
Eterno (Drummond de Andrade)
Data 24/07/2010 13:45:59 | Tópico: Poemas -> Reflexão
| E como ficou chato ser moderno. Agora serei eterno.
Eterno! Eterno! O Padre Eterno, a vida eterna, o fogo eterno.
(Le silence éternel de ces espaces infinis m'effraie.)
— O que é eterno, Yayá Lindinha? — Ingrato! é o amor que te tenho.
Eternalidade eternite eternaltivamente eternuávamos eternissíssimo
A cada instante se criam novas categorias do eterno.
Eterna é a flor que se fana se soube florir é o menino recém-nascido antes que lhe dêem nome e lhe comuniquem o sentimento do efêmero é o gesto de enlaçar e beijar na visita do amor às almas
eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma [força o resgata]
é minha mãe em mim que a estou pensando de tanto que a perdi de não pensá-la é o que se pensa em nós se estamos loucos é tudo que passou, porque passou é tudo que não passa, pois não houve eternas as palavras, eternos os pensamentos; e [passageiras as obras].
Eterno, mas até quando? é esse marulho em nós de um [mar profundo].
Naufragamos sem praia; e na solidão dos botos [afundamos].
É tentação a vertigem; e também a pirueta dos ébrios. Eternos! Eternos, miseravelmente. O relógio no pulso é nosso confidente.
Mas eu não quero ser senão eterno. Que os séculos apodreçam e não reste mais do que uma [essência] ou nem isso.
E que eu desapareça, mas fique este chão varrido onde [pousou uma sombra] e que não fique o chão nem fique a sombra mas que a precisão urgente de ser eterno bóie como uma [esponja no caos] e entre oceanos de nada gere um ritmo.
Carlos Drummond de Andrade, grande poeta brasileiro (1902-1987), In: "A Rosa do Povo".
|
|