
VÁRIOS SONETOS
Data 16/07/2010 20:39:22 | Tópico: Sonetos
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Em intranqüilos passos noite afora O medo de sonhar, o gosto amargo E quando a solidão; enfim embargo O mundo noutra fonte me devora, Meu sonho caminhando sempre ao largo Do cais aonde a dita em paz ancora, O risco de viver já desarvora O passo no vazio jamais eu largo E sei do quanto posso ou mesmo cri O verso mais atroz remete a ti Ausente dos meus dias, esperança; O canto em agonia, a voz lamenta O resto se desenha em tez sangrenta E aos poucos meu caminho ao nada avança.
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O coração qual fosse uma falena Vagando sem destino em noite escura, E quando algum luar, além procura Apenas o vazio concatena E a morte a cada passo mais acena Vencido pelos tons desta amargura Somente o que me resta e me tortura Certeza desta noite dura e plena. O vasto caminhar por vida leda O nada que deveras me conceda Somente um longo estio em plantação Nesta aridez profusa, a vida passa, O canto sem sentido toma a praça Procuro qualquer luz. Escuridão...
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Crianças do passado, viva festa, Apenas mera sombra e nada mais, Os dias entre tantos, marginais A sorte não conhece qualquer fresta O medo de sonhar agora atesta Os rumos entre noites infernais, E tento novos dias, mas iguais Somente a morte então é o que me resta. Jogado nalgum canto desta sala, O corpo ainda tenta enquanto exala Um ar sombrio e vago, mal respira. A luz que inda viesse na verdade A cada novo tom mais se degrade Transparecendo ao fim erro e mentira.
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Um prisioneiro apenas do que tento E vejo sem saída, acorrentado Aos ermos que inda trago do passado Colhendo tão somente o sofrimento, E quando do vazio me alimento Encontro em teu olhar o duro enfado No tanto que buscara, resguardado Somente a solidão dita o provento, Além do quanto pude acreditar A morte ronda e toma devagar O espaço que julgara da fortuna, Porquanto a cada ausência mais desuna Destinos tão diversos, meu e teu, Meu canto sem um eco se perdeu...
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No grão fatal da dura hipocrisia Semente dos vazios deste inverno, O amor que tanto quis e ainda externo Aos poucos noutro tanto morreria, A senda abençoada não traria Senão este caminho torpe e eterno, E quando imaginara bem mais terno O rumo pouco a pouco perderia, Cerzindo dentro em mim tal abandono, A cada novo não mais desabono O sonho de um momento mais feliz, Porquanto sendo assim, mera figura Ausência de esperança já perdura Negando cada passo que mais quis.
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Cantara no passado em tom suave Tentando adivinhar algum momento Aonde na verdade o pensamento Pudesse superar qualquer entrave, Mas quando a realidade mais agrave O passo que deveras teimo e tento, Dos ermos do meu sonho, um vão detento Quem dera a libertária e mágica ave. O riso desdenhoso desta dita A vida na verdade necessita De um algum caminho em paz, amor ou sonho. Mas quando me percebo neste espelho O velho caminheiro; enquanto engelho Percebo o meu final, torpe e medonho.
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Soltar a minha voz, belas campinas Aonde no passado pude crer No amor onde vivesse ao bel prazer E quando vejo as cenas cristalinas Deveras dura ausência determinas Matando pouco a pouco o que eu quis ser A vida a cada passo esvanecer Secando da esperança fontes, minas. Os restos perambulam noite afora, E o medo de viver tanto apavora E traça outro medonho olhar em mim, Mortalha se tecendo a cada dia A noite em tom amargo e tão sombria Meu tempo se aproxima do seu fim…
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Aonde acreditara em claridade Rincões de uma esperança há tanto morta Agora se percebe a dura porta E nela nem a luz ainda invade, O risco de viver, a ansiedade O quanto do vazio me comporta, Somente a morte chega e já conforta Quem tanto se perdera em falsidade. Os tempos emolduram no meu rosto Os ermos entre rugas onde exposto O corte da ilusão marcando fundo, E quando nalgum canto do meu ser A réstia abençoada do prazer, Miragem que em verdade e em vão confundo.
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Um campo de verbenas, lírios, rosas Floradas que jamais eu conheci, O tanto que sonhara e nunca vi Manhãs entre diversas, olorosas. As sortes são deveras caprichosas E tudo o quanto quis resumo em ti, O rumo sem sentido, já perdi E as sendas são decerto pedregosas. Arcar com erros tantos, isto eu posso, Não nego minha culpa neste fato, E quando na verdade me retrato Tentando acreditar somente nosso O vago que inda tenho em ledo vão Apenas ermos dias, solidão...
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Perdido em tal desdita, nada tenho Senão as velhas marcas entranhadas, As noites entre medos embaladas O medo me domina, ora ferrenho. O risco de sonhar adentra o cenho E doma sem sentir as madrugadas, Porém ao perceber quão desoladas Estradas onde o tempo eu não retenho, Esboço a luz ausente em pensamento E quando algum clarão ainda tento A falsa sensação de lua em mim, Resgates de outros tempos? Quem me dera. A vida sempre fora a tola espera Por mais que em paz cevasse este jardim...
MARCOS LOURES
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