
HÁ DIAS EM QUE MELHOR FÔRA...
Data 20/07/2010 20:31:42 | Tópico: Crónicas
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Começo a acreditar em que há dias em que melhor fora não sair de casa. Isto partindo do principio – pouco consistente – de que em casa se não correm riscos… Há pouco fui ao Porto, de expresso, o que naturalmente limita a capacidade de movimentos na cidade. Precisei de um táxi para ir à zona da Boavista. Conseguir o táxi não foi difícil, mas tratar com o taxista foi mais complicado. O facto de não me recordar do nome da rua quando nos aproximávamos da área pretendida, fez estrebuchar o taxista. Como lhe não aceitasse a exaltação, estrebuchei também. Trocamos duas palavras que se não foram agressivas, foram pelo menos pouco simpáticas. Mandei-o parar, paguei-lhe e fechei a porta com francamente pouca delicadeza, do que logo me arrependi, diga-se. Cada um seguiu o seu caminho. Eu, senhor das minhas razões, mas ele, por certo, não menos ciente das dele… Como de táxi já bastasse para o dia, tentei depois o autocarro para o regresso à Baixa. Exibi uma nota de 50 euros (era o que tinha), e o motorista “convidou-me” a abandonar o “omnibus” por não ter troco, o que fiz entre obediente e confuso, por de momento ficar sem ideias claras sobre os direitos que me pudessem assistir. Saí portanto obedientemente… Á hora do almoço não tinha apetite e por isso mandei vir uma simples “francesinha”, coisa que à partida, não enche barriga a ninguém. Perdoem-me as francesas que o são de facto… Estava dura que nem prego, pelo que metade me bastou para matar o magro apetite, apesar de, para cumulo, não ter sido nada magro o seu custo. Ainda tive vontade de regatear, mas o sentimento de fracasso era já o que parecia estar-me destinado neste dia. Porém, o mais insólito esperava-me para a viagem de retorno. Instantes depois de ocupar o meu lugar, senta-se à minha beira uma miúda de uns dois anitos, que desde logo evidenciou a irrequietude da idade. Tudo bem e em nada me importunou, como é óbvio. Passado algum tempo, como ninguém dirigisse a palavra à garota, o que passou a parecer-me estranho, uma natural curiosidade fez-me olhar em derredor. Como à frente se tinha sentado uma mulher com uma criança, admiti que fossem a mãe e uma irmãzita. Mas essa hipótese desvaneceu-se quando constatei que entre as duas crianças não havia qualquer relação, limitando-se a trocarem-se os olharezitos. O mistério – que ainda o não era bem, - começou a adensar-se. Por altura da Trofa –meio caminho andado e quando a miúda dormia profundamente apoiada no meu braço(uma certa ternura até)- o problema da filiação da catraia começa a pôr-se-me com mais acuidade, sempre confiante de que o imbróglio se esclarecesse. Mas indícios de familiares ou equiparados, nada. Que a catraia tivesse tomado o autocarro por sua alta recreação, também não era hipótese de admitir. A situação toma foros de quase “drama” quando o autocarro pára no destino- O pessoal vai saindo, saindo. Eu numa justíssima expectativa, enquanto que a criança ressona tranquila no meu braço. Quando saíam as últimas pessoas, decido-me a levantar a voz e a perguntar se aquela miúda não tinha dono! É nesta altura que lá de traz ouço a tranquilizante exclamação: “a menina é minha, a menina é minha!”. Respiro fundo, por me sentir liberto do risco de uma adopção francamente pouco oportuna…
ANTONIUS
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