
Lauro Rodrigues
Data 04/07/2010 13:42:32 | Tópico: Textos -> Crítica
| Paulo Monteiro
Quando nos dedicamos a estudar a poesia gauchesca de língua portuguesa uma das primeiras constatações é que a maioria dos poetas não tem uma biografia. Apesar da popularidade que gozam, a vida e a obra dos poetas desse gênero ou subgênero são praticamente desconhecidas. É o caso de Lauro Pereira Rodrigues, nascido em Santo Amaro no dia 7 de janeiro de 1918. Lauro Rodrigues foi um dos pioneiros do Movimento Tradicionalista Gaúcho contemporâneo. Apresentou o primeiro programa gauchesco da história, intitulado “Campereadas”, a partir de 1935, na Rádio Gaúcha, onde lançou Pedro Raymundo, conforme se conta o historiador Luiz Artur Ferronatto no artigo “O centenário de Pedro Raymundo”, publicado em 29 de maio de 2006, no sítio do Instituto Caros Ouvintes de Estudos de Mídia. Onze anos depois, um grupo de jovens estudantes do Colégio Julio de Castilhos, de Porto Alegre, assentariam as bases do atual Movimento Tradicionalista Gaúcho. Quase todos eles, também dedicar-se-iam ao regionalismo radiofônico, seguindo a linha lançada por Lauro Rodrigues. Em 1958 voltaria ao rádio, na Farroupilha, comandando o programa “Roda de Chimarrão”, onde além do tradicionalismo tratava de assuntos urbanos e rurais de Porto Alegre. Pedro Villas-Bôas, autor de “Notas de Bibliografia Sul-Rio-Grandense” (A NAÇÃO-SEC, Porto Alegre, 1974), informa-nos que era “Radialista, poeta, jornalista e político”. E que pertencia à Estância da Poesia Crioula. Em 1944 publicou, pela Livraria Globo, “Minuano”, livro de poemas gauchescos, do qual saíram mais duas tiragens naquele ano. Bibliógrafo atento, Pedro Villas-Bôas certa feita me revelou que apenas listou livros que realmente conferiu pessoalmente. Quando escreve “tiragens” diz reimpressões. Tanto isso é verdade que tenho às minhas mãos a “3ª EDIÇÃO”, que responde às características anotadas por Villas-Bôas em seu livro. Dois anos depois, em 1946, pela mesma Livraria Globo, fez imprimir “A Ronda dos Sentimentos”, um volume de 70 páginas, com sonetos e poemas, do qual saiu uma única edição. “Invernada Vazia”, o terceiro livro, com o subtítulo de “versos regionais”, é lançado, em primeira edição, no ano de 1951, pela Editora Coruja, de Porto Alegre. Segundo o bibliógrafo, no mesmo ano, pela mesma editora, sai “uma 2ª tiragem”. Tenho as mãos a “2ª EDIÇÃO”, dentro das características expostas por Pedro Villas-Bôas, inclusive “Impresso no sistema multilite”, onde não consta o ano da impressão. As orelhas de “Invernada Vazia” trazem algumas referências interessantes a “Minuano”. A primeira delas, de Antonio Barata, da Editora Globo, diz o seguinte: “Nenhum romance, biografia, livro de contos ou reportagem, encontrou entre nós, nestes últimos tempos, o recorde de vendas de Minuano. Nunca na história dos livros riograndenses, uma obra vendeu tanto em tão pouco tempo. A razão do êxito, reside, indiscutivelmente, no próprio valor da obra. É um livro para o povo, feito com o sentimento do povo. Lendo-o, sente-se a nostalgia da campestre, do rodeio, da roda de mate nos galpões, dos lábios polpudos da chinoca, do amor sem convenções…” A afirmação de Antonio Barata é interessantíssima. Um dos autores gaúchos editados pela Globo era nada mais nada menos do que Erico Veríssimo. Três edições num único ano, e, ainda, o livro mais vendido nos últimos anos prova a popularidade do poeta. A segunda nota é de Catulo da Paixão Cearense. Ei-la: “Nesta época de guerra e de ódios a sua poesia é uma bandeira de paz e de civismo alçada no topo. Deixo a você o meu cajado de glórias…” Ora, nada mais nada menos do que o mais popular dos poetas populares brasileiros, na primeira metade do século XX, que faleceria pouco tempo depois, legando o seu “cajado de glorias” ao poeta de Santo Amaro. Em 1951 é publicado “Senzala Branca”, um livro de “poemas revolucionários”, pela Editora Coruja. No ano seguinte sai a “2ª Edição”, pela Editora La Salle, de Canoas, com uma tiragem de 5.000 exemplares. A política acabou absorvendo o tempo do poeta. Somente em 1978 editou seu último livro de poemas, “A Canção das Águas Prisioneiras” (Martins Livreiro-Editor, Porto Alegre). Pedro Villas-Bôas deixou registrado que o poeta possuía, inéditos, os livros “Vozes do Parque”, “Bilhetes”, “Versos Íntimos” e “Coletânea de Sonetos” e, em preparo, “Alçados e Araganos”. Militante do PTB – Partido Trabalhista Brasileiro –, Lauro Rodrigues assumiu várias vezes como deputado estadual por aquele partido. Depois de 1967, com o bipartidarismo imposto pelo regime de exceção, filiou-se ao MDB – Movimento Democrático Brasileiro – pelo qual exerceu dois mandatos de deputado federal. Pescador e caçador apaixonado faleceu afogado em sua terra natal, no dia 17 de dezembro de 1978, quando afundou o pequeno barco tripulado por ele, enquanto remava contra uma tempestade de verão. Um dos poemas mais conhecidos de Lauro Rodrigues, que está às páginas 21 e 22 do seu primeiro livro, é ”Meu baio ruano”, declamadíssimo em rodeios e concursos de declamação.
Meu baio ruano
Eu tenho um baio ruano flete bueno anca de vaca; cosquilhudo de virilha e de paleta puerva ligeiro de pelear de faca. Nesse baio eu já fiz tanta proeza qu’ele carrega a minh’alma presa na barbela trançada de seu freio. Muita carreira esparramei de-hupa! alegrei muito fandango feio e muita china sentou na sua garupa. Esse baio tem na concha de suas patas a história da mais linda das mulatas por quem um dia, afinal, me abichornei! É bueno esse pingo anca de vaca, flete ligeiro de pelar de faca, esse baio ruano que eu domei!
Interessante é que o grande amor do poeta acaba sendo uma mulata, tipo racial não muito comum como musa dos gauchescos. E olha que a presença do negro e do mulato na maioria das cidades do Rio Grande imperial representavam cerca de 25% da população. O intercurso sexual entre o homem branco, mais abastado, e a mulher de cor, das camadas proletárias, foi muito maior do que se imagina. É o que vemos retratado em “MULATA”, às páginas 57 a 66 de “Invernada Vazia”. Interessante é o esquema rimático do poema: a redondilha maior, muito praticado por um “romântico arcaizante” como Gonçalves Dias. Muito comum na poesia popular e bastante encontrado no romanceiro medieval. Alguns versos mais longos que aparecem não passam de dois pentanssílabos formando um único verso.
Mulata
Eu gosto, mulata, de ver o teu vulto, dengoso, jeitoso, riscando o terreiro, de trouxa no braço, batido ao mormaço do sol da manhã. Teu passo é miúdo!... Teu corpo, polpudo da cor do avelã, tremendo, tremendo de baixo da saia, riscada, pesada, que esconde teus seios, convida viver… Teus seios! – meu Deus!! – Teus seios pequenos, lavrados, torneados, imploram pecados nos próprios coleios dos membros morenos…
Depois quando chegas à sombra frondosa da velha figueira, vetusta, alteirosa, que ensombra a restinga da sanga que canta por entre as batingas de fundas barrancas, teu vulto se espelha, tão breve se ajoelha, na água que rola de baixo da tábua em que bates tua roupa…
Então, os meus olhos, parados, cravados, namoram, – coitados! – a farta paisagem das coxas roliças que expões às cobiças assim quando dobras teu busto p’ra frente e mergulhas o braço na fria torrente que tem-te ao regaço!... E eu fico pensando: – que coisas bonitas tuas saias de chitas me estão a esconder! – E volto ao galpão, sonhando contigo, guardando comigo desejos ardentes…
Bem sei que não devo sonhar mais assim!!!
És linda; viçosa! O patrão te protege e seus dedos hereges, cheirando a dinheiro, retovam-te o corpo de quentes carícias, comprando delícias que um moço tropeiro não pode comprar…
Quisera o teu corpo, – não nego; não minto! – mas só para amar. Ouvir-te, nas noites caladas do campo, torcida de gozo, de amor, de prazer, dizendo, tremido, o meu nome ao ouvido, enquanto o meu peito, por cima do teu, batesse, batesse, arquejando, vencido!...
Mas tudo não passa de um guapo desejo!
Mulata, o teu beijo não é p’ra minha boca!
Mas quando a velhice chegar de mansinho e teu corpo bonito, curvar-se, curvar-se, assim como um galho de moita de espinho verás que a tua carne morena, cheirosa, dengosa, vaidosa, de nada valeu; a boca que outra’ora beijou-te, escarrar, sorrir do que és evocando o que foste…
Pois quando curtires num rancho de chão, sem pão nem tarimba o teu próprio passado, um velho tropeiro, que tanto te quis, dirá na sanfona p’ra os moços do sítio a história tristonha da china infeliz!
Não pragejo, mulata! Te juro! É verdade!!! É a vida quem diz!...
Lauro Rodrigues confere lirismo a uma realidade que foi muito comum no meio rural sul-rio-grandese. A maioria dos atuais grupamentos humanos denominados “quilombos” – como já escrevi – não são quilombos no sentido real do termo, mas sim “posses de negros”, descendentes de escravas ou libertas e antigos estancieiros. Enquanto a poesia gauchesca uruguaio-argentina é uma transformação da antiga poesia payadoresca, oral, em obra literária escrita, de conteúdo militar e militante, durante as guerras da independência daqueles países, a gauchesca brasileira, bastante posterior, é uma criação do Romantismo. Daí a marca dos clássicos românticos, que fazem parte do cânone literário “culto” sobre os poetas populares sul-rio-grandenses. Sobre o produtor e apresentador de “Campereadas” pesa outras duas influências. A primeira delas é dos gauchescos platinos. Não é à toa que ele se refere a El Viejo Pancho, pseudônimo do espanhol José Alonso y Trelles (1857-1924), que residiu muitos anos no Uruguai, tendo escrito um pequeno volume que foi lido avidademente por uruguaios, brasileiros e argentinos; “Paya Brava”. A tapera, o umbu, o quero-quero temas explorados pelo “El Viejo Pancho”, dão título a poemas enfeixados em “Minuano”. A segunda influência é dos poetas populares sertanejos e do Nordeste brasileiro, máxime Catulo da Paixão Cearense. Não é gratuito que o autor de “O Luar do Sertão” oferece o seu “cajado” ao poeta de Santo Amaro. “Mulata” e “cabocla”, dois termos para definir tipos femininos, produtos da miscigenação com o europeu, não são muito freqüentes entre os gauchescos brasileiros. Para “cabocla” as expressões correspondentes são “china”, “chininha” e “chinoca”, procedentes do português “chim”, mais comum do que o atual “chinês”. Todo aquele indivíduo com olhos amendoados ou meio rasgados era um “chim”. “China”, como hoje chamamos comumente à mulher morena de “negra” e a mulher clara de “gringa” ou “alemoa” era a forma carinhosa com que o gaúcho se referia à sua índia ou cabocla. Cabocla é o correspondente para os poetas de outros estados à china dos gauchescos. “Filha do pago”, que consta entre as páginas 42 e 46 de “Minuano” transpira a poesia sertaneja de Catulo, sem o peso dos regionalismos nordestinos, que encontra correspondência entre alguns poetas rio-grandenses, lançando toneladas de expressões regionais sobre seus poemas. “Cabocla”, que transcrevo de “Invernada Vazia”, é, também, outro poema com idêntica transpiração.
Filha do pago
De tarde, beirava a noite, morria o sol num açoite de luzes pelo capão. E à sombra da sapupema gargalhava uma seriema nas quebradas do rincão.
A estrada se parecia c’um laço que se torcia, c’um tento cru de tamueiro, aonde a luz cor de prata vinha ouvir a serenata dos guizos do carreteiro.
Na solidão do caminho eu repontava sozinho as mágoas do pensamento quando vi numa quebrada, entre as sombras recortada, a sombra do encantamento.
Ela vinha vagarosa como a nuvem vaporosa da cerração dos banhados. Seu passo tinha meneios de sabiás em gorjeios na pitangueira pousados.
Pisava no chão c’um jeito que as folhas formando leito amaciavam seu andar. E as flores já fenecidas desabrochavam pra vida quando lhe viam passar.
O seu pé era pequeno como as gotas do sereno na flor roxa do bibi, e a sua boca angelical tinha o calor tropical do canto da juriti.
Os seus cabelos em trança o sopro da brisa mansa acariciava no ar. E no colo bem torneado dois araçás reclinados queriam desabrochar.
Veio vindo de mansinho interrompendo o caminho por onde eu ia passar…
Abri o pingo pra um lado e como velho namorado no meu espanto abismado fiquei a lhe contemplar!
Depois!... – ó quanta alegria!!! – O rancho donde eu vivia transformou-se em paraíso! Todo o dia, o dia inteiro, no chão duro do terreiro desabrochavam sorrisos!
Essa morena trigueira, – a mais linda brasileira, desde o Oiapoc ao Chuí – pôs na minha boca de moço o gosto bom do caroço da flor do bacupari!
Nosso Senhor, que beleza! Hoje olho a natureza quando vai morrer o dia e fico tão satisfeito que o coração no meu peito palpita em doida alegria.
Pois graças a ti, Senhor! Que quando criaste a flor, o crepúsculo e o luar, fizeste a mulher do pago, um torvelinho de afago, um rancho pra se morar!!!
Cabocla
Assim, minha cabocla bonitaça! Fecha os tampos da janela antes que a noite se esparrame pelo quarto que o candieiro esborrifa de luz ao nosso olhar… Neste rancho fechado e ouvindo, apenas, o esfregar de tuas vestes – que contraste! – é que eu me sinto muito mais gaúcho, é que me acho cada vez mais homem…
Enquanto despes a tua saia preta, meus olhos são lagoas refletindo a paisagem crioula de teu corpo! E teu corpo queimado, cor de terra, tem as curvas macias dos caminhos que cortam a amplidão desta campanha… (Como eu gosto de passear as minhas mãos pelo calor confortante dessas curvas que se arrepiam sob o meu afago que é morno como os ventos de verão arrepiando o relvado e as águas turvas das várzeas e represas do meu pago!...)
Teu corpo, cabocla, é um punhado de nervos que riem; que choram; que cantam; que gemem bem como a sanfona que eu tenho no colo. Conforme lhe toco, lhe apalpo o teclado, ela rasga-se toda em queixume, alegria, que nem esse beijo que canta em tua boca, que nem esse pranto que chora em teus olhos… Mas, deixa que a tarde, ao tranquito, no mais, prossiga, lá fora, ponteando as estrelas que hão de povoar a invernada do céu…
Meu rancho é quentinho e teu beijo é tão bom que a noite é pequena, cabocla morena, p’ra tropa de gozo que temos no peito… Teu sangue!... Tua carne!... Corcovos!... Gemidos!... Suspiros… Arquejos!... Rangidos no leito!... Catingas no ar… E a vida que passa, tropeando os minutos que a gente, cabocla, não deve contar!...
O próprio vocabulário de Lauro Rodrigues contribui para que ele seja diferente dos poetas gauchescos posteriores. Não introduz à força os regionalismos. Emprega sanfona e gaita em lugar de cordeona. Essa moderação vocabular também auxiliou na repercussão dos seus poemas. Os gauchismos, nele, são espontâneos, naturais, numa linguagem confessional, como se abrisse sua alma (psique), sua vida aos leitores. Outro tema presente na poesia popular, além fronteiras do Rio Grande do Sul, é o da tragédia amorosa provocada pela morte precoce da mulher amada, seja esposa, amante ou namorada. Encontramo-lo nos poemas de Lauro Rodrigues. Dois deles ficaram muito conhecidos: “Sinhá Maria”, de “Minuano”, e “HISTORIETA”, de “Invernada Vazia”. No primeiro é a jovem namorada, que falece; no segundo, é a jovem esposa. Transcrevo o mais antigo deles, que cresci ouvindo ser declamado em poemas radiofônicos.
Sinhá Maria
Quando a lua se destapa no arvoredo do capão, não sei por que fico triste, por que chora o coração: – só sei que cá no meu peito cresce uma coisa esquisita que penso seja a saudade daquela mulher bonita qu’eu conheci num fandango sapateando a chimarrita na poeira do terreiro do rancho de Sinhá Rita… Caramba! Quanta desgraça na vida da gente passa sem que se queira passar! O destino é um mau tropeiro, se o seu pialo é certeiro faz a gente se quebrar. É dela quase garanto, qu’eu carrego essa saudade! Por ela já sofri tanto que é puxa-barbaridade!... Também, lhe digo: morena como aquela nunca mais há de pisar nestes pagos. Sua boca se parecia c’um ananás que sorria. E eu tinha, tinha desejos de recobri-la de beijos, de retová-la de afagos. Tinha um corpo miudinho, espevitado, fininho como os juncos do lagoão. Todo o povo quando a via, chamava-a Sinhá Maria, Maria flor do rincão!... Pra ganhar Sinhá Maria fiz promessa, simpatia, fiz tudo, tudo o que “pude”. Por devoção a “Jesuis” cheguei a plantar três “cruiz” nas bordas do meu açude. E em cada uma escrevi com letras feitas de flor: Sinhá Maria – a primeira – ! na segunda escrevi – amor! Saudade – pus na terceira… E uma manhã – que tristeza!!! – Gargalhava a natureza no bico da passarada. Meu laranjal, de faceiro, enchia todo o terreiro de flores cor-de-geada. Corri, então, à janela para olhara primavera qu’enfeitava este rincão e de repente – ó maldade! – na cruz que eu chamei “saudade” tinha florido um botão… Os meus olhos de enuviaram e uns pingos d’água rolaram beirando pelo nariz. Pois Jesus de distraído não escutou meu pedido, não me deixou ser feliz!... Nunca mais Sinhá Maria me deu de novo alegria, me fez de novo contente… E no rancho de Sinhá Rita nunca mais a chimarrita fez feliz aquela gente! Pois o botão da “Saudade” eu colhi, é bem verdade, com mágoas no coração, pra enfeitar – que ironia – a cruz de Sinhá Maria, Maria a flor do rincão!!!
Falei antes em El Viejo Pancho. Lauro Rodrigues dedica-lhe todo um poema de “Senzala Branca”, onde se refere ao “Martín Fierro”, a grande obra do argentino José Hernández. Em 1948, passada a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos impunham ao mundo seu dólar e sua cultura. A rebeldia quixotesca dos jovens estudantes do Colégio Júlio de Castilhos, de Porto Alegre, que culminaria no atual Movimento Tradicionalista Gaúcho era uma espécie de contra-cultura. Em 1957, quando do lançamento do quarto livro do poeta de Santo Amaro, as orquestras americanas eram uma moda avassaladora e rock-en-roll começava a aparecer. “Um silêncio domina tudo”, e nesse ambiente, “Viejo Pancho, crioulo de outras plagas”, representa “a voz da acordeona – alma campeira! – em contra-ponto à musica estrangeira”. É um, grito contra a desnacionalização da cultura.
Terra, Alma da Gente
Mês de maio! Geada branquicenta de renguear cusco e dar golpe aos lerdos… Martin Fierro y sus últimos recuerdos anima a estância que o fogão aquenta!
Viejo Pancho, andejo de outras eras arrinconado à sombra das taperas que a mocidade construiu p’ra Vida, bordejando as cordas da viola, vai declamando no seu tom pachola o “Hopa-Hopa” da ilusão perdida…
Um silêncio de dor domina tudo! No ambiente acolhedor e mudo nem mesmo o fogo crepitar pudera, quando, de repente, na distância, sonorizando a placidez da estância, o som da gaita a solidão altera…
Junto ao fogão, num frenesi estranho, El Viejo Pancho, o campeador de antanho, susteve a rima decepando o verso… Olhou p’ra todos, e no olhar de todos o telurismo borbulhava a rodos no som do fole na amplidão disperso…
Curvada a fronte, emudecido o lábio, o gaudério platino, como um sábio, recolhera a sentença nativista: era a voz da acordeona – alma campeira! – em contra-ponto à música estrangeira catalizando o coração do artista…
Viejo Pancho, crioulo de outras plagas que se afeiçoara nas suas horas vagas ao tradicionalismo dos dois povos, soube sentir na inteligência astuta essa mensagem que a cordeona bruta mandava aos ares nuns gemidos covos…
Nove anos de Movimento Tradicionalista Gaúcho preocupavam o vanguardeiro desse movimento. Os Centros de Tradições Gaúchas espalhavam-se Rio Grande a fora. Invernadas campeiras, conservando as práticas laborais dos homens do campo, e invernadas de danças, difundindo as danças típicas do Estado, faziam sucesso. Costureiras, modistas e alfaiates fabricavam pilchas (roupas típicas) para homens e mulheres, discos, livros e cursos difundiam o tradicionalismo. Cursos de danças eram ministrados a peso de dinheiro, “novas danças” eram incorporadas aos repertórios das “invernadas artísticas” dos CTGs… Como o velho Karl Marx costumava repetir no século XIX o capitalismo transforma tudo em mercadoria. O gauchismo também virara mercadoria. Contra essa “indústria cultural” levantava-se Lauro Rodrigues, antigo leitor de Manuel Maria Barbosa du Bocage. O trocadilho sobre o incêndio dos “panos de trinta e cinco” tanto pode referir-se à “Revolução de 35” quanto ao “35 CTG”… Quando verificamos que dois anos antes da primeira edição de “Senzala Branca” Paixão Côrtes e Barbosa Lessa publicaram “Suplemento Musical do Manual de Danças Gaúchas” e um ano antes (1956) davam a lume a primeira edição do próprio “Manual de Danças Gaúchas” entendemos o endereço da sátira de Lauro Rodrigues.
Pelegueando
Bueno amigo, acabou-se o pampa de antigamente! E por me achar descontente com o tranco que a vida leva, aparto um verso maleva como piá de bodega e saio muito xobrega a provocar arruaça, em meio dessa chalaça que chamam de tradição… Venho do fundo do tempo das bocas que se arrolharam, quando, sem mais, incendiaram os panos de “trinta e cinco”, por isso acho engraçado olhar os tauras de agora vestindo bombacha e espora como mocinha de brinco… Mas não lhes tiro a valia pois sempre tem serventia o rabo, a guampa e o casco, com que se atiça o braseiro, traz água para o saleiro e se borrifa o churrasco… Lamento que se embicando p’ra os rumos da pacholice, por vaidade ou gabolice, a tradição degenere, pois, no fervor da arruaça, vai o pago de raça viçando p’ras intempéries… As cantigas do passado têm novos donos que eu sei… E os índios enquadrilhados, num jeito louvaminheiro, vão repontando mentiras, como senhores da grei… Mascates de antigas glórias, mercadejando as histórias que o pampa guardou p’ra si, vão, na ganância do gesto, passando cincha e cabresto na altiva Piratini… São frades sem catecismo, profetas de um neologismo na algaravia do drama; bastardos de uma epopéia lembram Simão da Judéia são divindades de lama… Franciscanos da cultura sobem do chão para a altura como os abutres odientos que singrando as amplidões vão digerir podridões nos torvos papos nojentos… Velha estirpe legendária que a negra mão mercenária fantasiou na ribalta, no garimpo dos “guichets” e não entendo os “por quês” da exaltação dessa malta… E nessa subservência vai rastejando a querência de forma tão deprimente que obriga o estro do vate a provocar um combate de protesto permanente… Em meio aos dias sombrios, enxovalhada nos brios, por bailarinos plagiários, eu creio que a alma pampeana há de se erguer soberana ao som de rubras hosanas p’ra o teto de um relicário! Se a história é cousa divina não pode a mão assassina lhe mutilar a grandeza, por isso eu entro na liça pedindo ao Tempo, justiça; ao Júri, o dom da franqueza…
Em “Sensala Branca” a influência de Castro Alves é marcante, a começar pelo poema que abre o volume. As referências bíblicas, as apóstrofes, todas as figuras de retórica e linguagem características do grande condoreiro baiano. O próprio título é uma referência ao “Poeta dos Escravos”. Lauro Rodrigues se pretende a si mesmo exorcizar em versos a “senzala branca”, a escravidão capitalista.
ALELUIA
Velho pampa lendário de outras eras, onde se erguem lúgubres taperas, tripudiando quais flâmulas de luto: nessas tardes de junho, ao sol poente, parece-me que sinto o que tu sentes quando o silêncio do teu campo escuto...
A brisa nas carquejas do varzedo, chorando, confessa que tens mêdo de enfrentar esta miséria atroz... E na tristeza sem fim dos corredores vibram hinos de brados e clamores contra as algemas da canalha algoz...
Mas não percebes, decrépito campeiro, que as rondas do abutre carniceiro, grasnam sobre ti funéreo agouro; que és o braço do ¨Gigante¨ que mendiga e ¨deitado em berço esplêndido¨ se obriga a pedir pão sob um dossel de ouro?...
Esquece as condições de teu presente! Larga o trôpego andar do indigente e relembra o que fostes em tempos idos... Deixa a tua lança, adormecida e quieta! A guerra é de doutrinas... Vem! Desperta que os dias de porvir serão vividos...
Pois, pressinto na fome de meu filho que um vulcão de revolta aclara o trilho por onde segue a procissão dos pais... Desperta Rio Grande! Chama o Brasil antes que a voz da boca de um fuzil não lhe consinta despertar jamais...
Pobre Pátria de vinte e tantas zonas que tem no seu ventre o Amazonas e agoniza de fome nas cidades... Zôo de macacos galhofeiros, plagiando o viver dos estrangeiros desde o Batismo à Universidade...
Tenho pena de ti, - senzala branca! - dessa coletividade honesta e franca que de tanto esperar já desespera... Tuas vísceras são campos de imundícies, onde o vírus malsão das canalhices se robustece, cresce e prolifera...
Enquanto isso, cérebros raquíticos, – a sanguessugas de pântanos políticos! – fomentam leis que não trescalam nada... Mas não tarda que a aurora do futuro tinja de escarlate o céu escuro dos párias desta estância abandonada...
Nesse dia, meu pampa, os teus heróis, ostentando nas mãos raios de sóis e cavalgando fagulhas celestiais, virão beber na fúria dos motins, o sangue nutrido nos festins dos que colheram sem semear jamais...
E, então, o marco de uma nova era, surgirá num ermo de tapera substituindo o pedestal de imbuia, para que o povo todo num só grito, possa bradar da Terra ao Infinito: ALELUIA!...ALELUIA!...ALELUIA!... Esse estilo condoreiro continuará em sua última obra editada “A Canção das Águas Prisioneiras”, como no poema “A CANÇÃO DO TEMPO QUE NÃO VIRÁ”. A CANÇÃO DO TEMPO QUE NÃO VIRÁ ao amigo J. A. B. Mendes Ribeiro Todas as bocas só podem versos como se de versos fosse todo eu feito…
A goteira do rancho; o menino sem livro; o chão sem semente; a boca sem rido; a rede sem peixe; o enfermo sem leito; o rancho com fome; o livro mais caro; a semente com dono; o riso com wiski; o peixe com preço; o leito com lã…
E então me perguntam por que faço versos que gemem de dor; que choram de ódio; que geram silêncios; que babam consciências; que abortam questões; que fundem idéias? E, a todos, eu digo que somos irmãos; que os versos que faço me vêem de seus olhos; de mães que amamentam, sem leite nos seios; de pais que derretem energias na luta; de meses contados com baixos salários; do brilho do esmalte de mãos femininas; da moeda que lembra os burgueses redondos; de todas as formas que deram ao Cristo…
Os versos que fiz caminham sozinhos e a mim já voltaram milhares de vezes em forma de voto…
Eu sou a tribuna da voz dos humildes; sou praga escaldando a grande mentira de todo o que colhe sem nada plantar…
Eu quero o Direito, a Verdade, o Amor! Eu quero arrancar do olhar da Justiça a venda que a impede de ver o que vejo…
Criação artificial, o tradicionalismo gaúcho, pouco a pouco foi sobrepondo o caricatural ao histórico. E as coisas não poderiam transcorrer de maneira diferente. Cada vez mais a população sul-rio-grandense urbanizou-se. As bases rurais do gauchismo foram abandonadas. O romantismo de gauchescos como Lauro Rodrigues perdeu lugar para a pantomima a que se prestam poemas que falam de tiros, facadas e mulheres raptadas. Temas estes que se prestam melhor às apresentações circenses nos concursos de declamação. Os declamadores mambembes, crescidos longe da realidade rural, não encontram dramaticidade num poema em que é cantado o amor de um homem por seu cachorro perdigueiro, como vemos e sentimos no poema que transcrevo a seguir.
TUPAN
Fidalga estirpe de nobre, meu velho cão perdigueiro, chegaste ao chão brasileiro no sangue de teus avós, ancestrais vindos da França te resguardaram na herança que derramou-se entre nós…
Quanta volta deu teu sangue até chegar à querência… O imenso rio da existência tem “miles” de tributários… Mestiço de boa cepa; por baixo branco de pombo; pintas negras, sobre o lombo; focinho e cauda ordinários. Pouca estampa e muito faro te distinguiam dos outros; te assemelhavas aos potros, na destreza e na coragem… Em meio dos capinzais, cheirando o vento que zonze, eras estátua de bronze sobre o verde da paisagem…
Tirei-te as baldas da infância sem nunca te repreender; aprendeste a obedecer ao silvo de um assovio. Meu bom irmão dos instintos, como nós nos completamos ao longo de tantos anos que a mocidade engoliu… A vida é campo dobrado em que a roseta domina! Por ele a Morte assassina sempre caça de tocaia… Não retornou ao Rio Grande o velho amigo fiel que o dente da cascavel aniquilou no Araguaia…
Seus restos jazem na terra da aridez do planalto, junto a um piquí, muito alto, em meio do cerradão. Ao lhes dar a sepultura jurei, no último afago, que voltariam ao pago, comigo, no próprio chão.
Percebo um cheiro de morte nos meus cabelos tordilhos. Vão os dias andarilhos cumprindo o penoso afã, por isso, filhos, agora, eu vos suplico um aval: se o meu instante fatal me surpreender amanhã, cumpram, por mim, a promessa de arrancar do carrascal do rude Brasil Central os ossos do meu Tupan. Façam único sepulcro para nós, – a dois animais! – que nos campos sepulcrais das grotas do esquecimento, possamos junto, confiantes, como em pousos do passado, nos decompor, lado a lado, nesse eterno acampamento…
Lauro Pereira Rodrigues, como vimos, deixou um livro que foge à gauchesca, intitulado “A Ronda dos Sentimentos”. Transcrevo um dos sonetos, como prova do lirismo transbordante do poeta, que vai sendo injustamente esquecido.
PRENDA QUE SE DISSOLVE
Devolvo-te, querida, a tua imagem, – última sombra de meus ideais! – e embora o faça, inda ela é meu pajem, não é preciso contemplá-la mais.
Guardo-a comigo na interior paisagem qual sol de outono em horas vesperais. E a nossa história – que feliz miragem! – conclui-se, agora, debulhada em ais!
E quem diria que esse amor que tanto nos fez sorrir, como sorriu-me outrora, agonizasse sufocado em pranto!
Termina a história, mas o amor não finda! Desta saudade que desponta agora novos romances nascerão ainda…
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