
Luiz Menezes
Data 21/05/2010 03:27:47 | Tópico: Textos -> Outros
| Paulo Monteiro
Luiz Menezes, filho de Franklin Menezes e Carlota Carvalho de Menezes, nasceu em Quarai no dia 20 de maio de 1922 e faleceu na sua cidade natal em 12 de outubro de 2005. A convivência com o modo de produção semifeudal da fronteira rio-grandense da primeira metade do Século XX marcou em definitivo sua obra. A exemplo de tantos outros quaraienses que se destacaram na história literária do Rio Grande do Sul, mudou-se para Porto Alegre. Ali, em 1952, iniciou sua carreira de radialista. Convidado pelo já consagrado poeta Lauro Pereira Rodrigues passou a integrar a equipe do programa “Campereadas” na Rádio Gaúcha. Naquela emissora apresentou programas, cantando e interpretando acompanhado por ele mesmo ao violão. Além disso, apresentou programas de rádio-teatro, escrevendo peças e participando como ator. Em 1954 escreveu “Piazito Carreteiro”. Gravada, contribuiu para aumentar a popularidade do Ator, tornando-se um clássico da música regional gaúcha. Em 1955 transferiu-se para a Rádio Gaúcha, onde se uniu ao uruguaianense Darcy Fagundes (1925 – 22 de junho de 1984) para produzir e apresentar o “Grande Rodeio Coringa”. O programa, iniciado em 1º de maio daquele ano, ia ao ar das 20 horas às 22 horas. Durante mais de 15 anos foi o programa de maior audiência do rádio sul-rio-grandense, apresentado sempre pela dupla inseparável de radialistas. Pelo “Grande Rodeio Coringa” passaram os mais importantes cantores e compositores gaúchos do século passado. Teixeirinha e Mary Terezinha, Gildo de Freitas e Os Irmãos Berttuzzi, Os Mirins e Os Três Chirus tornaram-se universalmente conhecidos ao divulgarem suas músicas no programa. O Grande Rodeio Coringa contribuiu para a consolidação do Movimento Tradicionalista Gaúcho. Nas mansões e nos barracos das grandes cidades; nas sedes e nos galpões das estâncias e fazendas; nos ranchos dos posteiros e nos veículos automotores, tanto no Rio Grande do Sul quanto nos mais diversos pontos da Federação, a música e a poesia gauchesca eram acompanhadas e admiradas, sob os elogios de Darcy Fagundes e Luiz Menezes. Luiz Menezes escreveu diversas letras de música, entre elas “Última Lembrança”, que se transformou em outro clássico do cancioneiro popular do Sul. Quase todos os conjuntos regionais gravaram-na. O próprio Luiz Menezes gravou 4 LPs e 1 CD. Além disso, foi colunista dos jornais “A Hora” e “Diário de Notícias”, de Porto Alegre. Introduziu a milonga, ritmo platino, em nosso Estado, com a “Milonga de Contrabando”. Recebeu diversos prêmios por suas atividades culturais. Funcionário público estadual, aposentou-se como Diretor do Departamento de Diversões Públicas do Estado do Rio Grande do Sul. Foi casado com Haydeé Menezes, com quem teve sete filhos. Viúvo, casou pela segunda vez, tendo mais um filho. Aposentado voltou a residir em sua terra natal, onde foi secretário municipal da Cultura. Ali escrevia uma crônica semanal na “Folha de Quaraí”, que era apresentada por ele mesmo na “Rádio Quarai”. Em vida publicou quatro livros: “TOPA AMARGA” (Martins Livreiro – Editor, Porto Alegre, 1982); “Além do Horizonte” (Martins Livreiro – Editor, Porto Alegre, 1986); “Chão Batido” (Martins Livreiro – Editor, Porto Alegre, 1995) e “50 ANOS DE POESIA: ANTOLOGIA POÉTICA” (Martins Livreiro – Editor, 2ª Edição, Porto Alegre, 2005). Numa espécie de nota introdutória que escreveu para “TROPA AMARGA”, in titulada “RAZÃO DE UM LIVRO”, assim se expressou quanto à reunião de seus poemas em volume: “Quando apartei alguns dos meus versos para esta coletânea, não tive a preocupação nem a veleidade de pensar numa obra poético-literária. Jamais me atreveria a tanto. “Tive, no entanto, o desejo de registrar momentos de uma caminhada marcada de barro e sol. Pois sempre acreditei que o verso é o mate-amargo do canto solitário. “E tantas vezes mateei solito, que me atrevi a reunir esta tropa orelhana e xucra, para oferecer àqueles que, como eu, costumam matear em silêncio... Foi por isso. Tão somente por isso.” No segundo livro, em outra “RAZÃO DO LIVRO”, assim se expressa: “Quem leu meu primeiro livro, é possível que busque encontrar em ALÉM DO HORIZONTE, a mesma terminologia, os mesmos temas sociais com estórias de ranchos: Suas lutas, mágoas e vicissitudes, que foram a tônica em TROPA AMARGA. “Por certo que os encontrará ao deparar com o homem perdido no asfalto em seu êxodo rural, na busca da urbana e amarga existência, vã esperança dos que sonham ALÉM DO HORIZONTE. “Apunhalou o campeiro mais que a desgraça, a derrota; seus pés descalços, sem botas já não pisam na flechilha... “Continuo contando estórias, porque sem estórias eu não existo em versos. “Por natureza e formação, sempre me enterneceram os lamentos destes seres sofridos e incompreendidos. Gente oriunda do campo ou das cidades interioranas, que apesar de tudo ainda sonham, porque: “E todos disseram que além do horizonte há um mundo tranqüilo que todos esperam um dia encontrar.... ...... “Por isso o ALÉM DO HORIZONTE. “Tão-somente por isso.” Ao confessar que o enternecimento pelas vítimas do êxodo rural, sempre esteve presente nele, por natureza e formação, toca numa característica de muitos poetas da Fronteira Oeste, como Juca Ruivo, Laci Osório e Lila Ripol. Esse enternecimento está presente em tantos outros poetas gauchescos, como Aureliano de Figueiredo Pinto e Lauro Rodrigues, para falar nos mais conhecidos, o que desmente a afirmativa de que a gauchesca seria de todo alienada à vida real do homem rio-grandense. Faleceu no dia 12 de outubro de 2005. Sua morte repercutiu nacionalmente, da tribuna do Senado Federal, o senador gaúcho Paulo Paim resumiu a importância da obra do poeta quaraiense com estas palavras: Luiz Menezes é uma verdadeira legenda no cancioneiro popular gauchesco, um dos mais importantes poetas da nossa terra”. Cantou os desgarrados dos campos e cidades em versos que ficaram célebres, como os de “A MORTE DE PEDRO NINGUÉM”, um dos poemas gauchescos mais conhecidos e declamados de todos os tempos.
A MORTE DE PEDRO NINGUÉM
Veio a cantiga da noite na garupa do aguaceiro cabresteada pelo vento. Até um relâmpago alçado andou pateando o espaço preludiando um temporal..
Mas oigalê como é brabo este tal de mês de agosto!
A voz do preto Clarindo veio do fundo do rancho que se velava o finado: Ó Juca, vai lá na venda e compra dois real de “gayeta” e um naco de fumo grande que a noite vai ser comprida...
Lá fora o céu era negro assim como um campo grande que fora queimado há pouco.
O Juca pediu a bênção pra seu padrinho Clarindo e se enfurnou noite a dentro na direção do bolicho. Agora só a luz das velas clareava os rostos sombrios da peonada no velório onde o respeito era pouco...
Pois entre risos e ditos iam se contando causos de peleias, de carreiras e de chinas mal-domadas esquecidos do finado.
E quando o preto Clarindo compreendendo o desrespeito pelo coitado do morto, tirou uma longa tragada, pigarreou como pensando para afinal sentenciar:
O homem que nasce pobre é como um cavalo xucro... É pealado pela vida, sofre a doma das tristezas até que um dia se amansa perde a vontade e a fé... Depois já sem serventia morre na beira do alambrado esquecido... sem ninguém!
Vejam vocês nesta noite, o Pedro já não existe. Amanhã se vai o corpo pois a alma do coitado de há muito já estava morta...
Andava assim como andam miles de guasca sem rumo, fugindo pelos atalhos do povoado e das taperas.
Bueno total é a vida! E amanhã será um de nós...
Até a viúva quando saiba que o pobre Pedro morreu decerto vai chorar pouco. Chorar é pra quem tem tempo e o tempo pra pobre é escasso pra se lastimar à toa, quando já não se tem remédio nem a esperança num cobre.
Livino, me passa a canha que é pra esquentá o pensamento!
Caramba como faz frio neste tal de mês de agosto! ………………………..
Um trovão rolou no espaço. E a chuva seguiu cantando no funeral da saudade...
Saudade? Ora, saudade! A saudade não tem tempo de chorar Pedro ninguém!!
Luiz Menezes procura evitar cair no puro panfleto, o que datando o poema, limita a universalidade indispensável à permanência estética do poema, confundido um tom lírico à temática social. Essa prática é mais presente no livro “Além do Horizonte”, dedicado à memória de sua primeira esposa. É como se fundisse num só dois poemas sobre o mesmo tema: um social e outro lírico. Vemo-lo no poema que dá título ao livro.
ALÉM DO HORIZONTE
E todos disseram que além do horizonte há um mundo tranqüilo que todos esperam um dia encontrar.
E todos falaram cantaram, gritaram que além do horizonte existem as coisas mais lindas do mundo de um mundo tão lindo formado de luz...
Disseram somente pois ver ninguém viu.
Não viu a criança que ontem nasceu e os olhos abriu sem nada enxergar; não viram o moço e a moça bonita que sonham casar e a vida viver; Não viu o velhinho de vida no fim que vive rezando na eterna esperança de muito viver...
E todos disseram que além do horizonte – arco-íris, miragem – só existe o amor...
Palavra tem força e todos tem fé...
Disseram somente pois ver ninguém viu.
E eu que andei e andei e andei, e um dia cheguei em cima do monte, vi outro horizonte, e outro, mais outro, seqüência de rumos levando pra um mesmo caminho sem luz. E louco gritei: Gritei por piedade, gritei de saudade, gritei de tristeza, de falta de amor.
Um dia voltei. Voltei sem contar pra o moço, pra moça, pra o velho, pra todos que é tudo mentira: O além do horizonte é apenas um dia que volta amanhã...
Por isso eu suplico ó Deus, meu Senhor, que deixes nos sonhos do moço, da moça, do velho, de todos o mundo bonito que além eu não vi; e que cantem cantigas de mil esperanças, cantigas bonitas que eu fiz e perdi.
Luiz Menezes cantou o amor em muitos versos. Boa parte deles musicados foram cantados em programas de rádio e CTGS, contribuindo para aumentar a fama do poeta. “Última Lembrança” tornou-se uma das canções mais populares no Rio Grande do Sul. Canta a saúde, um dos temas eternos para todos os poetas da Língua Portuguesa.
ÚLTIMA LEMBRANÇA
Eu hei de amar-te sempre, sempre além da vida. Eu hei de amar-te muito além do nosso adeus. Eu hei de amar-te com a esperança já extinguida de que meus lábios possam ter os lábios teus.
Quando eu morrer, permita Deus que nessa hora ouças ao longe o cantar da cotovia. Será minha alma que num canto triste chora e nessa mágoa o teu nome pronuncia.
Eu viverei eternamente nos cantares dos pobres loucos que dos versos fazem o ninho. Eu viverei para glória dos pesares onde quase sucumbi nos teus carinhos.
Eu viverei no violão que à noite tomba ante a janela da silente madrugada. Eu viverei como uma sombra em tua sombra, como poesia em teu caminho derramada,
pois nem o tempo apagará nossos amores que floresceram de ilusão febril e mansa. Quando eu morrer, eu viverei das tuas dores, pois te levando em minha última lembrança.
Os seguidores do marxismo vulgar afirmam com todas as letras que a literatura gauchesca é alienada. Há tempos que essa assertiva caiu por terra graças a estudos consistentes como “No Entretanto dos Tempos – Literatura e História em João Simões Lopes Neto” (Martins Fontes, São Paulo, 1987), de Ligia Chiappini, sobre a obra daquele que é considerado o mais importante regionalista brasileiro de todos os tempos. Luiz Menezes e outros poetas seus contemporâneos foram homens identificados com as idéias sociais do seu tempo. Em sua maioria identificavam-se com o pensamento social do Partido Trabalhista Brasileiro – PTB –, continuador do velho partido Republicano Rio-Grandense. Dentro desse partido filiavam-se às concepções reformistas de Alberto Pasqualini. Isso confere aos seus versos uma tonalidade cristã. Alguns, como Lauro Rodrigues, mestre de Luiz Menezes, e este mesmo ainda que escrevendo poemas “revolucionários” expressarão um visível anticomunismo. Aí encontraremos as raízes (preconceituosas) da alienação vista pelos marxistas acadêmicos, vulgarizadores das concepções marxistas adquiridas através de leituras na maioria das vezes por vias transversas. Lauro Rodrigues e Luiz Menezes continuaram sua militância partidária nos chamados “anos de chumbo”, iniciados em 1º de abril de 1964, com o movimento militar que interrompeu os princípios e práticas democráticos no Brasil. Muitos poemas desses poetas apresentam uma dureza muito grande. Cortam como adaga. Declamados, ao longo de décadas, por milhares de admiradores da poesia popular sul-rio-grandense, foram ouvidos, admirados e decorados por milhões de nossos conterrâneos. Contribuíram, Assim, para firmar e reafirma a idéia (discutível, é verdade) de os Rio Grande do Sul é do Estado mais politizado da Federação Brasileira. A educação, como elemento importante para a ascensão social dos “proletários”, como afirmavam os positivistas, foi e continua um dos pilares básicos da doutrina social trabalhista. Alberto Pasqualini costumava repetir que “abrir escolas é fechar cadeias”. E esse é o tema de um dos poemas mais populares de duros de Luiz Menezes. A carreta (carro de bois) exerceu um papel importante na economia gaúcha até o advento das estradas de ferro e dos caminhões. E é exatamente sobre um carreteiro, representante de uma atividade econômica em extinção, que via nos estudos do filho a única forma de romper a linha da pobreza, esse poema forjado no aço temperado com a indignação de homem e poeta da Campanha.
O SONHO DO CARRETEIRO
Carreteou anos a fio. Conhecia palmo a palmo as estradas da querência; Sabia onde dava passo – no tempo das enxurradas – aquele arroio sotreta cemitério de carreta disfarçado em água mansa…
Vira nascer muitos ranchos nesse corredor sem fim.
Sabia que na picada logo depois do lagoão, o umbu do enforcado dera lenda pras estórias dos bolichos, das ramadas.
Sabia bem todo o causo da tapera do repecho: A maula traíra o guasca e este sem dó nem piedade, cortara junta por junta o belo corpo moreno daquela indiazinha louca que se engraçara num piá ...
Mas além, no Passo-feio vira morrer um tal Juca. Eram três contra o rapaz. E como morrerra lindo aquele guasca sem medo ... A estória ficou em segredo pois diz que o tal de mandante era mui relacionado, e até contraparente de um graudaço do povo.
Conhecia palmo a palmo as estradas da querência, sempre fora carreteiro.
Envelhecera na lida sem conhecer outra vida sem ter outra ocupação. Tinha por seu ganha-pão a velha carreta amiga companheira de cantiga daquele piazinho vivo que era, alegria e motivo de seu final de existência.
Pois ficaram bem solitos mais amigos do que antes des’que a finada se fora ...
Por isso sempre de noite à meia luz do candeeiro ficava horas inteiras mostrando pra seu piazinho as letras do ABC. E o piá com muita memória decorava uma por uma as letras que galopeava, ou por outra, engarupava nas palavras do jornal.
Como era esperto o guri: Foi duas, três paletadas já sabia mais que o pai ...
E foi numa dessas noites que o velho e bom carreteiro teve um sonho de repente. E quase num gesto louco gritou pras quatro paredes enfumaçadas do rancho: Meu filho há de ser doutor! Não há de ser carreteiro, pois estas mãos calejadas do peso-bruto, da enxada, hão de sangrar no trabalho pra que este piazinho feio viva melhor do que eu ...
Pura e santa ingenuidade! O arroio-sociedade pra o pobre nunca dá vau!!
No outro dia cedinho enveredou para o povo ...
Voltava a velha carreta A resmungar nas estradas na viajada da esperança carregadinha de sonhos.
E o pobre e bom carreteiro ia falando de tudo com seu piazinho faceiro dentro da bombacha nova. Não esquecia de nada nos seus conselhos de pai:
Se lá no povo à tardinha o piá sentisse saudade, bombeasse pra o horizonte, que alguém solito decerto meio tristonho é verdade, mateando assim com saudade estaria a lhe esperar ...
Que importa se demorasse, pois nunca ouvira dizer que a tal saudade matasse.
Mas nesse dia por certo Quando voltasse doutor tudo havia de mudar. Até o céu com certeza morada das almas puras ouviria com ternura uma indiazinha chorar.
E as estradas da querência que conhecia demais, lhe viram passar feliz com novo brilho no olhar.
…………………………….
Mas lá no povo – cuê-puxa! – Bateu em todas as portas clamou por todos os santos recorreu todos os amigos – muitos dos quais ajudara – andou quase mendigando, Pra ar escola pra o filho, mas ninguém quis lhe escutar ... E a esperança foi mermando foi mermando ... e se apagou.
Botou a carreta na estrada o Piazinho dentro dela tocou de volta outra vez.
A noite então já chegara. Naquela enrugada cara de gigante das estradas uma lágrima teimosa veio molhar-lhe o nariz ...
Olhou o filho com carinho, mas com muito mais carinho, cm mais amor do que antes e uma queixa derramou: Quem nasce lutando busca a morte por liberdade! Mentira! A tal de igualdade não existe por aqui ... Que adianta se amar aos outros se os outros não dão amor?
Pega a picana, piazinho, e acorda esse boi manheiro, pois filho de carreteiro nunca pode ser doutor!!
O lirismo do poeta está presente em poemas como ÚLTIMO POUSO. Aí transparece o romantismo dos gauchescos brasileiros porque todos eles são visceralmente românticos, até mesmo em seus poemas de protesto. Nestes ecoam as apóstrofes de Castro Alves. Escritos para serem declamados nos rodeios, nos Centros de Tradições Gaúchas, e até nos bolichos e pulperías, até no tom altissonante lembram o poeta dos escravos. Não é à toa que a morte (tipicamente romântica) é uma constante no lirismo dos poetas crioulos.
ÚLTIMO POUSO
A morte a china maleva traçoeira que até dá pena; vive a pealar gente buena sem se importar com o gaudério… Não sei que estranho mistério em minha emoção se espelha quando minh’alma se ajoelha ante a cruz de um cemitério.
Fico por horas bombeando fingidas frases fictícias que ali ficam qual notícias penduradas sobre a lousa dizendo: “Ó tu, boa esposa, dorme em paz aos pés de Deus”. Que dirão então os meus de mim que sou qualquer coisa?
Basta morrer pra ser bueno, basta sofrer pra ser justo, quem nasce ou morre de susto nem frase fingida tem; e dizer que no além as almas são tão iguais! Pra que estes luxos demais depois que somos ninguém?
Mais feliz é a cruz solita longe no ermo da estrada sem fita, sem flor, sem nada marcando o fim de uma vida… Fica dormindo aquecida no sol que logo a desbota, sem frase fria ou lorota nessa sesteada comprida…
Gosto da cruz do proscrito na solidão da campanha, tendo a garrafa de canha por promessa recebida; me dêem esta cruz perdida pra que o gaúcho passando, viva sempre me acenando numa eterna despedida.
Tomara que o Santo Onofre seja no céu meu parceiro, garanto que o dia inteiro vamos meter canha e pinho… E assim farei meu cantinho na invernada do Senhor: serei mais um pecador tendo um santo por padrinho.
Sei que vão falar de mim por mulherengo ou andejo, mas fica aqui meu desejo expresso nesta oração: Não falem de um coração que no céu não terá luz e amarrem bem minha cruz com as cordas do meu violão.
A infância e o retorno à infância é outra constante no lirismo gauchesco. No caso de Luiz Menezes não volta para ver a “infância querida” de Casimiro de Abreu”, que tanto influenciou (e continua influenciando) poetas cultos e populares. O que lhe ficou foi a infância pobre num casebre (rancho, na melhor expressão gaúcha) de chão batido (chão puro). E não é à toa que infância funciona como substantivo de rancho, ao estarem ligados diretamente, sem a mediação da preposição de. A violência marcada pela pobreza do menino se materializa com a violência (digamos assim) contra a Língua.
CANÇÃO DE INVERNO No chão batido do meu rancho infância, cantou a pobreza sua canção de inverno… Senti na carne as vicissitudes das amarguras que são mais profundas, quando se tem as ilusões mais ricas…
No chão batido do meu rancho infância, cantou a pobreza sua canção de inverno…
E quantas noites me embalaram o sono canções amargas – minha mãe cantando – nesse prenúncio do amanhã incerto, do piá que apenas teve por riqueza, toda essa glória do amor materno.
No chão batido do meu rancho infância, cantou a pobreza sua canção de inverno…
Foi quando fiz o meu primeiro verso: verso sofrido sem consciência ou glória; verso de angústia que era o grito amargo de todos os ranchos da minha querência, por cujas frinchas galopava o vento golpeando os corpos de famintas almas…
No chão batido do meu rancho infância cantou a pobreza sua canção de inverno…
Foi quando fiz o meu primeiro verso, se ainda verde nos primeiros anos, já me caldeara no rigor da vida para saber que o grito da inclemência é o canto eterno quando o homem passa…
No chão batido do meu rancho infância, cantou a pobreza sua canção de inverno…
E nos brasedos da aurora pampeana me acostumei a matear em silêncio vendo que o homem quando parte deixa raízes fundas na sua querência…
……………………………
Por isso volto pras minhas origens cantando apenas a canção de inverno!
A cacimba, a lagoa, o açude, o rio – numa palavra: a água – estão sempre presentes na obra dos poetas gauchescos. E é outro elemento romântico.
CACIMBA
Junto à cacimba ali à beira do mato água de sombra do arvoredo denso, sinto tua falta, sinto teu contato quando tristonho em ti querida penso.
Ao coração procuro e não convenço dizer-lhe apenas que morreu... Um fato. E no silêncio do arvoredo denso chora a cacimba ali à beira do mato.
O velho rancho – uma flor silvestre – sem o calor que um dia tu lhe deste e onde a saudade veio pra ficar,
é no momento em que a alegria finda uma tapera que te espera ainda sabendo amor, que nunca vais voltar.
Como escrevi acima, a água é um dos grandes motivos do lirismo romântico. O Quaraí, exerce um fascínio sobre o poeta, porque é o rio da infância. E todos nós, que tivemos um rio da infância jamais nos esqueceremos dele. Cantá-lo é uma espécie de sentir-se protegido no líquido amniótico da terra de onde viemos e para onde voltaremos.
RIO QUARAÍ
Sonhos pueris, fantasias dos meus tempos de guri; fui moderno bandeirante, um campeador de brilhante nas águas do Quaraí.
Fui Marco Polo andarilho herói como nunca vi, que singrou todos os mares e descobriu mil lugares nas águas do Quaraí.
Caravelas de Colombo também aportaram ali; pra América fiz cantigas; fui Bolivar, fui Artigas nas águas do Quaraí.
Fui Portinari pintando o canto do bem-te-vi, fui até Pablo Neruda quando o por-do-sol transnuda nas águas do Quaraí.
……………………..
Onde andarão estes sonhos, os mais lindos que vivi? Se comigo não ficaram com certeza se afogaram nas águas do Quaraí.
O lirismo e o social unidos contribuíram para a popularidade de outro poema do poeta quaraiense. FAZ TANTO TEMPO é declamado por moças e meninas em concursos de declamação. É difícil um desses ventos onde não se encontre menina ou moça, em tom choromingueiro, recitando esses versos de Luiz Menezes.
FAZ TANTO TEMPO
Era dessas lavadeiras que deixam as roupas bem alvas perfumadas de limpeza...
Tinha as mãos muito judiadas muito brancas, enrugadas da sanga, nas madrugadas do inverno da campanha...
Mãos mais velhas que a velhice que só sentiam carícias quando se uniam na prece.
A pá batendo na roupa, é como se ela batesse nos trapos dos desenganos que não pudera lavar...
Ajoelhada sobre a pedra, ia cantando cantigas que aprendera quando moça bem lá no fundo do tempo... E a correnteza do arroio alheia, se renovando ia passando... passando, como tempo sem voltar...
Quando alguém lhe perguntava qual era bem sua idade, o seu olhar de repente tinha um clarão inocente respondendo ingenuamente que não soubera contar...
Era dessas lavadeiras que deixam as roupas bem alvas perfumadas de limpeza...
……………………………..
Faz tanto tempo! No entanto nem sei por que, de repente me volta a imagem inocente da velhinha Margarida... Que só sabia lavar, cantar, rezara – sem chorar – e a própria mágoa afogar no arroio grande da vida.
E hoje quando olho o céu e vejo nuvens branquinhas, fico pensando... pensando numa lembrança perdida: Por certo foram lavadas, enxugadas e passadas por duas mãos enrugadas da velhinha Margarida.
Tanto a criança quanto o velho merecem uma atenção especial dos líricos gauchescos. Em sendo uma identificação com as duas extremidades cronologicamene mais frágeis da espécie humana prestam-se muito bem ao lirismo de conteúdo social. Quando além de criança ou velho é mulher acrescentam um conteúdo sentimental ainda mais expressivo ao poema, como vemos nesses poemas sobre Margarida e “Siá” Maria. Esta com um componente a mais: negra, quatro vezes frágil.
PRETA VELHA "SIÁ" MARIA
E mataram Clarimundo! foi a notícia na venda. Como notícia se emenda a aldeia ficou sabendo; um piazinho, entrou correndo no rancho de "siá" Maria, preta velha – que ironia! – muito querida no Pago, era a mãe desse índio vago que no corredor morria...
Com voz presa na garganta, falou o piá a muito custo, tinha no olhar o susto de ver o irmão caído... Que lhe importava o bandido no dizer de todo mundo? Pra ele, era o Clarimundo, seu irmão mais velho e pai, que morria sem um ai! lá na invernada do fundo.
Mas pra preta "siá" Maria não precisou que dissesse, porque toda mãe conhece de cada filho o destino... A mãe tem o Dom divino de anteceder a notícia. Clarimundo e a polícia se encontrariam um dia, por isso ela já sentia toda angustia do menino.
Depois com o surrado manto lhe cobrindo a carapinha enveredou pra estradinha que tantas vezes cruzara. A dor lhe sulcava a cara, em saudade diluída, porque a lágrima sentida é saudade gotejando que ela sentia chorando por alguém que muito amara.
Foi atravessando a aldeia com mil lembranças na mente vendo a maldade da gente nas expressões mais ousadas... Passou por muitas ramadas sem receber um consolo, quando um borracho, mui tolo, dominado pela canha, disse maldade tamanha: Bem feito pr'esse crioulo!
Esqueceram "siá" Maria, preta velha benzedeira que sempre fora a primeira chegar num rancho em apuro... Que só tinha o rosto escuro, porém a alma branquinha, branca como a carapinha que lhe contrastava o rosto franzido pelos desgostos da própria vida que tinha.
Não lhe perdoaram jamais seu pobre filho maleva que penetrara na treva invernada do gaudério... Ele que já fora um sério, e que até rezar sabia, e que morrendo dormia pras ingratidões do mundo. Por ser mãe de Clarimundo, não perdoaram "siá" Maria.
E lá se foi preta velha guiada pelo Senhor o Único que na dor nunca nos deixa solito... Por isso, Patrão Bendito, eu rezo de quando em quando, se estiver no céu chorando minha mãe por meus pecados sei que estarás ao seu lado sua lágrima apagando.
M. Cavalcanti Proença em conhecidíssimo ensaio intitulado “O Cantador Castro Alves (in Estudos Literários – 3. ed. – Rio de Janeiro: J. Olympio, 1982), destaca a simpatia popular pelo “homem-solidão – fugitivo da justiça do céu e da terra, desguaritado e sem pouso, ou sedentário, homem bom, eremita penitente – situa-se o que se poderia chamar de complexo da terra estranha”, como se lê à página 233. Esse é um assunto bastante presente na poesia gauchesca. E o encontramos, também, em Luiz Menezes, ligando o proscrito judicial e o proscrito social, que acabam morrendo juntos, na mesma (e até inconsciente) resistência comum às mãos armadas pelas classes dominantes. Esse amor ou atração pelo proscrito o poeta o retratou em poemas como Fogueteiro e Paisano.
FOGUETEIRO
Mais oigatê vida braba! que profissão degraçada...
Era um forte, no entanto, vivia as margens da sorte. Pois nos bolichos de aldeia ninguém bebia em seu copo, ninguém lhe dava um saludo, ninguém lhe ofertava um trago e ninguém lhe dirigia uma palavra sequer... Ninguém andava a seu lado, ninguém entrava em seu rancho e nunca em sua vida amarga alguém lhe chamou de amigo...
Mas oigatê vida braba! que profissão desgraçada...
Trabalho, choro e silêncio nesta vida amaldiçoada, era apenas o que ouvia... O chamavam Fogueteiro Ou de "coveiro" também...
Num trabalho repetido, abrindo e fechando covas o Fogueteiro era um morto igual aos que sepultava... Por isso em sua vida amarga nunca tivera um amigo.
Numa noite fria, escura como a sua solidão, pressentiu algo de estranho rondando seu tosco rancho. E de repente um barulho de cascos em atropelo e uma voz, quase um gemido, num murmurante: "ó de casa!"
Pulou do catre num upa, colou o ouvido na porta e na escuridão do rancho com a adaga desembainhada, esperou a voz outra vez.
Houve um espaço de tempo até que a voz novamente, agora a voz bem mais clara, alguém dizer: "ó de casa!" E completar: "Meu amigo, eu venho muito ferido e uma patrulha me segue...
"Amigo?... – Pensou o coveiro –. se eu nunca tive um amigo…"
Mesmo assim destravou a porta e pulou para o terreiro dizendo: “Apeie no mais parceiro que eu escondo o seu cavalo...” E o estranho cambaleando, com a camisa ensangüentada, repetia ao Fogueteiro: “Gracias, amigo, e desculpe, talvez lhe traga desgraça... mas recebi um balaço e está sangrando demais.
…………………………..
Quem diria, num segundo, Fogueteiro e forasteiro, amigos desconhecidos, abraçados no socorro...
Entraram. E sobre uns pelegos deitou o ferido de lado para que o sangue estancasse e com o poncho lhe tapou.
Levou o cavalo pra o mato e voltou pedindo à Bugra que esquentasse a cambona, botasse bastante “arnica” e deixasse ferver no más… A bugra era sua mulher, que nem ao menos falava, só sabia obedecer...
Quase a porta veio abaixo com as batidas de um milico.
“ Tchê Fogueteiro, te acorda!” “To acordado, patrão.” “ Por acaso tu não viste alguém passar em disparada no rumo do Arroio Vau?” “ Por certo que não, patrão, e se ouvi nem me dei conta… São tantos os contrabandistas que vivem atalhando aqui...”
“Bueno, mas abre teu olho que o índio é mui perigoso…” E gritando para os outros: “Bamo se embora, pessoal, que o bandido se escapou...
…………………………..
A noite ainda ia alta quando o proscrito se foi, não sem antes abraçar seu estranho benfeitor... “Até a volta, meu amigo! talvez um dia apareça pra contá o que não contei… Gracias! Mil gracias, amigo! foi repetindo no escuro da noite na qual entrou. Se foi bem como chegou: sem dizer pra onde ia...
Quem sabe, talvez sabe queria morrer bem longe dali...
………………….
O Fogueteiro ficou “pitando” olhando à distância com algo assim bem estranho lhe cutucando a consciência… “Será que não fora um maula abandonar um ferido solito num corredor? Qu’ importa se era um bandido. Ele bebera no seu copo deitara nos seus pelegos debaixo daquele teto coberto de santa-fé E lhe chamara de amigo no derradeiro até-a-volta…”
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Já surgiam no horizonte primeiras barras do dia. Se encaminhou ao potreiro em busca do malacara. Encilhou, não tão depressa, porém com muito cuidado… Botou a adaga entre os pelegos e sem dizer pra onde ia falou pra Bugra: – "Já volto" e se foi seguindo o rastro que o forasteiro deixou...
Houve um clarão na distância do tiroteio cruzado. Depois, um baita silêncio desses que anunciam a morte...
Foram encontrados dois corpos no corredor da Tapera: De um, sabiam quem era; o outro… Um desconhecido. Sim, era o Fogueteiro com seu estranho parceiro, o único companheiro que lhe chamara de amigo!
PAISANO
Um dia chegou de longe, nunca se soube de donde... Chapéu quebrado na testa e um lenço preto ao pescoço negro como pensamento de uma china despeitada.
E afinal, ficou de peão Da estância de "Seu" Quirino.
Primeiro que levantava ao canto do quero-quero pra impeçá a lida do dia. E quando lhe davam um alce, passava grozeando os cascos de um rozilito cinzento, pingo que era um pensamento segundo seu comentário.
Ninguém sabia seu nome, talvez, nem mesmo o patrão.
Mas quando de noitezita a indiada puxava um banco, em derredor do fogão, lá sob um canto, solito, um pinho entrava de manso cantando coisas bonitas, que faz a gente pensar...
E finalmente a peonada se acostumou com o estranho: pra todo mundo da estância era o Paisano no mas…
Talvez por seu mutismo despertava nas mulheres caprichos de coração.
Porém muito maneiroso fazia sempre segredo, quando por necessidade precisava do carinho de alguma china qualquer...
Depois voltava solito, ao trote do seu rozilho, levando para os pelegos mais uma história de amor.
E finalmente aos pouquitos, por ser pronto servidor, foi conquistando a amizade desde a peonada ao patrão.
E foi num final de tarde que alguém entrou no galpão e disse pros que mateavam que uma patrulha do povo buscava um “sorro” qualquer... O que se ouviu de repente, foi uma voz que de um canto falou por primeira vez, Dizendo apenas: “To aqui!!”
Foi como se lá do céu um trovão se desgrudasse preludiando temporal. Logo o galpão foi sitiado pela patrulha do povo. E até me parece mentira que um indiozito tão quieto pudesse ser tão ligeiro na hora do ferro branco.
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Quando cessou o reboliço E os gritos do entreveiro jaziam lá no terreiro três índios ensangüentados...
E a longe, na polvadeira, um rozilito cinzento de cascos bem aparados, debandava pra outros “norte”, talvez pra banda Oriental... Levava apenas no lombo um guapo e quieto Paisano que um dia chegou de longe, nunca se soube de donde.
O contrabando é outro tema constante na literatura gauchesca. Resto de uma sociedade onde não existiam a fronteiras criadas pelo conquistador branco. De certo modo, a gauchesca procura o “eterno retorno”, o paraíso perdido. E o paraíso perdido, como o Éden bíblico, é um lugar onde todos os homens são iguais, um lugar sem fronteiras. O contrabandista, grande ou pequeno, é um injustiçado social, vítima do pecado original, causado pela ingestão do fruto proibido, o Estado, e ainda mais um estado artificial, transplantado da Europa. Peona, talvez por isso, influenciou muitos poetas, que reescreveram a mesma história.
PEONA
Cidinha fez sete anos sem festa, presente, nada...
A data só foi lembrada na folhinha da parede, que mostrava uma boneca que ela sonhava comprar.
O pai andava tropeando ou talvez contrabandeando; Contrabando na fronteira embora "brabo" é profissão.
Cidinha fez sete anos sem festa, presente, nada...
De manhã muito cedinho, quando o sol bandeou a janela, ganhou apenas carinho da bênção que a mãe lhe deu.
O rancho de pau-a-pique bem limpinho, chão batido, vivia o louco gemido dos que a dor sabem esconder.
Somente a alma bonita da menina sem boneca brincava de aniversário nesta festa sem ninguém...
Cidinha fez sete anos sem festa, presente, nada...
O dia passou correndo, a noite chegou depressa, e com a noite a promessa de um lindo e novo amanhã.
Talvez o pai se lembrasse de lhe trazer um presente? Mas o pai que andava ausente chegou e..."buenas" no más.
Dos padrinhos? Pobre gente! Para o batizado em casa quase sempre são parentes ou vizinhos mais chegados.
Na igreja custa dinheiro; Em casa uma vela basta pra reza meio cantada que nem decorada está.
Como esperar a menina que lhe trouxesse presente, gente sem fé na esperança, sem hoje, sem amanhã?
Cidinha fez sete anos sem festa, presente, nada...
Foi bem cedo para o catre, se cobriu com o poncho velho – cobertor des'que nascera –- e rezou para dormir.
Sonhou com o Patrão Celeste junto do catre, bem rente, que lhe trazia um presente todo envolto de luar.
Sim era aquela boneca com um sorriso sapeca, que saíra da folhinha e viera em sonho lhe abraçar.
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Cidinha fez sete anos e aí parou de contar... sem escola, sem boneca sabe Deus onde andará?
Talvez de peona em estância dormindo em muitos pelegos... Amargo preço do emprego dos que não têm profissão.
Os ventos que sopram na Campanha, o minuano, o pampeiro, exercem um fascínio sobre os escritores que escreveram sobre o homem e o meio rio-grandense, desde o cearense José de Alencar, com o romance O Gaúcho (1870). O minuano, vento gelado que vem da República do Uruguai, cortando campos e serras povoadas pelos extintos índios minuanos, é uma constante temática entre os gauchescos e deu título ao primeiro livro de poemas de Lauro Rodrigues, que tanto influi na vida e na obra de Luiz Menezes.
MINUANO
Que se passa contigo, Minuano?
Que atropelas o rancho indefeso espantando o calor que ali dorme escondido no meio da cinza de um fogo que há muito apagou?
Que se passa contigo, Minuano?
Que pareces querer estinguir uma raça faminta que sobra, abrigada na desesperança dos destroços da era presente?
Que se passa contigo, Minuano?
Eu bem sei que repontas angústias deste Pampa que tu hoje choras sob as folhas do umbu solitário que no ermo do campo quedou...
Que se passa contigo, Minuano?
Tu não vês que nos ranchos se encolhem mil piazitos de corpos franzinos a bombear a panela vazia na esperança de um dia melhor?
Que se passa contigo, Minuano?
O teu grito por sobre a cumeeirra faz lembrar-me do canto esperança que apagou nessa estrada sem rumo cemitério das desilusões!!
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