
Sob epígrafe de Carlos Poças Falcão
Data 05/05/2010 07:46:48 | Tópico: Poemas
| Em qualquer ponto existe uma cabeça repuxada para um antro de sinais
Carlos Poças Falcão
1.
na morte do que o gera o gesto nasce
2.
a poesia é a última ciência porque desveladora do universo
através do rigor da matemática e do fluir da música aproxima-se das sombras dos reflexos dos refluxos cumprindo o seu destino de cabeça repuxada para um antro de sinais
3.
assume-se o poeta como o que recolhe da matéria vestígios do início do mundo promovendo a reorganização do caos para o erguer de um corpo novo pelo método de uma metamorfose do sensível e do que é intuível em palavras
4.
o poema é o búzio da tribo
5.
e no entanto o poeta deverá somente sugerir
nenhuma lei ou princípio deve revelar
porque todo o poema é rastilho não explosão
6.
e a cabeça mergulha num relâmpago de sombras projécteis palavras meras palavras nascidas para a ideia do mundo desvelar
7.
para que se decifre a linguagem eco e máscara das coisas urge o acordar de alfaias artefactos antiquíssimos para a trepanação de cada sílaba
8.
o poema é o pêndulo da tribo
9.
não há poema sem canto sem anúncio de primavera
10.
em cada safra por uma sílaba deve um cometa anunciar o seu eclodir
como um olhar que acorda molduras sobre a cómoda da morte
11.
há uma ecografia da árvore do seu canto de seiva saliva que a usura dos tempos perpetuou sobre as pedras
uma ecografia que recupere acordes entre poentes enunciados
12.
o poema é a bússola da tribo
13.
se me confesso não sou poeta antes aprendiz que no cadinho desperdiça o que entre mãos ciosamente guarda
14.
o náufrago sorri por entre o caos devora sôfrego os sinais como frutos cujo hálito fosse barco remo e via
15.
a cabeça pousada reverbera criança maravilhada com a surpresa de uma palavra
16.
o poema é o pássaro da tribo
17.
como espelho a cabeça capta a imagem aprisiona-a com os grilhões forjados por palavras
18.
enquanto a morte mata o signo outra morte se eleva e acorda o signo que retrato algum pode cativar
19.
das mãos vazias presas à colheita do nada restará a luminosa aproximação às coisas que o poema só o poema torna possíveis
20.
o poema é o cântico da tribo
Xavier Zarco
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