
Carta para questionar o valor da imagem
Data 10/06/2010 12:51:48 | Tópico: Poemas -> Reflexão
| não deixes a televisão esfriar tua alma não deixes que alguém ligue a televisão num momento de nervosismo e ainda que fosse com calma Resolve antes os teus rancores sem distração, sem televisão, sem sabores que são do tempo distorção e da alma horrores! Façam-me os favores de se apresentar diante do espetáculo estonteante da Vida como senhores não como escravos do individualismo, do imediatismo de uma época onde não há bravos Não deixes a televisão ludibriar teus sentimentos substituir teus relacionamentos esfriar tua alma! Não ligues a televisão num momento de imediatismo de desassossego ou de calma. Diante tão somente dos espetáculos da Vida – distante dos tentáculos da mídia – bate palma... Bate palma, bate! Bate palma, aplaude a Natureza! Não aplaudas as imagens mortas os labirintos de tristeza, de milhares de portas da televisão, da novela das sete, e ainda que fosse o labirinto da internet... Vós que sentais neste recinto! Preferi sempre uma conversa tet a tet do que conversas absortas que tu mesmo exortas a outros que nem vês num neolabirinto pós-burguês... Ah, quem são vocês? ... Quem são vocês? Preferi sempre um diálogo com flores mortas a um gozólogo de insensatez ou a um monólogo com quem tendes relacionamentos por paredes ou pensamentos em que não credes...
Ah, por que foram se meter todos vós nestas imagens vazias, alienadas, nestas bobagens vadias, alternadas em que estais, em verdade, todos sós de maneira que não estiveram os vossos avós?
Eu questiono o uso da televisão o abuso do coração o desuso da explosão da vida dos que são mais verdadeiros consigo porque não afundam a própria alma nos atoleiros da palma da mão, ou do próprio umbigo ao teclado ao som de uma música de computador cuja propriedade é ser sem propriedade... sem cantor!
Preferi sempre um diálogo com flores mortas com santos imaginários ou com fezes no deserto que com certeza, às vezes, indicam alguém por perto : um amigo, alguém que precise de auxílio um amigo que não é um umbigo ou uma página mal feita no exílio que é estar num provedor sob um congelamento infotécnico do humor... Um amigo que no deserto ou por trás de flores amassadas acabadas, queimadas ou roubadas será verdadeiro convosco, contigo, comigo, e não se apresentará como um tosco scrap, e-mail, add ou “quem quebrar esta corrente estará atraindo para si um grande azar” e talvez um dia este poema, este lero-lero termine com um bolero num bar embora eu preferisse um tango virulento, real, truculento, um tanto sensual e sem chatice...
Ah, os onanistas na frente de um computador como se condenam! os que se entregam ao amor infomanual ou videotécnico das tardes de solidão ou abandono... nas noites sem sono da televisão! Os que viciam-se no pragmático estuporamento de um tesão hiperartificial seja por uma televisão sub-sensual, seja por uma rede de computação pornogramada para matar em vocês a inocência de fazer tudo sempre como se fosse paciência como se fosse a primeira vez!
Eu poderia falar por horas e horas, condenar, mostrar para todas as senhoras com palavras lindas, ou feias o que fizeram delas nessas redes, paredes, labirintos ou teias... Condenar todo abuso todo mal uso de computadores da parte dos moleques da parte dos senhores. Mas por favor, não me aparte desta briga não me empurre com os seus vídeos ou cedês, nem vocês, com a barriga. Permiti vós, a mim, que sou tosco dividir convosco parte de minha justificativa infame que me levará para a luta ou disputa corporal num tatame de forças que vão além da moral porque minhas intenções vão além de condenar o que fazem porque não existe o mal e sim, por um outro lado, estou plenamente amparado na justificativa sempre viva ou intenção de que essas pessoas mortas – sempre tortas – endireitem suas vidas estreitem os seus laços registrem com amor todas as despedidas arrebentem os cabaços! Pois de minha parte, com muita arte, não condeno o que fazem mas o que deixam de fazer por se prender a qualquer bobagem da tecnologia do lazer...
Ah, flores mortas, queimadas ou desenhadas! Ah, fezes no deserto que indicam alguém por perto! Ah, amigos! Que tu tenhas amigos sem umbigos, sem fios, sem cabos elétricos, sem senhas! Que tu tenhas amigos! Ah, Vida! Ah, conversas! Ah, diálogos, ah, perversas! Como dão-me prazer!
Úmero Card'Osso
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