
Lugures
Data 31/05/2010 20:43:31 | Tópico: Poemas
| Já me cansa o mar, sempre aquele mesmo vai e vem das ondas, a paisagem fixa do poente quase a desmaiar, o pontinho negro lá ao fundo de uma embarcação a confundir-nos com um pássaro que regressa, o vendedor de gelados a puxar pelas veias do pescoço para gritar, a bandeira verde, amarela e vermelha, sem gente para tomar conta, porque ser e nada é a mesma cousa os godos que atiramos à agua e voltam, a areia fina e molhada que escreve os nomes, a areia grossa que não deixa escrever os nomes, os amantes nas dunas em espectáculos ao ar livre, os homens de camisa aos quadrados à pescador mas que não são pescadores, a espuma do mar que nunca chega a dizer para que serve.
Também me cansa a terra, os automóveis alterados, já sem cor primária, as ruas largas onde cabem cinquenta mil pessoas sem nenhum grau de parentesco entre nenhuma delas, as lojas com manequins modernamente equipados a fazer de chamariz, as fontes ali esquecidas, substituídas pelas águas em garrafas de plástico, os semáforos intermitentes a esquecer memórias, os sinais de proibição a decidir para que lado tenho de ir, os cães à espera de um dono, os chulos a falar de literatura, as casas valentemente arquitectadas a esganarem-se umas às outras, os jardins onde os homens libertam cheiros dos sovacos.
Também me cansa o ar, o sol a mostrar quem manda, as estrelas de aluminio, o azul que cá para mim nem sabe ser claro nem escuro, as nuvens carregadas de revolta e há quem diga que é de chuva, o deus lá mais em cima, muito lá em cima, a imprimir livros de banda desenhada, a festejar os seus milhões de anos, os anjos mudos, o vento mortinho por se revelar, os relâmpagos a fazer dos homens tão pequeninos.
Cansa tudo isto, sempre esta dor revestida de veludo, as manhãs, as tardes e as noites a disputarem o dia, os relógios de pulso a quererem ser donos do tempo, a dona Maria à janela a perguntar se esta semana escrevi para o jornal, e sobre quê, as crianças que chutam a bola sem direcção, as árvores tristes por não conseguirem vergar a espinha, os gatos de língua presa no novelo, as mãos sem pulso o senhor Dantas a dizer que se não fosse o destino daria um bom guarda-redes, o cardeal que quando se lembra põe-se a cantar à varanda. O amor escondido no colo de um filho da mãe.
Cansa-me perguntar onde dormem os pássaros, elaborar sonetos para atingir o amor, acender um cigarro já aceso, lembrar a vida, esquecer a morte, lembrar a morte, esquecer a vida, passar a ferro os poemas amarrotados, enlouquecer por uma ninharia, cansa dizer caramba, mais aquela dor exótica do romancista,meditar sobre a palavra palavra, perdoar a masculinidade da solidão, entrar em guerra para sair em paz.
Cansa-me pensar que amanhã voltarei a pensar em tudo isto, no mar, na terra, no céu da minha boca, na minha idade à beira rio, no sol que me aleijou, na carga que tive de deitar borda fora do silêncio.
Por bem existe um poema de tempo interminável, versos de muletas à espera de ficarem curados, sonhos na manga que um deus não soube bem costurar, pedaços de nada e fartura, rimas por rimar, a loucura sem tratante, cores, música, vinhas simbólicas que o poeta transformará em pétalas, água, mistério, ruínas, comboios por cima das cabeças, ilusões retalhadas a canivete, lume, pedra, sombra na sombra, flor, grito, coração recheado com baunilha, gaveta, e tudo o que a verdade mentir, tudo isto é preciso para a vida inteira, para a morte incompleta, a saber que o Ser é muitas coisas, tantas outras que até o gato comeu, já que, depois da festa, só a poesia salva!
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