
Pranto
Data 18/06/2010 07:44:09 | Tópico: Poemas
| Sepulto-me junto aos ciprestes, a última morada dos pesadelos vislumbra-se agora, luzes fuscas de fogo fátuo bruxuleiam, encantam-me as narinas os odores inacabados.
Enforquei a minha dor lá nas prisões do tempo.
Amanhã demorarás a chegar, as falésias continuam abruptas, os espinhos nos roseirais nascem de vez em quando, sempre que a mórbida puta canseira da vida me vem beijar e dilacerar as unhas cansadas de te tocar.
Semeio uma tempestade numa asa de andorinha, tenho condores alados de braço dado comigo, jazem em mim abutres e milhafres, são a minha companhia nos dias menos verdes.
A lua, essa, ficou-se pela noite, agora, que nasceu mais um dia negro, já não mais a tenho por companheira. Alertam-se as nuvens carregadas de chuva mansa, carregam-se as marés de chuviscos e ventos.
Amanso a minha face, queimam-se-me as palavras, serpenteie o teu corpo nu, devotado ao abandono, unji-te com óleos finos, sagrados pela passagem do tempo, que te cobre a pele cor de cobre.
Agora, que o pântano se encobre de neblina, que o frio se deposita nos pinhais, que as flores silvestres não mais nascem.
Agora, que o tempo se vem desvanecendo, se esvaí, como o sangue quebrado nos espelhos.
Agora, dou descanso ao sepultado corpo, que ficou torpe, flácido, frio e lívido, de tanto prazer insatisfeito.
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