
Cleópatra Dançarina
Data 03/05/2010 16:40:22 | Tópico: Poemas
| Só, vejo-me ante a página branca: A mão engelhada, inerte e exangue Da tinta vermelha e do negro sangue Que o noctívago solilóquio estanca. As luzes das estrelas são sudários Encobrindo-me as palavras – crisálidas Manifestações lívidas e pálidas De débeis e abortados poemários. Mas ei-la: aparição na brancura, P’la noite adentro e p’la noite afora, Almiscarando a alvorada madura... Descubro-a na veste alva que a esconde (Trémula doce arauta da aurora), Amante milenar de um país onde
Das lúbricas areias se erigia A dissoluta Rainha Cleópatra Que bebeu o sangue dos faraós, Dos deuses favorita fantasia... Tresloucada, viajava pelo Nilo, Como fosse montada num trenó Feito de luzes e raios de sol, Buscando marcoantoniano asilo. Mas em vão: os musculados e fortes Braços do romano gladiador Estavam agrilhoados pela Morte... Nunca mais veria o seu amor, O Destino levara-lhe o consorte... Só restava-lhe um deserto de dor...
Foi assim que a Bela Egípcia virou As costas ao mundo e à própria vida E que, numa velha língua esquecida, Aos deuses e aos homens renunciou, Pondo-se a caminho do sol poente. Nos meus versos, as mal acentuadas Sílabas tónicas são as pegadas Que os seus pés deixaram na areia quente. Se eu fechar as pálpebras, ouço e espreito O sussurrar das folhas no desértico Coração do poema cujo peito Atravesso para me alimentar Do leite de Cleópatra, profético Vislumbre do seu berço tumular.
E quando ela alcança o topo dos céus, Vira-se para baixo, de olhar líquido, Serpenteante foz do fluir nílico, Deusa que reúne crentes e incréus; Todo o Cosmos ao Egipto se junta Como para ver um prodígio bíblico Que obedece a regras do tempo cíclico Materializado na bela defunta. E quem não lhe percorre as esguias Pernas (que parecem auto-estradas Onde caravanas de emoções, dias Após dias, seriam transportadas) Ainda que, de mortas, sejam frias? E as unhas quando na carne cravadas
Sabem ao toque dos escorpiões... Os seus cabelos, longos e escorridos, São negro chocolate derretido Por lume sustentado por paixões... Com o corpo projectado nas dunas, Onde o vento quente os seios lhe beija, Perfila-se quem o mundo deseja, Tatuada de hieróglifos e runas: A inventora de todos os sentidos, Sob a pele cor de aroma de café, Acena-me de dedos estendidos Do alto da Grande Pirâmide de Gizé, Masturbando-me em lentos passos de ballet...
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