DESTE LADO DA CERCA

Data 11/05/2010 19:28:48 | Tópico: Poemas

Fecharam-se os portões do céu
e ficámos, de asas aparadas,
do lado sombrio do abismo.

Negras nuvens nos sepultam
neste recanto lamacento,
exíguo trilho de espelhos deformados
reflectindo a realidade estilhaçada.

Olhos perdidos no infinito
à deriva por entre os destroços,
casas ermas de tijolo e solidão,
mesquitas de almas retalhadas
e o dolente ranger da gravilha.
Nada que valha a pena salvar.

Incapazes de romper o cerco
e assumir o controlo de nossas vidas,
cedemos ao poder da mentira
e a estranhas manobras de diversão;
anéis de fumo denso
consumindo uma réstia de luz.

No sangue quente das paredes
gorgulham os sonhos mutilados,
mãos cheias de dedos decapitados
apontando a penúria do vazio,
decadentes danças
celebrando a agonia dos anjos caídos.

Fecharam-se os portões do céu
e ficámos, de asas estranguladas,
deste lado da cerca.



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