
SONETOS VÁRIOS
Data 20/04/2010 11:55:22 | Tópico: Sonetos
| Meu verso quantas vezes procurara Palavra que pudesse traduzir Momento mais tranqüilo no porvir Diante de uma vida dura e amara, Fugindo das amarras esperara Um gozo mais audaz e ao impedir A fúria que freqüento a se bramir Enquanto a nova vida se prepara, Sentir esta emoção domando a fúria E nela sem tormenta e sem lamúria Beber a tempestade corriqueira, Assim ao se fazer mais libertário Eternidade doma o calendário Quando o sonhar se torna uma bandeira.
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Demônios que carrego há tantos anos E deles não consigo mais calar A voz ao impedir a luz solar Compraz-se com temores, desenganos. A vida se fazendo em novos planos Os erros que cometo são humanos, E nada impediria de lutar Sabendo como é duro navegar Enfrentando borrascas, velhos danos E neste mar imenso, ondas tantas E quando vendo as fúrias tu te espantas A ventania intensa se desanda E assim ao trazer tanta tormenta Apenas o carinho te apascenta E a lua polvilhando esta varanda...
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Imagem refletida espelhos d’alma Eu pude discernir entre as vontades Apenas sombreados, claridades, O quanto se mostrara não acalma E tendo a cada passo novo trauma Portanto insuportáveis velhas grades, Ainda que tentasse novidades, Conhecido minha vida, palma a palma. Saveiros de um passado mais atroz Discernem portos onde possam ter Ancoradouro mesmo em desprazer, E a incúria vez em quanto toma a voz, Do quanto ser feliz já não me afasto, Um mote dito amor surrado e gasto...
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Ao se rir a ironia aflora e dita A vida de quem tanto quis um dia Aonde a nova história se faria, E sei quanto verdade se é maldita, Ao tanto se perder noite infinita Não vendo qualquer luz que poderia Luzir em lua cheia, e a poesia A cada amanhecer tomando grita, Não posso caminhar por sobre os astros Tampouco reconheço passos, rastros, Adentro esta emoção que tu geraste, Amar e ser feliz a cada instante Um sonho tantas vezes delirante, Na lua com o sol belo contraste...
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Pois tu virás comigo embora eu veja A tempestade ao fim de cada dia, Jornadas onde a deusa poesia Tomando cada cena mais viceja E tudo o que se quer, uma alma almeja É ser feliz e nesta fantasia Marcada pela sorte se irradia E torna esta seara mais sobeja, Vestindo uma ilusão quem tanto busca A vida sem terror, não sendo brusca Permite ao navegante sem procelas Viagem pela vida mais tranqüila E quando a noite estrelas já desfila Traduz a claridade que revelas...
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Constelação de luzes mais diversas Mosaico colorido em noite imensa, Do quanto ser feliz quem me convença Ditando toda a sorte aonde versas Falando destas sendas que dispersas Uniste como rara recompensa, Ao quanto poderia em sorte tensa E tanto com prazer tu desconversas, Vencido pela doce sensação Dos dias mais suaves que virão Traçando no horizonte claridade, E tendo com ternura cada passo, O amor ocupa enfim um vasto espaço E dita com candura a liberdade...
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Na chaga que eu herdara a cicatriz Tomando cada espaço não permite Que ainda a dor passada volva e grite, O mundo quando em luzes já não diz Do quanto se mostrara este infeliz Vivendo muito aquém do que acredite, A vida discernindo o seu limite, Ensina ao coração tolo aprendiz, Vencendo estas venais vicissitudes E a cada novo dia que tu mudes Verás com mais ternura o amanhecer, Assim sabendo a sorte caprichosa, Herdando este canteiro, em toda rosa A primavera enfim vai renascer...
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Os erros que cometo dia a dia, Enganos de quem tenta ser feliz, Assim ao se mostrar um aprendiz A sorte desejada já se adia, E nada do que tanto em paz queria Contrariamente a vida por um triz Errando bar em bar, este infeliz, Já não conhece mais a luz do dia, Sarjetas, botequins... o meu passado E ao ver novo caminho em paz traçado Resisto aos meus demônios e prossigo, Agora na certeza de outra luz, O passo que deveras me conduz Traçando sem temor um bom abrigo.
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Fantasmas que enfrentei por toda a vida Demônios entre fúrias e terrores, E quando procurara pelas flores A sorte se prepara em despedida, Não pude acreditar, e sei perdida A fonte destes versos sonhadores Morrendo entre mortalhas, dissabores, Enquanto a realidade sempre agrida, Vestindo a mesma roupa em rotas cenas, As noites que buscara mais serenas Apenas tempestades, temporais. O amor quando se fez incandescente No fundo não sabia quanto a gente Precisa vez em quando de algum cais...
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A cada gargalhar da vida insana Esboço reações, mas nada faço A dor tomando espaço após espaço Aos poucos novamente tanto engana, O corte mais profundo, a voz profana Amor que reconheço, cada traço, E quando se pensasse noutro laço A morte com temor já desengana, Festejos do passado e no presente Silêncio em bares, luas e cometas, Enquanto nada trazes ou prometas, Uma alma solitária, esta demente Adentra tão somente nas tabernas E assim entre vazios tu me internas...
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Sem ter caramanchões nem alamedas As ruas que polvilho com saudade Falando das entranhas da cidade Aonde com ternura me concedas Momentos mais felizes, tardes ledas E delas cada sombra que me invade Mostrando cada fria realidade E quando mal percebo; tu te enredas Tomando de partida este cenário Sabendo ser amor bem necessário E tanto se traduz em riso e pranto, Mas quanto mais audaz a minha voz, Eu sinto bem mais forte o duro algoz, E mesmo assim, dorido ainda canto.
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Sem ter sequer jardim aonde eu possa Colher nem mesmo as flores que cevara No velho coração, torpe seara, Aonde a dor adorna e já se apossa, Sem ter a poesia que remoça Sem ter a noite em paz que se declara Em lua maviosa bela e rara, Sabendo que a ternura não é nossa, Errático procuro em paz um canto Aonde mergulhando sem quebranto Quimeras que vislumbro me assombrando Sem ter qualquer alento, sigo assim, Um simples espantalho sem jardim, A própria natureza se negando...
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Rastejo imerso em sóis e tento ver A claridade imensa que não via E dela se fiasse a fantasia Traçando ao me negrume o amanhecer, Em tantas turbulências pude crer Apenas no que a sorte ainda guia, E morto em vida bebo esta agonia Gerada pelo anseio em desprazer. Arguto? Muitas vezes ou sutil, Nefasto, enamorado ou tolo engodo Um pouco deste quase ou mesmo todo E quando a realidade se sentiu, Poeta abrindo as asas no horizonte Aonde o que imagina reina e aponte...
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Fugaz e numa ausência mais cruel Terrivelmente imerso no meu ser, Alvissareiro canto eu passo a ter E dele se adivinha qualquer céu, Aonde este cometa em carrossel Vagando em noite imensa posso ver E quando se dourando amanhecer, Azulejado enfim, suave véu. Mas nada do que tanto desejara Amor ou mesmo um braço mais amigo, E quando solitário e em vão prossigo, Silente em vida fria, tola e amara, Voltando do escritório, fim de tarde, Que o dia novamente não retarde...
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Por já não ser quem fora no passado Os dias renascendo em cores várias Essencialmente sei tão necessárias Palavras que me tragam o recado Do quanto poderia e sem enfado Depois das noites frias, tolas, párias As sendas mais sublimes, luminárias. E tudo se transforma noutro prado Aonde vicejasse esta esperança. E quando a realidade agora alcança Poeta sonhador se vê desnudo, E tanto poderia, mais não tive, Revejo cada cena e nunca estive Um mundo tão gigante, mas miúdo...
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Do pouco que inda resta tento ver Momento aonde o dia renascesse E tendo esta certeza, nego a prece E sinto o meu passado revolver, Residualmente encontro o desprazer E nele cada corte me obedece A vida noutra vida não se esquece E busca o que pensara já perder. Restando ao coração luta sombria E desta realidade não fugia Quem sabe e reconhece algum tropeço, Vestindo a fantasia de bufão Poeta sem caminho ou direção Recolho cada engodo que eu mereço.
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Morrendo sem qualquer chance de luta Eu vejo o meu retrato a cada esquina, A sorte que deveras me fascina Porquanto entregue à força imensa e bruta O quanto poderia ser astuta Não tendo nova luz, enfrenta a sina E tanto quanto pode se ilumina Usando da palavra, não reluta. E tenta disfarçar em versos frágeis Ao dias que pensara serem ágeis Em ágios tão diversos já cobrados. Os ritos costumeiros não mais trago, E tento desairoso algum afago Aonde os dias foram desolados...
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Se a despedida nega qualquer brilho Encontro não refaz o que perdemos, E quando se procuram pelos remos O barco naufragando em falso trilho, E quando novo rumo ora palmilho Diverso do que tanto merecemos, Não pude desvendar o que perdemos Nem mesmo o coração tolo andarilho. Resisto aos mais complexos dissabores, Esgoto a minha força nesta luta, E tanto se pudesse quem me escuta Ainda revolver jardins e flores, Marcando a ferro e fogo cada verso, Vazio após o nada este universo.
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O corte do arvoredo nesta rua Aonde nós sonhamos quando infantes Os dias que se foram, deslumbrantes Imagem se mostrando amarga e nua. E quando a mesma história continua Deixando para trás dias brilhantes, O quanto poderia por instantes E apenas solidão, domando, atua. No gole de cerveja, bares, festa, Sabendo desde nada que ora resta Resíduos de um momento mais feliz. Ao se ver arvoredo destruído É como se podasse e sem olvido Futuro desde agora se desdiz...
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Daquele temporal comum há tanto Não resta sequer brisa, a vida passa, E tudo tensionando, esta fumaça Demonstra o que cevei em desencanto. O parto sonegado, a morte, o pranto, Arbusto da esperança nesta praça E o gole mais amargo da cachaça, No fundo ao me rever, calado, espanto. Um dia imaginara ter nas mãos Além deste futuro em belos grãos A força incomparável. Juventude. Mas nada do que fora se persiste, Retrato que vislumbro amargo e triste, Porém no coração. Mesma atitude...
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Granizos e nevascas, duro inverno O tempo preconiza o meu final, E quando poderia triunfal, Nos ermos do não ser assim me interno Tentando algum momento bem mais terno E nele ter um rito magistral, Aonde se perdera sempre igual Momento doloroso, torpe inferno, Assisto à derrocada deste sonho E quando um novo dia em vão proponho Resiste-se ao meu canto a realidade, E tendo como fonte de ilusão Apenas este amor a ingratidão Herdeira do não ser tomando, invade.
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Nada mais poderia contra quem Por vezes espalhara em voz sombria Realidade tola em que se via O mundo que vazio não contém Sequer a menor sombra deste alguém Que há tanto sem perguntas já partia Tornando bem atroz a noite e o dia, Medonha fantasia, sonho aquém. Resisto quando tento desvendar As causas desta insana despedida, Porém ao caminheiro sem saída No imenso labirinto já sem voz, A morte se tornando um quase alento Se a cada novo engodo me atormento, O mundo que me sobra, o mais feroz...
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O rosto quase estúpido daquela Que tanto se fez minha e não queria A sorte renovada dia a dia E apenas falsidade me revela, O quanto do passado a vida sela E traz em novo tom esta heresia Mortalha que ilusão tosca tecia Prepara tão somente agora a cela, E vejo sem futuro a caminhada, Audácia não permite qualquer luz, E tanto quanto ao nada me conduz, Gerando turbulência em madrugada. Risonho passageiro do passado, Agora em tempo sórdido e nublado...
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Uma amizade opaca e sem ventura A fonte da ternura se desfez E quando se mostrara insensatez Diversa do que tanto se procura, A vida novamente me amargura Ainda que deveras já não vês O peso desta espúria gelidez Inverna o que pensara em noite pura. Agora carregando simplesmente Mortalha do que fomos só prevejo O fim do belo sonho aonde um dia A sorte noutra luz se mostraria, Porém da imensidade, só lampejo.
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Nesta luta incessante pela vida Vencido e vencedor unidos vamos E quando se percebem outros ramos A sorte demonstrada mais unida Permite que se veja uma saída E nela quando em gozo desvendamos Caminhos pelos quais nós entranhamos A sorte não trará mais despedida, Assim se concebendo da união Insofismável força se acredita Na senda mais audaz, pois infinita Traçando novos tempos que verão Um bem comum, embora esta utopia Expresse tão somente a fantasia.
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Canalhas são algozes do futuro Reféns de uma horda pútrida e voraz O quanto se demonstra mais capaz Gerando a cada dia imenso muro, Se quando inutilmente inda procuro Qualquer caminho e nada satisfaz Quem tem no seu olhar força tenaz, Enfrenta qualquer tempo, mesmo escuro. Brumosa realidade em tez sombria, Num turbilhão imenso vida e corte, Quem sabe se propondo novo norte A vida não refaz a alegoria Aonde ser feliz é mais plausível E não somente assim, quase impossível.
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A sorte em despedida nega o fato Aonde um brilho tome este cenário, No canto mais suave de um canário Por vezes ilusão inda retrato, O amor que tanto quis por ser ingrato Mudando em solidão o itinerário Traduz este senão desnecessário Rasgando da esperança algum contrato, Resisto muitas vezes ao que penso Ser quase mais um tempo a devorar As ânsias de quem tanto quis amar, E quando noutro encanto me compenso Expresso a negação feita em terror, Matando pouco a pouco algum amor...
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Ausência do que fosse uma amizade Ternura mais alheia a quem se deu O tanto que pensara ser só meu E o dia a dia amargo já degrade, Porquanto uma ilusão me desagrade Espalha com terror realidade, E o peso do viver sempre pendeu Enquanto a sorte alheia se escondeu, Jogada nalgum canto, atrás da grade. Agraciado às vezes pela sorte, Não posso ter somente o sofrimento E quando noutros braços me apascento, Encontro com ternura um manso norte E assim sem ter sequer medo eu prossigo, Fazendo de mim mesmo um grande amigo.
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Tropical coração procura a paz Embora tempestades sejam tantas E nelas quantas vezes tu quebrantas Porquanto o passo seja mais audaz, E quando não pudesse em contumaz Caminho entre quimeras; agigantas Deixando para trás e quanto cantas A tua voz aplaca a dor mordaz. Anseio por momentos onde eu possa Viver a fantasia tua e nossa Sabendo ser feliz, ao menos isso, Arcando com os dias mais doridos, As sortes entre sonhos esquecidos, Singrando novos prados, eu me viço.
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A lâmina fatal, o corte fundo, O risco de viver não me abandona E quando a realidade vem à tona O quanto de prazer ainda inundo, Sabendo o coração mais vagabundo Do nada ou mesmo pouco se inda adona Esquece a fantasia e já ressona Vivendo o paraíso mais fecundo. Residualmente trago dentro em mim As dores e os tormentos costumeiros, Mas quando se percebem os canteiros E neles perfumoso e bom jasmim Eu creio ser possível nova senda, Aonde uma alegria já se atenda.
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A luta já vencida contra o medo Permite que se creia na manhã Aonde não se vendo em luz tão vã O sol que enamorado eu te concedo, A coerência dita este segredo E nele confirmando o meu afã Sabendo que terei novo amanhã Refaço a cada passo o mesmo enredo Incontrolável canto aonde eu tento Tomando com ternura o pensamento Vencer os dissabores dia a dia, E tanto se fez meu o que eu buscava Esta alma que jamais se fez escrava Conhece deste sempre uma alforria.
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Meu canto se tornara mais feliz No pouco que talvez ainda diga Do quanto a sorte em paz se faz amiga E toda esta tristeza já desdiz. Resisto aos meus momentos, pois feliz E nada do que tanto desabriga Enquanto a própria luz promove a liga Unindo o que deveras bem mais quis. Alhures vejo a sombra do que fomos, E tudo se desfaz em toscos gomos, Realidade mata a fantasia, E não podendo ter esta colheita, Apenas no vazio se deleita Quem tanto procurou e não sabia... MARCOS LOURES
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