
A morte do poeta
Data 01/08/2007 13:33:25 | Tópico: Poemas -> Reflexão
| Andando pela rua tropeçou nas nuvens Bateu com a cabeça num tapete mágico Equilibrou-se, penso, nessa corda bamba Sacou seu guarda-chuva já engatilhado Planou no ar tão denso como se fosse um pássaro Aproveitando as correntes num balé tão clássico Desceu rodopiando de volta ao asfalto
Com os pés de volta ao chão se imaginou um cisne Plumoso e soberano no espelho d água No leito do seu lago repousado em lágrimas Gemendo e suspirando pelo pato-feio Que fora ele, um dia, em meio a tantos raros
Quem dera ter nascido em outro plano trágico Nas saias da Coroa esse filho pródigo Bancado à um mecenas que estimula seu estro Gozando a liberdade que tanto lhe exige O ócio do ofício que tanto lhe é lógico
E assim viveu, morreu, em meio as pensamentos Que nunca lhe faltavam mesmo nessas horas Se imaginou de novo em meio a todo o trânsito Cabeça sobre o chão e os pés tocando a aurora Pensando justo o inverso do que fora antes Deitado no tapete que agora já é seu
Embalado em sono manso em direção ao túnel Que a luz no fundo brilha tão intensa e impávida Destino, então, é certo agora não tem volta Nem mesmo para um cisne de asas tão largas Que hoje é só mais um em meio a tantos plácidos
Aqui jaz um poeta que viveu tão tarde Um sonho, um sentimento que já não mais arde Nem pula, nem palpita nesse peito mole Só jorra, escorre e desce pelo sangue líquido Que o ralo suga e junta a tantos outros lixos Jogados à mercê de um mar tão puro e límpido De volta, de onde veio, completando o ciclo
Renascerá, quem sabe, ele, em outras páginas...
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