
Sem titulo (por agora)
Data 30/07/2007 15:00:09 | Tópico: Contos -> Romance
| Aquela cortina velha nunca teve tão bom aspecto como hoje. Ela estava do outro lado. Manuel sabia-o e isso sabia-lhe tão bem. Algures, do outro lado daquela cortina de veludo verde velho e gasto, mas com um aspecto interessante hoje, ela estaria lá. Aqueles olhos castanhos de leoa meiga e aqueles cabelos de doce chocolate, vivos como a terra com que Manuel tanto sonha. Olhos esses que, como estrelas no céu, olhando ternas para a Terra, estarão vidrados no Manuel homem. Talvez com outro nome, temporário, mas sempre o Manuel homem. "Bem, são 20:30, falta pouco." pensa Manuel "É melhor despachar-me." Debaixo do seu reflexo iluminado, o rosto de Manuel mudou. Um toque de blush, um chapéu com plumas negras e, no outrora Manuel homem, nasce agora Casanova, o D. Juan de Veneza. Uma capa, uma espada à cintura e já está está, outro homem nasceu. - Cinco minutos! Faltam cinco minutos! A despachar! - grita-se, perto da cortina velha, do velho palco. "É agora, o espectáculo vai começar." medita o, agora e por mais duas horas, Casanova. Três pancadas ressoaram no chão, mais três e outras três. O alaúde, velho como o tempo, começa os seus primeiros acordes e a cortina sobe, e sobe, e sobe... A luz que incide sobre Manuel desfoca-lhe o outro lado, mas ele não se importa pois duas doces estrelas estavam lá, olhando para ele, quer as visse, quer não. - Não existe sentimento mais nobre que o amor, nem mais vil que a paixão. Por amar-te quero o paraíso, por querer-te, quero o inferno. Por não te ter, vivo entre os dois. Que esta rosa que te dou sangre sangue vermelho vivo dos homens se nenhuma destas palavras for verdade. - diz Casanova a Raquel, uma das suas conquistas, e diz Manuel a Leonor, sentada na primeira fila do Trindade. Leonor, que encantada sorria, deixava-se absorver pela história. Com André, rapaz que nada devia nem nada pedia a Apolo, a seu lado. André avançava insistentemente sobre Leonor, ora tentando pôr-lhe um braço sobre os ombros, ora tentanto dar-lhe a mão. Coisas que a pobre Leonor tentava parar, a muito custo. - Adeus, adeus, adeus, Casanova! - Adeus, adeus, minha doce Raquel! As últimas palavras foram ditas, os últimos acordes tocados, as luzes apagaram, o pano desceu para depois voltar a subir num irromper de aplausos. Era a felicidade, estava estampada nos olhos de Manuel e Leonor. Não sabiam o que ali tinham vivido, sabiam apenas que algo lhes tinha atravessado o coração, irremediavelmente. Tinham atravessado o ponto sem retorno, sem volta a dar só podiam seguir em frente. O Casanova depressa voltou a Manuel homem, com os seus trajes habituais de negro escuro, misteriosos como a noite negra. Foi-se sentar na beira da madeira do palco, como sempre fizera desde que o teatro se atravessara no seu caminho e o levara na sua carruagem. Gostava de meditar, pensar na sorte que tinha ao estar a fazer o que gostava. Não tinha tudo e, ao mesmo tempo, tudo tinha, pensava, um actor pode ser rei num dia e mendigo no seguinte e agradecia assim, à vida, por tal presente. O Trindade tinha um brilho especial para os olhos de Manuel. O dourado e verde, velhos como o tempo, resplandeciam de magia sobre o lustre iluminado e sobre os olhos de Leonor. - Leonor, que fazes aqui? - pergunta Manuel. Leonor estava lá, com Manuel. Acabava de entrar para o primeiro balcão e aqueles braços de tez morena de sol e sal debruçavam-se sobre a varanda que os separava. - Parabéns Manuel. Nunca pensei. Sabia-te um excelente actor mas nunca imaginei que fosses tão bom. Enfeitiças-te toda a audiência com a tua magia, meu bom amigo. - Obrigada. - responde-lhe Manuel, num tom tão atrapalhado como uma criança. "Azul, a minha cor favorita!" pensava Manuel. Leonor envergava um vestido azul petróleo como o céu, que agora vestira o seu fato de noite, preto como breu, mas salpicado de estrelas. - Este teatro emana tanta magia. Ouve-se um misto de choro e alegria nestas tábuas, nestes dourados. - comenta Leonor. - Bem, dizem algumas pessoas que a história do Teatro se imprime nas suas tábuas. Que todos os teatros têm os seus fantasmas de estimação, que zelam pelo cumprir desta arte. - disse Manuel, com a ternura de quem fala de uma das suas paixões, a outra estendia-se à sua frente, sobre a varanda do primeiro balcão. - Que bonito, que bonito. - respondeu Leonor. - Desce, daqui tens outra vista. - sugere Manuel. Leonor desapareceu por entre a penumbra do primeiro balcão para voltar a reaparecer por entre os últimos lugares da plateia. - Anda. Senta-te perto de mim. Vou-te mostrar uma coisa que nunca antes viste. - convida Manuel. Leonor, um tanto hesitante, sentou-se na beira do palco com Manuel. Olhou em volta. Uma cara de um misto de espanto e felicidade iluminou-se no seu rosto. - Daqui para a frente vive-se a vida. Daqui para trás espelha-se a vida. Um actor nunca sabe realmente o que está por trás dos holofotes e um espectador nunca sabe bem o que está por detrás das personagens. É uma conversa de desconhecidos que se conhecem há décadas. É esta a magia do teatro - os olhos de Manuel reflectiam orgulho em cada palavra dita. Cada um, alternadamente, bebia alegre das palavras do outro. Até que Manuel disse: - Sabes, embora seja outras pessoas no palco, continuo o mesmo desde que nos conhecemos, lembras-te? No secundário, a menina mais brilhante da aula e o cabeça na lua. E... Alguém gritava de fora da sala. Alto, bem alto. - Leonor! Onde estás Leonor? Já é tarde. As portas do fundo da plateia abriram-se para deixar entrar André, ofegante. - Que estás aí a fazer? É tão tarde. E quem és tu? - perguntou André ao ver os dois juntos, sentados à beira do palco. - O que é que estás a fazer com ela? - É o Manuel, um amigo, da Secundária. Manuel é o André, filho do sócio do meu pai. André aproximou-se dos dois. - Bom trabalho, o teu. - a aspereza rudimentar dos pensamentos de André espelhava-se em cada palavra sua. Os olhos de Manuel brilhavam sobre Leonor e esta respondia-lhe com um sorriso sincero. "É uma ameaça." pensava André. Ele era estúpido mas não era parvo. - Obrigada. É sempre bom ouvir notas de apreço pelo nosso trabalho. – respondeu-lhe Manuel, a medo. - Mas olha que tens ainda tens de melhorar até chegares ao nível do Ruy de Carvalho, por exemplo. – André não sabia medir a crueldade do que dizia. Manuel, no entanto, sabia-lhe responder, à letra. E com a eloquência de quem a cultura abençoou. - Mas eu não me posso comparar ao Ruy de Carvalho. Vê bem, ele tem mais de 50 anos de actor e eu apenas 26 de vida. É impossível comparar-me com ele. - Ah, ok. – disse André, confuso. Manuel e Leonor segredaram qualquer coisa um ao outro entre risos. Com a maior calma, Leonor disse: - André, há muito que não via o Manuel. Podes ir andando para tua casa que eu e ele temos muito que conversar. O Manuel depois leva-me. Por favor. - Mas, um homem que sai num encontro com uma mulher só deve terminá-lo à porta de sua casa. Vens comigo. – a perturbação percebia-se na voz de André. - Já não estamos no séc. XIX e eu sei cuidar de mim, por favor vai, meu bom amigo. A conversa é apenas entre mim e o Manuel. – insistiu Leonor. - Eu, amigo? E não, não vou! – as últimas duas palavras de André soaram como um grito. - Calma. – disseram Manuel e Leonor. - Calma, mas qual calma? Venho contigo ao teatro, de que não gosto, para te agradar. E tu, aos primeiros olhinhos de um actorzeco qualquer, deixas-me. – era raiva, pura raiva nas palavras de André. – Vais para casa, para minha casa. Leonor percebeu o que se iria passar. - Não, André, por favor, não faças isso. – disse. André não a ouviu. Um murro no estomâgo de Manuel e começa a persgui-la pela plateia, pelo primeiro balcão, pelos camarotes e até pelos camarins. Manuel depressa recuperou. Depressa tudo estava no sítio. - Leonor! Leonor! - gritou, a plenos pulmões. - Manuel! Salva-me, por favor! – ouvia, em resposta. Foi para os bastidores, descobriu um velho florete de uma produção shakespereana, Hamlet talvez, cheio de ferrugem. “Ainda deve fazer mossa.” Pensou. - André! André! – ouvia. Os gritos vinham do palco, correu para lá o mais rápido que conseguiu. Cauteloso, por detrás de uma das cortinas do palco, esperou. André pegava em Leonor como quem pega num saco de batatas. “Um, dois e …” Manuel lançou-se no seu encalço e deixou a ponta do florete a centímetros da jugular, na garganta de André. - Solta-a. Respeita a vontade dela, Brutamontes. – proferiu, em solene tom, que nem Manuel sabia que possuía. - Não! É que nem penses! – respondeu-lhe André – O que é uma espadazeca face a isto? E saca um revólver de debaixo do casaco. Leonor deu um grito e desmaiou. - Vá, vá! É a andar. Desampara-me a loja. Desaparece, insignificância. – era poder puro nas palavras de André. Manuel recuou um passo atrás do outro. André avançou pelo centro da plateia. Até que, num rasgar de ideia, Manuel viu a sua oportunidade. O Trindade ainda tinha pesos de areia. Descobriu o central, um golpe de florete na corda que o segurava e este voou, qual bala, directo à nuca de André, deixando-o inconsciente. Daqui para a frente tudo parece que aumenta exponencialmente de velocidade. Manuel depressa corre a acordar Leonor. Meio zonza, apenas o seguiu. Fechou todas portas que davam acesso à plateia. Sentou Leonor numa das cadeiras do primeiro balcão, foi para a cabine de som. Acendeu o holofote maior sobre André que acordou, estremunhado. - Vem cá! Luta como homem! – gritou André, ainda zonzo da pancada que havia levado. E nisto corre para as portas da plateia, fechadas, corre para as portas do palco, também fechadas, por Manuel. - Ó meu grande filho da puta! Deixa-me sair! – grita, irado como nunca, André. Leonor, de súbito, acordou. Dirigiu-se à varanda do primeiro balcão. - Parem! Os dois! Agora! – gritou. André e Manuel pararam, imóveis como pedra. - Se querias alguma oportunidade para eu gostar de ti, André, esquece, perdeste-a. Nunca mais te quero ver. Nem tentes. E posto isto, Manuel, leva-me para casa, por favor. - Descansa bem. Uma noite no teatro acorda muita gente para a cultura. Talvez despertes o cérebro, que julgo estar em estado vegetativo há muito tempo. – rematou Manuel. André, no instante em que o tempo passa, ficou sozinho. Manuel e Leonor saíram da sala, do hall e, por fim, do teatro. Já banhados pela luz da lua e da estrelas, Manuel murmurou: - Sejam os milhares de almas que brilham por cima de nós o testemunho do que te digo. Nunca amei ninguém senão a ti. Nem nunca amarei ninguém senão a ti. Desde sempre. - O sentimento é recíproco. Vamos Casanova. – ouviu em resposta. - Está bem. Vamos Raquel. – disse E duas mãos cruzaram-se para a eternidade nessa noite de Agosto, no Trindade. A cortina desceu, o alaúde já tocou…por agora.
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