausto caminheiro trilho em vão, Vagando sem destino ou direção, Cerzindo cada passo com a dor, E quando mergulhei no cadafalso O olhar mais desejado fora falso E apenas traduzira o dissabor.
055
Encontro o meu cadáver quando tento Sentir alguma sorte e sei talvez Que mesmo quando nisto tudo crês O mar quando se sente é violento, O passo para o nada, sempre lento Olhar aonde um dia em altivez Pudesse perpetrar em sensatez Agora me condena ao sofrimento, Alheio ao quanto pude e não teria Senão a mesma face aonde um dia O canto eu jamais pude discernir. O prazo se esgotando sem defesa Da sorte em vã quimera, mera preza Apenas prosseguindo sem porvir.
056
Nefasto caminheiro do abandono, Marcando o meu destino sem tentar Ao menos noutro estilo caminhar Enquanto do vazio enfim me abono, Olhando para trás o tempo clono E arisco sem saber onde parar, A morte talvez possa aliviar O todo sem destino em ledo sono. Escuto a voz sombria dentro em mim E gero este demônio quando, enfim Expresso com ternura alguma prece Presumo esta quimera dita vida, E quando já me vira sem saída, Meu rumo no não ser ora se tece.
057
O canto em discordância, o medo intenso E quando sem destino a minha ausência Gerando a cada passo a impertinência Apenas do não ser eu me convenço E sei o quanto posso embora tenso, Jogado nalgum canto em penitência A vida não teria mais clemência E o mar aonde adentro agora, imenso, Sem horizonte algum, percebo quando O mundo noutro tanto se traçando E nem mais um sinal do quanto pude Viver ou desejar quem sabe a luz E quando o coração já não seduz A própria realidade nunca ilude.
058
Desculpe qualquer zelo aonde um dia A vida não traria novo rumo, E quando aos poucos perco e assim me esfumo O manto na verdade desfaria O canto que procuro; o de alforria A morte tomaria logo o prumo E assim a cada engodo; inteiro, o sumo Minha alma sem defesas sorveria. Incauto passageiro deste nada A sorte noutra face degradada Aprendo com a dor, mas mesmo assim O todo se dilui enquanto eu posso Viver o que inda resta, e sou destroço, Meu mundo se aproxima então do fim.
059
Presumo cada passo e mesmo quando A queda se anuncia não me canso E tendo o coração deveras manso Pressinto o meu caminho desabando, Os dias mais doridos, ledo bando E nada do que possa ainda alcanço Procuro tão somente algum remanso E desta forma então irei remando, Enfrento estas marés do dia a dia, O mundo noutro instante poderia Trazer em benefício aonde eu vejo Caráter tão diverso do que outrora A mente desejava e não demora Expressa o quanto aquém disto eu prevejo.
060
Estrídulos diversos; noite em medo E tento descobrir qualquer razão Sabendo desta vida agora em vão E mesmo assim decerto eu me concedo E bebo do silêncio e sem segredo O mundo não transporta a solução E até nos novos tempos que virão O risco de sonhar trama o degredo, Desértico delírio e nele eu passo Seguindo mansamente passo a passo Até chegar ao fim da velha fase, E quando se anuncia o meu tormento Deveras outra fúria enfim enfrento E a vida da verdade se defase.
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Aumenta-se o tormento quando eu vejo A face desdenhosa da verdade E o quanto a cada ausência se degrade Vivendo a realidade a cada ensejo O dia dolorido e malfazejo Aonde se vislumbra a tempestade E quando este terror agora invade Estendo no meu passo este negrejo Pudesse acreditar noutro momento E nada mais teria senão isto E quando a minha sina; em vão despisto Restauro nos meus egos o tropeço Quem sabe novamente ser feliz E nisto desejar o quanto eu quis E ter além da glória este adereço.
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Se eu deixo de dizê-lo, o verso ecoa E traça outro demônio dentro em mim, Depois de resumir meu mundo ao fim Procuro insanamente esta canoa, Palavra que em verdade já destoa E gera a mansidão e diz do fim Sorvido a cada gole deste gim Embrenho no vazo e além revoa O quanto se aproxima do real Num êxtase sublime e sem igual, Demonstra para mim a nova face De um mundo aonde outrora poderia Cerzir em alegria esta utopia E nela a luz bendita ainda grasse.
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Menino passarinho, coração, Traquinas já não tendo mais juízo E quando neste encanto enfim matizo Renasço com a força de um verão. Meus olhos adivinham desde então O todo desvendo em Paraíso E assim nesse jardim aromatizo No incenso mais suave, a redenção, Favor quase divino ao fim da senda Meu canto nesta glória já desvenda O sonho não seria um adereço, E tendo o teu olhar, mesmo tardio A minha primavera em paz recrio E mesmo se não vens; eu te agradeço.
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Meu canto; no passado solitário Sem tanto aonde encontre uma ancoragem Agora me entranhando esta vontade Aonde o peito aberto é necessário, Meu passo com certeza temerário Encontra na ternura esta abordagem E segue sem temor; rara viagem E nela o sonho dita o itinerário A vida permitindo então esta aula Trazendo a suavidade nela a Paula Reinando sobre os sonhos outonais Permite que se enfrente os vendavais Tomando defesas a minha alma E quando o teu sorriso em paz me acalma Expressa o quanto desejo e mais.
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Quis a sorte aonde um dia Andarilho coração Já cansado desde então Nada enfim conseguiria Bebe a tramas mais vazia E decerto a sensação Rescendo à podridão Noutra face se veria, O meu rumo em tons sombrios Os meus cantos desafios E nefasta a realidade No jazigo da esperança A palavra não alcança Tão somente se degrade.
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Alcançar qualquer lugar Onde um dia imaginara A beleza imensa e rara E nada vendo a me traçar Outro canto onde escutar A palavra que escancara E traduz além da escara A certeza de um luar; Mas cansado de promessa O meu passo recomeça E não vendo qualquer porto, O que fora fantasia Noutra face se esvazia Esperança enfim aborto.
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Aguardando o fim da vida Nada tenho e nem teria A verdade mais sombria Outra estrada já perdida, A palavra resumida Onde outrora uma alegria Tantas vezes poderia, Mas resume a despedida, Ouço a voz do meu passado Neste tempo desolado, Num herético caminho, Entre tanto pedregulho Na verdade se mergulho O que encontro é mais daninho..
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Esquecendo que outros dias Poderiam ser diversos Entre tantos mais perversos Meu caminho; não farias Morro em sonhos, fantasias E são torpes os meus versos Neles sirvo em agonias Os retratos mais fiéis Destes dias tão cruéis Onde tento a redenção, Num errático percurso, Entre as pedras teimo e curso E amortalho o coração.
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Esquecendo qualquer passo Onde outrora vira a luz, O vazio reproduz Um cenário torpe e baço, Quando além teimo e refaço Este espaço em contraluz O delírio gera o pus E traduz o meu cansaço, Navegante sem destino Quantas vezes mal domino O desejo que inda resta, O medonho navegar Em espúrio e tosco mar Sem ternura ao vão se empresta.
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Nesta adaga em que este gume Expressara esta vontade Onde o todo já degrade E no fim a vida escume E traduz como em costume A temida iniqüidade Esta pútrida verdade Onde o mundo agora esfume, Retratando a raça humana O meu verso enfim se dana E permite este vazio Nele a face degradada Condenada ao mesmo nada Traz somente o vento frio.
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Envergonho-me de ser Desta raça mais voraz E o caminho sempre traz Ermo fardo em desprazer E ao me dar a conhecer Se também eu sou mordaz, O delírio agora faz O sofrível percorrer Nesta espúria realidade Onde o tempo desagrade Quem se fez além de tudo, A verdade não se trama E o que fora outrora chama Noutro rumo não mais mudo.
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Esperando alguma luz Onde a sombra doma inteira E a verdade não se queira Quando à sorte eu já me opus O meu barco eu contrapus Ao que fora uma bandeira, A minha alma timoneira Ao caminho não faz jus. Vivo então residualmente E o meu mundo se desmente Noutra face mais sombria, Morte tanto me redime, E por mais que ainda estime Outro sonho eu não teria.
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Ansiolíticos diversos Entre tantos que inda pude Ao traçar esta atitude Nela os ermos; vejo imersos E momentos mais dispersos Na certeza nada mude Amortalho a juventude Bebo dias mais perversos, Só restando o tumular Desejado caminhar Entre as flores e os espinhos, Os meus dias sobre a terra A verdade logo encerra Foram todos vãos mesquinhos.
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Caminhando contra a fúria Deste imenso vendaval Dia vejo e sempre igual Cada passo nova injúria E deveras na penúria Aguardando o funeral Alma vaga em tolo astral Bebe as sendas desta incúria Amordaço a minha voz E percebo em frágeis nós O que um dia quis mais forte, Sem ter nada desde quando O meu canto deformando Cada sonho em vão aborte.
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Expressando a invalidez De um satânico caminho Quando sigo em tom mesquinho O meu canto se desfez, Realizo a cada vez O mergulho em vago espinho E se tanto desalinho No final já nada vês. Bem pudera ser diverso E se tanto ainda verso Sobre as pedras, nada resta A não ser esta incerteza Dominando a correnteza Numa face desonesta.
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Eu se nada represento, Também nada mais queria Tão somente esta heresia Vil ditame em sofrimento, Enfrentando em mim o vento Numa noite etérea e fria O meu passo se esvazia Nada resta em pensamento, Num mosaico multicor Apresenta-se este albor E deveras sigo assim, Prenuncio a queda quando O meu mundo se tornando Tão igual, começo e fim.
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Presencio a minha queda E cercado pelos tantos E temidos desencantos O meu passo então se veda, E a verdade se envereda Pelos dias, geram prantos E se ainda quero encantos Ilusão já não mais seda, Apresento esta mortalha Quando ao vento a voz se espalha E ninguém escuta o brado, Vate alheio em torpe lira, O meu canto já se atira Num momento desolado.
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Expressando em tom atroz O meu canto discordante Onde a vida não garante Nem sequer o logo após A mortalha dentro em nós O meu canto deslumbrante Meu delírio me adiante E se embrenhe em tom atroz. Acenando com o fim Onde tudo dentro em mim Não pudesse ser complexo, Caminheiro da esperança Quanto o nada vendo alcança Persistindo enfim perplexo.
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Esgotando o verso em paz Demoníaca figura Onde o nada se aventura Num momento mais tenaz O caminho ora desfaz E gerando esta amargura Mesmo quando não tortura A verdade nada traz, Resumindo o quanto pude E moldando outra atitude Tento embora já me canse, Deste encanto imaginário Tão somente o necessário Desnudando algum nuance.
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O meu mundo se perdendo Noutro rumo tão igual, Neste passo mais venal O desejo diz remendo, E o caminho mais horrendo Entranhando este fatal Onde o sonho diz final Do que um dia percebendo, Vago alheio ao quanto pude E se tento tal magnitude Atravesso o descaminho Resoluto caminheiro Entre pedras, e espinheiro, Persistindo assim, sozinho.
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O meu verso sem guarida O meu sonho desenhado Nos medonhos do passado Nova sorte resolvida Onde outrora houvera vida E somente este legado Noutro passo desolado Traça a sorte desmedida, Resoluto enquanto eu posso E sabendo ser tão nosso O sertão que agora entranho O meu passo sem destino Na verdade determino Onde outrora houvera ganho.
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Respondendo como pude Aos meus erros costumeiros Entre tantos espinheiros O meu passo já se ilude E deveras juventude Não traduz os derradeiros E intocáveis; mais useiros Em completa magnitude; Quanto mais pudesse ver O mais belo amanhecer Sem as nuvens, brumas fartas O cenário se transforma Em temida e turva forma E dos sonhos tu me apartas.
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Se encarcero o pensamento Onde tanto quis liberto O meu canto não desperto Mesmo quando o sonho eu tento, E domino o sofrimento No delírio onde me alerto E deveras já deserto Entregando o canto ao vento, Nada pude contra a fúria De quem sabe da penúria Contumaz de quem espera Muito além do mero trilho Onde insano inda palmilho Revivendo esta quimera.
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Num louvor a quem se fez O cordeiro em sacrifício O meu manto em santo ofício Não permite a sensatez, O caminho estupidez Onde outrora a cupidez Impedira o precipício Mas demônios mais modernos Em tais galas, finos ternos Expressando o dia a dia Engalana enquanto engana E o meu mundo em tez profana Morre envolto na heresia.
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A certeza de outro norte Muitas vezes não permite Qualquer sonho nem palpite Onde o passo se comporte, O delírio doma a sorte E o que fora e não limite Inda mais quando se grite Na incerteza não conforte, Venço assim os dissabores E por onde tu te fores Flores vejo em raros tons Dias ledos do passado Num jardim anunciado Traz em nós sobejo dons.
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Ouvir a voz dorida e merencória De quem se fez alheio e num momento Desvia o próprio rumo de uma história Enquanto noutro fato me alimento, Pudesse acreditar numa vitória E ter a cada passo o sentimento Aonde na verdade busco e tento Singrar este oceano e crer na glória A vida se presume desta forma O passo mais audaz tudo deforma E gesta dentro em mim o pesadelo, Meu canto sem sentido e sem promessa A cada novo fato recomeça E não consigo mais seque detê-lo.
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Abrindo o peito exponho o quanto pude E nada mais se traz senão tal medo E quando novo canto me concedo Marcando em tom atroz a juventude A sorte na verdade não ilude Espalho ao quatro ventos o segredo E sei que condenado a vão degredo A dor apresentando em magnitude Esboça qualquer erro e não conserta Minha alma estando sempre mais alerta Já não condiz com tudo o que quisera Nesta explosão venal, o quanto resta Adentra firmemente pela fresta Alimentando assim toda a quimera.
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Perdoe por te amar, já não consigo Vencer os meus anseios, e me afasto, O coração exposto a tal repasto Extrai de cada sonho o desabrigo E quando na verdade assim prossigo Erguendo o meu olhar, em ar nefasto O meu delírio agora enfim já gasto Restando dentro em mim o que persigo, Antigos vendavais a vida enfrenta E bebo a dolorida tez sangrenta E nela não percebo outra saída O quanto se permite um sonho além Do quanto ainda resta e mesmo vem Marcando em dissonância a minha vida.
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Ecléticos caminhos, rumos tantos, E neles os prováveis erros quando A vida se transforma e desnudando Apensa tão somente os desencantos Procuro os meus sinais e pelos cantos O todo noutra face desmembrando O dia que pensara bem mais brando Agora entranha em si dores e prantos Acendo outro cigarro e desta forma A vida noutro engodo se transforma Mesquinharias tomam o cenário E o quanto imaginei em rara luz Apenas ao vazio me conduz Num passo sem juízo e temerário.
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A fonte se secando aonde um dia Pudesse haver fartura e nada vejo, O coração decerto malfazejo Enquanto a realidade não se adia Esgoto o meu caminho em poesia E aproveito assim a cada ensejo Narcotizando o sonho em heresia E nada do que eu quis mais poderia Senão a mesma face de um desejo Vergada sobre as dores mais constantes E quando novo rumo me garantes Esboço com meus versos outro fim, A morte se transforma em redenção Meu mundo sem sentido e provisão Expressa da mortalha este estopim.
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O talvez seja impossível A quem tanto quis e nada Da vontade demonstrada Deste sonho incoercível, O meu mundo perecível Onde houvera a caminhada Traz a noite constelada, Mas também o inconcebível Depois disto, resta o fardo E o meu passo; então retardo Volto ao mesmo precipício Que cavara com meus pés E se tenho minhas fés As renego desde o início.
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Sordidez; somente eu visto Nos momentos onde eu pude Realçar em atitude O que tanto trago disto, Caminhar onde resisto E matando a juventude Onde cada passo ilude E o final ora previsto Residindo em meus versos Tantas vezes mais dispersos Outras; cegos e clementes Ao cerzir a vida então Entre as ânsias do senão Pouco; vês e nada sentes.
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Da mortalha condizente Com meus últimos sinais Entremeio os funerais Com a força da semente, O passado se consente Entre tantos vãos sinais, E deveras logo esvais O que resta e fora gente. Esbarrando nos meus erros Revolvendo meus aterros Nada encontro, senão isso, Um terreno movediço Onde a sorte não se ancora Só a certeza de ir embora.
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Rastejante serpe eu creio No que tanto quis um dia, E ao sentir esta agonia Bebo as sendas de um receio, Entranhando em devaneio Cada dor é poesia, E o que tange não podia Traduzir ao quanto veio, Esbarrando no meu ego A cangalha que carrego Em tons vários e indecentes Onde tanto quis liberto O cenário que deserto Nele; o fardo tu pressentes.
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A mortalha que há em mim Noutra face se exporia E transcende à fantasia Morro em paz; mato o jardim, O que tanto fui ao fim De um momento aonde urdia O cantar em agonia E o meu cais; ausente enfim. Hoje um mero sonhador Adentrando espúria dor Nada leva senão isto O cenário mais atroz E decerto existe em nós O final que aquém assisto.
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Já não posso mais sentir Nem os ermos nem certezas Onde tento em vãs surpresas Perceber o que há de vir, Cada engodo presumir Nas espúrias correntezas As verdades, meras presas Do que eu posso concernir. Abandono o passo e morto Sem saber se existe porto Realçando os meus demônios Não nasci para o convívio Se esta morte for alívio Nela os ricos patrimônios.
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Esboçando qualquer luz Onde a treva se transforma Em ditame regra e norma Noutra bruma reproduz O que tanto me conduz E deveras me deforma Gera além da própria forma O que tanto contrapus. Mero náufrago do tempo Em terrível contratempo O meu cai já não percebo, Vivo apenas deste errático Desenhar em senso prático Cada fonte que recebo.
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Espreitasse na tocaia Quem eu sinto não veria E se entranho a fantasia O caminho já se traia, Ao perder noção, sem praia Vou me expondo à ventania Minha noite escassa e fria Outra noite em leda praia, Mesquinhez, ditame humano E se tanto eu já me dano Coração persiste em paz, Vez por outra me exaltando No final retorno brando Já não sei ser nem audaz.
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A matilha me rodeia É deveras natural, Menos bem ou até mal A certeza devaneia, A minha alma segue alheia Ao que pude ou sempre igual Desejar e ver sinal De outro tempo em nova teia. Sigo errático caminho E se tanto ali me aninho Nada tenho contra a sorte Nem tampouco pude crer Num tão claro amanhecer Onde o sonho me suporte.
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Sou errático e por isso Na verdade incoerente E o que tento e já se ausente Traduzindo em movediço Caminhar onde cobiço Pelo menos inda tente Perceber o inconseqüente Delirar em baço viço, Os meus dias são iguais E se os tenho tão banais Nada resta do que eu quis, O meu passo se perdendo Onde outrora fui remendo Hoje resto este infeliz.
MARCOS LOURES FILHO
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