
Pão (Gabriela Mistral)
Data 06/07/2010 22:56:54 | Tópico: Poemas -> Esperança
| Deixaram sobre a mesa um pão meio branco, meio queimado, beliscado em cima e aberto como umas migalhas de nácar. Parece-me desconhecido Quando sempre me alimentou. Alheia, porém, à substância, esqueci esse tato e odor. Tem o aroma de minha mãe quando amamentava, o dos vales chilenos que andei, o de minhas próprias entranhas quando canto. Não há na estância outros odores por isso êle assim me chamou.
Não há ninguém mais em casa senão este pão sobre um prato: com seu corpo me reconhece, com meus sentidos, reconheço-o. Na infância, eu me recordo, tinha forma de sol, de peixe de halo; e no seu miolo eu sentia calor de avezinha emplumada. depois o esqueci até que hoje finalmente nos encontramos, eu com meu corpo de Sara velha, êle com o de seu de cinco anos. Amigos mortos com que o comia noutros vales, sintam auras de um pão em setembro moído e que em Castilla foi cegado. É outro e é o mesmo que comemos enterras onde repousaram. No pão ficou-lhes o calor, paira em torno dele seu hálito Com abundância a mim se entrega Olhos e mãos na minha mão Brota-me um pranto arrependido por esse esqucimento de anos. Talvez envelheça meu rosto, Talvez renasça – nesse encontro. Como se acha a casa vazia, fiquemos juntos os reencontrados; sobre esta mesa sem carne ou fruta, os dois neste silêncio humano até que sejamos um só e o nosso dia se acabe.
Gabriela Mistral, poeta chilena.
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