
A viva morte
Data 06/06/2010 20:41:39 | Tópico: Poemas
| Eu queria morrer para perceber todos os caminhos, fazer contas à dor como faz o taberneiro e subtrair solidão às horas que passam por dentro do Rossio
Contar aos meus irmãos que a morte canta como gente grande, e tem árvores para subir, e um penedo barrigudo, cavalos para evitar monólogos, e refrescos para os dias mais quentes do ano
Quem diz que morrer é um caso de vertigem? Que ao olhar lá de cima o coração inventa desculpas Quem disse que para lá chegar é preciso ir num atrelado, Ter uma tristeza a não passar fome, Ou autorização para assistir a comédias dramáticas?
Será a morte uma casa aberta por cima, sem pássaros na gaiola? Uma mulher que não dá à luz, mas que nos adopta lumemente?
Será a morte uma fogueira ou um poema em que nele se afoga?
Quero saber se por lá a moda também existe, Se o vento constipa os sonhos à varanda
Ai se pudesse desamarrar-me da vida por umas horas, Montar um barco a pedais e ir, Ao encontro do desencontro, achar o que nunca se perdeu Ser livre como um pássaro nas Américas Levado pelas mãos de cinquenta mil homens
Olhar o mundo sem ser olhado Nadar em espelhos, voar sobre rios E cair no vazio tão cheio de homens nascidos como flores, vindos da terra perfumada, de cabeça fria, a morder todos os insectos.
Entrar nessa gigante solidão de mãos cheias, De nariz empinado, alimentado para sete dias Como um peregrino a apagar distâncias a suor, cânticos, lamentos, Levando aos ombros a montanha possível As pedras para espremer em vinho E um poema a servir de pão e abrigo
Queria viver ao contrário daquilo que foi e voltará Nascer velho e morrer criança Conhecer a minha mãe solteira Vê-la grávida de mim Dizer: olá como estou Ver a dor que foi entrar na vida com a ajuda de ferros Chorar por não saber mais do que o mínimo Pensar que choro e riso sonham para o mesmo lado
Quero da morte o seu sorriso de alicate O seu cinismo a dizer que ainda vive A sua paisagem nua e crua A sua tristeza que para muitos é uma alegria O seu soro amnésico e cristalino
Quero com a morte aprender como se vive Respirar com uma flor entre os dentes, sem sangrar, feito animal que desconhece que morrer existe
Haver a possibilidade infinita de andar reptilmente sobre o seu pescoço Escrever-lhe com letras vivas e reluzentes Redondilhas maiores para cantar até dizer chega E cair de cansaço sobre a palha do seu umbigo
Não sei se a morte é uma mulher de cabelos pelos ombros Ou se tem longas tranças para que se possa subir Sei lá se nela os poetas atiram-se das janelas para viverem Ou se a queda é para o ar mais denso
Ó morte, onde andas tu? Mostra ao menos o teu colar de ossos Ou a tua saia que mandaste fazer no cabo do mundo Ó morte, ri-te! Mostra os teus dentes verdadeiros Quero ser em ti um turista, pôr-me ao lado das estátuas, Tirar retratos coloridos, dizer-te: - Entre os homens o teu nome para sempre viverá!
Pudesse hoje ou amanhã morrer por um bocado O tempo de chorar todas as pedras preciosas Mas que não valem nada Não servem nem rei nem pajem Haver os dias assim, um silêncio sempre à espreita Olhar todas as ruas que vão dar à minha casa sabedor que as maçãs também nascem das laranjeiras E assim louco e destemido, poder regressar à vida e tornar a morrer Como uma oxálida nas mãos de umas outras mãos A nomearem o amor como único fio no tear dos Homens
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