
NO SILÊNCO DO TEU CORPO ADORMECIDO
Data 26/06/2010 14:40:17 | Tópico: Poemas
| É quando dormes, no silêncio arrefecido das tuas noites profundas, que desperta em mim o esplendor amadurecido do teu rosto. Envolto no musgo inocente dessa juventude gasta bebo os resíduos palpitantes da tua respiração, atravessando as colinas do teu corpo retalhado onde revejo as encruzilhadas que cruzámos, de mão dada, contornando o vazio dos abismos e fugindo às armadilhas traiçoeiras do deserto, de oásis em oásis, onde nos deitávamos à sombra do veneno dos dias.
Tão perto e tão longe te acho agora, mergulhada nas margens de um rio cansado, fechada numa concha obscura no mais fundo que há em ti, onde em silêncio digeres lágrimas antigas que não derramaste.
Dormes. Olhos pousados no espanto do infinito vagando na glória indefinida de um sonho, construindo mundos atrás de uma porta entreaberta onde buscas o equilíbrio perdido no pesadelo escarlate das horas. Moves-te sem gestos, num arfar sereno e perfumado, pequenos gemidos que crescem no sono numa litania que te embala o corpo e sobressalta a inocência da tua nudez debruçada sobre as asas da madrugada.
Quase nada sei de ti. Dos segredos que ocultas nos labirintos do peito, e que são só teus, apenas vislumbro rumores desvanecidos ecoando nos espelhos da ventania que agitam, ao de leve, a tua sombra suspensa. Embora tenha penetrado vezes sem conta os abismos profundos do teu corpo, em lentas e repetidas viagens saciando o fogo de estranhos desejos, e plantado, na luz suave do teu ventre, as sementes que nos hão-de perpetuar, quase nada sei de ti.
No silêncio do quarto povoado de velhas imagens permaneço acordado a teu lado a soletrar as batidas do teu nome num sussurro que invade a noite demorada, tecendo um rosário de eternas lembranças, à espera que o sol se levante no horizonte para vir saudar teu despertar.
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